"A aliança com o PMDB é fundamental para o país. Não me peçam um ato oportunista de acabar com a governabilidade."
Aloizio Mercadante, líder do PT no Senado.
José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, codinome Sarney, é tudo de ruim que o diabo pôs na Terra para provar que Deus não criou o homem à sua imagem e semelhança, como proclamam em loas antigas canções litúrgicas.
Não é o único senador da pá virada, antes, pelo contrário. Entre eleitos e suplentes biônicos, cabeludos, bigodudos, carecas e gorduchos, poucos podem atirar a última pedra. Mas o “tzar do Maranhão” que fraudou seu domicílio eleitoral para ganhar mandato pelo Amapá indefeso é o capo. Sem tirar nem pôr, é o poderoso chefão, tendo o alagoano José Renan Vasconcelos Calheiros como seu pustulento principal escudeiro.
Por ser o que é, Lula e seus miquinhos amestrados o consideram o fiador da GOVERNABILIDADE.
Se ele rodar, o governo vai junto, pensa o presidente. Essa é a razão do humilhante enquadramento imposto aos senadores petistas que, paradoxalmente, bateram chapa com Sarney na eleição para a presidência do Senado. E agora se agacham, pusilânimes, à ordem do chefe Luiz Inácio.
Mas também, por ser o que é, José Ribamar será o coveiro do príncipe operário, que já o chamou de LADRÃO quando ele presidia a República, cargo a que chegou às custas do cadáver de Tancredo Neves, de quem se fez vice ao trair vinte anos de participação na ditadura, boa parte como presidente do partido oficial.
Coveiro, sim, como foi do regime militar, a quem serviu de olhos fechados, e de quem se serviu sem cerimônias ou constrangimento, quando os poderosos generais usavam antolhos programados para só enxergarem “a ameaça comunista”.
José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, codinome Sarney, ganhou uma bóia palaciana com a estrela vermelha. Pior. Quando afundar na lama do Planalto terá ilustres companhias, raposas e canastrões, metidos a besta e impostores ideológicos, porque pelo andar da carruagem os podres poderes estão em adiantado estado de decomposição.
Ou você acha que se sustenta por muito tempo um governante que precisa de um notório corrupoto para garantir sua governabilidade?
É meio brabo, mas o todo poderoso campeão de audiência abriu seu coração e mostrou as entranhas. Tem medo de perder maioria parlamentar se não arranjar uma muleta de titânio para o velhaco que mescla a alma de rato com o cérebro de camaleão.
Se não é por medo é pior. Desde que atravessou a soleira do palácio, para o orgasmo múltiplo da dama deslumbrada que é a patética personificação da mulher que não trabalha, mas deita e rola, Luiz Inácio sucumbiu às tentações do demônio e deixou correr solto.
Filhos, irmãos e apaniguados meteram a mão na carne seca e mandaram ver. Rapidinho, estavam todos mamando nas tetas da nação, seja pelas prebendas afrodisíacas, pelos peitos fartos das estatais, pela orgia das ONGs ou pela libidinosa distribuição de favores e facilidades a banqueiros e fazendeiros, junto com os níqueis para a massa famélica, seduzida no bordel da migalha do menor esforço, pelo exercício prostituto do “dá um pão, toma retribuição”.
O PT, quem diria, aquele mesmo que não poupou nem Brizola (valendo-se da frase infeliz de apoio a Collor) no ofício de desacreditar (e desmoralizar) adversários, na produção de piches contra quem lhe interpusesse o campinho, converteu-se de repente no mais insaciável chupa-cabra.
Pelo verbo dos vigários que lhes serviram água benta, as outrora vestais despiram-se do manto púrpuro e caíram na gandaia na busca do melhor da vinha, em cânticos lascivos do “faça o que eu digo e não o que eu faço” ou da gula do “farinha muita, meu pirão primeiro”.
Nada seria mais inevitável do que essa safra de políticos transgênicos, saídos da alquimia entre os híbridos representantes do semifeudalismo recalcitrante (como o The Economist de Londres definiu Sarney) e os caras de pau do “novo sindicalismo”, da “nova esquerda” e da “nova sacristia”.
É de se concluir que nessa trama, cujo ápice é a salvação de Sarney, incólume hoje, como incólume ontem foi Renan Calheiros, resulta da fome com a vontade de comer.
A turma que depende dos ingredientes dos podres poderes para continuar com a mão na massa já recebeu o mote: salvar o pai (e avô) generoso é garantir a governabilidade.
Daí juntarem-se as peças da trama que culminou com a cassação do governador Jackson Lago, brizolista histórico, para reentronizar a filha de Sarney no governo do Maranhão, Estado que virou seu feudo desde 1965. Nessa articulação, em que a verdade jurídica foi para a lixeira, deve ter sido em nome da governabilidade que o presidente da República e seus miquinhos amestrados mexeram seus pauzinhos e lograram por via judicial o restabelecimento da capitania hereditária, fórmula, aliás, que deve ter inspirado os golpistas de Honduras.
As vozes do petismo lambuzado não falam do “socialismo do Século XXI”, como Hugo Chávez. Antes, optaram pelo “patrimonialismo do Século XXI”, com a harmônica apropriação do público pelo privado ao som do Bolero de Ravel. (Lembra daquele povo de branco reunido por Duda Mendonça na campanha de 2002?).
A partir de agora, José Ribamar, que recentes revelações fizeram-no um homem morto, está ressuscitando pelas mãos milagrosas do sapo barbudo e dos seus prendados miquinhos amestrados.
A menos que descubram outros furos, dos muitos que ainda permanecem ocultos, o questionamento de Sarney vai desaparecer da mídia, pouco a pouco, para não pegar mal. É o que determina o homem mais popular do Brasil. E como disse um dia Carlos Lupi, o ministro do PDT, “o presidente fala, a gente obedece”.
Estamos entrando no recesso parlamentar – as generosas férias do meio do ano pagas pelo omisso cidadão-contribuinte-eleitor – e as festas juninas, que são mais animadas em julho, consagrarão outras quadrilhas, essas apenas ingênuas encenações na dança inocente de inspiração caipira, dando motivação para uma pausa que refresca na praça de guerra da política.
Mas a metrópole satânica do Planalto não bobeará, para não dançar. Por todos os dias e por todas as noites, continuará produzindo suas vacinas contra o pensamento crítico e espargindo o veneno necessário à perpetuação desse estelionato histórico sem se dar conta de que está brincando com fogo: quem tem um sagrado aliado como José Ribamar não precisa ter inimigo.
De onde a fatalidade do destino: quando menos a corte esperar, a casa vai cair como um castelo de cartas. E aí serão como em todas as débâcles: cada um que trate de safar-se da ira dos enganados.
coluna@pedroporfirio.com
Sarney e Lula: eles se merecem
O que é um antro de escroques em comparação com o Senado desta pútrida República dominada por gigolôs das massas despolitizadas e sacripantas arrivistas? Disse José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, codinome Sarney, que a exposição das vísceras desse valhacouto que custa ao contribuinte os olhos da cara não o atinge unicamente, mas à toda súcia do tapete azul. “A crise do Senado não é minha, a crise é do Senado”. – disse e repetiu outras vezes como um bordão de uma mal encenada tragicomédia. E disse mais, na maior cara de pau, no seu patético pronunciamento de 16 de junho: “Eu só conheço um ato secreto, durante o tempo do Presidente Médici, em que ele declarou que iria haver decretos secretos. Eu não sei o que é ato secreto. Aqui, ninguém sabe o que é ato secreto”.... Lula, amigo de fé, camarada Solícito, cúmplice e solidário, como se igualmente alvejado, perfilou-se ao seu lado Luiz Inácio da Silva, codinome Lula, essa figura deletéria que o castigo de Deus transformou no político mais popular do Brasil: "O senador tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum”.
E continuou: "Não sei a quem interessa enfraquecer o Poder Legislativo no Brasil. Quando o Congresso foi desmoralizado e fechado, foi muito pior para a democracia". Não satisfeito, acrescentou: "Eu sempre fico preocupado quando começa no Brasil esse processo de denúncias, porque ele não tem fim e depois não acontece nada". “Congresso desmoralizado e fechado”, quando cara pálida? Comparar aqueles dias do Congresso como adorno aos de hoje é superar-se no cinismo ou na ignorância. Ora, Lula pega pesado na defesa do parceirão porque conta com a nossa “interpretação dialética”, inspirada nos ensinamentos de Maquiavel, o mestre de todos os mestres, segundo os quais os fins justificam os meios. As armas da invencibilidade E joga com os mecanismos da invencibilidade, que falam mais alto do que as três armas temidas, outrora: 350 mil ONGs (contra 25 mil quando assumiu) de olho nas verbas distribuídas por uma penca de ministérios, dirigentes de 16 mil sindicatos na fila do bem bom, centenas de líderes estudantis de cara lavada e olhares concentrados na emissão de rendosas carteirinhas, 40 milhões de famélicos viciados pela esmola do bolsa-família e 22 mil cargos de chefia só na máquina federal, todos devidamente mapeados em 2007 pelo ministro Tarso Genro. Com tais fortificações e algumas encenações de fazer inveja ao nosso teatro ele vai tirar Sarney da enrascada, como tirou Renan, ganhando, como contrapartida, o sepultamento da CPI da Petrobras, tida pelos ingênuos como meramente privatizante, como se FHC e ele já não tivessem rasgado o monopólio estatal do petróleo com a entrega da exploração de nossas jazidas aos trustes, mediante a remuneração de 27% do produzido, a mais baixa do mundo. Aliás, não precisava desse conchavo: esse Senado aí já se descredenciou para investigar até o caça-níquel da esquina, muito menos uma estatal cujo orçamento de R$ 290 bilhões é o dobro do Estado de São Paulo, o mais rico do país. A natureza atávica da Casa Com chancela tão rochosa, o ancião José Ribamar, que dá as cartas no Brasil por décadas a fio, deixou dito que tudo que fez ou apadrinhou é da natureza dessa “câmara alta”, contra-peso desnecessário, criado na primeira Constituição de 1824 para ser a nossa “Câmara dos Lordes”, com acesso restrito a maiores de 40 anos e rendimento anual mínimo de 800 mil réis. Ao longo desses 185 anos, essa casa, hoje despida dos pés à cabeça, sempre foi o paraíso magistralmente definido por Darcy Ribeiro, especializando-se, na República, em ser um prêmio para ex-governadores e caudilhos influentes sem vocação para o Executivo. Ao Senado, nada se deve. Quem olhar sua trajetória vai achá-lo no ofício viciado de sacramentar as vontades dos donos do poder, como aconteceu em 1964, quando o pecuarista paulista Auro Moura Andrade, na sua presidência, apressou-se em declarar vago o cargo de Presidente da República quando João Goulart ainda se encontrava em território brasileiro. E como ocorreu depois da derrota da ditadura, nas eleições de senadores, 1974, quando, só para garantir total obediência aos governos dos generais, acolheu calado o balaio de colegas biônicos, para lá conduzidos sem votos, à semelhança do que acontece hoje, mas sem sofismas, com esses “suplentes secretos” que cantam de galo como se legítimos representantes fossem. Sarney não exagerou na dose. Buscou dividir os dolos expostos com a corporação de rabo preso, tendo a seu favor, como trunfo irresistível, a mais ampla e irrestrita conivência daquele que, num passado não muito remoto, o chamou de ladrão e de grileiro.
Um antro de saliências que você consente O Senado da República, uma redundância legislativa que sobrevive hoje no fausto dos podres poderes, como casa de saliências regiamente remuneradas dos velhos políticos, operou a dialética do apodrecimento (Leia "a farra é deles" radiografia feita pelos repórteres Otávio Cabral e Alexandre Oltramari) em meio ao consentimento geral, isto é, ao seu consentimento, caro leitor. Ou você já questionou por que um senador tem mandato de oito anos, quando todos os demais ganham quatro? Quando você se insurgiu diante da peculiaridade de poder votar ao mesmo tempo em dois candidatos ao Senado, o que não acontece em nenhum outro cargo parlamentar? Quando você levantou sua voz contra os suplentes biônicos, que podem ganhar mandatos inteiros, como o suplente do ex-governador Roriz, sem sequer ter seu nome levado ao conhecimento dos eleitores? E os suplentes hereditários, como os filhos de Antônio Carlos Magalhães, do ministro Lobão e outros que permanecem na moita? Você chiou, pelo menos? Quando você peitou essa fraude do domicílio eleitoral que, por deboche, fez do cacique do Maranhão senador pelo Amapá? Quando você pediu um balanço legislativo das duas casas do Congresso? Calculam o custo delas dividindo o orçamento pelo número de parlamentares. Mas nunca pararam para calcular esses valores pela produção legislativa, que é pífia e tão lenta como os 70 milhões de processos que se arrastam no Poder Judiciário. Uma duplicidade anacrônica Para que serve afinal essa casa que se lastra na anacrônica “representação dos Estados”, um estratagema velhaco que foi buscar razão de ser nas priscas eras, como se o Brasil não fosse de fato um regime unitário, com a União arrecadando e repassando a parte gorda dos tributos? Dispensam esse pleonasmo países como Portugal, Grécia, Suécia, Dinamarca, Islândia, Venezuela, Finlândia, Turquia, Israel, Síria e Noruega, de um total de 112 que têm parlamentos unicamerais, contra 75 que ainda conservam a duplicidade, alguns destes com poderes restritos, como na Inglaterra, França, Alemanha, Áustria, Bélgica, e Índia. Para você, que não é obrigado a manjar de todos os sofismas políticos, parece que a existência de duas casas do Legislativo – que, ao contrário dos Estados Unidos, só ocorre no plano federal – é condição pétrea do sistema democrático representativo. Nos Estados Unidos, ressalve-se, o Senado veio primeiro, após a guerra da independência, por iniciativa dos líderes das 13 ex-colônias, que mantinham (e mantêm) autonomias reais, configurando uma federação de fato e de direito. Estudos da própria (e competente) Consultoria Legislativa do Senado apontam: na Europa, berço da civilização democrática, há 30 países unicamerais para 17 bicamerais; na Ásia milenar, 23 unicamerais para 16 bicamerais; na África, 33 unicamerais para 19 bicamerais; na Oceania, 11 unicamerais para 3 bicamerais. Só nas Américas, ainda pela influência norte-americana, o número de bicamerais é maior: 20 contra 15 unicamerais. Perdendo a fé na democracia Esse mesmo meticuloso levantamento, realizado por Elton E. Poveiro Junior, exibe a transcrição de uma pesquisa do jornal The Ecnomist, de Londres, na qual já em 2001, antes mesmo das super-safras de escândalos, apenas 30% dos brasileiros consideravam que a democracia é preferível do que qualquer outra forma de governo. Em 1996, antes do governo FHC sair do armário para patrocinar a privataria, esse percentual chegou a 50%. Para melhor entendimento, em 2001, apostavam na democracia 79% dos uruguaios, 71% dos costarriquenhos, 62% dos peruanos; 58% dos argentinos, 57% dos venezuelanos, 57% dos hondurenhos e 54% dos bolivianos. Esses escândalos recentes não são os primeiros e nem serão os últimos. O que você espera de uma turma que livrou a cara de Renan Calheiros, pilhado numa fieira de maracutaias, e que, num piscar d’olhos, voltou a ser o seu capo, mercê sabe Deus de quantos ameaçadores segredos coleciona sobre seus pares? O Senado não é a única casa onde os delinqüentes deitam e rolam. A Câmara já nos brindou, entre outros, com o sórdido espetáculo do “mensalão”, obra da santa arquitetura petista, e a farra da generosa distribuição de passagens aéreas para este mundo afora. Por todo o Brasil, assembléias legislativas e câmaras municipais não são diferentes e se aproveitam da penumbra em que vivem. Chantagem que garante a impunidade Como não é diferente a prática indecente nos demais poderes, emblematicamente encabeçados por Gilmar Mendes e Luiz Inácio. Tudo sob a chantagem de que tais instituições são as colunas da democracia, e esta pode ser a pior forma de governo, excetuando todas as outras que foram tentadas ao longo dos tempos, como definiu Winston Churchill, com a posterior chancela de Ulisses Guimarães. Mas as revelações dos delitos que, como disse, custam quase R$ 3 bilhões por ano ao contribuinte (dinheiro que não acaba mais) fatalmente submergirão no mar de lama que já extravasou ao som da aquarela do Brasil e nada acontecerá aos delinqüentes blindados pela panacéia da impunidade, composta de ignorância, alienação, conformismo, manipulação, vira-casacas e adesismos tresloucados. Ficar apenas na crítica do último escândalo equivale a querer enxugar gelo. Isso que o acaso está levando à tona é jornal de ontem e, com certeza, frequentará as manchetes dos jornais de amanhã. coluna@pedroporfirio.com Sobre a natureza dos legislativos vale uma leitura do trabalho de Elton E. Poveiro Junior, publicado pela Coordenação de Estudos da Consultoria Legislativa do Senado Federal, onde, ressalve-se, existem profissionais altamente qualificados e dedicados, que não têm nada a ver com a ratatuia de fantasmas e apaniguados enxertados elos barões da casa. Recomendo também o estudo de Peterson de Paula Pereira, procurador da República no Amazonas, sobre o processo legislativo.