sexta-feira, 6 de março de 2009

O assassinato de Jango e a conspiração impune

Jango e Brizola, no tempo dos homens fiéis ao povo
Esta semana, o nome de João Goulart ocupou a mídia por duas notícias: o transcurso da data do seu nascimento, em 1 de março, há 90 anos, e a notícia da publicação de sua anistia. Hoje, estarei em Brasília e espero me encontrar com o seu filho, João Vicente Goulart, guardião aguerrido de sua memória. Mas considero oportuna a transcrição da coluna que publiquei aqui na TRIBUNA, em 14 de janeiro de 2008, a propósito de sua morte, um assassinato que até hoje vem sendo escamoteado, apesar das evidências levantadas pelo Instituto João Goulart.
"Não me lembro se colocamos no Isordil, no Adelpan ou no Nifodin. Conseguimos colocar um comprimido nos remédios importados da França. Ele não poderia ser examinado por 48 horas, senão aquela substância poderia ser detectada." Mário Neira Barreiro, um dos assassinos confessos de Jango, em entrevista gravada por João Vicente Goulart. Ainda que tardia, a verdade tem de ser resgatada para o bem das civilizações, atinja a quem atingir. Aquele que pretender sepultar a sete palmos fatos que pesaram no destino de uma nação estará cometendo um crime de lesa-pátria contra sua história e, principalmente, contra as futuras gerações. Por isso, todos os homens de bem deste País, independente de simpatias ou antipatias pessoais e políticas, devem APOIO TOTAL, AMPLO E IRRESTRITO à família do ex-presidente João Goulart, em sua jornada insone para provar dois fatos que hoje são absolutamente inegáveis: o golpe de 64 foi financiado, monitorado, acompanhado de perto diretamente pelo governo dos Estados Unidos, e o ex-presidente João Goulart foi assassinado (6 de dezembro de 1976), num espaço de 9 meses, em que também morreram o presidente Juscelino Kubitschek (22 de agosto de 1976) e o ex-governador Carlos Lacerda (21 de maio de 1977). Em relação ao golpe, é farta a documentação oficial disponibilizada pelo governo dos Estados Unidos, mostrando que o próprio presidente Lyndon Jonhson monitorou os acontecimentos passo a passo, em linha direta com altos funcionários envolvidos na trama, como mostra gravação de uma conversa entre ele e o subsecretário de Estado George Ball (Youtube ). Assassinatos em série Essa ligação revela com todos os detalhes a movimentação de navios de guerra e petroleiros, bem como a disponibilização de munição para os golpistas em caso de alguma resistência. Outros documentos já divulgados no Brasil apontam o permanente envolvimento da embaixada norte-americana nos nossos assuntos internos, inclusive durante o AI-5, quando o neodemocrata José Sarney foi encarregado pelos autores do segundo golpe de explicar o AI-5 à embaixada norte-americana. O assassinato de Jango fazia parte de um sofisticado plano internacional, que incluía outras vítimas, como o ex-embaixador chileno Orlando Letelier, "explodido nos EUA", o ex-general chileno Carlos Prates, o ex-presidente boliviano Juan José Torres e dois parlamentares uruguaios - senador Zelmar Michelini e o deputado Héctor Gutiérrez Ruiz - ocorridos na Argentina, após a deposição de Isabelita Peron, em 24 de março de 1976, e a ascensão do mais sangrento bando golpista, comandada pelo general Jorge Rafael Videla, que disputou com o colega chileno Augusto Pinochet a comenda de grão-mestre da tortura e do extermínio de opositores. Em nome do Instituto João Goulart, seu filho João Vicente requereu à Procuradoria Geral da República que abra uma investigação sobre a morte do seu pai, aos 58 anos. Para balizar seu pedido, João Vicente anexou a gravação de uma conversa que manteve com o ex-agente de segurança do Uruguai Mário Neira Barreiro, juntamente com uma equipe da TV Senado, em 2006, no presídio de segurança máxima de Charqueados, zona metropolitana de Porto Alegre. Jango morreu em sua fazenda do município argentino de Mercedes, mas sua morte foi resultado de uma operação que ganhou o nome de "Escorpião", estava entrelaçada com a famosa "Operação Condor", a grande articulação assassina que fez centenas de vítimas no Cone Sul da América Latina. Pela detalhada narrativa de Barreiro, que fora jovem militante da extrema direita uruguaia, Jango foi morto por envenenamento. As cápsulas envenenadas foram postas em frascos de remédios enviados da França para serem entregues, no Hotel Liberty, onde o ex-presidente e a família se hospedavam em Buenos Aires. "Para envenenar Jango, um agente foi infiltrado como funcionário do hotel" - contou Barreiro. O veneno - um cloreto desidratado num esterilizador - foi preparado pelo legista uruguaio Carlos Miles. Segundo Barreiro, o médico foi morto como queima de arquivo, após ter ameaçado contar o que sabia se não fosse nomeado para um cargo público. O depoimento integra o pedido de abertura de inquérito, protocolado pela família de Jango no Ministério Público Federal em 8 de novembro do ano passado. É bom que você saiba de um procedimento totalmente atípico. O corpo de Jango não foi submetido a autópsia. Foi direto para São Borja, em meio a uma série de ordens e contraordens que provocaram o sepultamento rápido, ante a pressão do comandante do III Exército, que chegou a demitir o delegado da Polícia Federal que autorizou o traslado do corpo. Uma figura extraordinária Tive o privilégio de conhecer Jango pessoalmente, quando, em 25 de março de 1958, como vice-presidente da República, foi à posse do primeiro governador trabalhista do Ceará, Parsifal Barroso, juntamente com os governadores do PTB já empossados: Roberto da Silveira, do Estado do Rio; Gilberto Mestrinho, do Amazonas, e Chagas Rodrigues, do Piauí. Dessa safra, o único governador trabalhista que não pôde ir à festa no antigo Palácio da Luz (e depois ao almoço na casa do deputado e empresário Raul Carneiro, cunhado de Carlos Jereissati) foi Brizola, eleito governador do Rio Grande do Sul, aos 36 anos. Como na campanha, me pediram para falar e eu não me fiz de rogado. Foi o suficiente para que Jango me convidasse para conhecer a antiga capital federal. Recebido e "adotado" pelo ex-deputado Waldemar Rodrigues da Silva, um trabalhista gaúcho que presidia o Iapfesp, tive a oportunidade de conversar várias vezes com Jango, apesar de meninote. Ele, que era uma figura singularmente doce, trocava idéias comigo, como se eu já fosse gente grande. Isso me deu liberdade para dizer a ele, no seu apartamento da Atlântica, esquina de Belford Roxo: "Seu temperamento conciliador ainda vai lhe custar caro. Desde a morte de Getúlio, o senhor está na mira" - disse-lhe uma noite. No entanto, foi graças a seu jeito que evitou o banho de sangue programado pela CIA e pelos altos funcionários norte-americanos, caso houvesse resistência. Na conversa de George Ball com o presidente Johnson, eles imaginavam uma guerra civil que "obrigaria" o desembarque de "marines" norte-americanos em nosso território. Mas essa é outra conversa, sobre a qual contarei tudo, oportunamente.
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domingo, 1 de março de 2009

Ameaça a um HOMEM DE BEM que destronou uma oligarquia

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“Imagine 40 anos sem alternância de poder! Essa é a herança que recebemos e estamos combatendo. Estou certo de que no final a verdade triunfará e o Maranhão de fato inicie a ruptura com essa triste fase de sua história”. Jackson Lago, prefeito de São Luiz por três mandatos e atual governador do Maranhão. Vinte e seis meses depois de empossado e na plenitude da realização de um dos governos mais férteis do Maranhão, Estado que passou décadas sob o controle de duas oligarquias, a do “coronel” Vitorino Freire e a do onipresente e todo poderoso José Sarney, o governador Jackson Lago poderá perder o mandato conquistado na mais emblemática e festejada eleição em toda a história do Nordeste brasileiro. Está na pauta do Tribunal Superior Eleitoral um recurso assinado pela candidata derrotada, Roseana Sarney, com a alegação de que sua campanha teria recorrido ao abuso do poder econômico e praticado a compra de votos para garantir os 101mil 874 sufrágios que pôs na frente da filha do oligarca no renhido segundo turno das eleições maranhenses. Os fatos alegados teriam ocorrido antes mesmo do primeiro turno. E neste, a candidata da oligarquia teve a maior votação, graças à divisão dos setores contrários ao reinado que controlava o Maranhão desde 1965, quando o homem que entrou na política como o “Zé do Sarney”, por ser filho do desembargador Sarney Costa, ex-presidente do TRE-MA, fez-se governador com o apoio da ditadura militar graças à briga entre o cacique Vitorino Freire e o então governador Newton Belo. Os números falam No primeiro turno, com 7 candidatos, Roseana Sarney obteve 1.282.053 votos, contra 933.089 conferidos ao candidato do PDT-PPS. Cheia de si, a candidata da oligarquia já se considerava com um pé no Palácio dos Leões, onde reinou de 1995 a 2002. Não me consta que tenha formulado qualquer reclamação em relação aos votos obtidos por seu adversário mo primeiro turno. Ela acreditava que os 387.337 dados a Edson Vidigal, ex-presidente do STJ, migrassem para o seu baú. Nessa campanha, Jackson Lago tinha o apoio apenas do PDT, que ajudou a fundar, do PPS, que deu o vice Luiz Carlos Porto, e do PAN. Já Roseana encabeçava uma policrômica coligação, encabeçada pelo PFL, com o PMDB, PP, PTB, PTN, PSC, PL , PRTB , PHS , PV (do irmão Zequinha) e PRP. Não contava com a força crescente da Frente de Libertação do Maranhão, formada a partir do eleitorado da ilha de São Luiz, onde sua família perdeu todas as eleições, mesmo quando passou a reinar sozinha, a partir da morte de Vitorino Freire, em agosto de 1977. Desde o dia em que assumiu, o médico e prefeito de São Luiz em três ocasiões (1989-1992, 1997-2000 e 2001-2002), o governador da grande mudança não teve um dia de sono tranqüilo. Ele era protagonista do fato político mais importante das eleições de 2006, que ganhou maior repercussão com a derrota de outra oligarquia construída nos idos da ditadura, a de Antônio Carlos Magalhães, na Bahia. Estado de pobreza Além da orquestração contrária patrocinada pelo todo poderoso José Sarney, o político do Maranhão que ganhou mandatos de senador no Amapá, apesar da vigência da lei do domicílio eleitoral, Jackson Lago teve que enfrentar um grande desafio: o Estado do Maranhão apresentava um dos maiores índices de pobreza e concentração de renda do país. Além disso, como senador híbrido (PFL no Maranhão e PMDB no Amapá) e sendo hoje o mais antigo parlamentar em atividade (ganhou o primeiro mandato em pleno reino do “mapismo”, aos 25 anos, em 1955), como ex-presidente da República, a que ascendeu com a morte de Tancredo, depois de trair os seus parceiros da antiga Arena, que presidiu, o que desapontou o general Figueiredo, Sarney só tem um desejo em sua mente conturbada: colocar a filha, mais uma vez, à frente do governo do Maranhão. Antes do TSE apreciar o recurso contra a sua diplomação, Jackson Lago foi atingido por uma ruidosa operação da Polícia Federal, algo que um dia deverá ser esclarecido devidamente, porque, como ele denunciou, houve uma manipulação midiática capciosa do inquérito, que se vale de citações de terceiros. Na época, como disse ao jornal BRASIL DE FATO, o governador maranhense deu entrevista aos grandes jornais do país, que simplesmente esconderam seus esclarecimentos: “Eu passei três dias em Brasília, dando entrevistas para todos os órgãos de imprensa nacionais. Mesmo assim, minha versão não saia nos jornais. Apresentei documentos registrados em cartório provando que não estava clandestino em Brasília, como afirma a Polícia Federal e nenhum jornal se dignou a publicá-los. No entanto deram páginas mostrando minhas imagens da câmara de segurança do hotel, como se eu fosse um criminoso”. Vigília pelo respeito ao voto Não tenho a menor idéia do que decidirá o TSE, até porque o relator Eros Grau já se manifestou pela cassação do seu mandato. Mas essa corte não pode decidir de costas para os fatos e seus efeitos. Decorridos 26 meses de governo, Jackson Lago é de longe um símbolo de lisura e probidade. Basta ver o crescimento do seu patrimônio e comparar com o próprio meio dono do Maranhão, que controla tudo, inclusive, e principalmente, a mídia, tendo como âncora a retransmissora da Rede Globo de Televisão. Tudo o que serve para o recurso contra a diplomação é baseado em ilações. Provas, nos termos da legislação eleitoral, nada. São acusações de doações de cestas básicas e kit salva-vidas para moradores da baía de São Marcos, em São José de Ribamar e transferência de recursos públicos para uma associação de moradores de Grajaú. Há ainda menção a uma suposta apreensão de R$ 17 mil pela Polícia Federal, em Imperatriz, valor que, segundo a coligação de Roseana, foi usado para a compra de votos. Segundo a senadora, ocorreu também distribuição de combustível e material de construção com apoio do ex-governador José Reinaldo Tavares (PSB). Neste momento, os homens de bem deste país, os que ainda acreditam no respeito à vontade soberana das urnas, têm obrigação de construir uma grande corrente e deflagrar uma marcante vigília cívica para contrapor à influência maligna do homem que, aos 78 anos, seria a última pessoa a ter autoridade para argüir vícios em eleições. Sua condição de senador pelo Amapá, onde caiu de pára quedas, fala por si. Qualquer juiz sabe que a simples transferência do título para um endereço em outro Estado não configura uma mudança real, nem do ponto de vista ético, nem legal. Quem quiser conhecer mais sobre o personagem que quer sacrificar a vontade do povo do Maranhão, sugiro a leitura do artigo do jornalista Emílio Azevedo, publicado no JORNAL PEQUENO em 26 de março de 2006, que transcrevo no blog PORFÍRIO URGENTE coluna@pedroporfirio.com coluna@pedroporfirio.com

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Por que a verdade dói e está fora de moda

“A verdade é filha do tempo e não da autoridade” Bertold Brecht, dramaturgo alemão (1898-1956) Houve um tempo em que uma pitada de verdade não fazia mal a ninguém. Hoje faz. Do jeito que a banda toca você não pode ousar falar nem uma meia verdade. Nem um tiquinho, nada que possa ameaçar o circo da mentira que se instalou em nosso torrão. Exagero na dose? Quisera. Aliás, como eu gostaria de estar errado. Mas infelizmente, na maioria das vezes, não estou. Principalmente porque vivo neste país tropical abandonado por Deus e hipócrita por natureza, que vileza. Aqui, mais do que em qualquer outro rincão, a verdade dói. E dói tanto que o que mais se ouve nas esquinas, em atos e omissões, é o “me engana que eu gosto”. Você quer o quê? O Brasil não cresce na economia, mas na política dão nó em pingo d’água. E não é só na política, não. Teve poder, tem tudo. Do bom e do pior. E tudo muda a cada instante, ao gosto ou desgosto de quem dá as cartas. Vige numa boa a jurisprudência de que toda verdade tem seu preço. Porque puseram você numa saia justa blindada. Você pensa que ouviu o galo cantar, mas nem isso. Antes você não sabia aonde. Agora, nem as galinhas, porque puseram as raposas para tomar conta dos galinheiros. Recorrendo a metáforas Metáforas? Sim, como nos tempos da censura sem pudor. Agora, tudo é por baixo do pano. Eles têm o controle do seu hipotálamo, da sua hipófise. Operam sobre sua memória, devidamente miniaturizada. Como falou o velho mudo, está tudo dominado. Vale o escrito hoje. Jornal de ontem já não serve nem para embrulho. É perigoso querer destoar. Ou te mandam calar a boca ou te mandam para o olho da rua. Foi o que me ensinou o meu filho, jornalista que nem eu, mas que passou por uma faculdade (sou do tempo em que escrever era vocação) e ainda faz ginástica na capital federal, o centro do furacão, onde quem bobeia dança e não consegue mais dar a volta por cima. - Nunca deixem que saibam que você sabe. Pega leve, banca o bobo, deixa que pensem que você só leu os manuais da redação. Passar disso é dar murro em ponta de faca. Paul Joseph Goebbels, o marqueteiro do Führer, não inventou a roda quando disse que uma mentira repetida mil vezes vira verdade. Aqui, aliás, basta repetir uma meia dúzia de vezes, sobretudo se for pela televisão, essa máquina plenipotenciária de embaralhar os cérebros seriados. O trágico é o tamanho do estrago. Antes, a mentira ficava na paróquia. Hoje, com toda essa parafernália cibernética, pega a aldeia global num piscar d’olhos. Para assaltar o Iraque de olho no petróleo que ainda não estava à flor da terra, mister Danger - batizado George WALKER Bush – convenceu a você e a meio mundo que Saddam Hussein desenvolvia um programa de armas químicas e biológicas. Você pegou pilha e ficou na sua, achando que aquela agressão era para a salvação da civilização ocidental e cristã. Meteram bala, vasculharam casa por casa, e nem um papelote de urânio. Em compensação, o mentiroso mais perigoso do mundo fez a festa dos fabricantes de armas e das empresas petrolíferas, para as quais presta relevantes serviços, pagos a peso de ouro. Agora, por conta dessa mentirada toda que não toca seu cérebro programado para ver inimigos ali do lado, junto à fronteira, o cidadão-contribuinte norte-americano vai pagar uma baita conta. Os gastos militares dos Estados Unidos no Iraque e Afeganistão já beiram o trilhão de dólares, superando a conta paga na fracassada guerra do Vietnã. Enquanto isso, a indústria bélica vai esquentando as turbinas pelo lado de cá, com a mudança no mapa político da América Latina. E não é para menos: John Negroponte, o monitor da política externa norte-americana (a Condoleezza Rice é uma piada) está mexendo seus pauzinhos na formatação de um novo monstro, o moreno peitudo contra o qual se alça o próprio racismo inconsciente da América branca. Mas a exploração da ausência do apreço pela verdade não é exclusiva das manobras internacionais. Até num microcosmo do poder, trabalha-se com as ferramentas mais sofisticadas para impingir o triunfo da mentira, a destruição das últimas pedras da dignidade. Medo de dizer Há todo tipo de moeda na praça, da pecúnia sonante à exploração da maldita vaidade humana. Quanto mais inacessível for o antro da decisão, a maiores riscos estão expostos os simples cidadãos. Certas coisas eu não quero nem falar hoje, mas, decididamente, o alcance da impostura institucionalizada é uma questão de mercado. Como você está confinado num cárcere privado e de nada sabe por inteiro, sou forçado a dizer, com todas as letras, que não sinto diferença no clima que respiro hoje em relação àqueles anos que me valeram cadeia que só lamentam da boca para fora. Eu particularmente escrevo com medo porque superpuseram a lei dos danos morais sobre a lei de imprensa, submetendo a liberdade de expressão a uma peça morta, escondida na teia de uma Constituição fragilizada e vilipendiada todos os dias. Eu bem que queria dar um grito que está parado no ar. Mas se eu for além das quatro linhas, vou ficar no prejuízo. Já fui condenado num juizado especial a pagar uma indenização de danos morais para o sujeito que queria falar numa manifestação organizada por mim e eu não permiti. E você enche a boca para falar mal de outros países, cheio de ilusões sobre a idéia de que vivemos num democrático mar de rosas. O único problema, para você, é a paranóia que os amontoados de miseráveis lhe causa. Daí essa violência de Estado que extrapola os limites da razoabilidade. A pretexto de nos garantir segurança, que não percebemos nem como sensação, estão fazendo por aqui a nossa própria guerra, sem considerar, pelo menos, a Convenção de Genebra. Se eu remexer nisso, você, que já sai de casa com um pé atrás e com medo da própria sombra, vai achar que estou do outro lado. Enquanto isso, a crônica dos nossos dias vai ficando cada vez mais turva, pelo menos para mim. Eu já não sei se calo a boca ou se ponho a boca no mundo, até porque esses poderes têm ouvidos moucos enquanto a opinião pública virou uma mera repetidora das microondas de uma mídia pautada pelo mercado, o que dá ibope, o que repercute ou entra mais fácil nas nossas caixolas descuidadas. PS – Esta coluna foi publicada na TRIBUNA DA IMPRENSA de 16 de novembro de 2007. Durante o “feriadão” do carnaval, dediquei-me à leitura de muitas coisas, inclusive alguns dos meus escritos. Daí a idéia de republicá-la, por sua atualidade.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Para não dizer que não falei do carnaval

O carnaval de hoje é das estrelas que mostram suas virtudes na pista. No passado, a alegria era geral.
“Se o amor é fantasia, eu me encontro ultimamente em pleno carnaval”.
Vinícius de Moraes
“O povo toma pileques de ilusão com futebol e carnaval. São estas as suas duas fontes de sonho”. Carlos Drummond de Andrade "O carnaval é basicamente um movimento diluidor da rebeldia”. Affonso Romano de Sant'Anna
Apesar da ampla e diversificada repercussão da coluna sobre os maus presságios que rondam o PDT como um espectro agourento, é de todo impossível escrever sobre qualquer coisa que abstraia o grande acontecimento nacional: desde ontem, os bravos cidadãos brasileiros estão às voltas com a semana momesca, de onde nada há a declarar que venha a desprezar os encantos dessa catarse sazonal compensatória de transcendia explícita. Semana, sim, que vai de quinta a quinta, no mínimo. Porque já nesta sexta-feira será impossível encontrar uma viva alma envolta numa faina mais embaraçosa. Nessas horas, não há parâmetros sociais. A transmudação para um outro reino, fantasioso ou simplesmente relaxado, está no mais anêmico dos sangues pátrios. É a trégua cega, que a todos seduz como uma mescla de todas as manifestações do corpo e da alma. Não há explicação lógica. Não há preocupação com crises ou quinquilharias semelhantes. Pode ser que essa “libertação” temporária acometa outros povos do mundo, nesta ou em outras efemérides. Mas por estas terras tropicais e lânguidas, a ascensão do rei gorducho tem o condão da esbórnia ansiada como a panacéia de todos os sofrimentos pretéritos e futuros. A esbórnia ansiada É algo que qualquer filósofo, cientista político ou outro tipo de mago terá visíveis dificuldades para explicar. Porque o carnaval é um paradoxo existencial: quanto mais escapa ao populacho, quanto mais é privatizado como espetáculo para inglês ver, mais a massa subalterna se sente comprometida, numa sintomática assimilação de uma sociologia de conformismo extremado. O carnaval de hoje não tem mais nada com o entrudo d’antão. Não oferece mais o palco iluminado para os folguedos espontâneos no desvario dos corpos movimentados em alegres cordões, nos blocos formados ao acaso, com o seu humor cortante. Pode até ser que aqui e ali ainda haja sobreviventes da alegria descompromissada, que a tantos compositores inspirou na ficção dos pierrôs e colombinas. Mas esses podem estar desafiando a industrialização da festa, expondo-se ao ridículo e ao isolamento. O que nesta cidade carioca se busca avidamente é uma oportunidade para estar no cenário central, seja entre os foliões que pagam para sair nas endeusadas escolas de samba, seja morrendo numa boa grana para ter direito a ver os desfiles de perto, ao vivo e a cores. Nesse palco já por si seletivo ainda existe o carnaval exclusivo dos camarotes milionários, onde rola tudo, até, de vez em quando, um pouco de samba no pé. São os espaços comprados por grandes marcas de bebidas e outros produtos que caem bem para o consumidor nesse ambiente de exibicionismo incontido. Como espetáculo transmitido para o mundo inteiro pelas cores da televisão, não há grandes diferenças entre este e os carnavais que passaram. No momento, além dos faturamentos por dentro e por fora, os donos das escolas passaram a vender patrocínios, em função dos quais montam seus enredos e dispõem suas alas e carros alegóricos. É a exploração do mercado elevada ao extremo. Aquela que se diz a maior festa popular do mundo é uma grande fraude que, além de tudo, embranqueceu. Fraude como tantas outras que viraram entidade monitora dos nossos hábitos e costumes, como ferramenta indispensável em todos os ramos da manifestação social, política e econômica. A saga dos fugitivos Fora da catedral privativa dos sambas que repetem as mesmas melodias e abusam de lugares comuns e clichês em suas letras direcionadas, há a maratona dos fugitivos. O Estado do Rio de Janeiro, como nenhum outro aglomerado do mundo, oferece exílios dourados aos que não quiserem ouvir o ronco das cuícas. Para o norte e para o sul há praias e balneários paradisíacos. Mas não é só isso. As serras próximas oferecem o cerne de uma natureza generosa e exuberante. Vale a pena fugir e isso não é privilégio dos que buscam as ilhas de Angra dos Reis, as praias de Búzios ou a paisagem verdejante de Petrópolis e Friburgo. Apesar das estradas proibitivas, como a Rio-Santos que leva á costa verde e nos coloca de cara com a histórica Parati, há uma corrida febril em busca da festa do interior. Nessa expedição, todos já sabem que terão de penar antes de chegar ao destino, tantos são os interessados em espreguiçar à distância, onde o mar é mais misterioso ou onde as centenárias árvores dão os tons calmantes de um ambiente distante das neuroses urbanas. Não interessa a ninguém, nem aos que ficam para ver ou para se exibir, nem aos que se mandam pelos duvidosos caminhos engarrafados, qual o preço será pago por esses dias de folgança. Vive-se uma trégua na guerra de uma realidade incerta e isso é tudo. É de tal forma a ascendência desses dias que não sei quantos ainda, como este obcecado que lhes escreve, vão se dar ao trabalho de abrir o computador para ler estas mal traçadas linhas. Ou para procurar saber a quantas anda a vida neste mundo de tramas pérfidas e esmagadoras.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Um PDT perdido no espaço, como um asteróide sem luz própria

O fantasma de Lula condiciona Lupi, o ministro do PDT
“O Brasil está como sopa na geladeira. Formou-se uma camada de gordura por cima que a torna intragável”. Leonel Brizola Um PDT perdido no tempo e no espaço, como um asteróide sem luz própria, em mergulho cego e constrangido pelas meias patacas que persegue sob o instinto de um olfato contaminado pelo odor dos podres poderes, em cujos arrabaldes instala-se como à espera de um melancólico desenlace. Um partido cada dia mais distante de seu grande emblema, de costas para a rebeldia que inspirou oito décadas de combate. Um espelho fosco de uma opção desfibrada e sem horizonte. Um corpo anêmico, um cérebro miniaturizado, destituído dos ingredientes críticos e inspirações transformadoras, ao sabor do humor de uma corte ladina e de hábitos pérfidos. Uma legenda de destino ínvio, cortado ao meio, tentando valer-se de arquivadas lembranças do passado para exibir um diferencial já detonado e atropelado pelas poucas prebendas que lambuzam os corifeus de uma ópera bufa, composta pela fina flor da mediocridade e do oportunismo. Foi essa a imagem que apareceu na tela da televisão no programa político do Partido Democrático Trabalhista, onde por tantos anos um caudilho indômito – certo ou não – oferecia ao povo sua visão própria, muitas vezes solitária, mas sempre desassombrada, de um Brasil que prezava como nação soberana e de uma sociedade que desejava a mais justa possível. Sinceramente, não era meu propósito tocar em assuntos tão irrelevantes para o destino de uma humanidade que se contorce em dúvidas atrozes, numa crise arrasadora. Não queria mais perder o meu tempo, nem gastar o meu latim com lamentos ante ouvidos que só ouvem o canto da sereia e olhos embaçados pela fumaça da chaminé dourada, numa hora em que não há uma viva alma disposta a encarar a profissão política como uma missão transcendental. Mas não é lícito proteger-se no silêncio ao ver donatários de um legado histórico, muitos parceiros em tenebrosas procelas, marcharem impávidos para a fornalha que os reduzirá a reles pigmeus tolhidos em pensamentos e atos, privando o povo de hoje e de amanhã de uma cidadela construída a sangue, suor e lágrimas. Um programa mal-inspirado O que disseram os poucos próceres do PDT que chegaram às casas de milhões de brasileiros no topo da audiência na tv? O senador Cristóvão Buarque, educador brilhante, ficou nos velhos clichês que sua apatia ancora. Falou da educação como se não a tivesse tido às mãos e do projeto da escola de tempo integral que os primos petistas (ele foi um deles) solapam como uma encomenda d’além mar. Não fez a crítica central: a grande tragédia está na concentração das verbas oficiais no terceiro grau, no abandono do ensino fundamental e no gargalo do ensino médio, em função do que os alunos das escolas públicas precisam recorrer à janela das cotas para ter acesso a uma faculdade do Estado. Mais ainda: está na pedagogia da repetência, de que se valem as elites para limitar a presença dos pobres nos bancos escolares, garantindo a mão de obra subalterna, farta e barata. Não tocou no assunto porque sabe, por experiência proporia, pela passagem no Ministério da Educação, das verdadeiras intenções de um governo atrelado ao sistema internacional. Carlos Roberto Lupi, o ministro do Trabalho, parecia visivelmente constrangido, preocupado em não sair do script de um subordinado do Sr. Luiz Inácio, de quem coleciona reprimendas públicas e desgastantes. E acabou falando da questão do emprego, como se vivêssemos num mar de rosas e como se os progressos registrados num certo momento resultasse de seu empenho como ministro, o que não é exatamente a verdade. Sabe ele, mais do que qualquer mortal deste Brasil assustado, que o governo Lula negocia amputações de direitos e desvio de recursos públicos para irrigar empresas que não precisam, mas têm aliados poderosos nas saletas de um poder, cujo mago ainda é o banqueiro Henrique Meireles, o senhor dos anéis numa corte de mamulengos de pífios conhecimentos e parcas vocações. Sabe que essa história de entregar dinheiro de mão beijada para as construtoras produzirem um milhão de casas populares é uma grande aventura e tem como único objetivo empanzinar a meia dúzia de “jacós” que hipertrofiou o custo da habitação desde os tempos funestos do SFH, em função de que os milhões de trabalhadores subiram os morros ou aterraram os pântanos para ter seus barracos como refúgios. É conversa fiada, como tem sido esse projeto de socorro das lojas particulares de ensino, que ganhou o selo da magnificência generosa, em benefício de estudantes que não podem nem pensar num vestibular para uma Universidade pública. No programa, o PDT apresenta os dois governadores eleitos pela legenda num universo de 27. Um, o médico Jackson Lago, que conseguiu derrotar a filha do senador José Sarney, por conta da dissensão do seu antecessor, Reinaldo Tavares, que nunca mais teve uma noite de tranqüilidade desde quando decidiu romper com a figura do pau mandado. O outro, Waldez Góes, governador do Amapá, o grande aliado do mesmo José Sarney, que só vai descansar quando comer o fígado do conterrâneo. Como você sabe, além de ser hoje o mais festejado remanescente daqueles idos a que serviu com destreza e abnegação, o poderoso senador tem o dom da ubiquidade: é nascido, criado e crescido no Maranhão, mas representa o Amapá no Senado, apesar da vigência do domicílio eleitoral obrigatório. Fora deles, o PDT ainda abriu espaço para o seu vice-presidente em exercício, o deputado Vieira da Cunha, uma das raras vocações decentes da política, que acabou falando ao país como se estivesse procurando alcançar apenas os seus eleitores do Rio Grande do Sul. E ainda caiu no primarismo de contar números de prefeitos e vereadores eleitos ano passado, com ligeiro avanço sobre a legislatura anterior, como se precisando afirmar que o partido não havia definhado por conta do seu apoio incondicional ao governo do PT. Esqueceu ele de dizer que o PDT só elegeu um único prefeito de capital, logo um aliado de Sarney no Amapá, e que em seus dois grandes redutos do passado, a única “vitória” a registrar foi a eleição hereditária de dois netos do caudilho. Um apelo inacreditável No Estado do Rio de Janeiro, onde Brizola teve 3 de cada 5 votos na sua segunda eleição para governador, em 1990, o partido só tem um motivo de orgulho – a volta de Jorge Roberto da Silveira à Prefeitura de Niterói, resultado pessoal de criativas e inovadoras administrações anteriores. Na capital, como se sabe, o PDT amargou mais uma vez a marca do 1% nas eleições majoritárias, fazendo três vereadores: além de um neto do fundador, dois evangélicos, um dos quais filiou-se ao partido na surdina, exclusivamente para ocupar uma das vagas que os brizolistas conquistariam. Mergulhado numa divisão visceral, o partido que já foi a maior força no Estado, onde tem mais filiados do que votos, viu um apelo patético de um deputado, que claudicou como candidato a prefeito, publicado numa rede que alcança pedetistas e simpatizantes do Brasil inteiro. Esse deputado, que demonstrou desconhecer até o número de eleitos, tornou público um apelo para garantir que o primeiro suplente, de 84 anos e vários mandatos pelo PDT, volte à casa que presidiu por 8 anos. Nesse apelo, ele pede publicamente que cada um dos eleitos se licencie por três meses, em sequência, sem precisar demitir ninguém em seus gabinetes, assegurando assim a presença do colega que não logrou reeleger-se. Isto porque a direção do partido, que aderiu no segundo turno ao atual prefeito, não conseguiu convencer os três eleitos a aceitarem trocar a Câmara pela Secretaria do Trabalho municipal, cargo que acabou destinado a um jovem nascido e criado dentro do brizolismo. Mas que chegou ali por ser o braço direito do deputado Brizola Neto. É claro que se o autor desse apelo público inusitado quisesse mesmo socorrer o velho companheiro, iria conversar com os outros pessoalmente, ao invés de comprometer sua própria imagem de seriedade com proposta tão despropositada. Mas isso reflete o ambiente num partido que emergiu na década de oitenta como a grande referência brasileira dos partidos socialistas e sociais-democratas do mundo. E que foi responsável por um dos raros momentos de lucidez administrativa, quando, pelas mãos de Brizola e Darcy Ribeiro, jogou todas as suas fichas na educação pública de qualidade. coluna@pedroporfirio.com

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Das flores de Gaza ao triunfo dos belicistas de Israel

A nova estrela do sionismo
Avigdor Liberman, que nasceu na Moldávia, na antiga União Soviética, chegou a Israel em 1978, quando tinha 19 anos. Foi militante e dirigente do partido Likud, que abandonou por entender que Benjamin Netanyahu, líder deste partido e primeiro-ministro de Israel, tinha feito demasiadas concessões à Autoridade Palestina. Em particular Liberman opôs-se a planos que previam a divisão da cidade de Hebrom, na Cisjordânia. Na primeira eleição que disputou em 1999, seu partido conquistou quatro lugares na Knesset (parlamento) de Israel. No decurso da legislatura, o partido juntou-se ao partido Ichud Haleumi (União Nacional). Nas eleições de 2003, concorreu integrado nessa lista.Nas eleições legislativas de 2006, o Yisrael Beitenu conquistou doze lugares na Knesset, sendo o quarto partido mais votado. Agora, com 15 representantes, passou a ser o terceiro, à frente do antigo Partido Trabalhista.
"Javé ferirá todos os povos que combateram contra Jerusalém: ele fará apodrecer sua carne, enquanto estão ainda de pé, os seus olhos apodrecerão em suas órbitas, e a sua língua apodrecerá em sua boca" (Zacarias, 14, 12-15)”.
Ainda sob o impacto da acachapante vitória dos belicistas em Israel, com a formal desmoralização do Partido Trabalhista criado por David Ben-Gurion, o governo de Jerusalém liberou a fronteira de Gaza por algumas horas para que pudessem passar 25 mil cravos cultivados pelos palestinos e exportados para a Holanda, onde serão vendidos pela passagem do “dia dos namorados”, que na Europa se comemora em 14 de fevereiro. Essas flores são uma quantidade irrisória, em relação ao sacrificado cultivo dos agricultores de Gaza, mas é o limite estabelecido pelo governo israelense, atendendo a um pedido especial das autoridades holandesas. O impiedoso bloqueio israelense, estabelecido desde julho de 2007, já levou milhares de agricultores de Gaza à falência e ao desespero. Independente dos bombardeios criminosos, que em 21 dias resultaram na morte de 1300 cidadãos e em outros 5.500 feridos, os sionistas têm exercido o mais perverso programa conjugado de extermínio de uma população condenada à morte. De fato, o sofrimento imposto ao milhão e meio de seres humanos apinhados nos 380 Km2 da Faixa de Gaza vai muito além das vítimas das 2500 bombas – incluindo as de fósforo branco - despejadas quando nós, do Ocidente, festejávamos o nosso natal e o ano novo. Das urnas o grito de guerra O resultado das eleições não deixa dúvidas: das 120 cadeiras, a ultra-direita fez 65 representantes. Somando-se a esses os 28 do Kadima, um partido saído do ventre do Likud por iniciativa do general Ariel Sharon, os 60% de israelenses que votaram (em sua maioria com mais de 30 anos) estão mandando 93 belicistas de carteirinha para o seu parlamento. Os outros 27 representantes se dividem entre os 13 do Partido Trabalhista, que participa do atual governo do Kadima, mais 4 da Frente Democrática de Paz e Igualdade (um partido comunista que reúne judeus e árabes) 3 do Meretz (judeus de esquerda), 4 da Liga Árabe Unida e 3 do Balad – ou Assembléia Nacional Democrática - também árabe, liderado pelo filósofo Azmi Bishara, perseguido sistematicamente, apesar de sua condição de parla mentar. Na direita, ao lado do Likud (fundado pelos terroristas do Irgun e do Stern), a grande novidade é o partido Yisrael Beitenu, chefiado pelo belicista-racista de carteirinha Avigdor Lieberman, que fez 15 representantes com um discurso pelo massacre dos árabes que representam 20% da população israelense, respondendo por 70 municípios da região da Galiléia, um terço das cidades do estado sionista. O Yisrael Beitenu (Israel é nossa casa) tem como principal base os judeus de origem russa, tidos como os mais fanáticos e radicais. Terá muito influência também o partido Shas, formado pelos sefarditas – judeus de origem espanhola e portuguesa – de formação religiosa ortodoxa, que fez 11 representanes e tem sido um aliado do Likud de Binyamin Netanyahu. A este, juntam-se os 4 representantes da União Nacional (Ha-Ihud Ha-Leumi), 5 do “Judaismo Unido do Torá”, que perdeu a eleição para a Prefeitura de Jerusalém, até então em seu poder, bem como os 3 da “Causa Judaica”, o partido menos “ultra” da direita belicista. Visão do povo eleito Sobre o novo quadro de Israel e os desdobramentos desse pleito manchado de sangue terei muito o que aprofundar e escrever. Mas desde já é bom que você saiba: segundo a FOLHA DE SÃO PAULO de 24 de janeiro, com raras exceções - a população israelense apoiou o massacre de Gaza. Mais do que isso, as pesquisas de opinião constataram que o apoio da população foi aumentando na medida em que avançavam os bombardeios - chegando a índices de 90%. E no final, na hora do cessar-fogo, metade era favorável à continuação da ofensiva, até a reocupação de Gaza e a destruição do Hamas. Como você vê, se o atordoado presidente Barack Obama tinha alguma intenção de paz para a região, pode-se dizer que tal idéia tende a evaporar-se, segundo a convicção incrustada nos judeus sobre o seu destino de povo eleito, tal como escreveu com tranqüilidade o professor José Luís Fiori, cientista político, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em artigo no LE MONDE DIPLOMATIQUE de 5 de fevereiro de 2009. “Desde sua criação, em 1948, Israel mantém-se sem uma constituição escrita, mas possui um sistema político com partidos competitivos e eleições periódicas, tem um sistema de governo parlamentarista segundo o modelo britânico, e conserva um poder judiciário autônomo. Mas ao mesmo tempo, paradoxalmente, Israel é um estado religioso, e grande parte de sua população e governantes tem uma visão teológica do seu passado e do seu lugar dentro da história da humanidade. Israel não tem uma religião oficial, mas é o único estado judeu do mundo. Os judeus consideram-se um só povo e uma só religião que nasce da revelação divina direta, e não depende de uma decisão, ou de uma conversão individual. "Se ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis uma propriedade peculiar entre todos os povos. Vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa" (Êxodo, 19, 5-6) Além disto, o judaísmo estabelece normas e regras específicas e inquestionáveis que definem a vida cotidiana e comunitária do seu povo, que deve se manter fiel e seguir de forma incondicional as palavras do seu Deus, mantendo-se puros, isolados e distantes com relação aos demais povos e religiões. "Não seguireis os estatutos das nações que eu expulso de diante de vós. Eu Javé, vosso Deus, vos separei desses povos. Fareis distinção entre o animal puro e o impuro. Não vos torneis vós mesmos imundos como animais, aves e tudo o que rasteja sobre a terra" (Levítico, 20, 23-25) Para os judeus, Israel é a continuação direta da história deste "povo escolhido", e por isso, a sua verdadeira legislação ou constituição são os próprios ensinamentos bíblicos. O Torá conta a história do povo judeu e é a lei divina, dessa forma não pode haver lei ou norma humana que seja superior ao que está dito e determinado nos textos bíblicos, onde também estão definidos os princípios que devem reger as relações de Israel com seus vizinhos e/ou com seus adversários. Em Israel não existe casamento civil, só a cerimônia rabínica, e os soldados israelenses prestam juramento com a Bíblia sobre o peito e com a arma na mão. O professor José Luís Fiori observa ainda em seu artigo: Mas o que talvez seja mais importante do ponto de vista imediato do conflito entre judeus e palestinos, e do próprio sistema mundial, é que Israel - ao contrário dos palestinos – junto com sua visão sagrada de si mesmo, dispõe de armas atômicas e de acesso quase ilimitado a recursos financeiros e militares externos. Com essas idéias e condições econômicas e militares, Israel seria considerado – normalmente - um estado perigoso e desestabilizador do sistema internacional, pela régua liberal-democrática dos países anglo-saxônicos. Mas isto não acontece porque no mundo dos mortais, de fato, Israel foi uma criação e segue sendo um protetorado anglo-saxônico, que opera desde 1948, como instrumento ativo de defesa dos interesses estratégicos anglo-americanos no Oriente Médio. Os anglo-americanos operam como a âncora passiva do "autismo internacional" e da "inclemência sagrada de Israel”. coluna@pedroporfirio.com

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

As estripulias da Light à sombra dos podres poderes

Lula cumpriu seu "acordo" com FHC e deu toda cobertura às privatizações doações, como a da Light, hoje um tormento na vida dos fluminenses.
“As empresas arrancam o relógio e quando o consumidor vai à Light ou à Ampla tem que assinar uma confissão de dívida. Eles estipulam o valor da multa, sem nenhum parâmetro. Caso a pessoa não assine, eles cortam a luz”. Alexandre Verly, presidente da Associação Fluminense do Consumidor e Trabalhador
A denúncia da Associação Fluminense do Consumidor e Trabalhador (Afcont) sobre práticas extorsivas da Light repõe na pauta a discussão sobre as privatizações criminosas promovidas no governo Fernando Henrique e sacramentadas pelo governo do senhor Luiz Inácio, cujo o partido, na senda da metamorfose de conveniência, enganou a meio mundo quando fazia tremular suas bandeiras vermelhas nos protestos contra os leilões-doações. Durante todas as suas campanhas de olho nos podres poderes, Lula acenava com o questionamento das privatizações, providência que Leonel Brizola considerava questão de honra, mas que o próprio PDT esqueceu, ao ser cooptado pelo governo, que se tornou o fiel depositário do sistema de defesa do “status quo”,em troca de prebendas simbólicas. Governo que se comporta com os maus hábitos do ilusionismo, graças aos quais, nas pesquisas compradas pelas confederações patronais, aparece como o rei da coada preta, com tal índice de endosso que, pelo andar da carruagem, até o meio do ano, poderá constar como apoiado pela unanimidade do povo brasileiro, o que abrirá caminho para que algum débil mental dessa safra de bajuladores declare ser desnecessário a realização de eleições presidenciais, tendo em vista a consagração cristalizada do chefe amado. O processo indecente das privatizações-doações, que marcou com exuberância o reino do tucanato, ganhou o benefício da purgação oferecido pelo governo dos neoliberais de macacão, que provaram por a + b a viabilidade de um governo medíocre, cuja força reside na empatia com a massa que se conforma em levar a vida de gado descrita por Zé Ramalho. O abuso do monopólio privado Para que eu não me perca em relação aos abusos da Light, transcrevo na íntegra a denúncia da Associação de Consumidores, tal como aparece no site do jornalista Sidney Rezende: Em e-mail enviado para o SRZD, o presidente da Associação Fluminense do Consumidor e Trabalhador (Afcont), Dr.Alexandre Verly, denuncia os procedimentos realizados pela Light e pela Ampla, empresa que fornece energia elétrica à Baixada Fluminense e a diversos municípios no interior do estado do Rio de Janeiro, em casos de suspeitas de irregularidades no consumo de energia, o famoso "gato". De acordo com Verly, as empresas têm aplicado multas e cortado a energia de consumidores, nessas situações, de maneira inadequada, sem uma perícia técnica para comprovar a ocorrência. No e-mail, ele explica que "que as empresas de energia somente podem cobrar os valores de consumo que efetivamente forem comprovados. Mas, isso não vem ocorrendo, pois na maioria dos casos as empresas estimam o valor, o que é ilegal". "Eles acusam o consumidor de gato sem dar a oportunidade de a pessoa se defender. As empresas arrancam o relógio e quando o consumidor vai à Light ou à Ampla tem que assinar uma confissão de dívida. Eles estipulam o valor da multa, sem nenhum parâmetro. Caso a pessoa não assine, eles cortam a luz. Não estou defendendo o gato, mas sim o direito dos consumidores", declarou Verly em entrevista ao SRZD. O presidente da Afcont reiterou ainda que os consumidores cariocas que forem alvos de multas aplicadas pela Light em caso de suspeita de gato podem acionar as empresas na Justiça para não pagarem as multas impostas. Se a pessoa já pagou ou estiver pagando, pode pedir a devolução em dobro da quantia e ainda indenização por danos morais. Ainda segundo Verly, centenas de consumidores já entraram na Justiça. "Após a apreciação do processo judicial, ficou comprovado que os critérios na aplicação da penalidade não foram corretos, uma vez que se baseavam em estimativas sem uma perícia técnica por parte das empresas". Sem resultados efetivos, apesar das inúmeras ações em tramitação nos Juizados Especiais, a Afcont entrou com duas ações civis públicas, uma contra a Light e outra contra a Ampla. A primeira, o juiz da 5ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro concedeu uma liminar proibindo a Light de efetuar cortes de energia e aplicar multas em caso de suspeita de fraude, sob pena de multa diária de R$ 40 mil. A segunda ação foi encaminhada para a juíza da 2ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro. "Muitas vezes, eles falam que é gato, mas é problema do relógio. Então, a responsabilidade é da concessionária, porque é problema do relógio, não é gato. Quem tem que fazer a manutenção é a concessionária, mas não fazem", completou ele. O presidente da Afcont ainda afirma que "todos os lesados por tais atitudes nos últimos cinco anos possuem direito a requerer na Justiça indenização por danos morais e restituição dos valores pagos a título de multa, já que na ação civil pública também requer que todos os consumidores do estado do Rio de Janeiro lesados. Por trás desse procedimento arbitrário da Light, sobre o qual posso testemunhar, está a subserviência abjeta do governo, cujos simplórios e deslumbrados integrantes morrem de medo de encarar os trustes devidamente representados por Henrique Meireles e sua trupe. A história do leilão da Light, naquele 21 de maio de 1996, deveria ser desvendada no bojo de uma investigação honesta e corajosa sobre todo o ciclo de privatizações indecentes, que ainda não acabou. Crônica da Maraculight Sobre tal desatino, vale transcrever aqui o inspirado comentário de Élio Gásperi, “a Luz da Maruculight”, publicado em 10 de fevereiro de 2005: “AMaracuLight, obra de engenharia política e malfeitoria financeira iniciada no governo de FFHH, chegou ao seu esplendor no governo de Lula. A Agência Nacional de Energia Elétrica (uma armação tucana) baixou um confisco contra 3,4 milhões de cidadãos. Impõe um aumento de 6,13% nas contas de luz porque a Light está em dificuldades financeiras. Quando a choldra está em dificuldade e não paga a conta de luz, a Light vai em cima e corta a energia. Quando é a Light que vai mal, a choldra é chamada a pagar. Arma-se uma situação na qual a patuléia terá de ficar entre o financiamento de um mau negócio ou a reestatização da empresa. A Light foi privatizada em 1996 depois de uma tenebrosa transação na qual mudou-se o edital da concorrência, aceitaram-se moedas podres e mexeu-se no sistema de cálculo das tarifas. Tudo isso e mais um telefonema de FFHH para Jacques Chirac, convencendo-o a botar a estatal francesa EDF no lance. Dias antes do leilão o governo brasileiro pagou ao francês US$ 200 milhões de contas antigas. A empresa foi vendida para saciar a sede política da privataria. Em apenas dois anos, a EDF desempregou cinco mil pessoas (mantendo seis mil) e devolveu aos seus acionistas 25% do que pagou pela Light. Como reconheceu o supertucano Sérgio Motta, o negócio fazia parte de um bolo de transações elétricas que "envergonha o processo de privatização". Se a Light passa por dificuldades isso se deve ao fato de ter acreditado na existência do dólar de R$ 1,20 e de ter comprado outras distribuidoras com expectativa de lucros futuros. Se isso fosse pouco, depois de ter sentido o gostinho do dinheiro nos dois primeiros anos, a matriz francesa desinteressou-se de um negócio que rende pouco ou dá prejuízo. Em português claro, a compra da concessão da distribuidora de energia para a cidade do Rio foi um mau negócio para a EDF. Assim como foi mau negócio para os calvinistas de Genebra a expedição do almirante Villegagnon, no século XVI. Como diria Alan Greenspan, às vezes os negócios vão mal por falta de sorte. Fez-se o possível para socorrer a Light. O governo deu-lhe empréstimos que produziram lucros artificiais de R$ 407 milhões em 2002. Deram-se também aumentos extraordinários de tarifas, mas o mercado foi perverso. Desde a encrenca do calote da Eletropaulo, no início do governo de Lula as concessionárias de energia elétrica chantageiam o governo. Ameaçam degradar os serviços e soltar em cima da nação petista o fantasma da quebra de contratos. Quem está quebrando contratos são as empresas. Se o governo não disser com todas as letras que a retomada da concessão é uma alternativa séria e decente, ele (e os consumidores) serão tungados por mais uns dez anos, até que a Viúva seja convidada a ficar com a conta. Foi assim nos anos 70, quando a ditadura se viu obrigada a engolir a empresa que nos anos 20 pertencera a Percival Farquhar (Tony Ramos) e será assim amanhã. O governo não deve ter medo da palavra reestatização. As concessionárias é que precisam temê-la. É falsa idéia de que a saída da EDF do Rio (ou de qualquer outra elétrica de qualquer outro lugar) é ruim para o país. Foi o raciocínio de que era bom para o país trazer a EDF para o leilão da Light que contaminou a concessão. A encrenca de hoje nasceu em 1996”. coluna@pedroporfirio.com

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

As disputas que mobilizam os espertos da corte pelo controle dos podres poderes

Na presidência do Senado, Sarney ganhará asas para tentar reverter no tapetão a derrota da filha nas eleições do Maranhão
“Da comparação entre os países resulta que, levando-se em conta os seus diferentes níveis de riqueza, tanto em termos da renda per capita quanto do nível do salário mínimo, o Brasil é, entre os estudados, aquele em que o Congresso mais onera o cidadão.” Relatório da organização “Transparência Brasil”
Nas rodas da corte, só se fala nas escolhas dos novos presidentes da Câmara Federal e do Senado. É um disse-me-disse de fazer inveja. Na disputa do Senado, em que pontifica logo o manjado Renan Calheiros, líder do PMDB depois de tudo que dele se soube, a decisão poderá estar nas mãos de um advogado, patrono de 16 senadores encrencados com a Justiça. Na Câmara, mesmo com a adesão de 14 dos 20 partidos com deputados federais, o peemedebista Michel Temer faz das tripas coração para vencer no primeiro turno. Teme que a disputa no Senado descomprometa os petistas, que se consideram logrados pela indicação do velho senador José Sarney, todo poderoso desde os tempos em que foi presidente da Arena, o “partido” criado pela ditadura. Dá-se uma importância enorme a essas disputas, como se pesassem alguma coisa nos destinos de uma República pouco republicana e de uma democracia cravada pelo carma da hipocrisia ampla, geral e irrestrita. Longe do povo O povo nem se toca com essa briga típica de uma corte deslumbrada. Mas não é pra menos. O povo mesmo não se toca nem com as grandes decisões, tal o alcance profundo do vírus da alienação. Prefere ligar-se às futricas do “Big Brother”, para o qual contribuiu com 29 milhões de ligações só no primeiro “paredão”, o que, como observou o competente jornalista José Nêumanne Pinto, proporcionou a arrecadação de R$ 8 milhões e 700 mil só na primeira das 17 eliminações programadas. Temos, portanto, uma patética constatação de que tudo está “no preço”. Nem o espetaculoso Fórum Social Mundial, que tomou conta de Belém e ouviu juras patrióticas de alguns presidentes deste lado do equador, pode ser assimilado como senha compensatória. Por melhores que sejam as intenções dos seus organizadores, seu formato circense presta-se mais a uma catarse de enfeitiçada alquimia existencial e desdobramentos pífios. Quando me deparo com o exagerado noticiário sobre essa guerra pelos comandos das redundantes duas casas do Congresso vou fundo e chego à conclusão de que tal pirotecnia faz parte da empulhação que mantém o povo passivamente enganado pela idéia de que o País vive sob um regime democrático. Os 81 senadores e 513 deputados federais alojam-se nos píncaros de um nirvana infenso aos maus presságios e às crises. Estão eles no proscênio de um palco iluminado, que dividem também com onerosas assembléias legislativas e câmaras municipais, numa caricatura disforme de um suposto poder legislativo. Para as casas legislativas, são generosas e fartas as disponibilidades de dinheiro público, em função do que o mandato de cada parlamentar custa uma grana preta aos cidadãos. Parlamentares caros Foi o que demonstrou um levantamento da organização Transparência Brasil realizado em 2007: “Com um orçamento de R$ 6.068.072.181,00 para 2007, o Congresso brasileiro (compreendendo Câmara dos Deputados e Senado Federal) gasta R$ 11.545,04 por minuto. Só é superado pelo dos Estados Unidos, sendo quase o triplo do orçamento da Assembléia Nacional francesa. O mandato de cada um dos 513 deputados federais custa R$ 6,6 milhões por ano. No Senado, o mandato de cada um de seus 81 integrantes custa quase cinco vezes mais, R$ 33,1 milhões por ano”. O trabalho, que teve boa repercussão na época, mas não deu em nada e acabou entrando para o folclore político, ressalta: “Para comparação, o custo direto de cada membro da Câmara dos Comuns britânica (incluindo, como na Câmara brasileira, salário, auxílios diversos e estipêndios pagos a assessores de gabinete) é de 168 mil libras por ano. Ao câmbio de 3,78 reais por libra, isso corresponde a pouco mais de R$ 600 mil por ano. Ou seja, cada deputado federal brasileiro consome mais do que o dobro de um parlamentar britânico – o qual vive num país em que a renda per capita e o custo de vida são muito superiores aos do Brasil”. Fique claro que a apropriação direta das verbas oficiais não é tudo que move os nossos briosos parlamentares. O seu poder de fogo pode render muito mais. Que o diga a “bancada ruralista”, que recentemente conseguiu fazer o governo remeter para as calendas a enorme dívida do agro-negócio com o Banco do Brasil e com o próprio erário, num volume superior a todo o orçamento anual do Ministério do Desenvolvimento Agrário, responsável pelo maior logro do governo Lula, a prometida reforma agrária. Nossos parlamentos podem ser medíocres e lentos enquanto casas de leis, mas são verdadeiros arsenais atômicos quando querem realizar os sonhos de consumo dos seus titulares. Na eleição do Senado, o que leva um senador declaradamente cansado a disputar sua presidência é principalmente o desejo de recuperar no tapetão o governo que perdeu nas urnas, quando sua filha, também senadora, foi derrotada por um dos homens mais honrados que já passaram pela vida pública brasileira, o governador Jackson Lago. Do alto daquele cadeirão azul, com o controle do Congresso, o chefe da oligarquia derrotada terá um acesso muito mais franqueado aos ministros do TSE, que ganharam mandatos eternos nas altas cortes por nomeações do Presidente da República. Como ele, cada chefe de casa legislativa tem à disposição recursos ilimitados e uma frequência garantida numa mídia que embarca no mesmo deslumbramento de uma capital federal concebida para ser uma fonte inesgotável de exuberantes festas e fantasias. Enquanto abre seus espaços para disputas menores, a nossa mídia serve os condimentos preciosos ao prato da mistificação e da alienação, que enxerta na vida pública os maus hábitos que tanto estragos causam a uma nação de futuro imprevisível. coluna@pedroporfirio.com

domingo, 25 de janeiro de 2009

A paz do “fósforo branco” que desafia Barack Obama

“Semana passada, vi as nuvens de fósforo branco sobre as quais os médicos escreveram e as quais condenaram. De um prédio alto na cidade de Gaza, a vista panorâmica mostrou uma linha de veneno que se espalhava, a leste. O químico queima profundamente, no osso, dizem os especialistas. É considerado um instrumento de guerra ilegal, que não pode ser usado em áreas civis. Ainda assim, os registros de seu uso crescem: uso pesado na região Khosar, leste de Khan Younis, e no noroeste de Gaza, e na parte leste de Jabalyia, Sheik Zayid, Sheik Rajleen, al-Zaitoun, em todos os lugares”. Eva Bartlett, canadense, vinculada à defesa dos direitos humanos. Se já é difícil imaginar o que Barack Hussein Obama poderá fazer para concretizar suas promessas de mudança nos Estados Unidos, mais imprevisível ainda será avaliar sua capacidade de decidir em relação ao Oriente Médio, sob controle de um estado biônico programado para o genocídio a varejo e a expansão a ferro e a fogo. Disposição de fazer algo diferente ele já demonstrou. Logo que assumiu ligou para o primeiro-ministro de Israel e o presidente da Autoridade Nacional Palestina. No mesmo momento, reafirmou a disposição de retirar as tropas norte-americanas do Iraque num “prazo responsável”. Dois dias depois da posse, designou o ex-líder democrata no Senado, George Mitchell, como seu representante pessoal com poderes de negociar um plano de paz para a região. Teve o cuidado também de confiar a Richard Holbrooke, ex-embaixador na ONU, a tarefa de trabalhar na conturbada região do Afeganistão. Era o que lhe cabia fazer na condição de expoente de uma nova política externa nos Estados Unidos da América do Norte, país que acumula uma gigantesca dívida moral com o resto do mundo em face de sua irrefreável sanha de poder e dominação. Os limites visíveis Mas o que advirá desse novo olhar adotado por um governante atípico, que emergiu da noite para o dia como a catártica resposta de um povo manipulado séculos a fio por uma elite ambiciosa e inescrupulosa? Por tudo o que vivemos até estes dias traumáticos, é-me de todo impossível acreditar que se consiga alguma coisa em termos de paz num contexto em que o Estado imposto está armado até os dentes, com a disposição de estabelecer seus tentáculos por todo o território que vai do Mediterrâneo ao Iraque, segundo sua “predestinação bíblica”. Pelas funções de comandante-em-chefe de um potência forjada na dominação de outros países, Barack Obama tem limites muito visíveis no desempenho de seus projetos. Tais limites são guardados por um sistema de força, no qual as grandes empresas são ostensivamente hegemônicas em relação ao poder público. Este é apenas uma ferramenta dos interesses particulares e pode muito pouco, na medida em que até o banco central, regulador da economia, é uma sociedade privada. Uma visualização mais acurada demonstrará a existência de condicionamentos tão sedimentados que não seria exagero apontar Estados Unidos e Israel como duas faces da mesma moeda. Isto porque, como já demonstrei anteriormente, o estado sionista não é uma obra de judeus, mas de ambiciosos homens de negócios, que adotaram o livro de Theodor Herz, o sonhador austríaco, como peça de camuflagem de um projeto iniciado 14 anos antes de sua publicação. Não é por acaso que existem ainda hoje mais judeus nos Estados Unidos do que no Oriente Médio, apesar da proclamação de David Ben-Gurion, o pai do estado sionista, de que esse país criado na terra dos outros só cumprirá sua finalidade histórica no dia que todos os 17 milhões de judeus forem para lá. Dentro do jogo de poder que resultou da herética decisão da ONU de criar um Estado soberano ferindo a soberania dos outros, há conflitos internos insanáveis. Pode até ser que uma meia dúzia de judeus idealistas tenham acreditado num projeto de grande alcance para a humanidade, com a produção de uma verdadeira revolução social na área subjugada pelos senhores feudais e chefes tribais que escravizavam o próprio povo e compunham docilmente com as potências estrangeiras, fossem os muçulmanos turcos ou os cristãos do Ocidente. Estado perverso Mas o Estado de Israel que vingou é um monstro sobre o qual não vai ser um presidente sonhador que terá autoridade. Ao contrário, segundo o projeto multifacético nutrido por interesses econômicos ilimitados e ressentimentos enraizados, não restará a Barack Obama senão a ilusão de tréguas transitórias. Na origem desse estado imposto há um complô denunciado pelo autor judeu Barry Chamish como fruto da determinação das “famílias inglesas judaico-maçônicas como os Rothschilds e Montefiores, que forneceram o capital para construir a infra-estrutura para a onda de imigração antecipada” e contribuíram para criar um clima que levasse os judeus europeus a se mudarem para a região cobiçada. Aí cabe reconhecer que o sentimento de combate já motiva os palestinos, submetidos há 60 anos de esbulhos, privações e todo tipo de sofrimento e humilhação. Não adianta o galileu Mahmoud Zeidan Abbas sentar para conversar com os genocidas que há décadas massacram o povo palestino. Ao seu povo, de índole pacífica, não resta outra alternativa senão correr atrás do prejuízo em ações extremas, que incluem o sacrifício da própria vida no transporte de bombas amarradas ao corpo. Foram tantas e tais as perversidades cometidas pelos falcões israelenses que hoje nem o carismático Yasser Arafat, morto em circunstâncias suspeitas, teria como conter a ira de um povo que, sem exceção, veste luto pela morte de um ente querido, atingido pelos petardos letais da poderosa aviação sionista. Em seu saco de maldades, os celerados de Israel foram muito além dos nazistas, seus algozes, responsáveis pelo sentimento de repasse da crueldade. A violência contra a população árabe não está expressa apenas nas milhares de bombas despejadas indiscriminadamente. Água em conta-gotas O que o governo sionista fez com a água da região é uma demonstração de tortura explícita. Israel simplesmente apropriou-se de todas as reservas hídricas, incluindo as fontes do rio Jordão junto as colinas de Golã, tomadas da Síria em 1967. Na década de 90, o professor Haim Gvirtzman, da Hebrew University, admitiu que dos 600 milhões de metros cúbicos de água retirados anualmente de fontes na Judéia e Samaria, os israelenses ficavam com mais de 500 milhões. Já então, Israel detinha o monopólio dos recursos hídricos de toda a região, retendo 90% e liberando apenas o mínimo necessário para o consumo urbano dos palestinos. Esse monopólio inclui a bacia do rio Jordão (o alto Jordão e seus tributários), o mar da Galiléia, o rio Yarmuk e o baixo Jordão, bem como as águas subterrâneas de 3 grandes sistemas de aqüíferos: o da Montanha (totalmente sob o solo da Cisjordânia, com uma pequena porção sob o Estado de Israel), o de Basin e o Costeiro que se estende por quase toda faixa litorânea israelense até Gaza. Como pode um presidente de um país cujos magnatas são da mesma cepa dos israelenses questionar qualquer uma das violências consumadas para eliminar os legítimos donos da terra que usurparam? Que tipo de paz ele poderá obter enquanto os palestinos, legítimos donos da terra, já não podem nem mais usar a própria água para o seu cultivo? Ou será que essa crise depressiva reduziu o poder de fogo dos donos do mundo, abrindo o flanco do mais irresistível lobismo? coluna@pedroporfirio.com

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Sob o signo da dúvida, sem perder a esperança jamais

“Os gastos militares dos Estados Unidos - líder do ranking, seguido de Grã-Bretanha, França, China e Japão - chegaram a US$ 528,7 bilhões em 2006, quantia equivalente a 46% do conjunto dos gastos militares no mundo”. Relatório anual do Instituto Internacional para as Pesquisas sobre a Paz de Estocolmo (Sipri) Dê no que der, a ascensão do negro havaiano Barack Hussein Obama à Casa Branca já documentou um câmbio profundo na cabeça do povo dos Estados Unidos da América. O que acontecerá a partir de hoje, após o feriado que reverencia o pastor negro Marthin Luther King, vai depender das circunstâncias que envolvem o mundo capitalista na mais aguda hora da verdade, cuja matriz é o outrora esfuziante e festejado sistema sediado em Wall Street. Ao escolher o carismático senador que emergiu do “baixo clero” há menos de um lustro, o eleitor norte-americano renegou antigas canções, desprezou velhos mitos e ainda desconjurou exemplarmente a paranóica administração de guerra alimentada pela indústria bélica que sempre teve nos Bush bem remunerados e fiéis escudeiros. A gestação política do filho e enteado de muçulmanos se deu no ventre da apologia da guerra como surrada arma de dominação de um mundo que não se resolveu com o fim da bipolarização entre dois modelos de Estado. Como soi acontecer, o desmoronamento do bloco sob hegemonia da extinta União Soviética irradiou-se entre os países ocidentais, prisioneiros de uma economia alicerçada no fabrico de artefatos bélicos. Os oito anos de George Walker Bush elevaram aos píncaros os níveis de adrenalina de um povo que internalizou direcionados sentimentos de confronto. À falta de pátrias a derrotar como ingredientes de vidas mentalmente dosadas, o sistema elevou uma meia dúzia de fanáticos e alguns governos desaforados ao status de ameaças terríveis à segurança nacional dos Estados Unidos da América. Obama surgiu na senda das “recorrentes” ações afirmativas que produzem efeitos indolores nos tecidos sociais. Ele não foi apenas um pretendente audacioso ao comando da ainda maior potência mundial. Antes, até mesmo pelo jogo baixo dos seus adversários, que chegaram a questionar sua certidão de nascimento, seu nome ganhou lastro na catarse que contaminou uma sociedade punida pela conversão da informação em condimento da indústria do entretenimento, da hipocrisia e da idiotice. Uma nova carta de intenções Dê no que der, Barack Hussein Obama é uma nova carta de intenções assinada por milhões de desiludidos, a maioria dos quais optou por ele muito antes da débâcle dos portentosos, que saíram de pires nas mãos pedindo uma ajuda pelo amor de Deus ao erário que sempre desprezaram, não obstante o hipertrofiado déficit de 1 trilhão de dólares que sujeita o tesouro do Tio Sam a perigosos negócios no mercado de títulos públicos. O filho de um neurótico queniano tem nas mãos, a partir desta terça-feira, 20 de janeiro de 2009, mais do que o desafio de uma sociedade em que milhões de cidadãos, pretos e brancos, passaram a conviver com a paranóia da incerteza. O sistema treme nas pernas e ninguém sabe como sair dessa enrascada sem rasgar o véu. Ao contrário de quebradeiras pretéritas, essa de agora fez-se multinacional, causando perdas e danos tão clamorosas que até os catadores de papel no Brasil foram duramente golpeados pela queda dos preços dos recicláveis. Obama assume num dia de festa e dúvidas. Ele ainda encarna os resíduos de esperança que são lenitivos de americanos da beira às profundezas do abismo. Ainda floresce como o irmão-coragem que sustará o abuso da indústria de guerra e sentará à mesa com os mais amaldiçoados dos novos “inimigos perigosos” fichados pelo Pentágono, Cia e similares. Mais é preciso multa calma nessa hora. Numa circunstância como essa, o mundo vira um grande alçapão onde toda lógica é exercitável. O presidente do “câmbio” proclamado tem paradoxalmente poucas e muitas saídas. Às voltas com a maior taxa de desemprego das últimas décadas e com um amargo clima de sonho finado dentro do seu país, herda também a pasmaceira de uma política externa pueril, cujas marcas expostas mais irresponsáveis e desgastantes são o endosso incondicional ao jogo pesado de Israel e a desastrada invasão do Iraque. Quando tudo é possível Tudo de bom e de frustrante pode-se esperar do novo morador da Casa Branca. Em nenhum país do mundo o câmbio real ocorre pela simples percepção de um líder. Numa sociedade corrompida pelas vantagens de superfície que satisfazem seus sonhos de consumo quem decide, mesmo, permanece à sombra com seus olhos azuis e seus dentes afiados. A mudança real só acontecerá se, como parece à distância, o sistema desligar os aparelhos pelos quais respira hoje. Quem quiser dar palpites sobre o governo que se instala ao norte do equador, quando um frio polar se contrapõe às chamas ardentes dos peregrinos da nova esperança, não pode perder de vista que o afro-descendente é, antes de tudo e por tudo, um fervoroso cidadão dos Estados Unidos da América. Pelos cordéis de que disporá como titular de um país ainda poderoso, só nos resta torcer para que o recado das urnas se materialize com a devida brevidade. coluna@pedroporfirio.com

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

A paz impossível num país imposto pela fraude e pela força

“VEJA – O que será preciso para que Israel se integre na comunidade das nações pacíficas do mundo? DAVID BEN-GURION – Primeiro, que todos os judeus do mundo venham para Israel; em segundo lugar, que os desertos que cobrem 80% da área do país sejam fertilizados; e, em terceiro, a paz com os árabes. Somente depois de atendidas essas três condições, Israel terá nascido de verdade”. Entrevista concedida em maio de 1973, sete meses antes da morte de Ben-Gurion, “o patriarca de Israel”, no “retiro” a que se recolheu a partir de 1970. “Foi nessa assembléia, em Genebra, que ele (Arafat) ofereceu um ramo de oliveira aos “primos israelenses”, em nome da paz. Todo mundo aplaudiu, mas, no outro dia, mesmo o Haaretz, o mais liberal jornal de Israel, deu apenas uma nota e em tom irônico, dizendo ser “estranho” que Arafat, de um lado, segurava o ramo de oliveira e, do outro lado, tinha um revólver. Mandei uma carta para o Haaretz, publicada dois dias depois, para observar que, se ele tinha o revólver, nós tínhamos a bomba atômica”. Gershon Knispel, artista plástico judeu, conhecido e consagrado internacionalmente (Entrevista à revista “Caros Amigos” 13/07/2002). Deus queira que eu esteja redondamente enganado, mas pelo que me foi dado a ver e a pressagiar nas profundezas infernais do Oriente perdido, ainda há muito sangue a jorrar naquela que chamam inadvertidamente de “terra santa”. Falar de paz por lá é tentar enxugar gelo, eis que são ínvios os macabros caminhos percorridos e a insensatez sentou praça como ingrediente de um destino apocalíptico que se vislumbra a olho nu de uma corrosiva metástase a prova de qualquer morfina. Perdoe-me as imagens funestas, mas para onde quer que deitemos o olhar só há morticínios à vista. Mais trágico do que contemplar a exibição de mortos em pencas numa das maiores concentrações humanas do planeta é imaginar a inevitável extensão da violência por toda uma região minada pela tétrica mescla de ódios milenares, crenças manipuladas e ambições desmedidas e destituídas de qualquer resquício de escrúpulo elementar. Não há mais trégua que dure para além do por do sol. Digo isso mesmo depois da proposta do Hamas de um cessar-fogo por um ano a partir de agora. O clima de beligerância é a única fórmula de que dispõe o comando de um estado com defeito de nascença, até como recurso para atravessar incólume a maior de todas as crises porque já passou o arruinado sistema capitalista internacional. A guerra ali é o pressuposto da sobrevivência de um modelo dependente dos dízimos recolhidos por todos os recantos do mundo. É também, em compensação, o alimento de uma indústria tão rendosa quanto vulnerável. Sem o sangue dos inocentes, sem a sombra do medo pasteurizado, o estado imposto se desintegra, abrindo um buraco abismal que poderá ser o sepulcro de um país alicerçado na conquista e na dominação. Gaza em chamas é apenas o espelho de um pesadelo sazonal. Quem aperta o gatilho não o faz por impulsos passionais, sede de vingança ou destempero emocional. Antes, cada bomba lançada, inclusive o fósforo branco que desfigura a pele e esteriliza carradas de monstros humanos, é resultado de um milimétrico cálculo processado por mentes frias e racionais, dotadas de informações e propósitos dispostos estrategicamente. Sionismo colonizador Está mais do que provado: a adoção como manual de sobrevivência do minúsculo opúsculo do judeu assimilado que sonhava ser um discreto advogado/jornalista no confuso império austro-húngaro foi apenas o mote da legitimação de uma nova cruzada colonial de cartas marcadas, na qual seus patrocinadores operavam com informações privilegiadas sobre o potencial petrolífero do Oriente Médio. “O Estado Judeu”, o modesto livro de Theodor Hertz foi publicado em 1896. Já em 1882 os Rothschilds e o barão Maurice de Hirsh descarregavam a primeira leva de judeus russos e poloneses que se estabeleceriam na região da Galiléia com tudo pago por uma organização que se tornaria em 1900 a Jewish Colonization Association, uma companhia para o estabelecimento de judeus, criada na Inglaterra, pelo Barão Hirsh, dedicada à infiltração programada, principalmente na baixa Galiléia. Os que bancaram a implantação dessas colônias não o fizeram como JUDEUS, mas como homens de negócios de olho no subsolo das terras de onde um povo nômade seguiu o destino da diáspora há dois mil anos – isto é, mil e quinhentos anos antes da colonização do Brasil e de toda a América. Além dos Rothschild e do barão Hirsh, associaram-se nessa empreitada os banqueiros Goldsmid, Cassel, Macatta, Goldshimidt, Reinach, Cohen e Philipson, todos da Europa Ocidental. O plano de infiltração foi discutido em reuniões secretas em Bruxelas, organizadas por Franz Philipson (1852-1929), banqueiro e rabino, dono de negócios em várias partes do mundo. O banqueiro-rabino concebeu também um “plano B”, com a emigração de judeus russos para a Argentina e Brasil. Aqui, onde Philipson construía uma estrada de ferro no centro do Rio Grande do Sul, o barão Maurice de Hirsh instalou em 1891, nas terras doadas em Santa Maria da Boca do Mato, a primeira colônia judaica, com 60 famílias trazidas da Bessarábia, seguindo-se outro grupo de 100 famílias, vindas da Província russa de Moguilev. Já fazia mais de um século desde quando, em 1728, um grupo de judeus espanhóis e portugueses, expulsos de seus países pela Inquisição, comprou um terreno em Manhattan, Nova Iorque, para erguer a primeira sinagoga da cidade e consolidar a grande migração judaica para as Américas, preferidas pelos “perseguidos” da Europa Ocidental. Longe do “lar nacional” Essas manobras espelham a natureza do povo hebreu, cujo espírito errante persiste até hoje, o que acentua a alegação fraudulenta do Estado de Israel, onde vivem apenas 35% dos judeus do mundo, não obstante a inédita Resolução da ONU, aprovada sem qualquer fundamento jurídico, proclamando “o direito dos judeus” de criarem um país em terras alheias. A sobrevivência da diáspora demonstra que a proposta do resgate “bíblico” não foi levada a sério pela maioria dos judeus, em maior número nos Estados Unidos do que na terra da colina de Sion. O próprio Theodor Herzl, o pai da idéia, preferiu ir ficando pela Europa, apesar do pavor que lhe causou a eleição, em 1895, de Karl Lueger, um antissemita declarado, para o governo de Viena. Trocando em miúdos: decorridos 60 anos da imposição do estado racial aos legítimos donos da terra palestina, não há fundamento moral para a sua defesa em nome de “um refúgio seguro” para um povo “perseguido” reunificar-se. Tratou-se, portanto, de outro objetivo, o da usurpação na qual os judeus entram como testas de ferro dos ferozes interesses imperialistas supra-étnicos. A paz impossível Um país instalado pela força na terra dos outros jamais poderá falar em paz. Disso sabem, em primeiro lugar, os judeus que preferiram ficar espalhados por todas as paragens onde inexiste qualquer constrangimento ao seu convívio. Desconforto há, isso sim, como pensa a maioria dos judeus europeus, em ter de assimilar a política opressora adotada em Israel em nome da “causa”. Assim o demonstrou uma pesquisa do jornal britânico “The Guardian”, publicada em 2002. Ao escrever seu livro e fundar uma organização sionista que se reunia na Basiléia, Suíça, Theodor Hertz temeu não ser levado a sério. Refletindo o ceticismo despertado no primeiro momento de sua proposta, conforme artigo do competente jornalista Zevi Ghivelder na revista “Morasha”, um rico industrial judeu declarou: "é claro que apóio a criação de um estado judeu. contanto que eu seja o embaixador na Áustria". Vale lembrar que Hertz, falecido aos 44 anos, vítima de tuberculose, quase foi linchado no 6º Congresso Sionista, realizado em 1903, um ano antes de sua morte prematura, ao propor a instalação do Estado Judeu em Uganda, numa vasta área oferecida pela Inglaterra. Já com a saúde fragilizada, ele fracassara nas negociações com os turcos para reaver a “terra santa”. Àquela altura, ele já havia perdido o controle do movimento sionista para os banqueiros que foram seduzidos pelos relatos do proeminente judeu lituano Eliezer Ben Yehuda (1858-1922), pai do hebraico moderno, que foi morar em Jerusalém em 1881 com sua esposa Deborah, e fez chegar ao Barão de Rotshschild informações preciosas sobre os vinhedos da Galiléia e sobre uso por lá da mesma substância inflamável descoberta na Pensilvânia em 1859. Um ano antes da sua chegada à região, havia jorrado petróleo em Meca, mas os árabes não sabiam o que fazer e temiam a cobiça estrangeira. Tenho muito mais a falar, até porque mergulhei fundo nesse assunto apaixonante e tratado com incompetência por um mídia que, em sua quase totalidade, está abaixo do nível de pobreza intelectual tolerável. Espero que você entenda o porque da minha dedicação a um assunto tão explosivo e ameaçador para toda a humanidade. coluna@pedroporfirio.com

domingo, 11 de janeiro de 2009

A atávica divisão dos árabes na esteira do avanço sionista

Esses mapas mostram o avanço de Israel sobre território árabe palestino desde 1946 (clique na figura para ampliá-la)
"Os países árabes poderiam fazer muito contra Israel, mas como são divididos, não conseguirão fazer nada". Mustafá Kamel al-Sayed, professor de ciências políticas na universidade de Cairo. No contexto dos acontecimentos que levaram ao massacre de Gaza não se pode deixar de lamentar as posições ambíguas dos países árabes em relação à Palestina e a instalação do Estado de Israel em condições diametralmente opostas ao discurso do “Lar Nacional Judaico” - e cumprindo um papel de “cabeça de ponte” dos interesses econômicos ocidentais na região onde jorra petróleo por todos os lados. A grosso modo, não seria exagero afirmar que o povo palestino não conta, e quase nunca contou, com uma solidariedade efetiva dos governantes árabes, com raras exceções, assim mesmo pontuais e ocasionais. Pior: divididos há séculos em ramos do islamismo e subjugados pelas potências coloniais – da Turquia aos Estados Unidos, passando pela Grã Bretanha e França - os árabes não se entendem nem nas horas mais difíceis. Como agravante dessas desavenças alimentadas pelo Ocidente, o povo árabe ainda absorve as contradições do mundo muçulmano. O Irã não é árabe, mas interfere sistematicamente nas suas questões internas, como sede da maior concentração xiita do mundo. Nesses acontecimentos de agora, o comportamento do governo do Egito tem funcionado como uma espécie de linha auxiliar de Israel, na medida em que mantém fechadas as suas fronteiras com Gaza, impedindo a fuga e a ajuda a seus habitantes. Arábia Saudita, os ricos emirados árabes e o governo títere do Iraque parecem igualmente indiferentes à sorte dos seus irmãos palestinos, como se partícipes de uma grande orquestração monitorada pelos Estados Unidos. A própria postura da Autoridade Nacional Palestina, controlada pelo Al Fatah, vem sendo vista como suspeita pelos que consideram o enfraquecimento do Hamas, hoje majoritário na região, como do seu interesse. São confusas igualmente as posições da Síria, Líbano e dos países árabes do norte da África, especialmente a Argélia e a Líbia, que em outros momentos ofereceram suporte aos palestinos. Estes, acossados por uma situação de extrema penúria e pelas ações brutais de Israel, também estão divididos. O crescimento do Hamas se deu no bojo de confrontos tão radicalizados que hoje não se pode falar de uma única Palestina. Ironias da história A história mostra que a ocupação dos territórios árabes pelos sionistas não teria ocorrido sem a complacência de algumas lideranças árabes, servis aos Estados Unidos e interessadas tão somente em tirar proveito do ambiente de hostilidades. Todo mundo sabe que as primeiras colônias judaicas financiadas pelo Barão de Rothschild foram implantadas com a compra de terras dos senhores feudais, alguns “chefes tribais”, que viviam do trabalho escravo dos camponeses pobres. Naqueles idos, a teia de interesses heterogêneos ensejava mudanças de atitudes surpreendentes, como num intrincado jogo de múltiplas possibilidades. Enquanto o Barão de Rothschild estava de olho no potencial econômico da região – do petróleo aos vinhedos da Galiléia e das colinas de Golã – os emigrantes de origem russa e polonesa – pioneiros no povoamento de encomenda - sofriam forte influência do movimento sionismo socialista, liderado por David Ben-Gurion, que se instalavam na Palestina em sedutores kibbutzs, propriedades coletivas que serviram de atrativos para os judeus pobres, principalmente os que viviam no início do Século XX na Rússia tzarista. O jogo de alianças Nesse jogo de esperteza, Ben Gurion e os Rothschild tinham um pacto de colaboração mútua, graças ao qual o milionário judeu obteve por carta dirigida a ele a famosa “Declaração Balfour”, com a qual o ministro britânico do Exterior, Arthur James Balfour, afirmava textualmente: “O governo de Sua Majestade encara favoravelmente o estabelecimento, na Palestina, de um Lar Nacional para o Povo Judeu, e empregará todos os seus esforços no sentido de facilitar a realização desse objetivo”, entendendo-se claramente que nada será feito que possa atentar contra os direitos civis e religiosos das coletividades não-judaicas existentes na Palestina, nem contra os direitos e o estatuto político de que gozam os judeus em qualquer outro país”. Essa declaração, ainda em pleno transcurso da Iª Guerra Mundial, quando a Palestina e os árabes estavam sob domínio da Turquia,foi assinada em 2 de novembro de 1917, quando os comunistas haviam acabado de assumir o poder na Rússia. Desde aquele então, os russos viam com bons olhos a infiltração dos judeus na região petrolífera, contando com eles como aliados diante da futura partilha dos países árabes entre a Grã Bretanha e a França. Enquanto os judeus agiam com frieza e destreza, pavimentando seu caminho, os árabes não sabiam o que fazer, até porque as companhias petrolíferas também já haviam realizado sua própria partilha, criando o oligopólio das sete irmãs, de que falei anteriormente. Essas empresas prosperaram graças ao suborno das lideranças árabes, especialmente de sua “nobreza”. Já os judeus pareciam mais ágeis nas relações com os países que tinham interesse na região. Bem Gurion, que encabeçava a milícia Haganá, encorajou os jovens a se alistarem no Exército britânico, integrando uma tropa de elite conhecida como “Palmach”. Ao mesmo tempo, em 1937, nascia outra milícia terrorista judia, a “Irgun Zvai Leumi” (Organização Militar Nacional), fundada pelo sionista e comunista Vladimir “Zeev” Jabotinsky, natural de Odessa, na Rússia, com o objetivo declarado de combater os ingleses. Esse grupo resvalaria para a direita quando Menachim Begin, assumiu o seu comando, com a morte de Jabotinsky. Uma terceira milícia terrorista judia, a “Gang Stern”, fundada em 1940 por Abraham Stern, aproximou-se dos nazistas alemães, através da Itália, conforme reportagem publicada na revista FINAL CONFLICT: “em Setembro de 1940, a Gang Stern entrou em negociações com Mussolini, através de um emissário, e em Janeiro de 1941 Stern enviou, pessoalmente, um agente a Beirute (controlada por Vichy) para entregar uma carta aos representantes do Reich”. Derrota na divisão Embora ao final da II Guerra existissem 1 milhão de árabes para 600 mil judeus na Palestina, prevaleceram as estruturas clandestinas e as ligações com as potências que patrocinaram o Estado de Israel, cada uma com seus propósitos. No primeiro grande confronto, em 1948, enquanto as três milícias judias estavam unidas em torno dos 30 mil “palmachs” treinados pelo capitão inglês Charles Ord Wingate, os árabes, comandados pelo general inglês “Glub Pachá”, não se entendiam. Os governantes árabes sabiam que os grupos terroristas tinham poucas armas. Certos de que venceriam, já brigavam entre si para saber quem ia tomar conta da Palestina depois de “lançarem os judeus ao mar”: Ibn Saud, da Arábia Saudita, os reis irmãos Abdullah, da Transjordânia, e Faisal, do Iraque, Farouk I do Egito e o presidente sírio Shukri al-Quwatli tinham seus próprios projetos de anexação. Eles não contavam com uma carta que Ben-Gurion tinha na manga: na “hora h”, o líder soviético Joseph Stalin, um dos patrocinadores do Estado de Israel, providenciaria um razoável arsenal de armas russas e tchecas, com as quais os sionistas tiveram sua primeira grande vitória e, ato contínuo, trataram de anexar boa parte do Norte de Israel, de maioria árabe. Foi como descreveu Pedro Dória:“enquanto havia razoável união judaica e um objetivo comum, o mesmo não houve entre palestinos. Havia dois árabes para cada judeu na Terra Santa, mas não conseguiram fazer com que a vantagem numérica tivesse resultado prático. Nem todos seguiam o mufti e as aldeias não se relacionavam. Divididos, não tiveram chances”.
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