Domingo, 19 de Julho de 2009

Antes que eu me esqueça: aos petistas decentes, com carinho


"Lula deixa uma grande frustração no que se pensava ser uma de suas maiores habilidades: a política partidária. Lula nada fez para evitar a desconstrução e a perda da autoridade moral do Congresso. Os partidos estão mais fracos e deteriorados do que antes da sua posse. E é papel do chefe de Estado fazer com que as instituições como o Parlamento sejam vigorosas".
Senador Tião Viana (PT Acre)
Antes de escrever qualquer outra matéria, gostaria de esclarecer alguns pontos suscitados a partir de comentários de alguns destinatários das minhas colunas. Falo especificamente de três petistas (ou simpatizantes) que criticaram minhas opiniões, escrevendo:
"Cara, você não cansa né?Gostaria de ver você atacando gente do naipe de Paulinho da Força e Geraldo Vinholi, será que estes não são caciques do seu querido PDT, partido que em São Paulo não passa de uma legenda de aluguel".Daniel Souza
"Durante dois anos, diariamente, vcs tentaram acabar com o PT e com o governo do presidente Lula, nada conseguiram. Vocês querem ocupar politicamente o lugar do PT, mas deveriam trabalhar para serem mais um partido de esquerda no Brasil e não têm capacidade para fazê-lo, por isso, se preocupam tanto com o PT. Os inimigos da classe trabalhadora não é o PT e sim o PSDB, DEM, os ruralistas, pecuaristas, latifundiários, banqueiros, etc. Sugestão: enquanto vcs. não se organizam, nem vão para o poder, que tal se preocuparem em bater, politicamente, nos representantes da burguesia"?
Eloísa Helena
"Por mim esta CPI não sai. Frase histórica do caudilho Leonel de Moura Brizola dita no processo histórico da instalação da CPI que viria a cassar o mandato do então presidente e pai dos CIAC,s, sugeridos por Brizola e todo o seu PDT.O mais interessante é que passados quase vinte anos esta frase ainda soa na minha cabeça como uma traição num momento histórico tão importante".
Demaclubdosoul
Preferia que o PT fosse coerente
Pelo respeito que devo a todos os que me escrevem, permito-me dizer:Preferia que Lula e o PT fizessem um governo progressista, focado nas suas antigas bandeiras. Governo que encarasse com coragem a necessidade de uma reforma agrária que fixasse milhões de sem terras no campo, defendesse a soberania nacional, assumisse a educação pública a partir das primeiras letras, como propôs Cristóvam Buarque, adotasse como estratégia o programa médico da família, questionasse as privatizações-doações, preservasse e avançasse nas conquistas sociais dos trabalhadores, optasse, como meio de enfrentar a pobreza, a abertura de alternativas de sobrevivência digna, pela existência de opções de trabalho, e desse combate exemplar à corrupção e ao tráfico de influência.
Preferia que o PT tivesse sido coerente: não pelo Lula, cuja verdadeira biografia ainda será conhecida um dia, quando seu enorme poder de mistificação e coação evaporar-se no tempo e no espaço. Mas pelos milhões de brasileiros que jogaram todas as suas esperanças no governo encabeçado por um ex-operário, ex-pau-de-arara, numa ruptura com toda uma tradição de governantes saídos das elites.
O Partido dos Trabalhadores, por seu histórico e pela votação recebida por Lula, teria condições de empreender uma mudança de grande alcance social, fortalecendo ao mesmo tempo os valores da nacionalidade, tal o potencial do Brasil, muitas vezes maior do que de outros países que registram avanços mais ostensivos.
Não pensava no papel carbono
Não podia imaginar que o governo Lula fosse exatamente igual ao do PSDB, com outro figurino e outros personagens. Desde aquele dia 12 de novembro de 2002, quando Lula foi recebido por Bush ainda como presidente eleito, começou a dar sinais de que iria trabalhar sob a tutela dos donos do mundo, opção que se tornou explícita com a manutenção da política econômica e até dos seus executores, que passaram a seguir a bússola do Sr. Henrique Meireles, ex-presidente mundial do Banco de Boston, que fora eleito deputado federal em campanha milionária no Estado de Goiás, justamente pelo PSDB.
A primeira preocupação de Lula, já presidente, foi patrocinar a segunda "reforma da Previdência" (a primeira foi de FHC), com a amputação de direitos e a minimização da aposentadoria para jogar os trabalhadores, principalmente os servidores públicos, nas malhas da previdência privada, tal como aconteceu com os planos de saúde. Com essa reforma, introduziu um patético estupro do direito: o servidor aposentado continua pagando para a Previdência, mesmo fora da ativa.
No decurso do seu governo, Lula foi se distanciando ostensivamente dos antigos discursos em função dos quais seu partido chegou ao governo da República. E foi assumindo claramente os velhos truques e os viciados expedientes dos governantes que combatia de unhas e dentes. As elites financeiras e o agronegócio nunca foram tão paparicados e protegidos.
O patrocínio do ócio remunerado
O receituário adotado como forma de socorrer os enormes bolsões de miséria repetiu as fórmulas assistencialistas mais perniciosas, que vêm desde o "Programa do Leite", ainda na época de Sarney, passando pelas "ajudas" diversificadas no governo FHC, até chegar ao "Bolsa Família", um verdadeiro crime contra seus "beneficiários", cujo escopo essencial é criar um "exército de ociosos dependentes do poder público" convertido em massa de manobra de multiuso.
O governo que tem no PT sua espinha dorsal absorveu as teorias do poder predominantes desde que a República é República. Passou a ser apenas a ponta do iceBerg de um pacto político conservador e continuísta, operando sempre na direção da adequação do país ao sistema internacional, com o sacrifício dos direitos dos trabalhadores, cujas lideranças foram subornadas pela cooptação, e dos interesses nacionais.
Dentro desse acordo, não causa espécie que os principais Estados venham sendo governados por partidos de "centro" (PSDB e PMDB), o mesmo acontecendo com as capitais mais importantes.
A preservação desse quadro já está sendo sinalizada com todas as letras, com a decisão de principalizar a candidatura de Dilma Rousseff a qualquer preço. Até mesmo na Bahia, onde o PT tem o governador, admite-se uma composição caudatária com o PMDB.
A desfiguração das práticas partidárias
O processo de escolha da sucessora de Lula afrontou a história de um partido que realizava discussões em várias instâncias antes de bater o martelo. A escolhida não é a candidata mais indicada para o PT, sob todos os aspectos, até pela total falta de experiência como candidata. E ainda poderá levar a uma acachapante derrota, no primeiro turno, em benefício do PSDB, como se ela tivesse sido imposta ao partido para facilitar o lado dos aliados históricos na social-democracia e no neoliberalismo.
Confinado, o PT jamais cogitou de discutir nomes como o senador Paulo Paim, um dos mais coerentes parlamentares da legenda, ou do senador Eduardo Suplicy, detentor de enorme bagagem e um grande crédito político: foi eleito e reeleito para o cargo em pleitos em que só havia uma vaga ao Senado, justamente no maior Estado do país.
Pelo conhecimento que tenho da história e pela própria vivência, ouso afirmar que causa mais danos ao povo brasileiro aquele que saiu de suas entranhas e pratica as piores políticas com o carisma de sua história, do que os neoliberais de carteirinhas.
Ambos servem aos mesmos propósitos coloniais, mas o partido "dos trabalhadores" e o ex-operário beneficiam-se com as vantagens da identificação com o grosso da população, dominada pela expectativa inercial emanada do presidente "igual".
O presidente Lula não se conformou em seguir as pegadas de FHC na política econômica e no assistencialismo compensatório. Decidiu bancar as práticas desonestas e nocivas no exercício do poder, aliando-se a conhecidos delinquentes, aos quais tem emprestado o suporte de sua popularidade.
O mal de acolitar corruptos
Na hora em que passa a mão nas cabeças de corruptos pilhados em flagrante, Lula fragiliza o mandato popular e desmoraliza a própria democracia, causando uma enorme frustração nos segmentos informados da sociedade e transformando maus hábitos em fatos consumados para o conjunto do povo, que é estimulado a abrir mão dos valores morais e éticos, em nome de uma governabilidade parida no escuro das piores transas.
Dentro desse contexto, que poderei voltar a dissecar, parece mais salutar e mais consequente priorizar, para efeito de combate, aqueles que acabam prestando mais serviços ao sistema internacional e às classes dominantes justamente pela imagem pretérita e pela fantasia diabólica atribuída a seus adversários.
Esse combate a violências morais tão inimagináveis como o apoio a Sarney, Renan Calheiros e Fernando Collor deveria ser travado dentro do próprio partido que tanto se jactou do apego à ética e aos bons costumes.
Fechar os olhos ou procurar justificativas grotescas para tais desvios de conduta é contribuir para um enorme desserviço ao Brasil, ao seu povo e, em particular, a todo o chamado campo progressista, hoje afogado no mesmo mar de lama em que chafurdam larápios irrecuperáveis.
Pense nisso, antes sacar de sua arma.
Vale a pena ver.
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Quinta-feira, 16 de Julho de 2009

A morte cerebral do autodenominado partido dos trabalhadores

Da sedução dos podres poderes à coma depressiva com a perda de identidade
"As doses de formol que estão injetando nos trabalhadores só serão visíveis quando o estado do país for irremediavelmente terminal".
Dayse Amorim Mattos, ex-Varig, comentando minha última coluna.

Aos 29 anos, o Partido dos Trabalhadores está tendo uma virtual morte cerebral. É o que informam fontes fidedignas diretamente da UTI do Hospital da Praças dos Três Podres Poderes de Brasília, Distrito Federal.
Especialistas vindos dos principais centros de avaliação do mundo ocidental e cristão divergem sobre o tempo de sobrevivência vegetativa do partido totalmente acorrentado pelo todo poderoso príncipe operário.
Os norte-americanos da Johns Hopkins University, onde Lula fez em 1973 um curso tão misterioso que não consta do seu currículo, acreditam que por sua origem em laboratório, com as bênçãos de Deus nas sacristias receosas do dia seguinte ao regime militar, as recentes alquimias poderão prolongar a existência da legenda, mesmo com o cérebro irremediavelmente putrificado.
Para eles, a transfusão do sangue recebido de José Sarney, Fernando Collor e Renan Calheiros poderá produzir um milagre: o corpo dispensará as funções do cérebro e o partido se nutrirá da química fisiológica prolongadora de alguns órgãos, especialmente do aparelho digestivo.
Como acham que tempo é dinheiro, os norte-americanos avançaram na manipulação da semântica: dinheiro é tempo, dizem convencidos de que o partido acumulou gorduras vitais no exercício físico do mensalão e de outros passos acelerados na busca da glamorosa vida mansa de invejável esplendor.
Assim também pensam os israelenses, para os quais as recentes injeções de recursos públicos no sistema financeiro e na construção civil gerarão algumas células-tronco que salvarão a vida do partido e engordarão seus dirigentes, fecundando uma espécie de clone do moribundo, ao qual caberá representar a marca registrada, que tanto sucesso fez nos primeiros anos do novo século.
Os ingleses parecem mais prudentes. Às voltas com doença semelhante no seu Partido Trabalhista, acham que só um cérebro de platina, extraída das terras aparentemente indígenas, poderá influir no metabolismo de um grêmio que se esqueceu de tudo o que viveu até os 23 anos.
Todos admitem, porém, que o PT dos barbudinhos e cabeludos não tem mais chances de vida. A única saída será contaminar os outros parceiros do agonizante "campo progressista", de forma a impedir que se revitalizem com o inevitável passamento do partido que entrou em coma ao receber ordens expressas para obedecer cegamente ao mais antigo dos proxenetas da República, dotado de poderes como a onisciência e a onipresença, sobre o qual o popularíssimo presidente baixou o sacrário do homem sobrenatural, que paira acima de qualquer questionamento moral.
Segundo as fontes fidedignas que prometemos jamais revelar, numa coisa os especialistas concordam totalmente: as causas da morte cerebral do Partido dos Trabalhadores estão na alta carga de arrivismo produzida por sua metamorfose, em função do consumo exagerado das drogas dos podres poderes.
Antigos neosindicalistas e tremendões neoesquerdistas absorveram por osmose os solventes do neoliberalismo e os ingredientes do neopatrimonialismo, cegando com os encantos e as facilidades do poder, num Estado que se apropria de 38% do produto do trabalho e os faz evaporar na feérica orgia das ONGs amigas e das empreiteiras agradecidas, enquanto livra a cara das montadoras multinacionais onde tudo começou.
No diagnóstico obtido pela ultra-sonografia, os especialistas verificaram que os petistas meteram a mão nas tetas e nas nádegas da viúva, tornando-se dependentes insaciáveis e incuráveis da sodomia política.
Aprendendo mais do que as quatro operações aritméticas, utilizaram-se da equação das porcentagens, mas embolaram os números, quando recorreram à ajuda de matemáticos como Marcos Valério e se deixaram monitorar pelo banqueiro Henrique Meireles, pós-graduado em macroeconomia da dependência.
Imobilizado pelo cavalo-de-pau do governo e com suas antigas canções desafinadas, o Partido dos Trabalhadores perdeu a própria voz, diante do cala-boca implacável que o sapo barbudo impôs, como exercício orgástico típico de quem se imagina um semideus vivo, de posse da máquina mortífera e de todos os engenhos formatadores do comportamento humano. O PT, que se ufanava de um folclórico democratismo, de uma fictícia audição das bases, já não tem mais como enganar.
Pior. Sabe que terá de vender a própria alma para garantir a vitória da ungida pelo homem, falsa turquesa, que nunca soube o que é disputar uma eleição, nem para associação de moradores, e nem nunca suou camisa nas suas bases franciscanas.
Esse constrangimento produziu um tenebroso estado de depressão e uma macabra crise de identidade. O antigo conflito interno das correntes políticas foi substituído pela melancólica disputa de bocas na máquina pública e no dinheiro dos seus ralos, agravada pela sua sujeição aos desnacionalizadores e desmatadores da Amazônia, aos latifundiários do agronegócio com sua poderosa "bancada ruralista", e às velhas raposas que transformaram a vida pública numa obscena bolsa de valores, onde a moral, a dignidade, a decência, a coerência, a ética e os compromissos históricos, sempre em baixa, vão a leilão todo santo dia.
Não surpreende, pois, que a alcatéia dos discursos inflamados contra a corrupção e a espoliação do trabalho tenha estourado os miolos do cérebro na hora em que se viu subordinada àqueles que condenavam ao cadafalso em ruidosos vitupérios.
A demência com a perda de identidade, o descrédito, a dependência de vantagens e a morte anunciada são consequências de uma tragédia existencial que qualquer leitor de orelhas dos livros de Freud vinha diagnosticando sem recorrer ao estetoscópio.
Nos estertores entre quatro paredes, a novidade foi a decisão do partido de vestir-se de uma imobilizadora camisa de força, enquanto passava a falar palavras desconexas, estranhas ao antigo vocabulário, tentando compensações na satisfação dos instintos selvagens.
Para os petistas quiméricos, tudo o que está acontecendo tem o peso do castigo de Deus. Daí os flagrantes de autoflagelação do inconsciente, enquanto o ego deita e rola sem saber onde isso vai dar.
Ter de engolir a mais explícita ilegitimidade no jogo de poder dentro do Senado, ter de participar da blindagem de Sarney e de sacramentar dois suplentes sem votos para a Presidência da CPI da Petrobrás e do Conselho de Ética foi a gota d'água.
Os bigodes do Mercadante e os fios da careca do Suplicy entrelaçaram-se no deprimente espelho do infortúnio, culminando com a morte cerebral, que os ébrios arautos da corte tentam inutilmente esconder, esquecendo que tenho boas fontes, inegavelmente fidedignas.

Terça-feira, 14 de Julho de 2009

A pior ditadura é a ditadura de democracia

Intimidades dos podres poderes
“Tirar Sarney significa abdicarmos da eleição da Dilma”
De um "companheiro" militante da base governista, indignado com a posição dos senadores do PT que ousaram criar embaraços ao presidente do Senado, novo herói do PT.

A pior ditadura é a ditadura da democracia. Escrevi esta frase para aprofundá-la há pouco mais de uma semana. Era madrugada e o seu silêncio me municia nas aventuras do pensamento e da busca de respostas nas profundezas do imponderável.
Escrevi em empaquei. Queria dissertar sobre a ambiguidade encontrada em todos os atos, em todas as manifestações, em todas as atitudes que movem a sociedade humana. Mas empaquei. Daí ter passado uma semana sem digitar uma única palavra.
Você não deve passar por isso porque, certamente, é um ente sadio. Eu não sou, confesso. Tenho o coração ferido pelas flechas da dúvida reveladora. A minha é uma dúvida motora. Sirvo-me dela como uma bendita vacina, uma paranóia indispensável. E não me culpo. Sei que é por aí que o mundo gira. Sei e provo.
Tenho o cérebro em chamas como um vulcão em ebulição. Pode ser um caso médico, pode sim.
Democracia é isso que está aí?
Cheguei a desconcertantes conclusões que, por si, geraram outras tantas, em desacordo e em confronto. Assim, fiz-me um homem livre. À distância você pode me idealizar de todas as formas, belas e feias.
Mas permita-me que, por algumas linhas, me tenha como referência dessa conversa de hoje. Não quero ser paradigma, mas essa montoeira de informações endoidece qualquer um.
E o que é a doideira senão a chave da história? Não foi essa percepção que fez de Erasmo de Rotterdan, autor de “O Elogio da Loucura” em pleno alvorecer do Século XVI, o “príncipe dos humanistas”?
Mergulho nessa cantata ao sabor da mais despojada imprudência. Não este é o som de um cotidiano açoitado pelos assaltos impunes que se perpetram à luz do dia aos cofres públicos e às consciências vulneráveis.
As páginas e as telas se ocupam de uma novela tragicômica que fala de um país onde a perda do pudor compensa na alça do poder. Não há mais nada que me faça acreditar na regeneração dos próceres, dos que se deixaram seduzir pela luxúria e perderam todo recato, convencendo-me – e a muitos ainda pensantes – da inutilidade de um regime que se proclama expressão da mais saudável forma de poder.
Esse é o problema. Por obra e graça do meu incorrigível distanciamento critico, começo a me perguntar se, de fato, no fundo, no fundo, não estamos todos sujeitos e expostos a uma grande fraude que o vulgo chamou de democracia.
Sim porque, paciência, detenha-se em olhares mais amiúdes, sem essa de sujeição ao disponibilizado sob encomenda, e você terá a sensação de um grande logro. Onde quer que você alveje verá no mesmo espaço a superposição dos contrários ao que aparenta.
Democracia, isso que está aí, esse embuste arrivista? Ou então a democracia não é bem o que se infere de sua etimologia. O que se contempla antes é a porca manipulação das normas e das instituições, feitas promíscuos valhacoutos onde o vale tudo a tudo submete.
A fórmula da “ditadura democrática”
Neste momento, essa democracia se presta a um exercício sofisticado da mais cínica ditadura. E uma fórmula tida como infalível pelos cérebros do sistema, devidamente remunerados pelos banqueiros da super-ong “Diálogo Interamericano”.
Através da distribuição de migalhas que saciam milhões de famílias pobres, dispensadas do suor do rosto para obter o pão de cada dia, cria-se um grande curral, algo que representa o peso maior e mais homogêneo do eleitorado. É um capital eleitoral decisivo na escolha dos governantes, na medida em que a massa que labuta tem comportamento diversificado diante das urnas.
Uma segunda camada, igualmente numerosa, é abocanhada pela adoção de políticas salariais focadas no crescimento de quem ganha menos. Desde 2003, o mínimo foi tendo reajustes superiores aos dos demais trabalhadores, como se estes fossem marajás e não precisassem recuperar o poder aquisitivo aviltado há décadas.
Nivela-se por baixo, operando o entorpecimento dos aparentemente favorecidos por reajustes que os equiparam aos que tinham remuneração pouco superior. Temos aí outro celeiro de votos.
Concentra-se uma parte dos investimentos públicos em obras de vitrine, que enchem os olhos, sobretudo, dos que não vão delas se beneficiar, mas são facilmente laçáveis pela perspectiva de um dia serem contemplados. No complexo do Alemão, estão gastando os tubos para fazer um teleférico com seis estações, de reduzido custo-benefício social.
No entanto, a sua exibição ao vivo e a cores, quando estiver pronto, produzirá o deslumbramento necessário para a engenharia dos sonhos. Os ricos e a classe média, sempre assustados com a violência, verão que o governo olhou para os pobres e deles poderá cobrar a aceitação de sua sujeição social nos estratos subalternos, com a facilitação do expurgo dos transgressores que fazem casamatas em seus morros. Mais ingrediente para a sopa de votos.
A corrupção como peça do poder
Coopta-se a inteligência e amestram-se os núcleos do pensamento crítico. Aí as picaretas mais adequadas são as organizações não governamentais que profissionalizaram a solidariedade e assumiram funções governamentais sem os rigores da contabilidade pública. Em 2003, sabia-se de 25 mil ONGs. Hoje, pela última contagem, já passavam de 350 mil, todas de olho nos favores dos entes oficiais e das restantes empresas estatais.
Com tantas ferramentas à mão, o chefe do governo pode muito bem dispensar o velho discurso basista do seu desfigurado partido e tirar do bolso do colete direto para a sua cadeira – ele já não sabe o que é um macacão – uma auxiliar que nunca disputou uma única eleição, que entrou em suas fileiras pela janela da traição aos 15 anos em que se beneficiou do brizolismo, quando este ainda tinha leite nas tetas.
Quem tem esses instrumentos “democráticos” à mão não precisa recorrer a qualquer regime de força. E ainda pode pintar e bordar, na formação de alianças com o que há de pior em maus costumes, mas que pode fazer exatamente o trabalho sujo de que um governante precisa para garantir seu futuro e dos filhos, netos, bisnetos e gerações seguintes.
Falei hoje apenas a fórmula da invencibilidade no Poder Executivo. Mas poderia tratar dos outros podres poderes, onde também o regime de direito é uma balela.
E termino por hoje com a exposição do efeito mais trágico de tudo isso: pessoas que tiveram boas intenções na juventude fazem hoje o culto da convivência com a corrupção como se essa fosse condição para completar a alquimia do poder eterno.
É pelo menos o que se infere de uma correspondência pública de um militante lulista, na qual ele diz sem a menor cerimônia a uma companheira:
“CORRUPÇÃO É PROBLEMA DA POLÍCIA. NÃO É PROBLEMA POLÍTICO.
Quem transforma corrupção em problema político é a MÍDIA GOLPISTA. Esse jogo NÃO NOS INTERESSA. TEMOS QUE REAGIR.
Digo mais: DEVEMOS SIM, DEFENDER O SARNEY e IMPEDIR que ele se afaste ou renuncie COMO QUER A oposição e a CANALHA PETISTA DO SENADO QUE SE CAGA DE MEDO DA MÍDIA GOLPISTA”.
coluna@pedroporfirio.com

Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Tudo que sei sobre o assalto ao poder em Honduras

Zelaya pode ter sido golpeado por John Negroponte, ex-subsecretário de Estado de Bush e ex-embaixador em Honduras
“Este é um duro golpe da direita contra pessoas inocentes. Os pobres simplesmente exigem mudanças, e por pedirem mudanças sofreram um golpe de Estado”.
Manoel Zelaya

Antes que você me cobre, falemos de Honduras, cenário de um insólito assalto ao poder que tem tudo para dar com os burros n’água em questão de dias.
Antes dessa molecagem financiada pelos poderosos empresários Carlos Flores e Ricardo Maduro, que já estão arrependidos, quase nada se falava dessa república centro-americana de 7 milhões e 700 mil habitantes, até há pouco sob controle total de um consórcio envolvendo as multinacionais da banana, do café e do camarão,os velhos políticos corruptos, a igreja católica, encabeçada pelo cardeal Oscar Andrés Rodrigues, e os militares liderados pelos generais Douglas Fraser e Romeo Vásquez, em cujos prontuários aparecem acusações sobre envolvimento com grupos paramilitares e com o tráfico internacional de armas e drogas.
A decisão dos golpistas de bloquear a pista do aeroporto de Tegucigalpa para impedir o retorno do presidente Zelaya deixa clara a fragilidade do grupo. Antes, o arrogante “chanceler provisório” Enrique Ortez Colindres havia dito que se Zelaya pisasse em território hondurenho seria preso.
A postura assumida pelos golpistas nesse domingo entra para o folclore das quarteladas. Em geral, o deposto vai para o exílio. Nesse caso, com a comoção provocada no país, Zelaya decidiu expor-se à prisão e às violências, que estão sendo praticadas por um grupo de encapuzados. Mas estes não se sentem em condições de prendê-lo, o que poderia provocar algo semelhante ao que aconteceu na tentativa de golpe na Venezuela, em 2002.
Daí não ter dificuldade em prever a volta do presidente constitucional, ainda mais fortalecido para seu projeto de mudanças.
Um homem surpreendente
O presidente José Manoel Zelaya Rosales, deputado por três legislaturas e eleito em novembro de 2005 pelo conservador Partido Liberal, derrotando outro conservador, Porfírio Pepe Lobo, do Partido Nacional, é uma figura surpreendente. Rico fazendeiro e madeireiro, percebeu que a velha política de total submissão aos interesses da oligarquia tinha se esgotado.
No segundo ano do seu governo tratou de se aproximar do presidente Hugo Chávez e de redesenhar as relações do governo com as camadas pobres do país, que estão entre as mais miseráveis de toda a América Latina.
Antes de ser presidente, foi ministro do Fundo de Investimento Social, quando implantou o programa de Condados Abertos, visando descentralizar as decisões e dar mais poder às comunidades. Essa experiência foi, de fato, o primeiro contato com os agrupamentos que se organizavam em torno de propostas criativas para vencer a miséria.
Crise do salário mínimo
Mas foi sua decisão de aumentar o salário mínimo em 60% que produziu o combustível do conflito atual. Com esse reajuste, o mínimo em Honduras é de 5.500 lempiras ( R$ 611,00) nas zonas urbanas e de 4055 (R$ 450,00) na rural. Com isso, tornou-se ídolo dos trabalhadores, ganhou o apoio do partido Unficação Democrática, de tendência socialista, e das organizações sociais, como a Via Campesina.
Em compensação, despertou a ira dos seus antigos parceiros da classe rica, que ainda pensa Honduras como um feudo dividido entre um restrito grupo de endinheirados.
Com suas primeiras medidas de cunho social, Honduras registrou um crescimento anual de 7% e reduziu de 70 para 60% o número de hondurenhos na faixa de pobreza absoluta.
Sua decisão de integrar a Alternativa Bolivariana para a América azedou as relações com os Estados Unidos, no governo Bush. Isto porque foi graças a essa nova aliança que Honduras passou a se beneficiar de uma ajuda efetiva, com registrou o jornalista F.C Leite Filho, em substancioso artigo difundido pela REDE PDT: “a capitalização do Banco Nacional de Desenvolvimento Agrícola (Banadesa), com 100 milhões de dólares para financiamentos a camponeses, artesãos e pequenos comerciantes, que não têm acesso aos bancos privados, a doação de 100 tratores para apoiar a produção campesina e aumentar a produtividade no campo; a ampliação das brigadas médicas cubanas e educativas para declarar, nos próximos 14 meses, que Honduras é livre de analfabetismo. Finalmente, o país se beneficiaria dos programas de independência energética e de programas de comunicação com potencialização do canal de televisão nacional hondurenho (canal 8) com programas educativos e culturais”.
Honduras paralisada
Dolores Jarquin, da Via Campesina, e Beatriz Gomez, da Confederação Unitária dos Trabalhadores de Honduras, que não haviam votado em Zenaya, estão entre os milhares de líderes que comandam uma greve que dura desde o assalto de 28 de junho.
Beatriz declarou que Zelaya teve uma atitude inédita diante das greves e manifestações. “Ele não dava ordem aos militares para conter os protestos, tentava o diálogo, e isso não era costume no país”.
Durante o governo de Zelaya, as greves não foram frequentes, mas manifestações como interrupção do trânsito de veículos na capital e paralisação de atividades aconteceram algumas vezes. O governo não teve o hábito de ordenar a mobilização de policiais ou do exército para conter as manifestações.
Além do aumento do salário mínimo, Beatriz e Dolores apontam outras medidas que agradaram aos trabalhadores, como a reforma do sistema público de saúde e os programas de educação. “Ele criou os hospitais, programas preventivos, como o Saúde da Família, que não existia. Na educação, criou programas de alfabetização e
programas de acesso à universidade”.
Aumentou o número de unidades móveis de saúde e de programas preventivos em regiões afastadas. Isso permitiu controlar a malária e melhorar o saneamento público. Na educação, implantou o método de alfabetização cubano chamado “Yo sí puedo”, desenvolvido para 5 mil jovens e adultos, com o qual espera eliminar o analfabetismo até o próximo ano. “Ele criou um estatuto para os docentes. Isso era reivindicado há aproximadamente 12 anos pelos professores. Foi uma das primeiras ações dele”, disse Beatriz.
Quem deu o golpe
Um personagem muito conhecido dos hondurenhos e do mundo estar por trás do golpe, que tem a chancela da maioria da Suprema Corte, que, lá, é integrada por juízes eleitos pelo Congresso unicameral com mandato de sete anos.
Não me surpreenderá se tudo não saiu da cabeça doentia de John Negroponte, embaixador dos EUA em Honduras de 1981 a 1985, responsável pelo recrutamento dos contras da Nicarágua na década de oitenta, que chegou a subsecretário de Estado no governo Bush, isso depois de ter tipo papel chave na invasão do Iraque como chefe de uma central de espionagem criada para unificar todos os serviços secretos dos EUA.
Com a posse de Obama, ele caiu no ostracismo e, aos 70 anos, foi ser bolsista e docente do Whitney e Betty MacMillan Center for International Studies e Espaço da Universidade de Yale.
Quando esteve em Honduras, implantou na base militar dos EUA de El Aguacete, na cidade de Palmarolas, o centro centro de detenção e torturas, com a cooperação da CIA e de militares argentinos.
Negroponte foi quem aproximou os traficantes de armas Thomas Posey e Dana Parkes com os militares hondurenhos e conseguiu que a ajuda militar estadunidense passasse de quatro para setenta e sete milhões de dólares anuais.
De fato, o governo Obama foi surpreendido pela trama. Segundo o jornalista venezuelano José Vicente Rangel, o Departamento de Estado se posicionou contra o golpe quando seus funcionários Tom Shannon e James Steimberg ligaram para o embaixador Hugo Llorens, recomendando que não desse nenhum apoio aos golpistas.
Há que observar ainda que Israel foi o primeiro país a reconhecer o governo saído do golpe e são muito estreitas as relações de Negroponte com os grupos sionistas. O outro país que formalizou o reconhecimento foi Taiwan, que vive no isolamento imposto pela China Popular.
coluna@pedroporfirio.com


Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Quando o preço da governabilidade é a garantia da impunidade

O beijo da senadora Iledi Salvatti, lider do governo, simboliza a profunda intimidade entre o PT de Lula e Sarney, antigamente visto como Ladrão pelo chefe do governo.
"A aliança com o PMDB é fundamental para o país. Não me peçam um ato oportunista de acabar com a governabilidade."
Aloizio Mercadante, líder do PT no Senado.

José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, codinome Sarney, é tudo de ruim que o diabo pôs na Terra para provar que Deus não criou o homem à sua imagem e semelhança, como proclamam em loas antigas canções litúrgicas.
Não é o único senador da pá virada, antes, pelo contrário. Entre eleitos e suplentes biônicos, cabeludos, bigodudos, carecas e gorduchos, poucos podem atirar a última pedra. Mas o “tzar do Maranhão” que fraudou seu domicílio eleitoral para ganhar mandato pelo Amapá indefeso é o capo. Sem tirar nem pôr, é o poderoso chefão, tendo o alagoano José Renan Vasconcelos Calheiros como seu pustulento principal escudeiro.
Por ser o que é, Lula e seus miquinhos amestrados o consideram o fiador da GOVERNABILIDADE.
Se ele rodar, o governo vai junto, pensa o presidente. Essa é a razão do humilhante enquadramento imposto aos senadores petistas que, paradoxalmente, bateram chapa com Sarney na eleição para a presidência do Senado. E agora se agacham, pusilânimes, à ordem do chefe Luiz Inácio.
Mas também, por ser o que é, José Ribamar será o coveiro do príncipe operário, que já o chamou de LADRÃO quando ele presidia a República, cargo a que chegou às custas do cadáver de Tancredo Neves, de quem se fez vice ao trair vinte anos de participação na ditadura, boa parte como presidente do partido oficial.
Coveiro, sim, como foi do regime militar, a quem serviu de olhos fechados, e de quem se serviu sem cerimônias ou constrangimento, quando os poderosos generais usavam antolhos programados para só enxergarem “a ameaça comunista”.
José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, codinome Sarney, ganhou uma bóia palaciana com a estrela vermelha. Pior. Quando afundar na lama do Planalto terá ilustres companhias, raposas e canastrões, metidos a besta e impostores ideológicos, porque pelo andar da carruagem os podres poderes estão em adiantado estado de decomposição.
Ou você acha que se sustenta por muito tempo um governante que precisa de um notório corrupoto para garantir sua governabilidade?
É meio brabo, mas o todo poderoso campeão de audiência abriu seu coração e mostrou as entranhas. Tem medo de perder maioria parlamentar se não arranjar uma muleta de titânio para o velhaco que mescla a alma de rato com o cérebro de camaleão.
Se não é por medo é pior. Desde que atravessou a soleira do palácio, para o orgasmo múltiplo da dama deslumbrada que é a patética personificação da mulher que não trabalha, mas deita e rola, Luiz Inácio sucumbiu às tentações do demônio e deixou correr solto.
Filhos, irmãos e apaniguados meteram a mão na carne seca e mandaram ver. Rapidinho, estavam todos mamando nas tetas da nação, seja pelas prebendas afrodisíacas, pelos peitos fartos das estatais, pela orgia das ONGs ou pela libidinosa distribuição de favores e facilidades a banqueiros e fazendeiros, junto com os níqueis para a massa famélica, seduzida no bordel da migalha do menor esforço, pelo exercício prostituto do “dá um pão, toma retribuição”.
O PT, quem diria, aquele mesmo que não poupou nem Brizola (valendo-se da frase infeliz de apoio a Collor) no ofício de desacreditar (e desmoralizar) adversários, na produção de piches contra quem lhe interpusesse o campinho, converteu-se de repente no mais insaciável chupa-cabra.
Pelo verbo dos vigários que lhes serviram água benta, as outrora vestais despiram-se do manto púrpuro e caíram na gandaia na busca do melhor da vinha, em cânticos lascivos do “faça o que eu digo e não o que eu faço” ou da gula do “farinha muita, meu pirão primeiro”.
Nada seria mais inevitável do que essa safra de políticos transgênicos, saídos da alquimia entre os híbridos representantes do semifeudalismo recalcitrante (como o The Economist de Londres definiu Sarney) e os caras de pau do “novo sindicalismo”, da “nova esquerda” e da “nova sacristia”.
É de se concluir que nessa trama, cujo ápice é a salvação de Sarney, incólume hoje, como incólume ontem foi Renan Calheiros, resulta da fome com a vontade de comer.
A turma que depende dos ingredientes dos podres poderes para continuar com a mão na massa já recebeu o mote: salvar o pai (e avô) generoso é garantir a governabilidade.
Daí juntarem-se as peças da trama que culminou com a cassação do governador Jackson Lago, brizolista histórico, para reentronizar a filha de Sarney no governo do Maranhão, Estado que virou seu feudo desde 1965. Nessa articulação, em que a verdade jurídica foi para a lixeira, deve ter sido em nome da governabilidade que o presidente da República e seus miquinhos amestrados mexeram seus pauzinhos e lograram por via judicial o restabelecimento da capitania hereditária, fórmula, aliás, que deve ter inspirado os golpistas de Honduras.
As vozes do petismo lambuzado não falam do “socialismo do Século XXI”, como Hugo Chávez. Antes, optaram pelo “patrimonialismo do Século XXI”, com a harmônica apropriação do público pelo privado ao som do Bolero de Ravel. (Lembra daquele povo de branco reunido por Duda Mendonça na campanha de 2002?).
A partir de agora, José Ribamar, que recentes revelações fizeram-no um homem morto, está ressuscitando pelas mãos milagrosas do sapo barbudo e dos seus prendados miquinhos amestrados.
A menos que descubram outros furos, dos muitos que ainda permanecem ocultos, o questionamento de Sarney vai desaparecer da mídia, pouco a pouco, para não pegar mal. É o que determina o homem mais popular do Brasil. E como disse um dia Carlos Lupi, o ministro do PDT, “o presidente fala, a gente obedece”.
Estamos entrando no recesso parlamentar – as generosas férias do meio do ano pagas pelo omisso cidadão-contribuinte-eleitor – e as festas juninas, que são mais animadas em julho, consagrarão outras quadrilhas, essas apenas ingênuas encenações na dança inocente de inspiração caipira, dando motivação para uma pausa que refresca na praça de guerra da política.
Mas a metrópole satânica do Planalto não bobeará, para não dançar. Por todos os dias e por todas as noites, continuará produzindo suas vacinas contra o pensamento crítico e espargindo o veneno necessário à perpetuação desse estelionato histórico sem se dar conta de que está brincando com fogo: quem tem um sagrado aliado como José Ribamar não precisa ter inimigo.
De onde a fatalidade do destino: quando menos a corte esperar, a casa vai cair como um castelo de cartas. E aí serão como em todas as débâcles: cada um que trate de safar-se da ira dos enganados.
coluna@pedroporfirio.com

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

O que fazer: as respostas que compõem uma grande lição

A minha coluna “O que fazer”, enviada na madrugada de sexta-feira, dia 26 de junho, motivou reflexões tão importantes para todos nós que resolvi publicar em PDF os e-mails recebidos e respondidos . É possível que, como tomei essa decisão com certo atraso, tenha omitido alguma opinião. Se for o caso, peço que você me comunique.
Como respondi a todos, estamos abrindo um debate sobre O QUE FAZER neste país de perigosos estelionatos políticos, em que os maus hábitos na vida pública parecem consolidados e blindados pela armadura da impunidade.
Nesta correspondência, divulgo frases extraídas das respostas. Mas a íntegra das mesmas pode ser lidada em PDF,
clicando aqui.
Espero que você leia cada uma das opiniões e alimente esse debate tão importante para o país. Na maioria dos casos, omiti o nome completo do autor do comentário, imaginando que ele escreveu a mim e não me delegou autorização para tornar públicas as suas opiniões.
Pedro Porfírio

“Antes os mercenários eram contratados para matar, hoje são contratados para mentir”.
Américo A.
“Há que se esperar o parto de um LÍDER macho e com disposição para uma luta sem trégua e desesperada”
Cmte Luiz Pereira
"O erro vem de muito longe e exige uma mudança radical dos costumes”
Anna Greta, da Suécia.
“Não vejo nenhum homem capaz de mostrar o caminho para a saída desse país”.
Gonzaga Lopes
“Desde as Capitanias hereditárias ao tucanato e principalmente durante o "governo" militar, as oligarquias quiseram que o rumo fosse o atrelamento às potências”.
Marcelo A., do México
“Costumo dizer que o regime implantado no País depois dos governos militares é uma DEMOCRACIA DE FACHADA".
Solimar G. Leitão
“Não desanime. A luta se dá em todas as frentes”
Jorge Cárpio
“A indignação toma conta de todos nós que esperamos um mínimo de respeito por parte dos servidores públicos com cargos efetivos ou temporários”.
Maristela M.
“Num regime democrático há um momento em que nos manifestamos, acreditando!!! Entretanto nossos poderes estão podres”.
Pedro Paulo
“Aos 73 anos compreendo, agora, a ilusão de pensar que no curto período de uma existência, há possibilidade de grandes e rápidas mudanças”
Sérgio M.
“Precisamos romper com ESTECÍRCULO VICIOSO que já vem desde priscas eras”
Leon
“A sociedade que faz revoluções é a classe média e esta está minguando, desaparecendo e se transformando em servos de senhores feudais”.
Bengochea
“Uma coisa depois da outra, se a internet esclarece, a atitude constrói o avanço”.
J. Netto
“Você contribui muito para manter acesa nossa capacidade crítica, nossa vontade de mudar, apesar deste lodaçal em que nos encontramos”.
H. Leal
“Meu modesto entendimento resume-se no sentido de reunirmos pessoas indignadas e revolucionárias em suas atividades e atitudes, pois só assim poderemos tentar mudar o curso da história deste país”.
Oswaldo Duarte
“Sempre tomo o cuidado de tentar ver a quem interessam certas notícias. Até que ponto o que informam é relevante? Porque não gosto de me sentir massa de manobra”
Maria Helena
“A solução para o Brasil e voltar-se para o único regime realmente legítimo que o pais já teve a MONARQUIA”.
Luiz Oliveira
“Estamos reféns da imoralidade, indiscutivelmente estamos anestesiados, principalmente a juventude que patética deve ouvir e ver tantos escândalos que nem se interessa mais”
Mário Telmo
“Vivemos num país onde o presidente confunde o povo com suas palavras estapafúrdias, mas lhe provê de migalhas que (só) lhe atrofia a dignidade”.
Gervásio G.B.
“A guerra é espiritual, Pedro, e só Ele reúne as condições para o momento que só Ele sabe”
José Guilherme
“A esquerda esclarecida prefere Lula (mesmo com Sarney) para evitar o retorno dos DEMos e dos tucanos. No entanto, são todos iguais, dependendo sempre de uma parcela podre do PMDB”.
Saulo, da Austrália
“Sou dos que costumam repassar seus textos inclusive para os nossos "parlamentares".
Maronildo
“Você, amigo, vem combatendo o bom combate e pode estar certo de que os resultados estão em gestação, não na velocidade que todos gostaríamos, mas num ritmo que foge à compreensão humana”.
R. Moreira
“Você não está só. A esperança de um mundo melhor vencerá, mesmo nos momentos de dificuldades, quando não vemos luz”
Jorge Rubem
“Desde a independência do Brasil o "coronelismo" tomou conta de nosso País, só que se sofisticou, profissionalizou-se”
Nelson M.
“Muito do que penso hoje é reflexo direto da leitura de seus textos, o que torna compreensível que atualmente vislumbre como principais vícios da sociedade brasileira (quiçá, em variada proporção, mundial) seja a insensibilidade com seu próprio destino e a completa ausência de juízo crítico, uma absurda preguiça de pensar”.
Renato Moreno dos Santos
“Mas você, Pedro, também me iludiu com suas palavras equivocadas”.
N.O. Bastos
“A maior contribuição da ditadura ao Brasil foi, exatamente, matar o pensamento brasileiro”.
W. Lacerda
“O Brasil caminha para o caos! Próximas gerações estarão perdidas! Nossa jovens cabeças pensantes estão caindo fora desse país de banana”
William
“O que fazer? Simples. EXERCER A DESOBEDIÊNCIA CIVIL DE FORMAIMPACTANTE”.
Leila Brito
“O país é que está sob o comando de loucos, imorais e boçais de todos os tipos e espécies”.
Norton
“Graças a Deus que agora podemos pensar e escrever como donos da verdade, porque antes da internet só podíamos nos contentar em ler toda a mídia”.
Lourival
“Bela reflexão amigo Porfírio”.
Álvaro Bastos

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

O que fazer? Responda-me se for capaz!

“A História é um conjunto de mentiras sobre as quais se chegou a um acordo”.
Napoleão Bonaparte

Hoje, vou tentar ser o mais breve e o mais objetivo possível.
Não falarei com base nas exaustivas pesquisas que costumam fundamentar minhas opiniões.
Acho até que um dia já toquei no assunto.
Mas não me darei ao trabalho de remover meus arquivos.
Move-me a repercussão das minhas últimas colunas, sobretudo a que fala do Senado. Nesta, defendo o parlamento unicameral, com o fim do Senado, que se transformou numa Câmara Paralela e perdeu seu caráter revisor e moderador. Porque ele também legisla. Isso detalharei em breve.
Veio-me então a “pergunta que não quer calar”: O QUE FAZER?
Escrevo, felizmente, para um universo de parceiros cuja marca essencial é a DIVERSIDADE DE OPINIÕES E REAÇÕES.
Dependendo da coluna, uma área de opinião se manifesta.
Mas há uma coisa em comum: quem se dá ao trabalho de ler minhas colunas não o faz por acaso. Quem costuma repassá-las age como se a endossasse. Quem publica em seus blogs, da mesma forma.
Quando pergunto o que fazer é porque temo OS LIMITES DA INTERNET. Como tudo no processo histórico, o que traz o bem vem com o seu contrário. Não precisa ser dialético para pensar assim.
A INTERNET abriu um horizonte sem fim para todos. Recebo muitas opiniões – próprias e repassadas.
Alguns parceiros são férteis mais da conta. Imagino que têm muito tempo para pesquisar e mandar informações e outros tipos de e-mails. E que acreditam piamente na fortaleza desse novo e ágil modo de repassar idéias, sentimentos e reflexões.
Meu medo é que alguns considerem o uso da INTERNET a única atitude a tomar. Repassam abaixo-assinados, recortam jornais, reproduzem manifestações, noticiam acontecimentos. Porém, desculpe se estou equivocado, não fazem mais do que isso.
Sabem que os podres poderes estão nas mãos do que há de pior, ao ponto da maioria do povo já não considerar a democracia tão indispensável assim.
Sabem que estão nos roubando, nos espoliando e tornando nossas vidas mais sacrificadas. E quem mete a mão não é apenas o político: você começa a ser roubado no seu condomínio, já disse isso aqui.
Sabem que vivemos sob o signo da hipocrisia. Os grandes beneficiários dessa permissividade moral são os mais poderosos:
Não temem a violência, porque podem blindar seus carros, fortificar suas residências e contratar seguranças.
Não temem as crises, porque guardam seus planos alternativos. Mesmo quando suas empresas vão à lona, o deles está garantido.
Ontem mesmo, li no GLOBO:
Bancos recebem 10 vezes mais que país pobre
Em 1 ano, socorro a instituições somou US$ 18 trilhões. Nações em desenvolvimento tiveram US$ 2 trilhões em 49 anos.
Há em comum, também, entre os leitores e parceiros, o sentimento de INDIGNAÇÃO, o que me faz um cultivador de esperanças.

No entanto, o sistema consegue confundir as pessoas, canalizando esse sentimento para alvos artificiais. Consegue, por exemplo, que o cidadão indignado considere virar as costas para a política, criminalizar a vida pública, como a atitude mais coerente, mais pura, mais decente.
Com isso, abre mão de sua cidadania, de suas armas constitucionais, e deixa que a política seja monopólio dos canalhas.
Claro, ninguém agüenta mais tanta metamorfose. No palanque, fora do poder, o cara é uma fera. Quando chega lá, deixa o dito pelo não dito, recorre a uns truques que o poder disponibiliza e vai fazer o mesmo, ou pior, do que aqueles que criticava.
Mas por que isso acontece?
Uma coisa é certa: somos um povo assumidamente despolitizado e vulneravelmente desmobilizado. É mentira dizer que há uma “sociedade civil organizada”. E por que só civil? O militar não é um cidadão, não paga impostos? Por que civis e militares cultivam diferenças de ofício, quando o que pode nos unir e nos separar é a visão que temos da Pátria e da sociedade?
Essa reflexão se aplica aos que se deixam inflamar por preconceitos. Agem e se posicionam sob a bitola da miopia: os seus favoritos estão sempre certos, suas idéias são sempre as únicas palatáveis, suas palavras são incontestáveis. Conceitos opostos emitem sobre seus contrários, como se cada um de nós fizesse parte de uma religião sagrada na intolerância, de uma seita estruturada no ódio, de uma torcida petrificada pela paixão.
A sociedade dos DONOS DA VERDADE ganhou dimensões planetárias com a INTERNET. Para cada resposta que recebo a uma coluna de opinião, vêm 20 e-mails com outras manifestações, a mairia sobre outros assuntos.
Chegamos ao fundo do poço em matéria de raciocínio e pensamento. A tirania da fatalidade nos imobilizou. Pessoas honestas e inteligentes renderam-se ao maniqueísmo urdido pelo sistema. Mesmo que você tenha que escolher entre o “diabo e o coisa ruim”, você não consegue ver outra alternativa, pelo menos para hoje.
É como se a (má) sorte estivesse lançada. Advertem-me que 2010 bate à porta. Não há como escolher fora dos protagonistas postos, dos grupos e dos interesses cristalizados.
É pegar ou largar. Pensar numa TERCEIRA VIA, numa alternativa diferente, pensar em quem não ocupou os espaços do poder e da máquina midiática seria inútil. Não há mais tempo. Não há como amalgamar as indignações justas: somos um rebanho de desgarrados e pt saudações, dizem-me a toda hora.
Será isso mesmo?
Se a INTERNET rompeu todas as barreiras, se podemos chegar em segundos a qualquer ponto do planeta, se cada dia mais pessoas se familiarizam com esse tipo de comunicação, terão razão realmente os fatalistas?
Não sou pretensioso, não sou mais criança, não me alimento de utopias, mas, sinceramente, EU ACHO QUE NÃO.
Como sempre digo, UM DIA A CASA CAI.
Não é só questão de estômago. É de cérebro mesmo. Não é necessário engolir “o sapo barbudo” e seus miquinhos amestrados só para não deixar que o tucanato volte para fazer pior. Até porque, insisto, não há a mais tênue diferença na essência de ambos os governos. Mudaram os figurinos, mas os mesmos donos do mundo continuam donos dos nossos destinos, tratando primeiro de seus mesquinhos interesses e jogando sujo para permanecerem por cima da carne seca, segundo as práticas comuns a todos os profissionais da política: ganhar, permanecer no poder ou a ele retornar.
Como ninguém é insubstituível, da mesma forma, ninguém é invencível. Há bem pouco tempo, ninguém poderia imaginar que um negro, por mais “assimilado” que fosse, assumiria a Presidência dos Estados Unidos. Nem que um “ índio cocalero” triunfasse na Bolívia ou que um economista de um mini-partido vencesse as eleições presidenciais no Equador, enfrentando o homem mais rico do país. Até mesmo na Europa, de tradição partidária enraizada, novas forças estão surgindo, como na Inglaterra, e passando para trás cabeças coroadas do Partido Trabalhista e dos Conservadores.
O grande problema entre nós brasileiros é o vício do caminho curto, aquele que esta ao alcance do seu nariz. Esse vício é próprio dos derrotistas. E tão nefasto que embaça o horizonte possível. Quando entrega os pontos antes de lutar, o cidadão pode estar abrindo mão de uma vitória possível.
A historia do Brasil é rica no ensinamento de que QUERER É PODER, apesar da grande maioria estar anestesiada por qualquer coisa que compense.Por todo o Século XX (e até antes) as mudanças bruscas ocorreram sem traumas, muito mais pelo desgaste dos governantes do que pela capacidade operacional dos opositores.
Ou você acha que foi preciso um arsenal para a Proclamação da República, o triunfo da Revolução de 30, o Estado Novo, a volta constitucional de 1945, a quartelada de 1964 e a volta do regime “democrático”, na década de 80?
Hoje, diante de um deserto de homens e idéias, corremos o risco de cair num vazio, sofrendo conseqüências dramáticas dessa passividade até mesmo na própria célula familiar: outro dia, uma professora muito inteligente comentou comigo: sou da última geração em que os filhos obedeciam aos pais e da primeira em que os pais obedecem aos filhos.
Podemos estar à beira do sepulcro de uma democracia que ainda não disse a que veio, da falência da sociedade humana, submergida no lamaçal que inunda o país como uma onda de dejetos paralisantes.
Essa inércia pode abrir caminho à aventura, que só não acontece porque estamos TODOS IMOBILIZADOS, a começar por essa juventude perigosamente alienada e exposta a outros tipos de apelos “contestatórios”.
Eu pensava que ia escrever pouco, mas escrevi muito. E poderia continuar. Mas vou parando por aqui, na ESPERANÇA DE QUE VOCÊ TAMBEM SE MANIFESTE, DIGA O QUE PENSA, diga ate se acha que estou DELIRANDO.
Mas, por tudo quanto lhe é sagrado, fale alguma coisa, qualquer coisa. Diga que podemos fazer algo. Diga que você está vivo. Ou então CALE-SE PARA SEMPRE.
coluna@pedroporfirio.com

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Não se iluda: o Senado é um caso perdido

Ficar apenas na crítica do último escândalo equivale a querer enxugar gelo. Isso que o acaso está trazendo à tona é jornal de ontem e, com certeza, frequentará as manchetes dos jornais de amanhã.

"A Nova República é pior do que a velha, porque antigamente na Velha República era o militar que vinha na televisão e falava, e hoje o militar não precisa mais falar porque o Sarney fala pelos militares ou os militares falam pelo Sarney. Nós sabemos que antigamente _antigamente, os mais jovens não conhecem, mas antigamente se dizia que o Ademar de Barros era ladrão, que o Maluf era ladrão. Pois bem: Ademar de Barros e Maluf poderiam ser ladrão, mas eles são trombadinhas perto do grande ladrão que é o governante da Nova República, perto dos assaltos que se faz."
Luiz Inacio Lula da Silva
Aracaju, 6 de setembro de 1987


Sarney e Lula: eles se merecem

O que é um antro de escroques em comparação com o Senado desta pútrida República dominada por gigolôs das massas despolitizadas e sacripantas arrivistas?
Disse José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, codinome Sarney, que a exposição das vísceras desse valhacouto que custa ao contribuinte os olhos da cara não o atinge unicamente, mas à toda súcia do tapete azul.
“A crise do Senado não é minha, a crise é do Senado”. – disse e repetiu outras vezes como um bordão de uma mal encenada tragicomédia.
E disse mais, na maior cara de pau, no seu patético pronunciamento de 16 de junho:
“Eu só conheço um ato secreto, durante o tempo do Presidente Médici, em que ele declarou que iria haver decretos secretos. Eu não sei o que é ato secreto. Aqui, ninguém sabe o que é ato secreto”....
Lula, amigo de fé, camarada
Solícito, cúmplice e solidário, como se igualmente alvejado, perfilou-se ao seu lado Luiz Inácio da Silva, codinome Lula, essa figura deletéria que o castigo de Deus transformou no político mais popular do Brasil: "O senador tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum”.

E continuou: "Não sei a quem interessa enfraquecer o Poder Legislativo no Brasil. Quando o Congresso foi desmoralizado e fechado, foi muito pior para a democracia". Não satisfeito, acrescentou: "Eu sempre fico preocupado quando começa no Brasil esse processo de denúncias, porque ele não tem fim e depois não acontece nada".
“Congresso desmoralizado e fechado”, quando cara pálida? Comparar aqueles dias do Congresso como adorno aos de hoje é superar-se no cinismo ou na ignorância.
Ora, Lula pega pesado na defesa do parceirão porque conta com a nossa “interpretação dialética”, inspirada nos ensinamentos de Maquiavel, o mestre de todos os mestres, segundo os quais os fins justificam os meios.
As armas da invencibilidade
E joga com os mecanismos da invencibilidade, que falam mais alto do que as três armas temidas, outrora: 350 mil ONGs (contra 25 mil quando assumiu) de olho nas verbas distribuídas por uma penca de ministérios, dirigentes de 16 mil sindicatos na fila do bem bom, centenas de líderes estudantis de cara lavada e olhares concentrados na emissão de rendosas carteirinhas, 40 milhões de famélicos viciados pela esmola do bolsa-família e 22 mil cargos de chefia só na máquina federal, todos devidamente mapeados em 2007 pelo ministro Tarso Genro.
Com tais fortificações e algumas encenações de fazer inveja ao nosso teatro ele vai tirar Sarney da enrascada, como tirou Renan, ganhando, como contrapartida, o sepultamento da CPI da Petrobras, tida pelos ingênuos como meramente privatizante, como se FHC e ele já não tivessem rasgado o monopólio estatal do petróleo com a entrega da exploração de nossas jazidas aos trustes, mediante a remuneração de 27% do produzido, a mais baixa do mundo.
Aliás, não precisava desse conchavo: esse Senado aí já se descredenciou para investigar até o caça-níquel da esquina, muito menos uma estatal cujo orçamento de R$ 290 bilhões é o dobro do Estado de São Paulo, o mais rico do país.
A natureza atávica da Casa
Com chancela tão rochosa, o ancião José Ribamar, que dá as cartas no Brasil por décadas a fio, deixou dito que tudo que fez ou apadrinhou é da natureza dessa “câmara alta”, contra-peso desnecessário, criado na primeira Constituição de 1824 para ser a nossa “Câmara dos Lordes”, com acesso restrito a maiores de 40 anos e rendimento anual mínimo de 800 mil réis.
Ao longo desses 185 anos, essa casa, hoje despida dos pés à cabeça, sempre foi o paraíso magistralmente definido por Darcy Ribeiro, especializando-se, na República, em ser um prêmio para ex-governadores e caudilhos influentes sem vocação para o Executivo.
Ao Senado, nada se deve. Quem olhar sua trajetória vai achá-lo no ofício viciado de sacramentar as vontades dos donos do poder, como aconteceu em 1964, quando o pecuarista paulista Auro Moura Andrade, na sua presidência, apressou-se em declarar vago o cargo de Presidente da República quando João Goulart ainda se encontrava em território brasileiro.
E como ocorreu depois da derrota da ditadura, nas eleições de senadores, 1974, quando, só para garantir total obediência aos governos dos generais, acolheu calado o balaio de colegas biônicos, para lá conduzidos sem votos, à semelhança do que acontece hoje, mas sem sofismas, com esses “suplentes secretos” que cantam de galo como se legítimos representantes fossem.
Sarney não exagerou na dose. Buscou dividir os dolos expostos com a corporação de rabo preso, tendo a seu favor, como trunfo irresistível, a mais ampla e irrestrita conivência daquele que, num passado não muito remoto, o chamou de ladrão e de grileiro.

Um antro de saliências que você consente
O Senado da República, uma redundância legislativa que sobrevive hoje no fausto dos podres poderes, como casa de saliências regiamente remuneradas dos velhos políticos, operou a dialética do apodrecimento (Leia "a farra é deles" radiografia feita pelos repórteres Otávio Cabral e Alexandre Oltramari) em meio ao consentimento geral, isto é, ao seu consentimento, caro leitor.
Ou você já questionou por que um senador tem mandato de oito anos, quando todos os demais ganham quatro?
Quando você se insurgiu diante da peculiaridade de poder votar ao mesmo tempo em dois candidatos ao Senado, o que não acontece em nenhum outro cargo parlamentar?
Quando você levantou sua voz contra os suplentes biônicos, que podem ganhar mandatos inteiros, como o suplente do ex-governador Roriz, sem sequer ter seu nome levado ao conhecimento dos eleitores?
E os suplentes hereditários, como os filhos de Antônio Carlos Magalhães, do ministro Lobão e outros que permanecem na moita? Você chiou, pelo menos?
Quando você peitou essa fraude do domicílio eleitoral que, por deboche, fez do cacique do Maranhão senador pelo Amapá?
Quando você pediu um balanço legislativo das duas casas do Congresso? Calculam o custo delas dividindo o orçamento pelo número de parlamentares. Mas nunca pararam para calcular esses valores pela produção legislativa, que é pífia e tão lenta como os 70 milhões de processos que se arrastam no Poder Judiciário.
Uma duplicidade anacrônica
Para que serve afinal essa casa que se lastra na anacrônica “representação dos Estados”, um estratagema velhaco que foi buscar razão de ser nas priscas eras, como se o Brasil não fosse de fato um regime unitário, com a União arrecadando e repassando a parte gorda dos tributos?
Dispensam esse pleonasmo países como Portugal, Grécia, Suécia, Dinamarca, Islândia, Venezuela, Finlândia, Turquia, Israel, Síria e Noruega, de um total de 112 que têm parlamentos unicamerais, contra 75 que ainda conservam a duplicidade, alguns destes com poderes restritos, como na Inglaterra, França, Alemanha, Áustria, Bélgica, e Índia.
Para você, que não é obrigado a manjar de todos os sofismas políticos, parece que a existência de duas casas do Legislativo – que, ao contrário dos Estados Unidos, só ocorre no plano federal – é condição pétrea do sistema democrático representativo. Nos Estados Unidos, ressalve-se, o Senado veio primeiro, após a guerra da independência, por iniciativa dos líderes das 13 ex-colônias, que mantinham (e mantêm) autonomias reais, configurando uma federação de fato e de direito.
Estudos da própria (e competente) Consultoria Legislativa do Senado apontam: na Europa, berço da civilização democrática, há 30 países unicamerais para 17 bicamerais; na Ásia milenar, 23 unicamerais para 16 bicamerais; na África, 33 unicamerais para 19 bicamerais; na Oceania, 11 unicamerais para 3 bicamerais. Só nas Américas, ainda pela influência norte-americana, o número de bicamerais é maior: 20 contra 15 unicamerais.
Perdendo a fé na democracia
Esse mesmo meticuloso levantamento, realizado por Elton E. Poveiro Junior, exibe a transcrição de uma pesquisa do jornal The Ecnomist, de Londres, na qual já em 2001, antes mesmo das super-safras de escândalos, apenas 30% dos brasileiros consideravam que a democracia é preferível do que qualquer outra forma de governo. Em 1996, antes do governo FHC sair do armário para patrocinar a privataria, esse percentual chegou a 50%.
Para melhor entendimento, em 2001, apostavam na democracia 79% dos uruguaios, 71% dos costarriquenhos, 62% dos peruanos; 58% dos argentinos, 57% dos venezuelanos, 57% dos hondurenhos e 54% dos bolivianos.
Esses escândalos recentes não são os primeiros e nem serão os últimos. O que você espera de uma turma que livrou a cara de Renan Calheiros, pilhado numa fieira de maracutaias, e que, num piscar d’olhos, voltou a ser o seu capo, mercê sabe Deus de quantos ameaçadores segredos coleciona sobre seus pares?
O Senado não é a única casa onde os delinqüentes deitam e rolam. A Câmara já nos brindou, entre outros, com o sórdido espetáculo do “mensalão”, obra da santa arquitetura petista, e a farra da generosa distribuição de passagens aéreas para este mundo afora. Por todo o Brasil, assembléias legislativas e câmaras municipais não são diferentes e se aproveitam da penumbra em que vivem.
Chantagem que garante a impunidade
Como não é diferente a prática indecente nos demais poderes, emblematicamente encabeçados por Gilmar Mendes e Luiz Inácio.
Tudo sob a chantagem de que tais instituições são as colunas da democracia, e esta pode ser a pior forma de governo, excetuando todas as outras que foram tentadas ao longo dos tempos, como definiu Winston Churchill, com a posterior chancela de Ulisses Guimarães.
Mas as revelações dos delitos que, como disse, custam quase R$ 3 bilhões por ano ao contribuinte (dinheiro que não acaba mais) fatalmente submergirão no mar de lama que já extravasou ao som da aquarela do Brasil e nada acontecerá aos delinqüentes blindados pela panacéia da impunidade, composta de ignorância, alienação, conformismo, manipulação, vira-casacas e adesismos tresloucados.
Ficar apenas na crítica do último escândalo equivale a querer enxugar gelo. Isso que o acaso está levando à tona é jornal de ontem e, com certeza, frequentará as manchetes dos jornais de amanhã.
coluna@pedroporfirio.com

Sobre a natureza dos legislativos vale uma leitura do trabalho de Elton E. Poveiro Junior, publicado pela Coordenação de Estudos da Consultoria Legislativa do Senado Federal, onde, ressalve-se, existem profissionais altamente qualificados e dedicados, que não têm nada a ver com a ratatuia de fantasmas e apaniguados enxertados elos barões da casa.
Recomendo também o estudo de Peterson de Paula Pereira, procurador da República no Amazonas, sobre o processo legislativo.

Domingo, 21 de Junho de 2009

A amputação dos direitos trabalhistas está a caminho. Só Lupi não viu

De como Lula e sua máquina “biafraram” o PDT e similares(VII)
"Uma das formas de reduzir a informalidade no trabalho é o estímulo à contratação formal dos trabalhadores por meio da desoneração RADICAL da folha de salários”.
Ministro Roberto Mangabeira Unger, em palestra no TST, dia 16 de setembro de 2009.
No final da tarde da quarta-feira, 8 de abril de 2009, o tempo úmido e as nuvens carregadas deixavam os líderes da meia dúzia de centrais sindicais acabrunhados, mas dispostos a espernear perante o presidente da República, que os recebeu com a irreverência de sempre na hora da Ave Maria.
Contritos, os quase sempre arrogantes senhores do sistema sindical estavam em Palácio para deixar o dito pelo não dito. Metidos a ladinos, não contavam a astúcia do enigmático professor Roberto Mangabeira Unger, hoje o bamba da corte, que obteve deles, à revelia do Ministério do Trabalho, os subsídios e os sentimentos auscultados para seu projeto de reforma trabalhista, que desonera a folha de pagamento, livrando os empresários até da contribuição patronal ao INSS vinculada aos salários.
A pequena romaria, dessa vez, tinha no séquito o ministro Carlos Roberto Lupi, o último a saber daquilo que o gênio americanizado chamou de “desoneração radical” e de “reconstrução das relações trabalho/capital”.
“Reforma trabalhista” de costas para o Ministério do Trabalho
Na verdade, desde que virou a casaca sem trocar a gravata clara, o professor vitalício da Universidade de Harvard, que teve Obama como aluno, passou a ter mais poderes do que qualquer outro ministro, quanto mais o do PDT, tratado a trancos e pescoções verbais pelo príncipe operário.
Dourar a pílula na amputação dos direitos trabalhistas não foi difícil para ele, tão competente que prestou serviços muito bem remunerados ao banqueiro Daniel Dantas, na condição de “trustee” (procurador, numa tradução aproximada)da Brasil Telecon entre 2006 e 2007, ano em que foi feito ministro de Assuntos Estratégicos e já chegou derrubando a senadora Marina Silva da pasta do Meio Ambiente, que chefiava desde o primeiro governo Lula.
Quando ainda no segundo semestre de em 2007 Mangabeira Unger recebeu a incumbência de elaborar um projeto palatável de revisão drástica da CLT o ministro Carlos Roberto Lupi foi informado, com a indicação de que ficasse fora das tratativas e manifestasse total apoio ao que se concluísse, como aconteceu no primeiro de maio de 2008, dois dia depois de conhecer o seu texto, publicado na íntegra pelo jornal VALOR ECONÔMICO, sob o título “Diretrizes a respeito da reconstrução das relações entre o trabalho e o capital no Brasil”.
"A questão da desoneração é muito positiva porque, em tese, ela traz automaticamente a geração de emprego” – declarou Carlos Lupi na festa da Força Sindical, mas cuidou de acrescentar uma ressalva que não agradou à corte: “mas tem de estar muito amarrada, senão você faz a desoneração fiscal e ninguém quer gerar emprego”.
Sabendo que uma das idéias cristalizadas na proposta era substituir a contribuição patronal ao INSS calculada pelo salário por um imposto estimado sobre o faturamento, Lupi, que em nenhum momento questionou seu alijamento das discussões, ainda quis deixar uma ponderação, que se perdeu nas ondas da mídia: "há uma preocupação porque a Previdência já tem muitos problemas. Nós não podemos agravar a situação da Previdência”.
O último suspiro do PDT
Sua declaração se deu quando a imprensa insistia que ele teria favorecido o PDT e a Força Sindical no repasse de verbas do FAT, fato que ele desmentiu com números, ao demonstrar que as prefeituras mais beneficiadas eram ironicamente do PSDB.
Qualquer um sabe que há relação entre os acontecimentos. Naquele momento da declaração, Lupi estava acuado, mas uma vez.
Para o PDT será o último suspiro oferecer sua chancela a qualquer mudança que desfigure a CLT, cujo teor abrangente já tem respostas para as variáveis alegadas pelos que querem reduzi-la à peça de museu.
Mas as centrais sindicais deram corda ao projeto do ministro Mangabeira Unger e só refizeram o discurso pela mudança radical também na estrutura sindical, com a qual a negociação principiaria na empresa, através da figura “agente sindical”, que representaria todos os segmentos no mesmo local de trabalho.
No dia 3 de julho de 2008, o presidente da República recebeu em Palácio os ministros Mangabeira Unger, Luiz Dulci (Secretário Geral da Presidência) e Luiz Marinho (Previdência) juntamente com os cabeças da meia dúzia de centrais sindicais.
Lula empolgado com a “reforma trabalhista”.
No dia seguinte, a imprensa noticiou: depois de uma reunião que durou quase três horas, na noite de quinta-feira, com a participação dos dirigentes de seis centrais sindicais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro extraordinário de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger, bateram o martelo numa agenda mínima para promover "mudanças radicais" nas relações entre capital e trabalho no Brasil.
O jornal Valor Econômico observou: a partir do diagnóstico de que o regime trabalhista criado nos anos 40 do século passado por Getúlio Vargas, embora tenha trazido avanços à sua época, tornou-se obsoleto ao deixar a maioria dos trabalhadores fora de sua proteção, Mangabeira e sua equipe vêm debatendo o tema há oito meses com as centrais, sindicatos patronais e grandes empresários. O objetivo é encontrar pontos de convergência e, a partir daí, formular propostas e enviá-las ao Congresso até o fim deste ano.
O ministro, que é professor licenciado da Universidade de Harvard, diz que a economia brasileira corre o risco de ficar presa entre economias de trabalho barato e aqueles de tecnologia e produtividade elevadas. O risco é agravado pelo fato de economias de trabalho barato, como a China, estarem se transformando, em alguns setores, em economias de alta produtividade. O interesse do país, sustenta Mangabeira, é valorizar o trabalho e o aumento da produtividade.
“O regime trabalhista, criado por Vargas e instituído pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), é um obstáculo a esses dois objetivos”.
No final da matéria, o jornal destacou que “na reunião de quinta-feira passada, o mais empolgado com os avanços contidos nas propostas era o presidente Lula”.
Culpando a CLT pelo trabalho informal
Dia 16 de setembro de 2008, Mangabeira apresentou suas propostas aos ministros do Tribunal Superior do Trabalho. E, para justificar a redução drástica das obrigações trabalhistas, disse que a maioria dos trabalhadores vive na informalidade devido às exigências de garantias impostas às empresas pela CLT.
Entre outras conquistas sociais que, em nome do governo, Mangabeira Unger considera anacrônicas está o salário mínimo: “não bastam políticas que procuram influenciar o salário nominal, como sobretudo a política do salário mínimo. Tais políticas têm eficácia restrita. São facilmente anuladas por inflação quando não barradas por política monetária comprometida em manter a estabilidade da moeda”.
Por desoneração da folha de pagamento, ele entende o fim do salário-educação, a reformulação nas fontes de recursos para o “Sistema S”, e, principalmente, a mudança nos cálculos da contribuição para a Previdência Pública.
Embora admitindo que a proposta de um imposto declaratório é suscetível de evasão fraudulenta, o documento do ministro assinala que tende a prevalecer em sua reforma a idéia de substituir a folha se salários pelo faturamento como base para cobrar a parte patronal da contribuição previdenciária.
(Isso acontece já na área rural, registrando uma arrecadação mínima, apesar da pujança do agro-negócio).
Mais uma vez, como vimos, o ministro do PDT caiu na roda e até o momento tem demonstrado que seguiu aquele conselho da ex-ministra Marta Suplicy: relaxou e gozou, porque vale mais um cargo na mão, do que o confronto com os podres poderes.
coluna@pedroporfirio.com

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Ouvindo de cabeça baixa as reprimendas públicas do presidente

De como Lula e sua máquina “biafraram” o PDT e similares(VI) Lula nos EUA: le não escolhe lugar quando tem de esculhachar seu ministro do Trabalho
"Em outros tempos e costumes, a esta altura o ministro do Trabalho, Carlos Lupi estaria com o pedido de demissão pronto e assinado para entregar ao presidente Lula assim que puder ser recebido no gabinete do Palácio do Planalto”.
Vilas Boas Corrêa, a propósito do agressivo desmentido de Lula no uso do FGTS para capitalizar a Petrobrás.
Na relação do governo do PT com o Ministério do Trabalho parece existir a maior fonte de desgaste futuro. A impressão que a opinião pública tem é que o presidente da República mantém o ministro Carlos Lupi no cabresto, sujeito a constrangimentos públicos, como em 22 setembro de 2008, quando Lula o espinafrou de forma tão humilhante que levou o veterano jornalista Vilas Boas Correas escrever que a única postura digna para o ministro seria entregar o cargo.
Lupi havia anunciado no domingo, 21, que o governo autorizaria o uso de contas no FGTS para investimentos na Petrobras, como aconteceu no passado.
Na segunda-feira, 22 de setembro de 2008, em Nova York, onde se reuniu com figuras importantes do sistema financeiro internacional, Lula expôs o seu ministro a uma reprimenda humilhante:
"Eu acho abominável alguém fazer uma manchete irresponsável daquele jeito sem nunca ter conversado comigo, sem que eu nunca sequer tivesse pensando na idéia. Acho isso uma irresponsabilidade" – disse, demonstrando visível aborrecimento.
Acontece que a idéia não era do ministro, mas do próprio Lula, conforme a FOLHA DE SÃO PAULO, do mesmo dia 21. Lupi, precipitado, apenas confirmou a intenção para a Globo News. Na matéria, assinada por Kennedy Alencar, o jornal informa:
“Pessoas com conta no FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) poderão usar esses recursos numa nova rodada de investimentos na Petrobras.A Folha apurou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu permitir o uso do FGTS na capitalização que fará na Petrobras para explorar o petróleo da camada pré-sal”.Quando a idéia provocou cara feia dos corretores de Wall Street, Lula repetiu o velho hábito de mau caráter, com um desmentido dúbio, que dividia a responsabilidade pela notícia infausta entre a mídia e o seu ministro.
Esse vocabulário acusatório levou Carlos Lupi a uma reação ainda mais infeliz, quando declarou à Agência Brasil (oficial): "O presidente disse que não tem estudo. O presidente fala, a gente obedece".
Lupi desautoriza Lupi outra vez
Mas esse não foi a única repreensão pública do príncipe operário que deixou Lupi mal na fita. No dia 16 de janeiro de 2009, O GLOBO publicou matéria com o título: “Declaração de Lupi irrita Lula”.
No dia 13, em audiência com o presidente, o ministro havia sugerido a vinculação da redução de impostos ao compromisso das empresas de manter os empregos. Lula gostou da idéia, mas diante da reação do patronato, disse que chamaria a si essa questão, mandando o ministro calar a boca.
Sua proposta tinha lógica: ele argumentou que os recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) são dinheiro do trabalhador e não podem penalizá-lo. Segundo Lupi, Lula lhe pediu que apresentasse uma proposta concreta nesse sentido.
"Quero vincular (os repasses) e cruzar com os dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados). Não posso voltar atrás, seria para os novos
(repasses)", disse Lupi a jornalistas sobre sua sugestão.
Foi o bastante para os barões da FIESP baterem na porta do velho parceiro, dizendo que poderiam ficar de mal com o governo se a idéia tivesse curso. A crise com o setor industrial foi aberta no dia anterior, após Lupi ter dito que estava analisando impor sanções a empresas que receberam incentivos fiscais e crédito do governo e agora ameaçam demitir. O presidente das Federações das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, reagiu e cobrou a lista das empresas que estariam sendo salvas. Lupi, que estava no Chile para uma reunião da Organização Internacional do Trabalho (OIT), determinou à sua equipe que elabore a lista o quanto antes.
Mas ouviu um chega prá lá sonoro do seu chefe. Um auxiliar direto do presidente afirmou que as declarações de Lupi não correspondiam à posição oficial do governo. “Pelo contrário. Por essa avaliação, neste momento de crise internacional, tudo o que o governo não deve fazer são ameaças de retaliação aos empresários, e sim estimular ao máximo a capacidade produtiva das empresas”.
No dia 15, representantes de setores empresariais com bom trânsito no Palácio do Planalto manifestaram contrariedade com as declarações de Lupi. Por isso, a determinação de Lula é não alimentar a polêmica, para deixar claro que essa é uma opinião pessoal do ministro e que não há qualquer estudo em curso com o objetivo de aplicar punições aos empresários.
Dinheiro do FAT para os latifundiários
Por falar em FAT, um robusto fundo de R$ 158 bilhões, mais uma vez Lula deixou Lupi numa saia justa diante de sua proposta de reformular seu regimento interno para assegurar ao governo a presidência do órgão, sem rodízio com as entidades sindicais de patrões e empregados.
Durante todo o último mês de abril, incentivado pelo próprio presidente, o Ministério do Trabalho trabalhou numa minuta de reforma. A notícia vazou e as entidades patronais, junto com a CUT, uniram-se para barrar a proposta. A mais ouriçada foi a Confederação Nacional da Agricultura, cuja presidente, senadora Kátia Abreu, deverá assumir o fundo a partir de agosto. Com a reação, Lula simplesmente mandou Lupi enfiar sua minuta na gaveta.
Antes mesmo da poderosa latifundiária assumir a presidência de um FUNDO DE AMPARO AOS TRABALHADORES, seu conselho já facilitou o lado do endeusado agro-negócio. No último dia 31 de março, apadrinhados pelo governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, um dos maiores plantadores de soja do país, o Conselho do FAT decidiu estender para 30 de agosto às parcelas devidas pelos fazendeiros, que venceriam naquele dia.
Foi atendido também o pleito para que seja dada a condição de pagamento, em 1º de setembro, de 5% da parcela de 2008 e de 10% da parcela de 2009”. E mais: com farta apropriação do Fundo de Amparo ao Trabalhador (e não aos latifundiários) o agro-negócio ganhou de quebra mais 24 meses para quitar empréstimos por meio da linha de crédito FAT Giro-Rural. O prazo passou de 60 meses para 84 meses para pagar os empréstimos feitos junto a fornecedores de insumos nas safras 2004/2005, 2005/2006, e 2006/2007.
Com a senadora Kátia Abreu à frente do FAT a partir de agosto, o governo do PT estará sendo coerente com sua opção pelos ricos, em detrimento dos sem terra, a quem nega a reforma agrária e compensa com dinheiro para as ONGs da área. Mas o PDT é quem vai pagar o pato na hora em que aparecer um líder sindical decente e perguntar por que o dinheiro destinado a amparar os trabalhadores tem sido farto no financiamento dos grandes proprietários de terras.
Trabalhadores da aviação ficaram a ver navios
Lupi tem sido igualmente desautorizado a cada compromisso que assume com segmentos profissionais que acreditam que ele, formalmente ministro do Trabalho, pode ajudar junto ao governo no encaminhamento dos seus legítimos direitos.
Foi assim no caso da Varig. Numa audiência pública, dia 4 de maio de 2007, na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, ele assumiu a responsabilidade de expor ao próprio presidente a situação inédita criada pela aplicação da Lei 11.101/05, que, ao prever a possibilidade de evitar a falência de uma empresa, extinguiu as regras da Lei de falência de Getúlio, que priorizava os créditos trabalhistas.
Com essa Lei, a pendência foi para a Vara Empresarial e a Varig foi vendida e revendida de costas para as dívidas com seus empregados que, apesar de trabalharem na aviação, ficaram a ver navios.
Além disso, por conta dessa “falência protegida”, os milhares de aposentados e pensionistas do Fundo Aerus viram reduzidos seus benefícios quase a zero. A Varig tem uma dívida superior a 3 bilhões com o fundo, autorizada na prática pelo Ministério da Previdência, que sacramentou 19 acordos de repactuação não honrados pela empresa.
Depois da audiência, Lupi recebeu no seu gabinete do Rio de Janeiro uma comissão de associações de profissionais da Varig. Nesse encontro, que presenciei pessoalmente, as representações de pilotos, comissários e mecânicos de vôo colocaram em suas mãos uma engenhosa fórmula pela qual o governo reconhecia a dívida com a Varig por conta da defasagem tarifária e exigia que as dívidas com os demitidos e os aposentados fossem honradas com o dinheiro proveniente desse acordo. Para tanto, os empregados ofereciam um caminho para a disponibilização dos recursos necessários sem forçar o Tesouro.
Lupi comprou a idéia, mas ficou perdido dentro do governo. Ninguém lhe deu a necessária atenção e ele não podia passar isso para os interessados. Ao contrário, como a direção do Sindicato dos Aeronautas, que sacramentou o leilão pela nova lei, é de gente do PT muito próxima de José Dirceu, e tem seus próprios canais no Palácio, o ministro do Trabalho levou um gelo e ficou sem ter o que dizer para as pessoas que acreditaram no seu taco.
Numa outra situação, os trabalhadores da Bloch chegaram até ele, com o apoio inclusive do vice-presidente da OAB carioca, Lauro Shuch. Aí era uma situação menos complicada. Com a Bloch falida desde 2000, ainda pela Lei antiga, os trabalhadores esperavam o leilão do prédio do Russel para receber seus créditos. No meio do caminho, a Procuradoria da Fazenda obteve uma decisão da 3ª Câmara do Tribunal de Justiça do Rio garantindo primazia no resultado do leilão, o que entrava em confronto direto com o disposto na Lei, de forma explícita e incontestável.
Lupi prometeu conversar a respeito com o ministro Mântega, mas não se soube de qualquer mudança em sua postura, o que tornará matematicamente impossível que os trabalhadores recebam o dinheiro que esperam há 9 anos.
Poderia citar outros exemplos, como o caso do fechamento da fábrica da GE, no Jacaré. Mas esses fatos citados já servem para demonstrar por que alguns maledicentes referem-se ao presidente do PDT como o “bobo da corte”.
coluna@pedroporfirio.com

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

No Ministério do Trabalho, mas alijado dos conflitos trabalhistas

De como Lula e sua máquina “biafraram” o PDT e similares(V)
“Em janeiro de 1954, começou a crescer a pressão dos trabalhadores pelo aumento do salário mínimo. Manter o salário em níveis não inflacionários era condição indispensável para o êxito da política de estabilização desenvolvida por Oswaldo Aranha nos últimos meses. Entretanto, corriam boatos de que Goulart cederia às pressões populares e concederia um aumento para o mínimo de cerca de 100%...
... Nesse sentido, (os 42 coronéis que assinaram manifesto) teciam sérias críticas ao aumento de 100% do salário mínimo proposto por Goulart, que provocaria distorções salariais graves, fazendo com que um operário percebesse um salário próximo ao de um oficial do Exército”.
Célia Costa, CPDOC da Fundação Getúlio Vargas


Quando, aos 34 anos, o então deputado federal João Goulart assumiu o Ministério do Trabalho, em 17 de junho de 1953 (há exatos 56 anos) o país estava envolvido numa grande convulsão social.
Às greves dos 300 mil e dos marítimos, o seu antecessor, Segadas Viana, que responder com a Lei de Segurança Nacional, sob a alegação de que esses movimentos tinham implicações subversivas e eram encabeçados pelos comunistas.
O presidente Vargas não concordou com essas posturas e o correligionário pediu demissão. Ao assumir, Jango inverteu o discurso. Partiu para a negociação e obteve acordos que levaram ao fim das greves dez dias depois de sua posse.
No mesmo instante em que fizera do conterrâneo de São Borja o responsável pelo política governamental na área do Trabalho, Getúlio chamou também Osvaldo Aranha para ser o ministro da Fazenda.
Este assumiu com força total, por toda a sua história: já em 1931, no apogeu do governo saído da Revolução de 30, ocupara o mesmo Ministério. Quando reassumiu, em 1953, voltava com as simpatias do FMI e a disposição de adotar uma política de estabilização econômica, com receitas conservadores de combate à inflação.
Jango, no entanto, bancou o aumento de 100% no salário mínimo, desencadeando a mais tensa crise no segundo governo Vargas, agravada com um manifesto de 42 coronéis contra ele. Jango e o ministro da Guerra, Ciro do Espírito Santo Cardoso, da ala nacionalista do Exército acabaram deixando o governo em fevereiro de 1954.
Em 1 de maio, no entanto, Getúlio decretou o aumento de 100% no mínimo, tal como havia proposto João Goulart.
Mas isso foi passado
Esses são fatos que pertencem a um passado em que o Ministério do Trabalho Indústria e Comércio respondia com todo o respeito devido pelas questões trabalhistas. Fatos que tornam caricata essa pasta desde o governo Colllor, até os dias de hoje. Hoje, principalmente.
Não se sabe se Carlos Roberto Lupi tinha noção do mico que recebia. Afinal, 48 horas antes de ser empossado, era tido e havido como novo titular da Previdência.
Mas, além do contingenciamento institucional, o sucessor de Leonel Brizola na presidência do PDT teria que vestir uma apertada saia justa. Era o primeiro ministro na “Era Lula” que não saía das entranhas do petismo. Antes, pelo contrário: às vésperas de assinar o termo de posse, uma arrogante comissão de dirigentes da CUT foi ao palácio para tentar barrar sua nomeação.
Presa fácil de uma mídia hostil
Logo no primeiro momento, o primeiro tropeço. Questionado pelo repórter Gerson Camarotti, de o GLOBO, sobre as restrições ao seu nome, saiu-se com uma resposta que foi amplamente explorada: “Antes de eu ser convidado, investigaram a minha vida. Chegaram a ir no colégio em que estudei. Ninguém encontrou nada que agredisse a minha honra. Também não sou corno. Além disso, não tenho paixão por pessoa do mesmo sexo”.
Não era, evidentemente, uma resposta adequada para quem iria integrar o primeiro escalão da República. No entanto, a mídia, que tem uma má vontade muito grande com o brizolismo, percebeu que não seria difícil pegá-lo no contrapé, convicta de que neste caso o peixe realmente morre pela boca.
A transmissão do cargo só ocorreria na terça-feira, 3 de abril de 2007. Na mesma semana, o grupo responsável pelo combate ao trabalho escravo pediu demissão do Ministério, insinuando que Lupi vacilaria nessa área.
De imediato, pôde nomear apenas o seu chefe de Gabinete, Marcelo Panela, e o secretário geral do Ministério, Ronaldo Lessa, ex-governador de Alagoas, que ficaria pouco tempo no cargo.
Comissão de ética pede a cabeça
Mal sentou na cadeira que foi de João Goulart, começou a ser alvo de pressões. A Comissão de Ética Pública, presidida pelo banqueiro Marcílio Marques Moreira, exigiu sua demissão, alegando que não podia acumular o cargo de ministro juntamente com a Presidência do PDT.
Isso lhe valeu um esforço pessoal para obter apoio do presidente Lula. Afinal, quando o senador Francisco Dorneles ocupou esse mesmo ministério, também era presidente do PP. E ninguém deu um pio.
Lula, ao contrário, tentou convencer Lupi a decidir entre o Ministério e o partido, contando, inclusive, com a ajuda dos senadores Cristóvão Buarque e Jefferson Perez. No entanto, só em março de 2008, depois que a imprensa publicou denúncias sobre convênios do Ministério do Trabalho que “favoreciam” políticos do PDT e a Força Sindical, presidida pelo deputado pedetista Paulo Pereira da Silva, Lupi cedeu e se licenciou da presidência do partido, embora tivesse declarado que, colocado contra a parede, abriria mão do Ministério, fato que foi cobrado pela deputada Cidinha Campos.
Durante os 11 meses da novela sobre a permanência ou não na presidência do PDT, praticamente não se falou de outra coisa. Lupi parecia portador do “pecado original”. E até para proceder algumas mudanças em superintendências regionais, tinha que superar todo tipo de obstáculo.
Alijada dos conflitos trabalhistas
Já então, o núcleo central do Poder começou a tirar dele responsabilidades inerentes ao seu ministério. Foi assim quando, questionado pela ONU sobre trabalho nos canaviais de São Paulo, Lula criou um grupo de trabalho para apurar as denúncias, colocando à frente o ministro Luiz Dulci, Secretário Geral da Presidência, dispensando qualquer colaboração de Lupi e seus auxiliares.
Situação semelhante iria acontecer na greve dos Correios, de longa duração, em que o Ministério do Trabalho foi totalmente alijado. Na hora de designar um negociador pelo governo, Lula confiou a tarefa ao ministro Hélio Costa, das Comunicações.
Mas o que mais sobressai na relação degradante entre Lula e seu ministro do Trabalho é a frequência de reprimendas através da imprensa, obrigando-o a assimilar de cabeça baixa.
Dessas, a mais humilhante levou o veterano jornalista Vilas Boas Corrêa a escrever em 24 de setembro de 2008:
“Em outros tempos e costumes, a esta altura o ministro do Trabalho, Carlos Lupi estaria com o pedido de demissão pronto e assinado para entregar ao presidente Lula assim que puder ser recebido no gabinete do Palácio do Planalto”.
Serão esses constrangimentos desgastantes que reportarei na próxima matéria da série, juntamente com as experiências que testemunhei pessoalmente, quando Lupi recebeu trabalhadores da Varig, Bloch e do Sindicato dos Metalúrgicos. Gerou expectativas nesses grupos, mas acabou passando a impressão que o governo não dava a menor atenção para as suas gestões como Ministro do Trabalho e Emprego.
coluna@pedroporfirio.com

Terça-feira, 16 de Junho de 2009

Lupi foi apenas uma isca na guerra pelo controle da Previdência

De como Lula e sua máquina “biafraram” o PDT e similares (IV)
Luiz Gushiken, um arquivo vivo dos acordos secretos de Lula na área, ainda é quem dá as cartas na Previdência

"O Brasil está na mira dos fundos de pensão norte-americanos, que têm uma capacidade de investimento de US$ 5 trilhões em mercados emergentes.O diretor da AFL-CIO (Federação Americana do Trabalho), Stanley Gacek, se reuniu hoje com o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, para discutir os critérios utilizados pelos fundos norte-americanos para investir em outros países. A AFL-CIO é a principal central sindical norte-americana, e Gacek é amigo pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva”.
FOLHA DE SÃO PAULO, extraída da minha coluna na TRIBUNA DA IMPRENSA de 5 de setembro de 2003 (republicada agora no blog).


A impressão que tive nesse episódio narrado ontem é que Carlos Lupi bateu no banheiro masculino e alguém gritou, lá de dentro:
- Tem gente!
Apertado, entrou na porta ao lado. Era o banheiro destinado a deficientes.
Trocando em miúdos: Informado desde o início de março que seria o ministro da Previdência, o presidente do PDT se preparou para enfrentar um dos maiores desafios – provar que a previdência pública é viável, ao contrário do que propagam os abutres comandados por Luiz Gushiken, o ex-libelu e ex-sindicalista que virou consultor previdenciário de mão cheia.
Teria a seu lado, além de Manoel Dias, advogado brilhante e profundo conhecedor da matéria, uma plêiade de auditores fiscais altamente preparados e dispostos a demonstrar que o modelo previdenciário brasileiro, baseado na solidariedade entre gerações, ainda é o mais indicado para o nosso país.
De sobra, teria também a seu dispor os verdadeiros números da Previdência, que só é deficitária nas contas marotas dos prepostos do sistema financeiro. Seria uma Previdência capaz de intervir para evitar tragédias, como a que massacrou os aposentados do Aerus (Varig e Transbrasil) e maquinações, como as que forçaram os beneficiários dos grandes fundos , como o Petros, a mudarem suas regras no meio do jogo.
Medo de um novo Brito e....
Mas a turma do PT não dorme em serviço. Lembrou que foi numa gestão corajosa à frente desse Ministério que o então deputado gaúcho Antônio Britto “bombou” politicamente e se tornou o melhor nome do PMDB para suceder Itamar Franco, de quem era ministro, nas eleições de 1994, possibilidade que recusou para disputar e ganhar o governo do Rio Grande do Sul.
O mesmo grupo também não admitia que o ministério lhe escapasse às mãos grandes como aconteceu na primeira “reforma ministerial do governo Lula”, em 2004, quando Ricardo Berzoini foi deslocado para o Ministério do Trabalho para dar lugar ao senador peemedebista Amir Lando que, por sua vez, passou a cadeira ao colega Romero Jucá. Estes dois prejudicaram em parte o esquema petista, mas criaram os seus, levando Lula a pôr no lugar o “técnico” Nelson Machado numa longa interinidade, de 21 de junho de 2005 até 29 de março de 2007.
Apesar do decantado déficit, a Previdência é disputada por dentro e por fora. De 1985 a 2007, teve nada menos de 17 ministros, cada um com seu cada um.
Balão de ensaio
A cogitação do nome de Lupi para aquela pasta pareceu, aos mais vividos, um tremendo balão de ensaio, uma jogada com segundas intenções em que ele foi exposto como calouro de calças curtas no mundo enigmático dos podres poderes.
Nesse jogo sujo, é muito provável que Lula e sua entourage viessem tentando recompor os elos originais, estabelecidos em 2003, com o esquema internacional comandado por seu influente amigo ( e monitor) Stanley Gacek.
O ambiente de 2007 era semelhante ao de 2003, com a vantagem do replay eleitoral e a desvantagem da contagem regressiva de 4 anos.
A relação com os interesses representados por Stan, como Lula tratava o diretor de relações internacionais da Central Sindical AFL-CIO, havia sido confiada a Gushiken, com a ajuda de do advogado e ex-deputado federal Luis Eduardo Greenhalgh.
A saída de Ricardo Berzoini em 23 de janeiro de 2004 gerou uma zona cinza nesses laços, que se tornou mais escura com a derrota de Greenhalgh na disputa para a Presidência da Câmara, em fevereiro de 2005.
A força de Gushiken e Stan
Em junho desse ano, para restaurar em sua plenitude os vínculos com os grupos financeiros intermediados por Stan, visando a uma maior participação de fundos estrangeiros no Brasil, Lula devolveu a hegemonia total da política previdenciária ao grupo de Gushiken, que, por sua vez, alvejado no escândalo do “Mensalão”, perdeu o status de ministro e foi para a sombra do chamado Núcleo de Assuntos Estratégicos, de onde continuou mexendo seus pauzinhos em que se especializara através da sua empresa Gushiken & Associados, criada em 1998 e rebatizada em 2002 como Global Prev. Essa empresa foi apontada em 2003 como a verdadeira autora da reforma da Previdência de Lula pelo consultor legislativo Magno Mello, em seu livro “A Face Oculta da Reforma Judiciária”. No período em que o “chino” dava as cartas, aumentou seu faturamento em 600%, tendo com principais clientes os fundos de pensão.
Embora Gushiken tenha maior interesse na área dos fundos de pensão, que ainda controla, conforme denúncia dos conselheiros do Petros eleitos em maio, derrotando a CUT, ele é bastante temido como um arquivo vivo dos acordos secretos envolvendo a campanha de Lula em 2002.
Rainha da Inglaterra e porta-voz do CAGED
Lupi entrou como bucha de canhão na guerra fria que se processa nos bastidores do petismo e associados. Ele não viu porque era um neófito na corte. Se viu, consentiu. E, a bem da verdade, até hoje se presta a essa condição, com suas características pessoais, seu modesto nível de exigência política no trato da fatia que lhe foi destinada e seu singelo deslumbramento, como demonstrarei mais adiante.
Contudo, ao engolir a mudança de pasta nos acréscimos da “reforma ministerial”, Lupi abriu sua guarda por antecipação. Mostrou uma personalidade fraca e demonstrou de forma explícita que aceitava qualquer coisa, embora o Ministério do Trabalho, hoje convertido numa agência de programas sociais e informações estatísticas, tenha sido historicamente um espaço dos trabalhistas.
A rapidez com que aceitou seu deslocamento demonstrou que estaria disponível para exercer qualquer papel no jogo do poder, desde que pudesse desfrutar do prazer pessoal e das mordomias que um cargo de Ministro de Estado oferece.
Não foi difícil para Lula aplicar no seu dócil aliado as regras análogas às da Rainha da Inglaterra, que “reina, mas não governa”. Traduzindo na fria realidade dos fatos, nesses 26 meses no Ministério, o mesmo em que Jango foi peça chave no tempo de Getúlio, o atual titular virou uma espécie de porta-voz do CAGED, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, criado pela Lei 4.923/65, sob inspiração do ministro Arnaldo Sussekind, que, apesar de nomeado pelo general Castelo Branco, foi um grande obstáculo aos projetos para o esvaziamento da CLT, de cuja comissão elaboradora participou,em 1942, quando tinha 24 anos de idade.
Todo mês, Lupi antecipa os números colhidos por esse sistema, que reflete situações geradas muito mais pela política econômica do governo do que pela atuação direta do Ministério do Trabalho.
Fora disso, tem sido escanteado rotineiramente por Lula, do qual já se habitou ouvir de cabeça baixa constrangedoras reprimendas públicas. Essa situação é tão vexatória que até a “Reforma Trabalhista” foi confiada no sapatinho a Mangabeira Unger, o tal ministro de Assuntos Estratégicos, que concluiu sua clamorosa proposta sem nunca ter ouvido um só palpite do ministro do Trabalho e Emprego.
coluna@pedroporfirio.com

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Stanley Gacek, o todo poderoso

Este é Stanley Gacek, o ato funcionário da central sindical norte-americana que monitora Lula desde seus tempos no ABC (Foto Agência Brasil)

Antônio Cruz

Artigo que escrevi na Tribuna da Imprensa, de 15 de setembro de 2003

Anote este nome, Stanley Gacek: é ele quem dá as cartas

Desde que foi eleito, Lula teve pelo menos quatro encontros com Stanley Gacek - dois no Brasil e dois nos Estados Unidos. O advogado norte-americano, de 50 anos, conversou também com os ministros Antonio Palloci, Ricardo Berzoini e Luiz Gushiken: com todos falou de fundos de pensão e da "reforma da previdência".

Íntimo do presidente, a quem introduziu oficialmente há mais de vinte anos no poderoso círculo dos pelegos sindicais dos Estados Unidos, é ele o principal intermediário dos fundos de seu país. Dominando o português melhor do que muitos brasileiros e casado com a brasileira Liliane Fiúza (petista de carteirinha), Gacek é a peça-chave das articulações que redundarão, até o final do mês, nas expectativas do senador Sarney, na concretização da abertura escancarada do "mercado de servidores públicos" para os insaciáveis fundos privados de pensão.

Quem quiser entender o cavalo-de-pau do "príncipe" operário deve correr atrás de Gacek, que, pelo "profissionalismo", bem pode ser um agente da CIA. Se não chegar a tanto (não tenho provas), com certeza está no mesmo esquema.

Foi ele quem, em 1992, promoveu o primeiro encontro do BID, FMI e dos cabeças do "Diálogo Interamericano" com 80 líderes sindicais emergentes da América Latina. Foi quem, muitos anos antes, em 1980, viajou ao Brasil para levar a "solidariedade" da poderosa AFL-CIO a Lula, em sua prisão-show de 31 dias.

E mais: descendente de poloneses, foi ele quem, em 1981, depois de estender o tapete dos pelegos sindicais norte-americanos, levou Lula a Varsóvia para trocar figurinhas com Lech Walesa, o metalúrgico de Gdansk que recebeu toda ajuda da CIA para minar o governo da Polônia e chegar à presidência.

A missão de Gacek

Como você sabe, ando fuçando tudo para entender a genealogia da traição. Quanto mais bisbilhoto os passos do príncipe, mais sinto necessidade de farejar. O tempo vai passando e a pesquisa vai inchando, atrasando-se por si. Porque certas informações são guardadas a sete chaves, ainda mais em se tratando das peraltices de um homem que tem na mão a chave do cofre e o controle de todos os podres poderes.

Mas certas articulações são públicas e na maior cara-de-pau.

Desde o primeiro encontro com Lula, em novembro passado - na companhia do presidente da central sindical AFL-CIO, John Sweeney -, a cobrança foi na bucha: queria saber quando o novo governo ia mandar para o Congresso o projeto de abertura do mercado aos fundos privados de pensão, um dos cinco melhores negócios do mundo.

Veja o que informou, à época, Paulo Sotero, correspondente do "Estado de S. Paulo": "Os anos de atenção ao Brasil por Stan, como ele é chamado por Lula e pelos amigos, serão simbolicamente recompensados na tarde da próxima terça-feira, quando o presidente eleito chegar à sede da AFL-CIO, a central sindical americana. Diretor internacional adjunto da AFL-CIO para a América Latina, Gacek receberá o amigo ao lado do presidente da entidade, John Sweeney.

"Será uma grande honra para o movimento sindical dos Estados Unidos receber o presidente eleito do Brasil', disse, num português fluente.Em décadas recentes, o único outro presidente eleito que visitou a AFL-CIO foi o polonês Lech Walesa, fundador do movimento Solidariedade".

Stan, como Gacek é tratado pelos íntimos, inclusive Lula, havia trazido ao Brasil, no final da campanha de Lula, nada menos do que o reverendo Jesse Jackson, um ativista de peso de grande força na mídia americana, em companhia de Dennis Rivera, vice-presidente do milionário Sindicato Nacional dos Trabalhadores em Serviços dos Estados Unidos.

Participou de comícios do PT, enquanto Jesse Jackson dava entrevistas, encantado com a "eletricidade" da campanha petista.Como não podia deixar de ser, veio para a posse do amigo, dividiu um prato de comida com o presidente e Gushiken e voltou em maio, depois do envio do projeto privatizante ao Congresso.

Aí, foi negociar diretamente com Palocci, conforme informou Fabiana Futema, da "Folha de S. Paulo": "O Brasil está na mira dos fundos de pensão norte-americanos, que têm uma capacidade de investimento de US$ 5 trilhões em mercados emergentes.O diretor da AFL-CIO (Federação Americana do Trabalho), Stanley Gacek, se reuniu hoje com o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, para discutir os critérios utilizados pelos fundos norte-americanos para investir em outros países. A AFL-CIO é a principal central sindical norte-americana, e Gacek é amigo pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

"Temos falado sobre critérios de investimentos de obrigações fiduciárias. Alguns fundos estão desenvolvendo critérios para investimento em mercados emergentes"', disse Gacek, após o encontro com Palocci. Segundo ele, entre os critérios utilizados pelos fundos de pensão dos EUA está a estabilidade social. "Democracia estável, transparência e economia com crescimento sustentável são considerações importantes para fazer cálculo do retorno máximo com risco mínimo."

Na avaliação de Gacek, o governo Lula atende a vários desses critérios usados na hora de avaliar o potencial que cada país emergente oferece para os investimentos dos fundos norte-americanos. "Achamos que essa gestão do governo brasileiro tem se dedicado a essas questões da estabilidade social no Brasil. Isso poderia ser bem promissor em termos dos critérios de obrigações fiduciárias dos fundos."

Em sua matéria, Fabiana Futema conclui: "Segundo Devanir Silva, superintendente da Associação Brasileira das Entidades de Previdência Complementar, a queda do risco Brasil e a ligação pessoal entre Gacek e Lula ajudariam na atração de investimentos dos fundos norte-americanos no país.

"O governo Lula conseguiu conquistar a credibilidade dos investidores, inclusive os estrangeiros.'" Apesar da proximidade entre os dois países, Gacek afirmou que as conversas com o governo brasileiro ainda não foram concluídas. "Já falamos anteriormente [com Palocci] sobre toda essa questão dos fundos investirem nos mercados internacionais e queremos seguir com essas conversas. Estou pensando na possibilidade de fazer mais visitas ao Brasil", disse Gacek.

Transferência de recursos

Em brilhante exposição, sexta-feira, na audiência que presidi na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, por iniciativa do Fórum de Fluminense de Defesa da Previdência Pública, os professores José Miguel Saldanha e Sara Granemann, da UFRJ, demonstraram que a "reforma da previdência" se destina tão-somente a transferir recursos dos entes públicos para os fundos privados. Com o teto para aposentadoria, aplica-se também o redutor nos descontos. O servidor vai correr para a "previdência complementar" e o próprio erário deverá pagar sua parte para os fundos. Saldanha apontou também a opção do governo por priorizar o pagamento aos banqueiros: no primeiro semestre, o setor público pagou 74 bilhões de reais de juros da dívida, o equivalente a 410 milhões de reais por dia ou 70 reais mensais de cada habitante.

Quando Gacek se refere a investimentos de fundos estrangeiros, está desconversando. O que eles querem é se apoderar de uma boa faixa de poupança e não aportar recursos. Ao se instalar, o fundo passa a captar contribuições. O que ele, de fato, estava interessado em dizer ao amigo Lula era que a condição para a aprovação da "reforma" estava na definição no modelo de remuneração dos fundos. Há vinte anos os norte-americanos só fazem novos contratos pelo sistema da "contribuição definida" - você sabe quanto paga e não quanto vai receber -, descartando o "benefício definido".

Além disso, são muito "pragmáticos" na política de investimentos e adoram uma boa taxa de administração na América Latina - no Chile e Argentina chegaram a 30%, enquanto o custo administrativo do nosso INSS não passa de 6%.Se você prestar mais atenção nos passos de Stanley Gacek, vai entender muito mais. Afinal, ele foi definido aqui mesmo, na TRIBUNA, por Argemiro Ferreira, como "o guru de Lula no sindicalismo dos EUA".

coluna@pedroporfirio.com

Domingo, 14 de Junho de 2009

Como só queria entrar no governo, Lupi dormiu ministro da Previdência e acordou ministro do Trabalho

De como Lula e sua máquina “biafraram” o PDT e similares (III) "Trouxe o Lupi para o Trabalho. A imprensa vazou que seria a Previdência. Por que ele não ficou com a Previdência? Primeiro porque conheço o pensamento do PDT. Porque era muito complicado colocar companheiro para fazer política na Previdência sabendo que para seu partido essa é uma coisa de fé. Ele teria dificuldade em alguns temas que vamos ter que discutir para as futuras gerações."
Lula, ao empossar Lupi no Ministério do Trabalho, depois de convidá-lo para a Previdência (29.3.2007).

Ao empossar cinco ministros no fim da dança das cadeiras, Lula confessou que ainda pretende fazer uma terceira reforma na Previdência. E Lupi atrapalharia.
Como escrevi na segunda matéria desta série, Carlos Roberto Lupi foi picado pela mosca azul em dezembro de 2006, depois de ser recebido em Palácio pelo presidente Lula, que lhe arrancou algumas sonoras gargalhadas no jogo de cena montado por um clima de rasgada informalidade – característica pessoal do príncipe operário.
Ali, ficou claro que Lula não chamaria Miro, como fez na montagem do primeiro governo, quando quis agradar Roberto Marinho, desprezando solenemente a opinião do caudilho Leonel Brizola.
Lula deixou claro que queria o PDT “de porteira fechada”, no cabresto, para compensar a bancada pequena, em relação a outros aliados. E só Lupi, que segurou o partido depois da morte de Brizola, em junho de 2004, estava apto a assumir esse tipo de compromisso.
Um olho no padre e outro na missa
Mesmo assim, continuava com “um olho no padre e outro na missa”. Embora o presidente tenha dito que só trataria do engajamento do PDT depois de atender aos interesses de várias facções do PMDB, que voltara a ter a maior bancada na Câmara, Lupi achou prudente antecipar-se, evitando um debate mais amplo sobre a adesão.
Daí ter convocado a reunião do Diretório Nacional, que sacramentaria o congelamento do discurso brizolista de oposição, para a tarde quente de 12 de janeiro. E o fez com muita competência, ao chamar para ajudá-lo próceres históricos do partido, como Cibilis Viana e Alceu Colares, além do ex-governador de Alagoas, Ronaldo Lessa, que havia sido garfado por Collor na disputa pelo Senado, e o prefeito de Salvador, João Henrique Carneiro, que ainda não havia se mudado para o PMDB, cujo pai, o ex-governador João Durval Carneiro, havia sido o único senador eleito pela legenda em 2006. Todos engrossariam o discurso de um novo pragmatismo.
Embora já estivesse credenciado para negociar desde aquela tarde, Lupi teve que esperar o carnaval passar. Só depois, no final de fevereiro, receberia sinais de que o governo, que até hoje registrou 80 posses de ministros, incluiria o PDT no seu primeiro escalão.
A previdência satisfaz
No início de março, o Ministério da Previdência Social passou a desenhar-se como o “espaço” a ser aberto e o nome de Lupi já se consolidava como o mais provável ungido pelo Palácio.
Já naquele momento, não se falava mais em exigências políticas, mas na FULANIZAÇÃO DO PODER. No dia 9, O GLOBO publicou entrevista de Lupi, no qual ele dizia que o seu partido “se sentia plenamente contemplado com a Previdência”.
Nessa matéria, ao ser perguntado sobre os ministeriáveis do PDT, respondeu:
“O partido é democrático. Temos o secretário-geral, Manuel Dias, o ex-governador Ronaldo Lessa (AL), os deputados Miro Teixeira (RJ) e Alceu Colares (RS), apesar de Miro já ter informado de que pretende continuar na Câmara. Enfim, temos muitos nomes aptos”.
Naquele momento, porém, Lula estava uma arara com a bancada do PDT, especialmente com o líder Miro Teixeira, que, numa resposta à preferência de Lula por Lupi, puxou o apoio de outros 19 dos 23 correligionários à CPI do Apagão Aéreo proposta pelo tucano Otávio Leite.
O tropeço na CPI do apagão aéreo
Isso pôs em risco o ministério destinado ao partido, conforme relato de Josias de Souza, na FOLHA DE SÃO PAULO:
“Desde a última quarta-feira (8), está abespinhado com o comportamento do PDT. O partido recusou-se em dar suporte aos esforços do governo para sepultar, na Câmara, a CPI do Apagão Aéreo, proposta pelo PSDB. Assim como Marta, Lupi não recebeu, até a noite de domingo, nenhum aceno do Planalto.
Alertado acerca da motivação da demora, o presidente do PDT deu de ombros: “Nem o governo tem a obrigação de dar nada para nós nem nos estamos exigindo nada. Se querem encontrar um motivo para não nos dar a Previdência, que arranjem outro. Essa desculpa da CPI não cola. Estamos acostumados a cafezinho e água. O máximo que pode acontecer é passarmos a água e cafezinho.”
Lupi recebeu na quarta-feira (7) um telefonema de Tarso Genro. O ministro das Relações Institucionais pediu que interviesse para que os deputados do PDT retirassem as assinaturas do requerimento de convocação da CPI do Apagão. Lupi estava desinformado sobre o tema.
Tarso encareceu que ligasse para o deputado Beto Albuquerque (PSB-RS), vice-líder do governo na Câmara. Em telefonema a Albuquerque, Lupi inteirou-se da encrenca. Discou também para Miro Teixeira, líder do PDT. Ouviu dele que a retirada de assinaturas do requerimento da CPI desmoralizaria o partido.
Miro disse-lhe que o Planalto errava ao enxergar na CPI uma ameaça ao governo. Concordou. Depois, sob a liderança de Miro, o PDT negou-se a votar a favor de um recurso do PT questionando a legalidade da CPI. Daí a irritação de Lula”.
A ordem para a bancada voltar atrás
O desabafo de Lupi (“Se querem encontrar um motivo para não nos dar a Previdência, que arranjem outro”) frustrou o grupo que já se sentia atravessando a soleira do poder. Ele teve que sair conversando, um a um, para reverter a posição da quase totalidade da bancada.
Aos amigos mais próximos, lembrou que no dia 16 estaria completando 50 anos de idade. “Eu mereço um presente” – dizia, rindo. No dia 13, o ministro Tarso Genro, que respondia pela articulação política, informou oficialmente que a intenção do presidente seria nomeá-lo para o Ministério da Previdência, mas era preciso demonstrar na prática o grau de fidelidade do partido dentro da base governamental.
No dia 20, sob pressão do governo, recorreu a uma reunião da Executiva e divulgou uma nota oficial do PDT, recomendando que a bancada reformulasse a posição anterior e se posicionasse contra a CPI, lembrando que por decisão do Diretório Nacional o partido fazia parte da base de apoio ao governo.
Na nota, depois de ressalvar que 110 parlamentares da base aliada haviam assinado a CPI, não sendo, portanto, essa uma atitude rebelde dos seus correligionários, Carlos Roberto Lupi ponderou que PSDB e PFL poderiam transformar a CPI em palanque eleitoral.
Nesse episódio, a controvérsia foi decidida pelo STF que, em decisão unânime, no dia 25 de março, determinou ao presidente da Câmara a imediata instalação da CPI, que funcionou até setembro sem causar arranhões ao governo. Com essa postura, a base aliada saiu perdendo porque a oposição também conseguiu instalar a mesma CPI no Senado, contando com a assinatura do pedetista Cristóvão Buarque.
Convidado por Lula e vetado pelo PT
Após a decisão do Supremo, Lula bateu o martelo: Lupi seria o novo ministro da Previdência, no lugar de Nelson Machado, que estava lá meio provisoriamente. Lupi ficou sabendo, porém, que não poderia mexer muito no Ministério. A Secretaria de Previdência Complementar, até hoje influenciada por Gushiken, era intocável. E não era a única. Tudo bem. Concordou.
Só não contava que o núcleo do PT no ministério iria vetá-lo, usando seus interlocutores da CUT e o ex-ministro Ricardo Berzoini. Para derrubá-lo antes mesmo de assumir, o grupo preparou um dossiê com os votos do PDT em matérias do interesse do governo na área. O mais recente conflito tinha sido no projeto que restringia o auxílio-doença.
Mas internamente, os petistas alegaram que Lupi ia ter a mão o super-orçamento da Previdência. Em relação ao Ministério do Trabalho, o orçamento de investimento do MPAS é três vezes maior. Daí o PT, que já perdera outros ministérios robustos de grana, não podia abrir mão da Previdência. Além disso, os petistas consideravam Lupi sem nenhum preparo para um ministério cujo maior desafio é reduzir seu déficit.
Às sete da noite de terça-feira, 27, 48 horas antes da posse no Ministério da Previdência, Lula chamou Lupi ao Palácio e informou que estava desconvidando-o para aquele cargo.
À tarde, chegou a sondar se o PDT não teria um “quadro técnico” para a pasta, mas a essa altura isso tiraria o caráter político da escolha, levando os parlamentares a uma reação pública. "O Lupi é o único que une o partido. Qualquer outro nome dividiria o PDT", afirmou o deputado Pompeu de Mattos (PDT-RS), refletindo o sentimento dos colegas.
A troca inesperada no final do jogo
Quando Lupi chegou ao Palácio, Lula já havia telefonado para Luiz Marinho, ministro do Trabalho, ex-presidente da CUT e sindicalista do ABC, informando que iria deslocá-lo para a Previdência, porque não teria onde alojar o PDT em seu governo a não ser na sua cadeira.
- Chefe, isso é tirar o Ministério da CUT e entregar para a Força Sindical.
Lula garantiu que os cargos mais importantes permaneceriam, inclusive as superintendências regionais. “Ele leva o chefe de Gabinete, o secretário geral e uma coisinha aqui e outra ali” – teria dito.
A conversa do presidente com Lupi não durou mais de 20 minutos. Mas foi o suficiente para ele dizer que o velho Brizola se sentiria melhor no Ministério do Trabalho, que “teve em João Goulart o seu melhor ministro”.
Com a concordância de Lupi, o presidente voltou a ligar para o correligionário e marcou um encontro dos dois dentro de meia hora. Já era quase meia noite quando Lupi comunicou à bancada de deputados, através do líder Miro Teixeira, que tomaria posse no dia 29, mas como Ministro do Trabalho e Emprego.
O segundo veto que não pegou
No entanto, na noite da quarta-feira, 28, Lula recebeu em palácio uma comissão da CUT, encabeçada pela presidente interina, Carmen Faro, e pelo presidente da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT, Carlos Grana, que foram pedir a permanência de Marinho no Ministério do Trabalho.
"Viemos aqui falar que gostaríamos de manter o Marinho no Ministério do Trabalho pela postura que ele adotou. O presidente considerou importante a nossa colocação e disse que ia pensar sobre ela", disse Carmen Foro, à saída do encontro.
Embora tivesse prometido pensar no assunto, Lula foi dormir com a agenda determinada: na manhã do dia seguinte, deu por finalizada a dança das cadeiras, empossando cinco novos integrantes de sua equipe: Carlos Lupi (Trabalho), Miguel Jorge (Desenvolvimento, Indústria e Comércio), Alfredo Nascimento (Transportes), Luiz Marinho (Previdência) e Franklin Martins (Comunicação Social).
Naquela manhã de uma Brasília fria, aproveitou para explicar a mudança de última hora, com a alegação de que pretendia realizar uma nova reforma da Previdência. E Lupi não teria condições para essa tarefa.
coluna@pedroporfirio.com

Antes da adesão, um ato público contra a corrupção e o entreguismo do governo Lula

De como Lula e sua máquina “biafraram” o PDT e similares(II)



Lupi inflamado no dia em que denunciou Lula e o PT como aliados do sistema econômico internacional. Na outra foto, a casa cheia, num ato contra a corrupção e o entreguismo do governo Lula. (FOTOS DO SITE DO PDT-RJ)
“Não votamos nesse Lula que está aí! Votamos no Lula que saiu de Garanhuns de pau-de-arara e não nesse que está aí em Brasília, aliado ao atual modelo econômico”.
Carlos Lupi, presidente do PDT, em ato público na ABI, julho de 2005


No último grande ato realizado pelo PDT, em parceria com outros partidos, ainda no final de julho de 2005, um exaltado Carlos Roberto Lupi, presidente do partido, disse perante a multidão que lotava o emblemático auditório da ABI:
— O PDT abraçou este ato em nome da democracia brasileira porque o PT foi para a direita e aderiu ao sistema financeiro internacional. Somos intransigentes contra a corrupção e contra o modelo econômico extorsivo que achata os salários dos trabalhadores.
A manifestação foi descrita como histórica pela jornalista Oswaldo Maneschy no site da agremiação brizolista: “o ato no auditório da ABI estava totalmente lotado por militantes de diversos partidos de esquerda, que foram mostrar sua indignação com a política econômica e a corrupção praticadas pelo governo Lula e pelo Partido dos Trabalhadores”.
Aquela massa indignada levou Lupi a ser muito duro com o PT:
– O que nos interessa neste momento é um projeto para o País, é configurar uma aliança que se coloque à esquerda do PT para não ficar nessa falsa polarização entre o Valério do PT ou o Valério do PSDB.
E disse mais:
– O fundamental é ter coragem e amor à pátria para começar um movimento como o que estamos iniciando hoje. Temos que ter coragem de dizer não!
“Ainda vão pedir arrego”
No dia seguinte, José Dirceu, já fora da Casa Civil, por conta do “mensalão”, mas no exercício do mandato de deputado federal, que seria cassado em 1 de dezembro, teria comentado com Marcelo Sereno, seu fiel aliado no Rio de Janeiro:
- Esse Lupi e o PDT ainda vão pedir arrego. Ainda vão engolir essas palavras. Ano que vem, eles não terão votos nem para alcançar a cláusula de barreira. Não terão alternativa senão correr para nós.
Para os militantes brizolistas, porém, o partido estava empinando a pipa para o grande confronto de 2006, nas primeiras eleições presidenciais depois da morte do caudilho.
O ato foi inesquecível para alguns. Reunia lideranças do PDT, PPS, PSOL, PSTU e PCB. A partir de então, mesmo sem recursos, sem ter máquinas na mão, os brizolistas voltaram a ver sua estrela brilhar.
Mesmo apresentando como candidato presidencial o ex-petista Cristóvão Buarque, que não empolgou as massas, ao contrário de Heloísa Helena, o PDT teve um surpreendente desempenho parlamentar, aumentando sua bancada federal de 18 para 24 deputados.
Foi quando Lula viu que ali residia o perigo. Através de Tarso Genro, então, ministro de Relações Institucionais, e do deputado Miro Teixeira, líder do PDT, que havia sido reeleito com a pior votação de sua vida, foi maquinando a forma mais irresistível de pôr o brizolismo debaixo do braço.
- Um ministério, opinou Miro. Um ministério é tudo.
Lula desconfiou que o deputado estaria querendo voltar ao governo, apesar do fracasso quando, no início de 2004, rompeu com Brizola para ficar no Ministério das Comunicações, prometendo arrebanhar a maior parte dos deputados pedetistas.
E pediu um encontro direto com o presidente do partido, aquele inflamado brizolista do ato da ABI.
As luzes do Palácio
No início de dezembro, Lula recebeu em palácio Lupi, Miro, o senador Osmar Dias, líder no Senado, e o governador Jackson Lago. E tratou de se penitenciar, ao afirmar que errara quando fez de Miro ministro, passando por cima de Leonel Brizola - e sem obter antes o seu aval.
- Eu errei, viu, Miro? - disse Lula. E os olhos dele se encheram de lágrimas ao falar de Brizola. (Essas lágrimas ficam por conta de um atento colunista de Brasília). Esse mesmo jornalista, aliás, comentou: Lula tem mais afinidade com Miro do que com Lupi. E se sentiria mais confortável com Miro como ministro. Mas preferiu levar em conta a força de Lupi dentro do PDT.
O encontro deu panos para as mangas. Lupi também foi muito gentil com o presidente, trocando aquelas acusações incisivas de julho de 2005 por palavras afáveis, lembrando que votara nele no segundo turno do pleito de 2006.
Naquele dia, Miro Teixeira percebeu que não tinha muito a esperar nos seus desejos ministeriáveis: Lula queria o PDT inteiro e daria tempo para Lupi construir a mudança de rumo no partido, o distanciamento do discurso que associava o PT a Marcos Valério, o “careca” denunciado por Roberto Jefferson.
O dia do sim
O marco desse tempo seria o carnaval. Depois, já em março, teria idéia de qual ministério sobraria para o PDT, já que o principal era ampliar a participação do PMDB e administrar a convivência no governo com os partidos do “mensalão”, - PTB, PP e PR (ex-PL).
Mas Carlos Roberto Lupi tinha pressa. Antes mesmo do Diretório Nacional do PDT se reunir em janeiro, no Rio, já havia participado de duas reuniões do Conselho Político montado por Lula, reunindo líderes partidários da base aliada.
E na sexta-feira, 12 de janeiro de 2007, com o Rio a 40 graus, reuniu o Diretório Nacional do PDT no prédio da Fundação Alberto Pasqualini-Leonel Brizola, na Praça Tiradentes, ao lado do Teatro João Caetano.
A reunião começou às duas e meia e terminou às cinco da tarde. Apesar do resultado folgado da votação a favor da adesão – 151 X 31 e uma abstenção – registraram-se debates acalorados, com destaques para o veterano Cibilis Vianna, que surpreendeu numa renúncia às restrições que fazia a Lula desde o dia em que Brizola foi ao seu encontro em São Bernardo, e para Arnaldo Mourthé, então secretário de Relações Internacionais do partido, que qualificou aquela adesão de “capitulacionista”.
A preocupação de Lupi era antecipar-se à posse dos 24 eleitos com discurso oposicionista. Para isso, fez aprovar uma resolução no Diretório Nacional determinando que a bancada teria que seguir piamente as decisões da cúpula partidária.
Para Brizola, uma missa
A reunião, que começou com o Hino Nacional e uma salva de palmas para lembrar Brizola, terminou com a votação esmagadora e um racha: naquele mesmo dia, Arnaldo Mourthé, figura histórica das lutas estudantis e admirado pessoalmente por sua lisura pelo caudilho, renunciou ao cargo na Executiva, coerente com o seu discurso, em que fez um desesperado apelo:
— Que cada um ponha a sua mão na consciência, reflita e diga um “não” rotundo a essa adesão capitulacionista.
Pegou suas coisas e nunca mais voltou ao partido que ajudou a construir. Vitorioso em sua proposta, Carlos Lupi convidou os correligionários para uma missa na Igreja de São Benedito, no Centro da cidade, próxima ao camelódromo, dia 22, quando Brizola seria reverenciado na data do seu nascimento. Se vivo fosse, naquele janeiro de 2007, completaria 85 anos.
coluna@pedroporfirio.com

Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

De como Lula e sua máquina “biafraram” o PDT e similares(I)

"O presidente disse que não tem estudo. O presidente fala, a gente obedece".
Terça-feira, 23 de setembro de 2008
Carlos Roberto Lupi, ministro do Trabalho e presidente licenciado do PDT
Nos meus tempos de cadeia, Élio Gásperi, que passou um mês na Ilha das Flores acusado de ser comunista do PCB, criou o verbo “biafrar” para definir a cooptação que fazíamos dos cabos fuzileiros encarregados da nossa guarda. Nessa época, o sangue africano jorrava na guerra separatista de Biafra, na populosa Nigéria, e, não sei por que cargas d’água, o talentoso jornalista associou a ajuda que obtínhamos de insatisfeitos subalternos da Marinha àquele conflito de longa duração.
Hoje, estou convencido que o governo Lula está “biafrando” partidos que poderiam amealhar os desencantados com sua ostensiva opção pelo que há de pior na política e pela manutenção do modelo econômico desnaciolizante, junto com as ações assistencialistas compensatórias, ao gosto do capital financeiro e do sistema internacional.
Graças a uma engenhosa prática de cooptação, o governo “biafrou” com tranquilidade os partidos que tradicionalmente têm bases no chamado campo popular. Com isso, PC do B e PDT terão que decidir: ou saem do governo do PT, resgatando suas identidades e personalidades, ou se transformam em correntes associadas dentro do PT, o novo “partidão” desse espectro que chamam de esquerda brasileira.
Já o PSB, hoje pendurado no governador de Pernambuco, Eduardo Campos, e em Ciro Gomes, cujo irmão é governador do Ceará com a ajuda do tucano Tasso Jereissati, ainda tem mais a ganhar do que a perder dentro dos seus propósitos sem qualquer conteúdo ideológico.
Pesquisa reveladora
Essa dura conclusão resulta da aplicação de um método de avaliação – a sintomatologia da informação, ou a formulação do diagnóstico pelos sinais emitidos nas manifestações e nos processos que as engendram. Somam-se ainda nessa análise o histórico de cada partido, as analogias indicadas e as possibilidades desenhadas no futuro próximo.
Parte-se do princípio de que PC do B e PDT no governo registram ganhos insignificantes nas fatias que lhes foram disponibilizadas, positivos apenas no contexto de uma política de favorecimentos fisiológicos típicos das legendas viciadas, que se agarram a cargos e orçamentos públicos como forma de saciar seus filiados mais influentes.
Ditos como portadores de conteúdos ideológicos ou tradições de luta, esses partidos acabaram aceitando as mesmas condições de legendas sem qualquer compromisso social e ético, como o PMDB, PP, PTB e PR, entrando na mesma disputa de espaço, em que dão as cartas sempre os de maior representação parlamentar.
A cassação sinalizadora
No caso do PDT, há uma insegurança generalizada, cristalizada a partir do golpe que o “manda-chuva” José Sarney, poderoso desde a ditadura, aplicou no Maranhão, num processo de cartas marcadas que culminou com a deposição do governador Jackson Lago, signatário da “Carta de Lisboa”,o primeiro documento do brizolismo.
Nessa cassação que faz inveja àqueles idos, nos quais, aliás, Sarney foi um dos principais expoentes, o que pesou mesmo foi o advogado que representou Roseana: nada menos do que o ex-ministro do STF e ex-presidente do TSE, João Paulo Sepúlveda Pertence, hoje presidente da esvaziada Comissão de Ética Pública, nomeado por Lula. Seria ético o presidente da Comissão de Ética advogar num processo de cassação de mandato de um governador no tribunal do qual foi presidente?
Registraram-se na esteira dessa cassação, na qual o ex-presidente da ARENA jogou todas as suas cartas (e de seus amigos) algumas coincidências emblemáticas:
1. O ministro Joaquim Barbosa, aquele que encarou o colega Gilmar Mendes no STF, considerou-se impedido de participar e foi substituído pelo colega Ricardo Lewandowski, aquele que foi direto do ABC para o Supremo. A mídia chegou a citar ligações de ministros do governo Lula para ele, entre os quais o senador maranhense Edson Lobão, aliado de Sarney.
2. O relator do processo, ministro Eros Grau, que desde o começo foi um intransigente defensor da cassação, renunciou ao TSE no início de maio, dois meses depois do primeiro julgamento, com uma estranha carta aos seus auxiliares* em que repetiu mais de uma vez que “somos13”, alusão ao número do PT.Os dois ministros que votaram contra a cassação eram os indicados em listas da OAB. Os três oriundos do STF e os dois do STJ fecharam com a cassação, totalmente injustificável, conforme os votos irrefutáveis dos ministros Marcelo Ribeiro e Arnaldo Versiani.
O influente advogado do clã Sarney pouco fez para resgatar o papel inibidor da Comissão de Ética Pública. Seu ato mais importante foi determinar, em 30 de junho de 2008, o arquivamento do processo contra a ministra Dilma Rousseff, que usou a estrutura da Casa Civil para montar um dossiê de nítido interesse partidário sobre gastos com cartões corporativos na gestão FHC.
Os brizolistas mais convictos consideraram acanhada a postura da direção nacional do PDT nesse episódio, como se estivesse pisando em ovos. “Se Brizola estivesse vivo, iria para o Maranhão juntar-se ao povo na defesa do governador eleito pelo povo” – alegam. Foi observada como sintomática a ausência do governador Jackson Lago na Convenção Nacional do partido, realizada dia 6 de março, 48 horas após a decisão do TSE.
Museu do brizolismo
Há igualmente a convicção consolidada de que Lula vê o PDT como partido de segunda linha, negando qualquer possibilidade de apoiá-lo nas eleições para governadores em 2010, mesmo em Estados onde os nomes do brizolismo têm reais possibilidades, como no Paraná e no Maranhão.
A prioridade de Lula, para garantir estruturas em favor da sua candidata, é o PMDB, partido ao qual já está pagando adiantado pelo apoio ainda não sacramentado.
Pior do que isso: o PT, que é um partido de raízes paulistas, põe a mosca azul no prefeito de Campinas, o pedetista Hélio de Oliveira Santos, para que ele abandone a Prefeitura no 14º mês da sua segunda gestão, abrindo vaga para seu vice, o petista Demétrio Vilagra, no que repetiria o caso de Niterói, onde a renúncia do pedetista Jorge Roberto Silveira para disputar o governo do Rio, em 2006, abriu espaço para o petista Godofredo Pinto, que ainda se reelegeu depois.
Nesses últimos dias, o PT decidiu também jogar no ar um possível apoio deputado Ciro Gomes, do PSB, ao ex-governador do Ceará para o governo de São Paulo.
Essa possibilidade foi aventada pelo presidente do petismo no Estado, Edinho Silva, dentro de uma estratégia destinada a tirar Ciro do caminho de Dilma, o que não será muito difícil.
Todo mundo sabe que o Estado de São Paulo é o palanque mais difícil para Dilma, que será a primeira candidata presidencial do PT sem cruz na testa e sem origem paulista. Ao contrário, se Serra for o candidato tucano, pelos maus hábitos dos eleitores daquele Estado, o mais importante do país, ele terá votação maciça.
A idéia dos engenheiros políticos do PT é reduzir o PDT à condição de “Museu do Brizolismo”, conservando-o na condição de linha auxiliar e desacreditando-o perante a massa que um dia viu no caudilho gaúcho a alternativa aos políticos conservadores e comprometidos com o poder econômico.
Como esta última proposta já está ocorrendo, falarei mais adiante. O que tenho percebido, desde já, é que nessa a encomenda tem saído melhor do que o esperado. O PDT está saindo mais barato do que o Palácio calculava.
coluna@pedroporfirio.com

*Despedida de Eros Grau do TSE

Aos funcionários do TSE

"Brasília, 05 de maio de 2009
Leda, Marise, Juliana, Ariadne, Larissa, Julio, Ronaldo, Gustavo, Murilo, Edgard, Cezar e Rocha, meus Amigos:
Tudo passa. Por isso cada manhã somos outros. Passou o meu tempo no TSE. O Supremo me absorve. Estou convencido de que não posso dividir a minha fidelidade a ele com outro tribunal. Aqui fizemos o suficiente. Fizemos o suficiente nós todos, Vocês e eu. Curiosamente, fomos treze. Fizemos como deveríamos ter feito. Juntos. Não fosse cada um de Vocês, e todos, eu não deixada o TSE tranquilamente, seguro de que cumpri o meu dever. Com dignidade. Corretamente.
Obrigado, meus Amigos.
Somos treze. Contem comigo tal e qual sempre contei com Vocês.
Abraço afetuoso,
Eros Roberto Grau "

MINISTRO EROS GRAU É 13! É PT! "CURIOSAMENTE SOMOS 13”! "JUNTOS SOMOS 13”!
O Ministro Eros Grau, do STF, renunciou semana passada à sua vaga de ministro no TSE. E deixou uma carta aos funcionários. Nitidamente a carta sinaliza para o número 13, o número do PT. Num ministro da Corte Suprema, que cuida de cada letra ao escrever, não pode ser coincidência. Na carta, ele afirma: "Curiosamente somos 13". E mais à frente reafirma: "Juntos somos 13". Leia a carta com atenção e avalie se um ministro da Corte Suprema pode insinuar simpatia partidária.
Comentário do Blog: Conforme a interpretação dada por Cesar Maia, publicada em seu Blog, esse fato é da maior gravidade. Insinua que o Ministro defendeu no Tribunal , interesses do seu partido, mais precisamente os do Presidente Lula. Permite a interpretação de que Lula agiu para cassar Jackson Lago, a pedido de seu grande amigo e conselheiro José Sarney. Consta que um outro Ministro nomeado por Lula que votou nesse dia, votou contra Jackson, contrariando seu próprio desejo que era de votar a favor de Jackson, atendendo, também, a um pedido do Presidente. Essas são versoes dominantes em vários circulos de Brasília e que agora ganha força com essa carta de Eros Grau, que foi o relator do processo. Com o tempo as coisas vão ficando mais claras..

Domingo, 7 de Junho de 2009

Lobby internacional começa a dar resultado

FERNANDO SIQUEIRA*

Temos dito e repetido que os dois segmentos por trás do lobby internacional sobre os três poderes da nossa República são os EUA, que só tem 29 bilhões de barris de reservas e consomem 10 bilhões por ano, e o cartel internacional das 7 irmãs, que já tiveram 90% das reservas mundiais sob o seu domínio e hoje tem cerca de 3% apenas.

O pré-sal brasileiro pode ajudar os Estados Unidos a sobreviver. Esses dois blocos de poder jogam pesado na obtenção de reservas por todo o mundo: suborno, corrupção, assassinato de líderes e invasão de países com reservas de recursos não renováveis como petróleo e minérios estratégicos.

Na era Obama, ao contrário da era Bush, a atuação tem sido mais sutil: massagem no ego do “publico alvo”. Vejamos alguns exemplos: 1) Obama diz que Lula é o Cara (My men), portanto, o líder mais popular do mundo; 2) Câmara de Comércio Brasil EUA homenageia Gabrielli com o título de “homem do ano”; 3) O Ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, foi homenageado pela Câmara Brasileira de Comércio da Grã-Bretanha, no dia 20 de maio, sendo agraciado com o título de “Personalidade do Ano”. A solenidade de agraciamento ocorreu em um Jantar de Gala realizado no Hotel Dorchester de Londres, Inglaterra. Falando francamente, não há um único requisito em Lobão para justificar tal título. A não ser o golpe no ego para abrir a sua guarda para as corporações estrangeiras que querem manter a atual legislação do petróleo, favorável a eles. É o lobby domesticando o Lobão.

Portanto, quando Lobão declara, em Londres: “A Petrobrás não pode encarar sozinha a grande tarefa de desenvolver o pré-sal”, e acrescenta: “Certamente faremos leilões no próximo ano”. É o efeito do novo tipo de assédio.

Lobão disse ainda que espera que o Congresso aprove a proposta do grupo interministerial, encampada pelo presidente Lula, ainda este ano, para retomar os leilões no fim de 2011. Segundo a imprensa, Lobão e Dilma declararam que as áreas serão entregues à empresa que oferecer maior percentual de participação para a União . “Se a Petrobrás não quiser participar dos leilões, é problema dela”.

Já vimos filmes parecidos com este: no 6o leilão, a americana Devon ganhou parte do bloco BC-60 oferecendo um percentual de conteúdo nacional inviável (A ANP havia dado um peso de 40% nesse requisito). A Devon, até então parceira da Petrobrás, portanto, sabia da oferta dela, “divorciou” e fez uma proposta vitoriosa pagando menos que a oferta Petrobrás. No 9º leilão a empresa OGX, do Eike Batista, comprou alguns geólogos da Petrobrás (pagando salários altíssimos) e quando o leilão terminou eles saíram da Petrobrás para aquela empresa. Resultado: a Petrobrás fez oferta para 57 blocos e perdeu cerca de 20 para o Eike.

Relembremos que, já no governo de transição, estivemos com a Dilma e ela perguntou como parar o 5o leilão. Respondemos que ele já estava muito adiantado e que a Petrobrás havia ganhado 75 dos 78 blocos ofertados, portanto, ela deveria cuidar para não haver novos leilões. “Isto é ponto pacífico no Governo Lula”, disse ela. Um mês depois, emitiu a portaria no 8 do CNPE mandando a ANP retomar os leilões. Era a plástica ideológica para se credenciar como candidata a presidente. Assim, a nova estatal apregoada, ao que parece, virá para continuar os leilões e, se possível alijar a Petrobrás da competição. Lembremos também que a americana Halliburton comanda a ANP de fato e o Haroldo Lima, de direito.

Logo, é fundamental que todas as entidades e o povo brasileiro vão para as ruas defender essa riqueza que pertence ao povo brasileiro. Se os leilões continuarem, as empresas estrangeiras que ganharem blocos levarão 50% dessa riqueza e ainda terão uma enorme vantagem estratégica: a propriedade do petróleo, contra o Brasil.

*Fernando Siqueira é presidente da Associação de Engenheiros da Petrobras / AEPET

fonte: www.apn.org.br

Lembrando Brizola, porque estamos em junho e não podemos esquecê-lo jamais


O dia em que Brizola chorou

Foi quando, conforme vontade do general Golbery, o TSE tomou-lhe a sigla do PTB e deu para Ivete Vargas


Neste mês de junho, em que lembrarei, no dia 27, aquela madrugada fria de 1969, em que fui preso com direito a socos e pescoções no início de um calvário de um ano e meio em que conheci a tortura sob todas as formas, os sobreviventes do brizolismo vão comemorar o trigésimo aniversário da “Carta de Lisboa”, assinada em 17 de junho de 1979 por 120 brasileiros, num encontro liderado pelo caudilho, ainda na plenitude dos seus 57 anos, marcando a primeira tentativa de reorganização do trabalhismo no Brasil.
No dia 21, o povo brasileiro estará lembrando o quinto aniversário da morte de Leonel Brizola, ocorrida de forma estranha no elevador do Hospital São Lucas, que estava em obras, onde foi internado naquele mesmo dia, meio contra a sua vontade.
Por iniciativa do vereador Leonel Brizola Neto, dia 17, haverá um ato solene na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, para lembrar aquele documento histórico, infelizmente jogado no fundo do baú por quem deveria tê-lo como referência, juntamente com a Carta-Testamento de Getúlio Vargas, a Carta de São Paulo, último documento da lavra de Brizola, divulgado em 5 de junho de 2004, isto é, 16 dias antes de sua morte, e a Carta de Mendes, aprovada em 23 de janeiro de 1983, três semanas depois de sua posse como governador do Rio de Janeiro.
PDT entre libertar-se ou virar anexo do PT
Neste momento, estou concluindo um trabalho sobre o esmagamento do PDT pelo rolo compressor do governo Lula, que entregou um ministério confinado ao partido do caudilho com a pior das intenções: tê-lo à mão, sob controle, insuflando o fisiologismo dos seus sobreviventes para impedir que a LEGENDA BRIZOLISTA ressurja como uma alternativa progressista e nacionalista ao governo entreguista, sustentado pelas elites e pela política de migalhas para o povo despolitizado.
Se você tem interesse em conhecer a natureza do brizolismo, leia os documentos citados. Mais dia, menos dia, o povo vai se dar conta da sua atualidade e da necessidade de um resgate das bandeiras patrióticas que não podem ser enroladas com a morte do grande prócer brasileiro.
A qualquer momento, estarei fazendo chegar a você a minha análise, com base no método da sintomatologia da informação, na qual demonstro que ao participar do governo Lula, aquele que faz a festa das elites com suas práticas assistencialistas paralisantes, o PDT está dando um tiro no seu coração e negando ao povo a alternativa patriótica que está mais atual do que nunca.
coluna@pedroporfirio.com

Recorrendo a uma nova ferramenta, o Twitter. Para me acessar, digite


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Pedro Porfírio

Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

Voo 447: A glamorização da tragédia

Até Lula aproveitou a queda do Airbus para lembrar os feitos da Petrobras no pre-sal
Jobim não largou os holofotes para falar como catedrático do acidente do avião francês na rota Rio-Paris. Por pouco não se vestiu de piloto, como fez na Amazônia com o uniforme do Exército. Clique na foto e veja flash da entrevista do ministro da Defesa.

“Será que são consumidores da informação que têm o desejo por ler notícias ruins, desgraças, tragédias e sangue escorrendo no chão? Será que é por isso que a primeira reação dos hackers e disseminadoras de spans é enviar “fotos do acidente aéreo 447 da Air France” na tentativa de pegar trouxas curiosos”?
Bruno Mendonça, redator publicitário, no blog “Deus salve a rainha”


Tão chocante como a queda do avião da Air France é a sua glamorização, como se estivéssemos diante de um “reality show”, com direito a todo tipo de exibicionismo, a uma multiforme carga televisiva e a pencas de páginas nos nossos jornais diários.
Desde a manhã de segunda-feira, dia 1 de junho de 2009, não se fala de outra coisa. A impressão que me assalta é a de que um verdadeiro exército quer tirar uma casquinha na perda de 228 seres humanos, cada um querendo mostrar maiores conhecimentos e mais doloridos sentimentos sobre o acidente fatal.
Exibicionismo sob medida
Como maior expressão desse espetáculo macabro, a figura do sr. Nelson Azevedo Jobim, de cabelos cortados, com uma varinha metálica à mão, um mapa luminoso às costas e a pose de catedrático na matéria. Desde o impacto da queda, o nosso ambicioso ministro da Defesa, que voltou correndo da África, não larga os holofotes, deixando ao fundo, bem longe, os militares e profissionais que realmente estão envolvidos nas buscas naquela imensidão do Atlântico e na equação das múltiplas possibilidades para a queda de um avião tão moderno e tido como a última palavra da tecnologia aeronáutica.
A sua transformação em mestre da cerimônia fúnebre é uma forma de politizar a tragédia, na afirmação de que o governo age em solidariedade aos brasileiros enlutados com a queda do avião francês. E tem a ver com o triunfalismo boçal do Sr. Luiz Inácio, que aproveitou a cena para declarar na pequena Guatemala que "um país que pode achar petróleo a 6 mil metros de profundidade pode achar um avião a 2 mil metros".
À frente da informação oficial, o ministro da Defesa também faz a adequação necessária, de forma a dosá-la no contexto de uma enormidade de indagações e analogias. Um técnico talvez não tivesse esse tipo de cautela.
A febre espetaculosa que o acidente provocou serve também para mostrar a quantas chegou a arte de encher linguiça para manter a tragédia em cartaz. É preciso fazer qualquer pergunta ou acrescentar qualquer coisa para alimentar o noticiário.
Especula-se sobre todas as hipóteses como se o quebra-cabeças proposto funcionasse como um excitador de populações vulneráveis à projeção dos sentimentos.
A única notícia: o avião caiu

O fato concreto já aconteceu na dureza da única notícia infensa à maquiagem: um Airbus da Air France, com 228 pessoas a bordo, caiu em alto mar no vôo Rio-Paris, em meio a tormentas detectáveis a tempo de desvios acauteladores. Nessa mesma madrugada, outras aeronaves passaram por essa área sem nenhum registro de qualquer desconforto. O vôo 447 não chegou ao seu destino, a lendária capital da França.
Mesmo assim, nossa mídia fez questão de cozinhar a informação. Por muitas horas insistiu em que o Airbus DESAPARECEU, costurando a teia de uma tragédia desdobrável, até admitir o óbvio: desde o primeiro momento se sabia que o aparelho simplesmente CAIU no mar.
A busca dos culpados
A partir daí, uma mídia difusora produz um atraente espetáculo de luzes e cores. Até pessoas que nunca se imaginaram num avião elevam seus instintos às nuvens, num envolvimento inconsciente muito mais agudo do que ocorre nas tragédias emblemáticas da violência urbana, sejam os assassinatos animalescos entre nós, sejam aquelas ações irracionais nos Estados Unidos, tão bem reportadas por Mike Moore em “Tiros em Columbine”.
O noticiário intenso, embora sem aparentes segundas intenções, monopoliza os receptores das preocupações gerais. Cidadãos de todas as classes sociais querem saber até se há sobreviventes, porque a crença em milagres é infalível entre os que acreditam nos poderes divinos.
Mas o espetáculo opera sua dinâmica. No bojo dessa expectativa tênue, assumidamente utópica, vem junto a busca dos culpados. Sim, a mais exigente cláusula de compensação da alma humana é o aparecimento dos responsáveis pela tragédia. Junto com a busca dos corpos e dos destroços, é preciso promover a caça aos culpados. À falta deles, pela variedade de hipóteses, serve um bode expiatório.
Na generalização do luto e da dor, a indignação punitiva mescla-se com o medo contemplativo. Nesses dias, haverá uma redução de passageiros para além-mar. Logo nesse instante, em que os números haviam registrado um aumento de 15% nas viagens internacionais de brasileiros em 2008. Só para os Estados Unidos, 770 mil viajantes.
O contra-ataque em números
Mas a glamorização que assusta e inibe também banaliza, acostumando as pessoas com a idéia de que o acidente faz parte das fatalidades a que todos estamos expostos. Cronistas lembram que o transporte aéreo “é o mais seguro do mundo” e contam com os números.
Uma pesquisa divulgada há alguns anos pela revista americana Newsweek mostrou que o transporte aéreo registra média de 0,01 morte a cada 100 milhões de milhas viajadas, enquanto os trens somam 0,04 e os carros, 0,94.
Especialistas garantem: a frota mais nova e a evolução dos sistemas de segurança do setor tornaram os acidentes mais raros - mesmo com uma quantidade cada vez maior de vôos por todo o planeta.
O número anual de acidentes aéreos, que estava em 61 no fim da década de 80, vem caindo ano a ano. Entre 1991 e 1996, ficou na casa dos 50; entre 1997 e 1999, caiu para 40; entre 2000 e 2002, para 30. Em 2003, foram apenas 19 acidentes, e em 2004, 20. Nesse mesmo período, entre os anos 80 e agora, subiu o número de vôos no mundo. Se em 1989 eram 12,3 milhões, em 1996 eram 16 milhões, e em 2005, cerca de 22,2 milhões de decolagens.
Figurantes no show
A divulgação de opiniões e análises alimenta a polêmica e corroi corações e mentes. Para dizer que está bem das asas, um piloto da TAM informou ter passado na área ainda ao amanhecer, quando de cima das nuvens viu bolas de fogo a 11 mil metros de distância.
Depois, outros, já em operações, fotografaram manchas de combustíveis, que seriam do aparelho acidentado. Logo, não houve explosão. É uma guerra subliminar alimentada por vaidades e por interesses econômicos, estes sempre inquietos e insaciáveis.
É o show descrito com sutileza pelo jovem Bruno Mendonça: “Especialistas de todas as áreas apareciam:
um raio teria desintegrado o avião, terrorismo não foi descartado e a verdadeira causa ainda seria apurada. Ai sempre aparece alguém que deveria ter embarcado no vôo, mas de última hora desistiu e torna-se um iluminado, alguém recebeu um sinal, e a imprensa entrevista, tira fotos, conta a história inteira. Outro personagem típico que vira notícia é um vidente, pai de santo, curandeiro, entidade demoníaca ou paranormal que previu tudo, mandou carta para Deus e o mundo, mas só divulgou a depois. Mas isso da Ibope, acesso, causa interesse de tudo mundo, então é noticiado”.
A alegria tétrica
Causou-me repugnância também o aparecimento de salvados da tragédia. Não há prazer mais deprimente do que o expresso por um ilustre desconhecido que procurou aparecer como aquele que “nasceu de novo” pelo passaporte vencido, embora houvesse comprado passagem para o vôo sinistrado. Qual é o mérito? E agora, ficou feliz por não estar entre os 228 desaparecidos? Terá um orgasmo mais prolongado pela “ressurreição”?
O exibicionismo é realmente uma manifestação de patologia múltipla e enigmática, que pode chegar aos píncaros da torpeza.
Bem, o objetivo desta crônica era tão somente expressar a minha indignação diante da exagerada exposição da tragédia aérea e dessa sequência de dramatizações espetaculosas, que refletem um momento de inspiração desprezível no cotidiano envenenado da sociedade humana.
Era só o que tinha a dizer.
coluna@pedroporfirio.com

Cobertura de acidente aéreo faz subir audiência das TVs

O acidente com o vôo AF447 mexeu com a audiência das TVs. Na Rede Globo, O "Jornal Nacional" bateu seu recorde de 2009 com 36,4 pontos, um número relevante para os últimos meses. O programa "Mais Você" também investiu no acidente e marcou 8,9 pontos, seu sétimo melhor Ibope no ano. O "Jornal Hoje" deu 14,4 pontos, quase o dobro de duas semanas antes.
A Band mudou sua programação diurna. No início da tarde, exibiu "Sala de Emergência", com Silvia Poppovic e José Luís Datena, e aumentou em 66% a audiência do horário. À noite, o "Jornal da Band" marcou 6,6 pontos, seu quarto melhor desempenho em 2009. A Record também investiu no acidente. Tratou dele no "Hoje em Dia", no "Programa da Tarde" e antecipou o "SP Record" em quase duas horas.
Na segunda-feira (01/06), a média de televisores ligados foi de 43,8% ao longo do dia, apenas um ponto percentual a mais do que na semana anterior.
As informações são da Folha de S. Paulo.

Domingo, 31 de Maio de 2009

O pior corrupto é o corrupto “de esquerda”

Faz suas trapaças e acusa quem quiser investigá-las de "conspiração de direita"
OS HOMENS DO PRESIDENTE “A corrupção dos governantes quase sempre começa com a corrupção dos seus princípios”.
Montesquieu, filósofo iluminista francês ( 1689-1755)

“Nasci para combater o crime, não para governá-lo. Ainda não chegou o tempo em que os homens honestos podem servir impunemente à pátria: os defensores da liberdade serão proscritos enquanto dominar a horda dos bandidos”.
Maximilien François Marie Isidore de Robespierre, líder da Revolução Francesa, ao ser levado para a guilhotina, em 1794, aos 36 anos de idade.


Sempre soube que o poder, seja ele qual for, tem encantos que o próprio encanto desconhece. Mas também por muitos anos acreditei que ideologia e safadezas eram antônimas.
Acertei na primeira e equivoquei-me redondamente na segunda. O poder exerce tal fascínio que engendra seus próprios valores. Ou simplesmente os dispensa, num passe de mágica. E quanto maior a distância percorrida, mais vulnerável é aquele que se torna senhor dos anéis.
O que se vê hoje no Brasil é a ausência de todo e qualquer recato. A corrupção grassa como elemento difuso de efeitos multiplicadores. O assalto ao alheio não conhece limites, nem se tangencia em determinados espaços e momentos. Não é exclusivo da vida pública, até porque decorre de negociatas com interesses privados.
Reina a bel prazer, na imensidão desse país continental, como fatalidade corriqueira. Dir-se-ia sem pestanejar que seu caráter amplo, geral e irrestrito a todos seduz. Tal é seu magnetismo que, a rigor, não encontra óbices: não se é contra a corrupção, mas, sim, contra a corrupção dos outros.
Sedução inebriante

Andei concluindo com a maior amargura: entre os tipos de corruptos, há os que desfilam de crachás, os que permanecem nos armários (e ainda não deram bandeira) e os que esperam ansiosamente que a fila ande.
As práticas inerentes à corrupção movimentam muito mais dinheiro nos subterrâneos de que toda a atividade econômica visível a olho nu. Não há elementos de cálculo, mas é possível dimensioná-la como acachapante e avassaladora.
Porque ela se origina em toda e qualquer movimentação que envolva dinheiro. Sua manifestação mais exuberante é a propina, irmã siamesa do superfaturamento. A corrupção é como jogo do bicho: todo mundo sabe que é ilegal, mas todo mundo vê, não diz nada e, se der, ainda faz uma fezinha.
Ainda na minha adolescência, quando, meus olhos alcançaram o horizonte perdido, tive a atenção voltada para esse delito, praticado em larga escala na administração pública.
Tinha 11 anos de idade quando Armando Falcão, candidato a governador do Ceará, em 1954, fez do slogan “contra o roubo e a corrupção” a bandeira de sua campanha. Aquela “proposta de governo” chamou minha atenção até porque, ao fim, ele acabou derrotado numa eleição muito apertada.
Desde então vim aprendendo muitas lições. Nessa, a de que nem sempre os que acusam os outros como corruptos têm autoridade moral para tal. E muitas vezes pode ocorrer até de papagaio comer o milho e o periquito levar a fama.
Mas em todas as circunstâncias considerava que a ideologia da transformação social incluía entre seus pertences o combate implacável ao vício de meter a mão no dinheiro alheio.
Revolucionários contra a corrupção
Quando, aos 17 anos, fui a Cuba pela primeira vez, em 1960, uma das novidades que mais me impressionaram foi a existência do Ministério de Recuperação dos Bens Malversados pela ditadura. Confiado ao comandante Faustino Perez Hernández, um dos 12 primeiros guerrilheiros que subiram a Sierra Maestra, esse inusitado ministério funcionava na esquina das ruas 21 e D, no Vedado, não muito longe do Hotel Havana Livre, onde participei do I Congresso Latino-americano de Juventudes.
Desde sua primeira operação, no primeiro mês do regime revolucionário, quando descobriu 6 milhões de dólares escondidos pelo ditador Fulgêncio Batista num cofre do Bank Trust Company de Cuba, o austero ministério se tornou o terror dos corruptos e seu titular foi apontado por Fidel Castro como o símbolo do revolucionário, por sua exemplar honestidade e transparência.
Naqueles idos, pelo que me constava, ser contra a roubalheira era ingrediente indispensável na ideologia de esquerda. Tinha certeza dessa premissa até pela obsessão de Maximilien Robespierre, o líder da Revolução Francesa, cognominado “o incorruptível”.
Por aqui, a conversa é outra
Já quando estive em cargos importantes na Prefeitura do Rio de Janeiro, comecei a perceber que a banda não tocava como eu imaginava, apesar da promessa de Brizola de lavar a sujeira com água e sabão.
Quando, em 1984, como coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, prendi em flagrante um fiscal corrupto que extorquia um pequeno empresário na Penha senti os primeiros olhares de censura aos meus “excessos”. Depois, prendi uma equipe da Secretaria de Obras que, mediante propina, desviava asfalto de uma “rua reconhecida” para a favela do Jacarezinho. Foi um Deus nos acuda. Tive que recuar, porque ia sobrar exclusivamente para os operários.
Levado ao primeiro escalão, como secretário de Desenvolvimento Social, apreendi e acautelei numa delegacia manilhas comuns, entregues enganosamente como “armadas”. Declarei a firma fornecedora inidônea e, como ela era apenas uma das várias pertencentes ao mesmo empresário, de nada adiantou.
Determinei sindicância para apurar uma mutreta com 500 metros de areia, que nunca chegaram ao depósito da Secretaria. Mas o engenheiro que assinou o recebimento era bem articulado dentro do PDT: o processo sumiu e isso me causou muita dor de cabeça. O mesmo aconteceu quando demiti o encarregado do depósito de Campo Grande, pilhado em delito semelhante, com carregamento de pedras.
Poderia contar outras dificuldades que enfrentei para reforçar com todas as letras a convicção de que a corrupção, a robalheira e os desvios de conduta moral são tão lesivos ao país e ao povo como as políticas econômicas perversas, o entreguismo e a selvagem exploração do homem pelo homem.
A cara de pau do corrupto de “esquerda”
Poderia, mas hoje só queria dizer uma coisa, doa a quem doer: o pior corrupto é o que se jacta de esquerda. É essa súcia desonesta que morre de medo de uma investigação e, para proteger-se, chega ao cúmulo de convencer os mais ingênuos de que a apuração de maracutaias em empresas públicas, como a Petrobras, é apenas uma manobra privatizante.
O corrupto de “esquerda” é cínico e arrogante. Pela facilidade de meter a mão no dinheiro público sob proteção do manto escarlate e pelo deslumbramento com os podres poderes é capaz de delitos muitos mais danosos porque, ao contrário dos corruptos tradicionais, age em bandos, interagindo em verdadeiras teias em que faz o meio de campo com lideranças corporativas, doma a mídia e banha de um invólucro “social” e até “patriótico” suas pernadas no erário. Esse corrupto, diferente do tradicional, serve à sua patota, mas cria expectativas para que terceiros se beneficiem no futuro de outros butins. Tem um discurso bem articulado e sabe como imobilizar, pela cooptação, com algumas prebendas e favorecimentos a granel, aqueles que poderiam atrapalhar seus passos.
Esse corrupto, por coincidência, é aquele que, estando do outro lado do balcão, amanhecia o dia pensando em quem ia apresentar como ladrão à distinta platéia. É o corrupto que faz as mesmas armações, crente de que ganhará o a anuência da opinião pública, devidamente convencida de que pior do que sua turma é a “direita privatizante”.
Esse corrupto de “esquerda” é um típico cara de pau, que se socorre de parceiros manjados, tipos Collor, Sarney, Romero Jucá e Renan Calheiros, como se a cocaína farta no país tivesse explodido nossa memória. Tão cara de pau que está entregando o pré-sal a trustes estrangeiros através dos leilões das jazidas, perdoou dívidas de empresas privatizadas, como as da norte-americana AES (da Eletropaulo) está trabalhando a privatização dos aeroportos, numa jogada da pesada, e fala mal da privataria passada, sem nada ter feito para desfazê-la, sabe Deus porque.
coluna@pedroporfirio.com

Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

PT ao vivo e a cores: de como se constrói a hegemonia às avessas





Chico de Oliveira, sociólogo militante, tem demonstrado porque Lula é a regressão.
Juntar-se a Lula é um bom negócio. Mas é também, apenas, um bom negócio.

“Lula está à direita de Fernando Henrique Cardoso ao não recompor as estruturas do Estado e não avançar na ampliação de direitos. O presidente tenta se legitimar promovendo consensos que passam pela cooptação dos mais pobres. O Bolsa Família não é um direito, mas uma dádiva. Neste sentido, vivemos na gestão dele uma regressão política, porque no governo Lula houve uma diminuição do grau de participação popular na esfera pública. E quando se projeta o cenário de 2010 percebe-se como Lula resulta regressivo. Com a força perdida pelo PT e a ausência de alternativas de Lula, uma vez que a doença de sua candidata mostra sinais de gravidade, aparece o terceiro mandato”.
Chico Oliveira, sociólogo, 75 anos, fundador e desencantado com o PT, em entrevista ao jornal VALOR ECONÔMICO, de 27.5.2009.*

Nada como um programa de televisão para espelhar a essência de uma opção de governo. A Lei eleitoral oferece essa oportunidade aos cidadãos. A cada semestre, os partidos vão à tv para revelar um pouco de si.
Nesta quinta-feira, foi a vez do programa do Partido dos Trabalhadores, aquele que se fez de uma alquimia engendrada tendo como principal matéria prima a insatisfação de uma população desorganizada politicamente e de fácil manipulação, em especial, por símbolos sobrenaturais.
O PT foi o novo que se fez na ruptura da história. Não vou falar hoje das tratativas que pavimentaram sua caminhada, passo a passo, até levar à Presidência da República o “curitiano” que chegou ao sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo pelas mãos de Paulo Vidal Neto, o malabarista que, sendo de confiança da ditadura, tinha um bom trânsito no antigo Partido Comunista Brasileiro, onde militava José Francisco da Silva, o irmão de Lula que o indicou para suplente do conselho fiscal da chapa oficial “por não correr risco de perder o emprego”, na Villares.
"Em toda minha vida, nunca gostei de ser rotulado de esquerda. E, na primeira vez que me perguntaram se eu era comunista, respondi: 'Sou torneiro mecânico'".

Isso é matéria para livro. Mas ao ver e rever o programa do PT identifiquei nele com uma clareza exuberante o que havia nas entrelinhas da sua trajetória matreira.
Quando se fixa em programas assistenciais compensatórios e obras de vitrine, o governo do PT cumpre ao pé da letra a sua tarefa protelatória, consentânea com o projeto pós-ditadura militar elaborado sob inspiração do banqueiro David Rockfeller e seus parceiros da super-ONG “Diálogo Interamericano”.
O programa de televisão em nenhum momento tocou em temas represados, como a reforma agrária, o aviltamento salarial, a soberania nacional, especulação financeira, a precariedade da educação pública de base, a inexistência de uma política de saúde conseqüente e o agravamento da insegurança nas cidades.
Fala das privatizações de FHC, mas nada diz sobre a omissão do governo Lula, que se nega a auditá-las, apesar do gritante do seu caráter donativo. E omite igualmente a sagrada aliança com o agro-negócio, que já representou uma sequência de perdões e protelações de dívidas, cujos valores são muitas vezes superiores aos destinados aos assentamentos rurais, virtualmente abandonados à própria sorte, e aos pequenos agricultores.
Obras de vitrine para seduzir a massa excluída com a notícia de que seua vez chegará um dia

Nos seus carros-chefes, o vício da ocultação da verdade. Esse mirabolante programa de construção de um milhão de casas, com suas planilhas incontroláveis, foi concebido para tirar do sufoco a indústria da construção civil, às voltas com a drástica queda da demanda em seus projetos direcionados à classe média, e não para compensar salários que não permitem moradias decentes.
Se vai ou não vai resultar em benefício social, tenho minhas dúvidas. Com dinheiro saindo pelo ladrão, o PAC conseguiu construir até agora menos de 50 apartamentos no Complexo do Alemão, feito considerado tão significativo que levou o próprio presidente da República ao evento de inauguração, nesta sexta-feira.
A realização de obras em três grandes favelas do Rio de Janeiro é um oneroso mostruário que está longe de encarar a crônica sub-habitação, filha de rendas insuficientes. Ao um custo de 1 bilhão de reais – maior do que orçamentos anuais de muitas prefeituras, como Natal (R$ 840 milhões) e Niterói (R$ 859 milhões) – sua concepção reflete uma inescrupulosa intenção: seduzir milhões de miseráveis descartados com a notícia de que, pelo menos no Alemão, em Manguinhos e na Rocinha alguma coisa já se fez, principalmente de natureza cosmética.
No âmbito da educação, o programa do PT usou o “Prouni” como seu maior emblema. Sob o mesmo impulso do projeto de moradias, esse “achado” não é mais do que um jeito brasileiro de socorrer os mercados de ensino privados, que registraram capacidade ociosa superior a 50%. Em troca das bolsas, cujos critérios sociais têm sido fartamente ludibriados, o governo abre mão de tributos, que deixam de ser recolhidos e faltam ostensivamente nas escolas públicas.
Nessa progressão, todo piso salarial será igual ao mínimo. Essa é uma forma perversa de nivelar por baixo
O depoimento do presidente da CUT revela o alcance da domesticação do movimento sindical. Ele se gabou dos aumentos do salário mínimo, acima dos concedidos à grande massa de trabalhadores, e da revisão, ano passado, da tabela do imposto de renda.
Essa política, integrada com o “bolsa-família”, cumpre um irresponsável desserviço à atividade laboral. Corrige em parte a defasagem histórica de 44 milhões de brasileiros. Correção, aliás, ainda muito distante do necessário, conforme cálculos da Gazeta Mercantil, segundo os quais para cobrir todas as despesas, o mínimo hoje deveria ser de R$ 2.141,08.
Mas nivela os salários por baixo, na medida em que os mesmos critérios de reajustes não se aplicam a quem ganham acima do mínimo. Essa tendência demonstra a significativa contração da massa salarial no país: levantamento do Dieese demonstrou que a proporção de categorias de trabalhadores com pisos salariais bem próximos do salário mínimo cresceu entre 2007 e 2008. No ano passado, o percentual de atividades com remuneração básica equivalente a um salário mínimo alcançou 5,7% – ante 3,4% em 2007. O mais grave é que a pesquisa comprovou que o valor médio do piso salarial recuou entre 2005 e 2008 de 1,73 salário mínimo para 1,34. A perda de massa salarial, não é, portanto, fenômeno exclusivo dessa recente crise econômica.
Ao adotar critérios diferentes nas correções salariais, o governo do PT expõe o seu caráter oportunista, mas não esconde a traição à massa que o endossou. Adota um critério político de viés eleitoral, pelo qual garante um volumoso capital votante, cimento de uma maioria maliciosamente amestrada. E cristaliza o projeto de governo “consensual”, ao gosto das elites multinacionais e oligopolistas.
Esse PT que se mostrou pelas telas de TV e pelas ondas do rádio na passada quinta-feira é a grande panacéia que leva ao delírio o sistema internacional e faz do seu simpático condottiere um indiscreto fã do nosso operário bem sucedido.
Juntar-se a ele é um bom negócio. Mas é também, apenas, um bom negócio.
coluna@pedroporfirio.com

*Para este ano, Chico de Oliveira prepara um livro que irá retratar a construção de uma HEGEMONIA ÀS AVESSAS. Ou seja: como um líder popular carismático trabalharia no sentido contrário aos interesses da base que o elegeu.


Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

Brizola jamais participaria desse governo Lula




Dois momentos com Brizola: em 2003, na Câmara do Rio, durante a entrega da Medalha Pedro Ernesto à deputada Cidinha Campos, E no seu último reveillon, no alvorecer de 2004. Nesse período, conversámos muito e ele abria seu coração amargurado.
''A aliança Lula-Brizola é a única soma que conheço cujo resultado é negativo''.
Delfim Neto, um dos atuais inspiradores do governo petista.


Já que chegamos ao mais baixo nível da vida pública brasileira, cuja mola propulsora é a facilidade do sistema para transformar a classe política num zoológico de miquinhos amestrados, faz-se necessário o resgate histórico da figura de Leonel Brizola: nas atuais circunstâncias, se vivo fosse, o PDT jamais participaria desse conchavo escabroso reunido em todo do governo Lula.
Faço essa afirmação sem pestanejar. E desafio qualquer um dos seus herdeiros, sejam os necessários ou os adotados no crepúsculo das vacas magras, a explicar essa adesão perniciosa, que ainda vai causar um prejuízo falimentar à legenda brizolista, minando os seus fundamentos e afetando os vínculos com os brasileiros que viam no caudilho a resposta nacionalista ao modelo econômico entreguista que ele criticava 24 horas por dia e que, no entanto, é o ABC dos nossos governantes.
Não que o Brizola tenha sido coerente na sua relação com o sapo barbudo. Ele tinha perfeita consciência de que Lula foi fabricado, entre outras missões, para barrar-lhe a ascensão à Presidência da República, no que o sistema usou de todos os condimentos disponíveis, desde a punga do velho PTB, por obra e graça do general Golbery, um dos padrinhos do “neo-sindicalista”, até o direcionamento de votos dos grotões para o petista, evitando que Brizola fosse enfrentar Collor no segundo turno, passando por obscenidades mais audaciosas, como a tentativa de fraude nas eleições de 1982, através da Proconsult.
Mas Brizola tinha um certo prazer em ver um ex-operário, de origem humilde, como ele, derrotar os candidatos saídos das classes dominantes. “Não seria fascinante fazer agora a elite brasileira engolir o Lula, o sapo barbudo?” – repetiu mais de uma vez. Esse esse sentimento tinha muito a ver com seus conflitos implacáveis com o poder econômico.
Encontro infeliz
A primeira certeza dessa tarefa confiada ao ex-líder metalúrgico de São Bernardo ele teve pouco depois de voltar do exílio. Alguns deputados da esquerda do MDB articularam uma visita de Brizola a Lula, lá no sindicato, no início dos anos 80.
Segundo seu parceiro Cibilis Viana, que participou da visita, Lula deixou Brizola chocado e muito amargurado. Ao recebê-lo em sua sala, o presidente do Sindicato sequer levantou-se da cadeira para abraçá-lo. Aqui já foi uma ducha de água fria.
Lula recebeu-o secamente e, para azedar o encontro, passou a desancar o antigo sindicalismo, que, “era controlado por pelegos do PTB”. A coisa ficou feia quando ele, que já devia ter tomado alguma, começou a falar mal do presidente Vargas, ensejando um bate-boca que só não foi mais inflamado devido à providencial intervenção da turma do deixa disso. Mas nessa hora, o líder trabalhista interrompeu a conversa e foi embora sem maiores formalidades.
O último réveillon
Conversei sobre esse incidente com Brizola no seu último réveillon. Morando na Avenida Atlântica, ele costumava receber os amigos em sua casa, servindo uma ceia farta, para ver a explosão dos fogos na praia.
Na véspera do ano novo de 2004, para minha surpresa, só estavam lá a sua afetuosa companheira, Marília Guilhermina Martins Pinheiro, o filho João Otávio, os netos, um bisneto, Lígia Doutel de Andrade, sempre bonita viúva do brilhante deputado Doutel de Andrade, eu e Danilo e Yoone Groff, amigos do “doutor” desde a década de cinquenta. O comandante Maia, que fora piloto o helicóptero do governo do Estado, deu uma passada, mas não demorou muito.
Naquele momento, eu era o único titular de um mandato no seu apartamento. Isso tinha uma explicação: apesar de ter batizado meu filho Pedro Ivo, numa festa que terminou na Escola de Samba do Estácio, só no último ano de sua vida, quando andava desiludido com velhos amigos, o caudilho passou a me ouvir, em longas conversas.
Até então, sempre teve um pé atrás comigo, porque eu era um dos raros correligionários que divergia dele em plena reunião, desde os primeiros encontros no Hotel Everest, em Ipanema, quando, cheio de ilusões, achava que assumiria a liderança de toda a oposição brasileira – dos ex-exilados até os sobreviventes que faziam jogo duplo por aqui.
No réveillon e, em fevereiro de 2004, quando conversarmos sozinhos por quase três horas, tudo o que ele fazia era lamentar o governo Lula, “que vai nos levar a buscar alianças sem perfil ideológico, porque, neste momento, o melhor serviço que posso prestar ao Brasil é somar forças contra esse estelionato político”.
Encontro com Bornhausen
Na noite do ano novo, mais ao canto, enquanto ele servia vinhos italianos enviados pelo vereador Sami Jorge, sentado à mesa com ele, critiquei um sussurro sobre conversas com o presidente do PFL, senador Jorge Bornhausen.
- É verdade. Dia 7, vou recebê-lo aqui em casa para tomar café e vamos aprofundar alianças nas eleições municipais, com vistas a 2006. Dessa vez eu não vou cair na conversa do sapo barbudo, que está sendo manipulado pelo Sarney, o Delfim Neto e o Meireles, do Banco Central.
Ele contou que já em 2002 havia conversado com Bornhausen na tentativa de ampliar o apoio para a candidatura de Ciro Gomes. Eu sabia disso: tinha guardado no meu computador, (o Google ainda não estava com essa bola toda), suas declarações feitas em Florianópolis, após conversar com o presidente do PFL e com o governador Espiridião Amim, na presença do presidente do PDT catarinense, Manoel Dias, transmitida pela Agência JB no dia 17 de julho, analisando os presidenciáveis:
Ciro Gomes: "Não pertence a algum grupo, anda sozinho, conhece a realidade do país e tem idéias claras e definidas. Fala bem o português, latim e até inglês";
Lula: “É pouco experiente, virou um almofadinha, um galã, ele sempre viveu da glória e é carregado por uma pequena burguesia";
José Serra: "É um burocrata e seu fraco desempenho surpreendeu o Governo Federal".
Deslealdades do PT
Em dezembro de 2003, o PDT já havia rompido com Lula, de cujo governo, segundo ele, participou por “gravidade”. Insistiu em que não foi sua, nem do partido, a indicação de Miro Teixeira para o Ministério das Comunicações: “isso foi coisa da Rede Globo” – disse, lembrando a amizade do deputado com os filhos de Roberto Marinho. “Se eu tivesse sido ouvido, não aceitaria esse ministério, que não tem nada com o trabalhismo e pensaria em outros nomes para nos representar. Lula me golpeou dentro do partido, criando um desconfortável fato consumado”.
Quando reencontrei Brizola em fevereiro, nossa última conversa longa em seu apartamento, ele parecia abatido e tenso. Voltamos a conversar sobre Lula. Ele lembrou a deslealdade na eleição de 1994, quando o programa eleitoral do PT repetia toda hora uma declaração infeliz sobre a CPI, que considerava gerada pela GLOBO, por conta de compromissos não honrados por Collor: “Por mim, essa CPI não sai” – disse e depois dessa frase perdeu quatro eleições seguidas, algumas de forma humilhante.
Mas era por conta do rumo adotado por Lula que ele repetia: “Porfírio, você jamais me verá de novo ao lado dele. Ao contrário, farei aliança até com o coisa ruim para derrotá-lo”. E repetiu o que dissera numa matéria publicada no dia 8 de janeiro pela FOLHA DE SÃO PAULO, depois de receber o presidente do PFL:
“O PDT não está preocupado em discutir alianças ideológicas para as eleições municipais. Nós estamos analisando situações concretas, assim como o PT está fazendo. O grande guru do governo Lula, por exemplo, é o senador Sarney”.
Nessa matéria, Brizola criticou o contrato de renegociação da dívida da empresa americana AES, divulgado no último dia 29, que inclui o perdão pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) de US$ 193,7 milhões (cerca de R$ 554 milhões). "Estou convencido de que esse acordo que a Folha publicou amplamente só pôde ser realizado com a ordem direta do presidente".
-Tu vê, comentou comigo, o Lula saiu melhor do que a encomenda.
Voltarei a falar, porque, entre outros projetos, estou começando a escrever o segundo volume do meu livro “Confissões de um Inconformista”.
coluna@pedroporfirio.com


Sábado, 23 de Maio de 2009

CPI das chantagens, eivada de leviandades para todos os gostos

No mapa a localização do poço Tupi. No detalhe, uma charge sobre a nova aliança, com o corrupto e entreguista Fernando Collor feito espadachim de Lula
“Aos poucos, e com muito cuidado, nós vamos discutindo políticas com os companheiros e vamos mostrando que não é o Brasil que é da Petrobras, a Petrobras é que é do Brasil".
Luiz Inácio, Porto de Pecém, Ceará, 28 de agosto de 2008
“A gente vai fazendo com que a Petrobras perceba que ela é que é do Brasil e não o Brasil que é dela.”
Luiz Inácio, Poço de Tupi, 1 de maio de 2009, quando o petróleo do pré-sal começou a jorrar.

Pensei, pesei e pesquisei muito antes de escrever as próximas linhas. Claro que, de cara, apoiaria uma devassa na já “privatizada” empresa de capital misto (em que o Estado só detém 38% de suas ações) e por extensão na política petrolífera entreguista iniciada por FHC em 1997 e seguida a risca, ao pé da letra, pelo governo do Sr. Luiz Inácio e seus miquinhos amestrados.
A bem da verdade, pelo que vejo neste país em que você começa a ser roubado na administração do seu condomínio, apóio qualquer devassa. E dou razão sem medo de exagerar ao sábio Bezerra da Silva (que Deus o tenha): se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão.
Mas nesse caso, gastei boas horas da minha vida para concluir que o Senado não tem autoridade moral para investigar ninguém e essa iniciativa só vai servir para sujeitar o governo ainda mais a canalhas, corruptos e chantagistas, que já puseram as unhas de fora antes mesmo de começar o espetáculo.
Na minha avaliação, tocou-me a ausência da assinatura na petição da CPI do senador José Nery, do PSOL, partido que saiu da costela questionadora do PT. Da mesma forma, anotei pronunciamentos de patriotas dogmaticamente íntegras, como a médica Maria Augusta Itibiriçá Miranda, de 98 anos, presidente do MODECON – Movimento de Defesa da Economia Nacional, fundado por Barbosa Lima Sobrinho.
Assim também me alimentaram o cérebro a assinatura e as denúncias posteriores de chantagem do senador Pedro Simon e o vai-não-vai do senador Cristóvão Buarque. O senador gaúcho é de uma espécie rara e em extinção na vida pública brasileira, mas resiste lá, firme e forte, dando aulas diárias aos brasileiros ainda não bolados por uns e outros. Já o senador pedetista (demitido do Ministério por Lula pelo DDD, quando petista de carteirinha) podia avaliar se se garante antes de tomar uma atitude.
Apelações pueris
Nessa nova batalha de Itararé, o feio (com cara de apelação rasteira) foi a munição usada pelos contrários à CPI, inclusive gente que sabe muito bem das práticas deletérias na mega-empresa estatal, algumas revelas por Cláudio Weber Abramo, da Transparência Brasil, e na Agência Nacional do Petróleo, onde, segundo a Associação dos Engenheiros da Petrobras, quem manda hoje em dia é a Halliburton, a petrolífera que encomendou a invasão do Iraque, presidida por muitos anos pelo pelo ex-vice-presidente norte-americano Dick Cheney.
Essas práticas incluem doações imorais a ONGs amigas, como está na matéria da competente jornalista Maiá Menezes e seu colega Dimmi Amora, que O GLOBO publica neste domingo: a Petrobras repassou R$ 609 milhões, sem licitação, para financiar 1.100 contratos com ONGs, patrocínios, festas e congressos nos últimos 12 meses.
Querer queimar a CPI com o argumento de que ela se destina à consumar a privatização da Petrobras e a entregar o óleo do pré-sal a multinacionais é desprezar a memória dos mais atentos. Desde a Lei 9478/97, o processo de privatização do petróleo foi deflagrado e até hoje o Sr. Luiz Inácio e seus miquinhos amestrados, inclusive dona Dilma Vana Rousseff Linhares, a adotaram com carinho e afeto.
Lei entreguista intacta

Tanto que permanece impávido, intacto e reluzente o generoso artigo 26 da ditosa Lei, no qual se lê textualmente: “A concessão implica, para o concessionário, a obrigação de explorar, por sua conta e risco e, em caso de êxito, produzir petróleo ou gás natural em determinado bloco, conferindo-lhe a propriedade desses bens, após extraídos, com os encargos relativos ao pagamento dos tributos incidentes e das participações legais ou contratuais correspondentes”.
Mais infeliz e indigna ainda foi a desequilibrada verborragia do festejado sociólogo Emir Sader, que no começo da era Lula destilava amarguras em relação a ele, mas, de repente, tornou-se uma flama ardente aos seus pés.
Para desqualificar a CPI, o inflamado arauto do palácio listou os epítetos negativos que pesam sobre cada um dos seus signatários: “o senador Artur Virgilio talvez estivesse tentando organizar sua defesa da acusação de envolvimento com prostituição infantil de que foi acusado ou preocupado em libertar o filho, preso por desacato e pornografia” E assim por diante: não poupou nem o senador Pedro Simon (Pobre a sociologia que não ensina quando o ânus não tem nada a ver com as calças).
Senado sem moral

Neste festival de aleivosias, medíocres e arrivistas estão jogando conversa fora. As excelências do Senado não querem nem por hipótese abrir a caixa preta da empresa, nem prestar serviço ao país com essa espetaculosa CPI de cartas marcadas, que está tirando o sono do sapo barbudo.
AfinaI, com 13%, as ações da Petrobras são as mais importantes no peso do índice Bovespa. E qualquer fofoca mais apimentada contra ela vai atirar fezes no ventilador, afugentando esses investidores ainda acometidos do trauma do “subprime”, com as repercussões depressivas na já instável atividade do São Mercado.
Mas os tucanos e os lobistas não precisam desse expediente para forçar o que já parece ser uma fatalidade, com a chancela do PT, para o qual a Petrobras é apenas um compensador “cabide”, à semelhança do que acomodou boa parte da oficialidade na época da ditadura: diferença apenas na garganta profunda dos abonados de hoje, especialistas em alquimias sofisticadas e subsídios dadivosos para ajudar correligionários com o uso de viciadas organizações não governamentais.
Eu prefiro questionar a falta de autoridade moral do Senado para investigar qualquer coisa, até ladrões de galinhas. Além dos desvios de conduta notórios, que transformam em farra um orçamento de R$ 2,7 bilhões ( o orçamento do Congresso – R$ 6,28 bilhões é maior do que os de 8 Estados), o Senado é obsoleto e oferece o corpo de delito da falsa democracia, com seus suplentes sem votos em exercício, seu corporativismo delinqüente, o mandato de 8 anos. o voto duplo e outros ataques ao regime representativo.
Fernando Collor de Melo, defenestrado da Presidência da República e cassado por corrupção com as calças arriadas e a mão no cofre, pode ser levado a sério como investigador da maior empresa da América Latina? Pois o bardo será um dos inquisidores, como peça do governo (meu Deus, onde chegou a decadência do PT) e já deu entrevista falando grosso.
Mapa da mina

Mal começou o circo, a camarilha sem vergonha do PMDB já pôs as mangas de fora e o governo de mãos ao alto: com o mapa da mina fornecido pelo especialista Severino Cavalcanti, para perfilar-se pianinho, quer de cara aquela diretoria que fura poço e acha petróleo”, ocupada pelo geólogo filo-petista Guilherme Estrela, a quem creditam os maiores méritos na arrojada descoberta de petróleo leve (top de linha) a 300 Km da costa fluminense e 6 Kms de profundidade, abaixo da camada de sal.
Talvez sejam essas picaretas em poder dos canalhas paramentados que assustam a corte e afobam as corporações. A CPI numa casa de tolerância não vai chegar a lugar nenhum, mas, em compensação, oferecerá mais combustível para o assalto aos podres poderes, no que os tucanos agem como maliciosos parceiros dedicados à caterva de Sarney.
Investigar a Petrobras é providência salutar, até profilática, mas fala sério, você pode confiar nessa turma da pesada? Nesse ponto, concordo com a dona Dilma: os técnicos do Tribunal de Contas e o Ministério Público seriam muito mais indicados para tal faxina.
Conflito de mentirinha
Temos então um quadro típico de fancaria. Os artífices da CPI sabem que não precisam dela para privatizar o que já foi privatizado com a transferência de boa parte das suas ações a preço de banana para a Bolsa de Nova York.
Sabem que o novo modelo de marco regulatório concebido pelos miquinhos amestrados contempla a joint venture entre Petrobras e multinacionais, como acontece na Bolívia e nas operações fora do Brasil, deixando a união como poder concedente.
Os generais do “Exército branco” governista, comandados pelo marechal Sarney, cujo recato sumiu no berço, querem mais picanha para seu churrasco. A parte do latifúndio que lhes coube no loteamento da Petrobras e da ANP promovido pelo sr. Luiz Inácio não os sacia diante da miragem argentária brotando do petróleo jorrando por todos os poros e para os bornais dos padrinhos das prebendas da área.
Ambos os cordões buscam, em paralelo, incisivos e efusivos, uma oportunidade de tirar o Senado da lama em que se atolou diante do seriado de delitos que os transformou, junto com os demais colegas parlamentares, em ícones mal falados da fogosa e muito rendosa pouca vergonha tupiniquim.
Senha dos propósitos
Enquanto a farsa ensaia seus primeiros passos, o sr. Luiz Inácio vai costurando o novo modelo do marco regulatório do petróleo, cuja tendência, vale repetir, é terceirizar com maiores facilidades as jazidas profundas descobertas pelos competentes profissionais da Petrobras.
Em mais de uma oportunidade, ele já deu a senha dos seus propósitos e só o rebanho estrábico de aspirantes a qualquer coisa nos podres poderes faz de conta que não vê.
Ou você não alcança os recados contidos nos seguintes pronunciamentos da boca do sr. Presidente?
“A Petrobras, aos poucos, vai se transformando mais do que numa empresa de petróleo. E todo mundo que é muito grande e importante, às vezes, esnoba um pouco".
"A Petrobras é tão grande, tem tanto dinheiro, que de vez em quando eu digo ao José Sergio Gabrielli que a gente vai eleger o presidente da Petrobras e ele indica o presidente da República, ao invés de eu indicar o presidente da Petrobras." (20 de agosto de 2008, no porto do Pecém, Ceará).
“Eu quero dizer para vocês, companheiros da direção da Petrobras, o meu orgulho de ter vocês como parceiros. Eu poderia falar orgulho de ter vocês como subordinados. Mas (dirigindo-se à platéia), eles não obedecem”.
“A gente define as coisas com eles e aí passam três meses e, acontece? Não. A máquina é poderosa, mas aos poucos a gente vai compartilhando o enquadramento e fazendo com que a Petrobras perceba que ela é que é do Brasil, e não o Brasil que é dela. Ela vai percebendo aos poucos que o Brasil é maior do que ela, é mais importante e que ela só existe porque antes dela existia o Brasil”. (1 de maio de 2009, na festa do pré-sal).
"Quando falamos em empresa estatal, nós não queremos criar uma outra Petrobras. Na verdade, é outra coisa, parecida com o que acontece na Noruega. É um fundo, uma pequena empresa, que na Noruega deve ter 60 funcionários, que é o Estado cuidando do petróleo" (17 de setembro de 2008, na inauguração do pólo naval do Sul).
Conclusões finais
Temos então para efeito de raciocínio dos que não têm rabos presos e não são metamorfoses ambulantes as seguintes primeiras anotações:
1. A Petrobras é intocável, suas administrações, não. Sua diretoria, a da ANP e as das subsidiárias não podiam ter sido loteadas. Todas abusaram das compras superfaturadas sem licitação (ver CLÁUDIO WEBER ABRAMO (DINHEIRO SEM LICITAÇÃO E DINHEIRO DEMAIS SEM CONCORRÊNCIA) além de favorecer ONGs amigas, com determinados patrocínios (de "cursos profissionais" do interesses de políticos do PT).
2. A política petrolífera do governo petista é igual, sem tirar, nem por, a dos tucanos. Desafio a que me demonstrem o contrário. A prova maior é a permanência na íntegra da Lei 9478/97, que revogou a sofrida Lei 2004/53, acabou com o monopólio estatal do petróleo e autorizou os leilões de blocos de petróleo descobertos pela Petrobras, procedimento adotado inclusive pela diva Dilma Rousseff, quando à frente do Ministério de Minas e Energia.
3. Portanto é bobagem e má fé primária falar em conspiração tucana para privatizar a Petrobras. O acordo nesse sentido está sendo levado na prática, segundo as possibilidades estratégicas e as suscetibilidades sociais, com o aval dessa elite política que, em matéria de pragmatismo em causa própria, fala a mesma língua.
4. Historicamente, desde a fundação, a palavra NACIONALISMO é um termo "jurássico" que inexiste no dicionário da dupla social-democrática neo-liberal (PSDB e PT) e talvez tenha sido definitivamente sepultado com o enterro de Leonel Brizola que, emblematicamente, morreu no ano 2004, o número da Lei que contribuiu para levar seu líder Getúlio Vargas ao suicídio.
5. É necessária uma auditoria honesta nos gastos da Petrobras, sem o que a própria exploração do pré-sal poderá ser inviabilizada. A extração desse petróleo está saindo US$ 30,00 por barril, contra os US$ 7,50 gastos hoje pela estatal nos poços mais rasos. Ambos podem custar menos, desde que haja mais rigor, mais competência e maiores critérios.
6. Quanto maior a expectativa de reservas, mais importante para a própria segurança nacional a preservação da empresa com no mínimo 51% do capital na mão do Estado brasileiro. Já que estão ouriçadas, as influentes entidades sindicais e profissionais deviam aproveitar o momento para exigir a revisão da Lei do Petróleo, livrando nossa principal fonte de energia da bem-sucedida cobiça externa.
8. Providência importante será livrar-nos dos entreguistas da Agência Nacional do Petróleo, inclusive o “comunista” Haroldo Lima, defensor ardoroso dos leilões de entrega (quem diria?), retirando igualmente o controle que a Halliburton, através da sua subsidiária no Brasil, Landmark Digital and Consulting Solutions, assumiu sem licitação sobre o Banco de Dados de Exploração e Produção (BDEP), da ANP. Além de receber R$ 600.000,00 mensais pelo uso do mapa da mina, a voraz petrolífera norte-americana conta na diretoria da agência reguladora com um ex-empregado, o super Nelson Narciso, que, não faz muito, com o apoio do presidente Haroldo Lima (PC do B) e do colega do PT, o irmão do Franklin Martins trouxe para seu controle a SDB - Superintendência de Definição de Blocos que vão a leilão.
9. Finalmente, é preciso que todos os brasileiros – independente de filiações partidárias – repudiem esses senadores desmoralizados na tentativa de chantagearem o já moralmente enfraquecido governo do Sr. Luiz Inácio. Assim, concluo que essa CPI de chantagens é mais nociva do que benéfica para o Brasil, independente do Sr. Luiz Inácio estar com as barbas de molho e com a adrenalina na estratosfera.
coluna@pedroporfirio.com

Domingo, 17 de Maio de 2009

A caminho do terceiro mandato, porque ele é o cara


“O grande líder da esquerda brasileira costuma se esquecer, por exemplo, de que esteve recebendo lições de sindicalismo da Johns Hopkins University, nos Estados Unidos, ali por 1972, 1973, como vim a saber lá, um dia. Na universidade americana, até hoje, todos se lembram de um certo Lula com enorme carinho”.
Mário Garnero – “Jogo Sujo”, página 130.


Quando Leonel Brizola morreu, naquela tarde fria de junho de 2004, o príncipe operário teve uma certa sensação de alívio. O velho caudilho estava no seu pé e podia ser uma a alternativa contra seus planos continuístas.
Hoje, na antevéspera da sucessão e na plenitude dos seus 64 anos, Luiz Inácio bem que pode se postar diante do espelho, com a madame ao lado, e perguntar:
- Dizei espelho meu, haverá alguém para presidente que não seja eu?
Treinando nas melhores escolas políticas do sistema internacional – inclusive na Johns Hopkings University – Lula não tem similares, nem genéricos. No sindicalismo e no seu alcunhado Partido dos Trabalhadores, costurou tudo conforme o figurino para não ter sombra. E não tem mesmo. É ele ou ele.
Gaiola de deslumbrados
Seu primeiro escalão é formado por uma gaiola de deslumbrados medíocres e desconhecidos, que ou não têm voto, ou não têm preparo, ou não têm caráter,ou não têm as três coisas somadas.
Seus parlamentares são tão fracos que são os arrivistas do PMDB – e até o demonizado senador Fernando Collor – quem livra a sua cara naquele valhacouto desmoralizado que o vulgo denomina Congresso.
Bucha de canhão
Não foi difícil jogar a dona Dilma Vana Rousseff Linhares como balão de ensaio. Nela, como em outros de sua casta, do tipo Carlos Minc Baumfeld, o venezuelano Teodoro Petkoff e o peruano Hugo Blanco, falou mais alto o sangue azul.
O estigma de sua ficha juvenil e sua antipatia atávica estão na fórmula de uma alquimia manipulada. A ministra tem até a simpatia do sistema, conquistada desde quando assimilou os tais leilões de nossas jazidas petrolíferas, cristalizados pela intocável Lei 9478/97, com a qual FHC liquidou com os parâmetros de soberania sobre o subsolo, garantida até então pela revogada Lei 2004/53, um dos ingredientes que levaram à nossa pujança energética e ao suicídio do presidente Getúlio Vargas.
Brizola para atrás
Para as pessoas de memória ela também padece da síndrome da traição. Saiu do anonimato pelas mãos de Brizola e Alceu Collares, quando ainda era casada com Carlos Araújo, parceiro na “luta armada” e ex-deputado estadual pelo PDT.
Quando o caudilho cansou das rasteiras do Olívio Durtra e saiu fora do seu governo, no Rio Grande do Sul, ela não quis largar a Secretaria de Minas e Energia, da qual era titular, como foi também no governo de Collares.
E entrou no bloco dos traidores de Brizola, juntamente com o próprio filho do homem, o trêfego José Vicente Brizola, o velho trabalhista Sereno Chaise, a bela ex-senadora Emília Fernandes e Milton Zuanazzi, amigão e ex-protegido da ministra.
Dilma é, portanto, uma bucha de pelúcia. Enquanto o país inteiro oferece sua ternura na luta contra o câncer linfático, o mesmo que matou o ex-ministro Dilson Funaro, as peças do “terceiro mandato” vão sendo meticulosamente montadas com a ajuda de caras de pau do tipo Fernando Collor de Mello.
Sem adversários
A seu favor conta ainda o desgaste dos cabeças oposicionistas, que não têm mais gás nem para decolar e, como a raposada do PMDB e a rapaziada da esquerda nanica, vão tentar manter ou ganhar as boas prebendas nos governos estaduais e nisso que chamam de Poder Legislativo.
Ou você acha que José Serra teria alguma chance de derrotar o príncipe operário, caso ele arranque uma emenda “salvadora”, sem plebiscito (como o Chávez) e, naturalmente, segundo os mesmos métodos do FHC, quando arrancou sua reeleição na euforia do “Plano Real”.
A tropa de choque
Para ganhar os três quintos do Congresso na hora em que botar as manguinhas de fora, Lula disporá de uma tropa de choque prá lá de escolada: José Sarney, Renan Calheiros, Romero Jucá, Michel Temer, Henrique Alves, sem esquecer a bancada ruralista, o quindim do agronegócio com tratamento vip do palácio; a evangélica, os nanicos da esquerda e o populoso “baixo clero”.
Provavelmente, não terá dificuldade com a grande mídia, que anda mal das pernas, mas se tiver não haverá problema: a massa do bolsa-família, os abnegados pelegos sindicais e os “aparelhos estudantis” ajudarão. Quem não tiver gente para pôr na rua, falará pela mídia ou poderá dedicar-se ao obsequioso silêncio dos cínicos de barriga cheia.
Simpatia é quase amor
O mais importante, o príncipe operário já conquistou: Barack Obama, o presidente da irmã-tutora, já deu a senha: “Lula é o cara, o político mais popular do mundo”. Por lá, eles sabem que ninguém faz melhor o meio de campo nesse prado “ameaçado” pela praga do Chávez, Evo Morales, Rafael Caldera e Daniel Ortega.
Para os patrões do mundo, se Lula desse a terceira, estaria facilitando o lado do aliado de todas as horas, Álvaro Uribe Velez, que já está mexendo seus pauzinhos na Colômbia.
A lógica do direito
Dito isso, devo lhe confessar que sou inteiramente a favor do fim das restrições à reeleição. Não nas bases em que montaram no Brasil, com o chefe do Executivo disputando no cargo, tendo a seu dispor máquina azeitada e visibilidade privilegiada.
Mas, por mais que o estômago grite, não vejo essa questão em função do deserto de homens e idéias reinante, graças ao qual quem tem um olho é rei. Vejo pela lógica do direito: ou não tem reeleição, ou não tem limite.
Roosevelt mudou o jogo
Lá, nos Estados Unidos, cuja democracia é matriz para o mundo ocidental e cristão, tal como escreveu, em 1835, o visconde Alexis de Tocqueville, a limitação a uma única reeleição só aconteceu depois que Franklin Roosevelt foi eleito quatro vezes e não ficou mais porque morreu no cargo.
Na França, cujo presidente já tem um mandato de 7 anos, também não há limites. Na Inglaterra, como nos regimes parlamentares, o premier pode ficar por tempo indeterminado.
Como você vê, embora considere esse modelo brasileiro de reeleição um grande eufemismo comprometido ainda mais por essas urnas “secretas” e inauditáveis, não acho que o chefe do Poder Executivo seja diferente do chefe do Poder Judiciário e dos eleitos para o Congresso.
Ou é para todos ou para ninguém
Do ponto de vista da lógica do direito, repito, não podemos aceeitar três pesos e três medidas: ou ninguém pode ser reeleito (nem os deputados, como no Senado do México, onde um parlamentar não pode ser reeleito no período seguinte), ou os ministros e desembargadores do Poder Judiciário ganham limites em seus seus mandatos eternos( Em 41 Estados norte-americanos e em países como a Suiça os juizes são eleitos por um determinado período), ou então libere-se desses limites o presidente, governadores e prefeitos.
O direito à reeleição, em condições decentes não representa necessariamente a reeleição automática. Até pelo que vige hoje tem havido surpresas. O melhor governador do Ceará nos últimos anos, Lúcio Alcântara, levou uma pernada do Tasso Jereissati, oligarca moderno, e não foi além do primeiro mandato, perdendo para alguém que era apenas o irmão do mais famoso da família Gomes.
Bem, vou ficando por aqui. A essa altura, vou terminar esse escrito almaldiçoado por gregos e troianos. Mas esta é minah sina, pela coerência jurássica, da qual não abro mão, nem que macacos me mordam.
coluna@pedroporfirio.com

Quinta-feira, 14 de Maio de 2009

Prédio da Manchete é arrematado, mas o governo fura a fila e passa os trabalhadores para atrás

"Ressalvada, a partir de 2 de janeiro de 1958, a preferência dos créditos dos empregados, por salários e indenizações trabalhistas, sobre cuja legitimidade não haja dúvida, ou quando houver, em conformidade com a decisão que for proferida na Justiça do Trabalho, e, depois deles, a preferência dos credores por encargos ou dívidas da massa (art. 124), a classificação dos créditos, na falência, obedece à seguinte ordem..."
Artigo 102 do Decreto-Lei 7661/45 - antiga Lei de Falências.


Uma empresa do Espírito Santo arrematou o prédio da antiga Rede Manchete, pertencente à massa falida do grupo Bloch Editores. O imóvel está localizado na Rua do Russel, na Glória, Zona Sul do Rio de Janeiro e inicialmente estava avaliado em R$ 41.746.419,00. Para levar o edifício, a capixaba Victória Vix, Serviços e Transporte bateu o martelo em R$ 65 milhões.
Feito o depósito do dinheiro, vai começar um novo capítulo de uma novela que se arrasta por 9 anos: o governo do sr. Luiz Inácio, através da Procuradoria da Fazenda, furou a fila da antiga Lei de Falências e passou os trabalhadores para trás, no que contou com uma ágil decisão da 4ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.


O leilão aconteceu no final da tarde desta terça-feira (12).A quantia foi uma surpresa para os credores, que não esperavam tanto. A empresa, ao fim do pregão, deu um sinal de 20%. Mas para concretizar o negócio, a empresa terá 72 horas para depositar o restante do valor para a venda ser homologada pela juíza Maria da Penha Victorino, da 5ª Vara Empresarial do Rio.


Do total que foi arrecadado com o leilão, R$ 25 milhões ficarão reservados para cobrir débitos da Bloch com a Fazenda Nacional, já que a editora não repassou à União os descontos feitos nos contracheques dos empregados. O restante do dinheiro será destinado para pagar dívidas trabalhistas a cerca de três mil pessoas.


De acordo com a Comissão dos ex-Empregados da Bloch, seriam necessários hoje R$ 60 milhões para quitar o débito, de acordo com o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.


A capixaba não foi a única que participou da disputa pelo prédio. Outras seis empresas se habilitaram para participar do pregão. Além do lance da Victória Vix, o imóvel obteve mais duas ofertas: uma de R$ 64,5 milhões e outra de R$ 61 milhões.


Caso a vencedora não deposite o valor dentro do prazo, será chamada a segunda colocada e assim sucessivamente.


Terceiro leilão


Esta foi a terceira tentativa de se leiloar o conjunto de três prédios, localizado em área valorizada do Rio. No primeiro pregão, em 2007, o valor oferecido pela Universidade Salgado de Oliveira - Universo -, inquilina do imóvel desde 2004, foi considerado baixo. Seus R$ 27 milhões num único lance pareciam parte de um jogo de cartas marcadas.


No segundo, em setembro de 2008, ninguém apareceu para fazer lance.


A Bloch Editores abriu falência em 2000. Em 2005, a juíza Maria da Penha Victorino, passou a aplicar no processo a nova Lei de Falências, para acelerar o pagamento das dívidas trabalhistas dos antigos funcionários da empresa. Começaram, então, a venda dos bens da massa falida e o pagamento das indenizações.
Frase de hoje

"Sou obrigado a reconhecer que, com toda a corrupção que teve de um tempo para cá, o que encontramos no governo Collor nós deveríamos ter enviado para o juizado de pequenas causas".
Senador Pedro Simon

Para que o leilão pague a quem de direito

Numa das reuniões que participei junto com o pessoal da Bloch


Texto da minha coluna na TRIBUNA DA IMPRENSA de 29 de agosto de 2008


“Com a decisão do Tribunal de Justiça, outros credores federais, como o INSS, certamente exigirão seus créditos. Como a massa falida não tem bens suficientes para cobrir todas as dívidas, existe o risco de tanto os credores federais quanto os ex-empregados não receberem o que lhes é devido”.
José Carlos de Jesus, presidente da Comissão de Ex-empregados da Bloch.


Para início de conversa, uma patética constatação: é difícil afirmar se para os cidadãos brasileiros essa Justiça que está aí cumpre seu papel segundo a presunção etimológica do seu garboso enunciado.
Justiça, tal como se ouve falar na inocência dos bancos escolares, é uma senhora que se apresenta de olhos vendados sem que ninguém tenha tido o trabalho de ver se não está em farrapos.
Antes de ser uma olímpica estrela institucional, uma fortaleza do bem, essa Justiça que temos é, de fato e tão somente, a redoma dos senhores incontestáveis da Lei, que a interpretam e a executam ao seu alvedrio, muitas vezes, na contra-mão de direitos evidentes. Isto pelo chumbo grosso que blinda a toga, incluindo a garantia da eternidade no cargo, concedida a todos os magistrados, inclusive aos que a ele chegam por indicação de terceiros ou nomeação do chefe do Executivo.
Não é por acaso que são do Judiciário as grandes obras faraônicas que exibem fachadas suntuosas, enquanto suas prateleiras são abarrotadas por pastas robustas de um papelório estéril, que se traduzem em números melancólicos: 43 milhões de processos emperrados como corpo de delito da arrogância e do grande desprezo pelos cidadãos.
Cheiro da frustração
Faço essa preliminar para registrar mais uma vez o cheiro mórbido da amarga frustração no processo de falência da Bloch, que se arrasta por sofridos 8 anos, apesar da lisura da juíza Maria da Penha Victorino, da 5ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro, e do Ministério Público.
Nem mesmo quando um juiz de primeira instância age com seriedade, competência e lucidez a Justiça cumpre sua parte. Por cima e ao lado dela, há outras instâncias onde o mesmo sentimento inexiste.
Foi o que aconteceu com a absurda decisão da 3ª Câmara Cível, em face da interpretação de um desembargador que decidiu ao arrepio do Decreto-Lei 7661, publicado em 21 de junho de 1945, no crepúsculo da ditadura do Estado Novo, que prevaleceu por exatos 60 anos como a legislação de falências e concordatas.
Nessa peça legal, seu artigo 102 não deixa dúvida nem para os freqüentadores dessas faculdades de araque: É GARANTIDA “A PREFERÊNCIA DOS CRÉDITOS DOS EMPREGADOS, POR SALÁRIOS E INDENIZAÇÕES TRABALHISTAS, SOBRE CUJA LEGITIMIDADE NÃO HAJA DÚVIDA, OU QUANDO HOUVER, EM CONFORMIDADE COM A DECISÃO QUE FOR PROFERIDA NA JUSTIÇA DO TRABALHO”.
No entanto, para a surpresa de alguns advogados, a 3ª Câmara sobrepôs aos créditos trabalhistas o interesse do Governo Federal, que não poderia nem ter sido pleiteado, assegurando o pagamento em primeiro lugar do imposto de renda recolhido e não repassado aos cofres públicos.
Tal entendimento foi confirmado agora, neste julho cinzento, depois da decisão da juíza Maria da Penha, determinando um novo rateio de R$ 3.000,00 entre a parcela já habilitada dos 2.822 ex-empregados, muitos de cabelos brancos, que hoje vivem a pão e água na mais deprimente das ironias: houvesse o mínimo de sensatez, o patrimônio do Grupo Bloch daria para honrar todo o seu passivo, principalmente os R$ 50 milhões de créditos trabalhistas.
Depois dessa, ninguém sabe mais o que pode acontecer, tal a fatalidade do axioma “cada cabeça uma sentença”. Mais uma vez, por instância da OAB do Rio de Janeiro e até com a anuência do relator da 3 ª Câmara Civil, o imbróglio foi levado ao ministro do Trabalho, Carlos Lupi, que, no exercício de suas responsabilidades, está trabalhando para que a Procuradoria do Ministério da Fazenda refaça sua intervenção, em prejuízo dos elementares direitos previstos em Lei.
Isto porque, no limiar da estação das flores, o belíssimo e confortável prédio da Rua do Russel, obra do genial Niemeyer, irá mais uma vez a leilão, com o preço mínimo de R$ 40 milhões.
Há uma grande expectativa de que o imóvel seja arrematado até por mais no pregão do próximo dia 17. Mas quem receberá o produto dessa venda, que já acontece com um atraso imperdoável?
Se até a terceira quarta-feira de setembro o Ministério da Fazenda não mudar seu entendimento, o leilão se realizará, mas poderá prolongar por outros tantos anos a infindável batalha judicial, enquanto trabalhadores de uma corporação que envelheceu junta vão continuar à margem daquilo que é um direito líquido e certo.
Sob esse aspecto, pelo que ouvi dos ex-colegas da Bloch, o próprio desembargador que puxou a decisão reconhece a gravidade do caso e pode reavaliar sua decisão, desde que o Ministério da Fazenda compreenda a urgência do reconhecimento do crédito trabalhista, na forma da Lei e segundo a exegese constitucional mais afinada com a doutrina e a jurisprudência.
Um ramo crítico
No caso dos ex-empregados da Bloch Editores, há que considerar a própria natureza de uma atividade com um perfil crítico. O mercado gráfico tem sido achatado em função dos custos, principalmente de papel, e do desenvolvimento tecnológico, que eliminou boa parte da mão de obra.
No âmbito da comunicação, a mídia eletrônica e a internet têm produzido efeitos tão acachapantes que a sobrevivência de um jornal resulta antes de tudo da obstinação de seus titulares e da sobrevivência de um certo espírito público entre os profissionais.
A massa de trabalhadores da Bloch foi alcançada por um turbilhão que deixou a quase totalidade dos seus integrantes sem alternativas no âmbito de sua especialidade.
Juntar a essa tragédia a privação das verbas indenizatórias no caso de uma falência irreversível é demonstrar o covarde predomínio da insensatez e da insensibilidade social.
Se o governo federal quiser, se o esforço pessoal do Ministro Carlos Lupi produzir frutos, se a Justiça entender o drama com a mesma visão lúcida da juíza Maria da Penha Victorino, ainda será possível minorar o sofrimento de tantas famílias.
Do contrário, o caso da Bloch continuará em exibição na tela da desesperança que nos deixa tomados pela mais sôfrega indignação.
O Leilão do Prédio do Russel, onde o presidente Juscelino Kubitscheck viveu sua última labuta, será na quarta-feira, 17 de setembro de 2008. Que essa data esteja à altura da história de um país onde um dia a força de trabalho gozava de respeito.
coluna@pedroporfirio.com

Sábado, 9 de Maio de 2009

Já temos a gripe, mas entre mortos e feridos salvaram-se todos


Temporão abre o jogo: governo tem estoque de Tamiflu, o tal, para atender a 9 milhões de pessoas.

O governo brasileiro está em estado de êxtase. Apareceram os primeiros cinco portadores da gripe suína, todos fora de perigo, graças à “eficiência recordista” do nosso sistema oficial de saúde. O mais famoso é um jovem carioca, com febre baixa, que, meio a contragosto, viu pintar o seu minuto de celebridade.
O rapaz não estava nem aí, depois de chegar de Cancun, na manhã de sábado. Tanto que à noite caiu na gandaia com a sua turma, numa boate da Zona Norte.
No domingo estava a mil, como bom torcedor, vendo com os amigos a eletrizante vitória com que o Flamengo ganhou a taça do estadual carioca.
Na segunda, já havia um tititi sobre os visitantes do México e de alguns Estados norte-americanos. Ele não era o único. No seu grupo, reunido pelo Iate Clube Jardim Guanabara, outros 99 foram participar da Copa do Caribe no badalado balneário mexicano. Segundo o comodoro do clube, José Moraes, os brasileiros nesse evento somaram 800, de várias cidades brasileiras.
Mas a síndrome do japonês, que se sentiu culpado pela bomba atômica por ter dado descarga na hora que o oficial norte-americano disparou o petardo, desceu sobre o rapaz. Ele não queria ser responsabilizado pelo rastilho da pólvora suína. E, ao primeiro espirro, foi tratar de pôr os pingos nos is.
A paranóia pós-Cancun
Primeiro bateu às portas de uma clínica particular. Mas, você sabe, plano de saúde tem horror de internação. Por mais que ele insistisse, o termômetro ofereceu o álibi: sua febre estava na casa dos 37 graus. E aí, paciência, o catálogo da gripe badalada partia de 38. Para os médicos privados, sua gripe não passava nem perto da H1N1.
Com o noticiário alarmista da “iminente” pandemia azucrinando meio mundo, ele não conseguia dormir. E não era para menos: numa escola do Rio, os pais fizeram abaixo-assinado, exigindo a suspensão de uma menina que andou por aquelas bandas recentemente, embora ela não estivesse nem espirrando.
Diante de tanta pressão psicológica, o jovem carioca decidiu voltar à carga. Alegando sentir-se culpado por relacionar-se depois de ter ido a Cancun, foi outra vez em busca do ser o não ser uma ameaça à comunidade. Dessa vez, recorreu ao Hospital Universitário do Fundão e apelou: pelo amor de Deus, esclareçam isso de uma vez que eu já não suporto tanta cobrança.
Com ele, estavam dois amigos, que também ficaram internados, monitorados naquele clima de programa de proteção às testemunhas. Coube ao viajante a primazia do primeiro diagnóstico, no qual se constatou o virus H1N1, embora a sua febre não tenha nem beirado os 38 graus.
Com todos os holofotes na porta do hospital da UFRJ, que até há pouco não ia bem das pernas, os médicos trataram de baixar a bola. A infectologista Regina Moreira, que o atendeu, declarou com todas as letras ao RJTV:
- O paciente passou a noite muito bem. Ele não está com febre e está melhorando dos sintomas. Na verdade, ele nem teria indicação de ser internado pelo que ele está enfrentando. Ele vai continuar internado para evitar o contágio por outras pessoas.
Já o pai do rapaz foi ainda mais claro, em entrevista ao jornal EXTRA:
- Está tudo bem. Ele não corre risco nenhum, está sem febre. Ele falou comigo que não teve nenhum problema. A febre dele só chegou a 37, não chegou nem a 38. Ele só está tossindo de vez em quando, só uma febrezinha - disse.
Quer Tamiflu, tome!
Em São Paulo, os dois paulistas infectados foram mais radicais. Recusaram a internação, assinaram um termo de responsabilidade e se mandaram. Depois, o doutor Luiz Inácio, que estava acompanhado do bispo garanhão, quer dizer, do presidente do Paraguai, informou que eles e o de Minas “já estão curados”.
É isso mesmo. O tratamento no Brasil funciona como carga rápida de bateria. A cura é sumária. Tanto que a menina que veio da Flórida e foi internada dia 4 em Florianópolis já recebeu alta e está com suas bonecas e o carinho dos país.
Carinho dos pais? Engraçado, como no México, a gripe pode ser suína, mas não tem espírito de porco. Tanto que poupa os familiares. O carioca que teria contaminado aqui agiu como amigo da onça, já que sua mãe e o pessoal de casa, como disse o pai, vão bem, obrigado. Não precisaram nem ser examinados: nestes tempos em que o celular é o presente preferido de cada 9 entre 10 estrelas do lar, os familiares estão sendo monitorados por telefone.
Como eu já havia dito antes, arriscando 48 anos de reputação profissional, essa gripe é uma grande farsa para desencalhar o Tamiflu (Leia-se tamosfu, royalties para o meu amigo, professor Jileno). Foi o que confirmou com a discrição proposital o simpático ministro José Gomes Temporão, numa linha perdida da página 24 do GLOBO desta sexta-feira:
- O país tem estoque de Tamiflu, o medicamento indicado pela OMS, para atender a 9 milhões de pessoas.
Não precisa ser médico ou estatístico para imaginar o volume estocado, desde a importação determinada ao governo do sr. Luiz Inácio pelo então secretário de Defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld, presidente do laboratório Gilead Aciences Inc, que comprou a patente do Tamiflu em 1996 e depois negociou sua produção pelo Roche, que ganhou rios de dinheiros com esse fármaco: só com sua venda, o laboratório aumentou o faturamento de US$ 254 milhões, em 2004, para mais de US $ 1 bilhão, em 2005, ano em que o ministro-empresário bateu o martelo do “ou dá ou desce” para 72 países satélites.
Alarmistas falam de vírus cruzados
Enquanto isso, cientistas sensacionalistas, desses que são adorados pela indústria farmacêutica, lançam uma nova ameaça no ar para não deixar ninguém dormir. Eles antevêem um cruzamento entre os vírus das gripes suína (a da moda) e aviária (que estava dormindo).
É o que poderá ser manchete na mídia deste sábado: “Muitos cientistas temem, no entanto, que os dois vírus se encontrem - possivelmente na Ásia, onde a gripe aviária é endêmica - e se combinem em uma nova variação altamente contagiosa e letal e se espalhe pelo mundo. Apesar de não se saber qual a probabilidade de que isso ocorra, cientistas chamam atenção para o fato de que a nova cepa de gripe suína - uma combinação de vírus humanos, aviários e suínos - já mostrou que pode se apropriar de material genético que favoreça sua evolução”.
Para atenuar o trauma que atinge aos 110 milhões de mexicanos e evitar o incremento da migração para os Estados Unidos, Washington divulgou que já ultrapassou seus vizinhos com um escore de 1639 a 1364, informando que já se registram casos em 41 estados. Em número de óbitos, os norte-americanos falaram que uma mulher é a segunda vítima, mas depois disseram que ela já sofria de outras doenças, não se podendo atestar a causa mortis com segurança.
Essa gripe ao gosto do freguês ainda vai vitimar muita gente do outro lado da mesa. É que os autores da tramóia não contavam com a astúcia de alguns cidadãos ainda independentes, os quais desvendaram a charada antes da mesa posta.
Agente duplo da “pandemia”
Um verdadeiro inventário, enviado pela organização PRO MUNDI me deixou perplexo sobre o nível da audácia dos interesses econômicos, em conluio com governos inescrupulosos, que agem como caixeiros viajantes de seus empresários e não fazem nenhuma separação entre o público e o privado.
O relato mostra uma relação entre a visita de Zarkozi ao México, no dia 9 de março, o anúncio de um investimento de 100 milhões de euros para a construção de um laboratório especializado na produção de vacina contra “influenza” e os acontecimentos que culminaram com o disseminação da gripe suína, no final de abril.
Há um filme, que já postei no meu blog PORFÍRIO LIVRE, no qual o cientista Leonard Horowitz conta toda a trama, envolvendo uma rede norte-americana de engenheiros genéticos, que levou a níveis récordes, a partir das mortes no México, as ações do laboratório Novavax, de Mayland. Em seu relato, que você não pode deixar de ver, ele acusa esse laboratório de produzir o virus da gripe para depois vender a vacina. E o faz com detalhes chocantes.
Pelo que entendi, a pressa em desencalhar o Tamiflu está relacionada com a ação de laboratários concorrentes, dos Estados Unidos e da Europa. É uma guerra mais suja do que qualquer outra já travada com o uso de tanques e fuzis.
Quando me exponho na convicção de que estamos diante de um grande teatro, sei do risco que corro, mas já vi esse filme antes. Afinal, como relata o Promundi, “sabemos que a influenza mata ao redor de189 pessoas por semana, no Peru. Que a influenza mata, por ano, nos Estados Unidos, pelo menos 30.000 pessoas, o que significa que mata 82 pessoas por dia”.
Para finalizar por hoje, chamo sua atenção para o comentário de Bruno Xavier, brasileiro que está concluindo o curso de Phd na área de biotecnologia na Universidade de Ithaca, Nova York. Ele mostra como o megatrilionário norte-americano Warren Buffet, segunda maior fortuna do seu país, pretende ganhar muita grana fazendo seguro da gripe suína.
Por hoje é só. Mas acho que ainda voltarei ao assunto.
coluna@pedroporfirio.com


Você já conhece o Instituto João Goulart?
Dê uma passada no seu site
http://www.institutojoaogoulart.org.br/index.php

Quinta-feira, 7 de Maio de 2009

O mal que nos fez a quinta coluna sionista


O Irã tem uma representação de católicos e judeus em seu parlamento maior que a proporção desses grupos na população. Isso os sionistas escondem.

“O Irã é um grande país, que indiscutivelmente tem papel no Oriente Médio e é um parceiro. E, se com cada país com que discordamos de alguma coisa, não pudermos aceitar visitante aqui, vai ficar muito difícil, não vamos receber ninguém".
Celso Amorim, chanceler brasileiro.



"O Irã tem o maior mercado consumidor do Oriente Médio, cerca de 70 milhões contra aproximadamente 30 milhões que correspondem aos vizinhos juntos. Trabalhamos, atualmente, para que ele aumente os investimentos no Brasil (em 2007, por exemplo, o Irã teria investido US$ 6 bilhões na Venezuela, um país com mais riscos e oportunidades menores que o Brasil) para que os brasileiros possam agir com reciprocidade, voltando mais suas atenções às relações econômicas bilaterais”.
Farrokh Faradji Chadan, vice-presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil – Irã

"O Irã é um país de grande relevância na região, com crescimento constante de 5,5% em média nos últimos 20 anos, que vem fazendo grande esforço de industrialização”.
Roberto Jaguaribe, subsecretário-geral de Política do Ministério das Relações Exteriores.

Desde quando, quase menino, abri os olhos para o mundo, no meu pré-carcere - o ginásio salesiano de Baturité, certos fatos da história me pareciam mal contados.
Um deles foi a perseguição do regime nazista aos judeus, os campos de concentração que, apesar da brutalidade conhecida, não eram questionados pelo povo alemão. Antes, parecia-me, tal repressão contra aquele povo, que passou por outros sofrimentos na Europa, em épocas diferentes, parecia ser um trunfo político do ditador.
A imposição do Estado de Israel e o tratamento cruel infringido aos donos da terra ocupada serviram para me dissipar algumas dúvidas. De imediato, concluí que o confronto Hitler X Judeus era “briga de cachorro grande”.
E não há nada que a história escrita pelos vencedores tenha atribuído ao chefe nazista que hoje não estejamos vendo ao vivo e a cores, em tempo real, no território em que os judeus montaram o seu estado racial. Dessa vez, os algozes são descendentes e patrícios das vítimas d’antão.
Mas ao abrir minha grande angular alcanço um conjunto de imagens que projetam as práticas desses algozes d’agora em posturas tão intransigentes e tão intolerantes que parecem explicar séculos de rejeição e confrontos pelo mundo.
Israel acima de tudo
O que aconteceu nessa pressão orquestrada contra a visita ao Brasil do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, foi uma demonstração de que certos líderes da colônia judaica não relutam em se posicionar como verdadeiros “quintas colunas” a serviço de Israel, sua verdadeira pátria, embora recebam de todos os brasileiros o mais fraternal dos tratamentos.
Embora muito bem posicionados na atividade empresarial brasileira, embora ninguém tenha questionado o envio para Israel de milhões de pepitas amealhadas em seus prósperos negócios entre nós, esses grupos influentes na colônia não abrem mão de importar para o nosso país o contencioso de ódio e intolerância brotados pelo Estado sionista, que perdeu a autoridade de falar em holocausto a partir do momento em que submete a extermínios programados – como o de Gaza – milhares de cidadãos castigados por serem palestinos e desejarem o respeito a seus direitos milenares.
Ao jogarem todas as suas cartas para impedir a presença de um chefe de Estado com o qual o Brasil mantém relações diplomáticas regulares, cujo país oferece boas alternativas para o incremento dos nossos interesses no Oriente Médio, os judeus sionistas extrapolaram e deixaram o próprio presidente Luiz Inácio numa desconfortável saia justa.
Seguindo a mesma estratégia dos tempos de Delfim Neto – exportar é o que importa – o presidente brasileiro tem baixado em países de todos os continentes, independente de suas situações internas, num pragmatismo hoje muito usual em todos o mundo.
É, portanto, natural que ele também receba aqui os representantes dos governos estrangeiros, mesmo que não motivado por expectativas de novos negócios.
Nenhum outro país tem direito de meter o bedelho nas relações do Brasil com o mundo, a menos que o governo tenha rabo preso e aceite reprimendas e boicotes em flagrante violação do direito internacional e da soberania nacional.
Uma proveitosa parceria
A prática de Israel se imiscuir nos nossos assuntos em relação ao Irã não começou com essa articulação que tornou desconfortável a visita do presidente do MAIOR PARCEIRO COMERCIAL DO BRASIL NO ORIENTE MÉDIO.
Em outubro do ano passado, quando o chanceler Celso Amorim fazia as malas para ir ao Irã, a embaixadora de Israel em Brasília, Tzipora Rimon, foi ao seu encontro para transmitir o repúdio do seu governo a essa visita. Desde então, como ficou acertada a vinda do presidente iraniano agora em maio, a central sionista armou uma teia internacional para impedir a visita, capitaneada pelos judeus dos Estados Unidos.
Em Washington, o lobby sionista teve seu maior expoente no deputado Eliot Engel, do Partido Democrata, presidente do subcomitê de Hemisfério Ocidental no Congresso americano, que qualificou “vergonhosa” a disposição do governo brasileiro de receber o presidente Mahmoud Ahmadinejad.
Agindo assim, os judeus sionistas fizeram um grande mal ao nosso país, numa hora em que o nosso maior problema é a queda das exportações. A bem da verdade, e isso a nossa imprensa não diz, é exatamente com o Irã que o Brasil tem as mais vantajosas relações comerciais no Oriente Médio – e não é de hoje.
Ademais das remessas dos dízimos pelos judeus da diáspora, temos um comércio extremamente desfavorável com os israelenses: Em 2008, as exportações do Brasil para Israel totalizaram US$ 398 milhões e as importações, US$ 1,221 bilhões. O saldo do intercâmbio comercial entre os dois países nesse ano foi de US$ 822 milhões em favor de Israel.
Já em relação ao Irã, a situação se inverte radicalmente: . Em 2007, o Irã absorveu 28,7% das exportações do país à região, o que equivaleu a US$ 2 bilhões, proporcionando-nos um superávit comercial de US$ 1, 1 bilhão.
Em 2007, foi o maior importador de milho brasileiro, o segundo de açúcares e produtos de confeitaria, o terceiro de óleo de soja, o quarto de carne e miúdos e o sexto de soja. Além disso, o Irã foi o principal mercado para o Brasil no Oriente Médio nos anos de 2006 e 2007, e o maior superávit comercial. No entanto, as vendas brasileiras para o Irã caíram em 2008, em parte pela valorização do real frente ao dólar, mas principalmente pela resistência dos bancos brasileiros a aceitarem cartas de crédito dos bancos iranianos.
Para torpedear esse proveitoso intercâmbio comercial, os judeus sionistas brandiram contra as declarações hostis a Israel de Ahmadinejad e recorreram até aos discursos dos direitos humanos, o que, aliás, também deveriam passar à distância.
Tais argumentos levaram à indignação o mineiro Idelber Avelar, titular de literatura latino-americana da Tulane Universy, com um cabedal de títulos em PHd em universidades dos EUA. Em artigo publicado em vários sites brasileiros, ele escreveu:
“A julgar pelos gritinhos da República Morumbi-Leblon, pareceria que o Brasil nunca recebeu a visita do chefe de um estado autoritário. A julgar pelos videozinhos, você imaginaria que somente líderes de democracias tolerantes e liberais têm permissão de visitar o Brasil. É curioso que pessoas que não deram um pio acerca do inominável massacre israelense em Gaza venham agora posar de defensores dos direitos das mulheres iranianas. Não me consta, aliás, que alguém nessa turma tenha dito nada quando o Brasil recebeu a visita de Bush, responsável por uma guerra baseada em mentiras, pela adoção da tortura como política de estado, pelo campo de concentração de Guantánamo, pela morte de centenas de milhares de iraquianos”.
O que se configurou, portanto, nesse melancólico episódio foi um arrogante e imprudente comportamento de alguns líderes da diáspora em nosso país, preocupados em demonstrar que para ser cidadão israelense não precisa estar lá, como propugnava David Bem Gurion, o fundador do estado sionista.
Com essa articulação irracional, além de causar danos aos interesses do país que os acolhe, e em que a maioria deles nasceu, os sionistas empedernidos puseram mais lenha na fogueira dos que ainda hoje encaram os judeus com um atávico sentimento de desconfiança.
coluna@pedroporfirio.com

Domingo, 3 de Maio de 2009

Uma gripe "suína" com a cara da "aviária" para desentocar Tamiflu







Quem éstá gostando é a indústria de máscaras hospitalares





“Estou convencido de que este escândalo é mais uma montagem para favorecer a indústria farmacêutica. Matéria do GLOBO de domingo fala que a OMS está enviando 2,4 milhões de doses de Tamiflu para 72 países. Esse medicamento foi vendido para os governos de todo o mundo, inclusive o Brasil, por pressão dos EUA, para a falaciosa GRIPE AVIÁRIA. Ofereço-me, apesar de repórter aposentado, para ir ao México ou qualquer outro país para fazer matéria sem essas máscaras ridículas. Quem se interessa?”
E-mail que enviei neste domingo, dia 3 de maio aos jornais O GLOBO e FOLHA DE SÃO PAULO.
Tomei a iniciativa de me oferecer para ir ao México (sem máscara de espécie alguma) como uma forma incisiva de manifestar minha desconfiança diante de mais essa manipulação de encomeda, cuja gravidade joga para debaixo do tapete todas as outras preocupações, principalmente com essa crise parida na decadente nação imperial, onde as vestais do capitalismo põem o rabo entre as pernas e correm para as tetas do poder público, mesmo que isso implique numa “jurássica” estatização dos seus negócios.
E o fiz sabendo que posso ser visto, no mínimo, como um imprudente. Afinal, se há um tema delicado, que mete medo, esse é o que mexe com a nossa saúde. Tanto que a nossa mídia, quando começa a perder audiência ou leitores, apela para uma matéria sobre doenças, se possível, com o fantasma da pandemia.
Precipitei-me no assunto por conta de um e-mail repassado em espanhol, por um leitor sério, sobre uma estranha movimentação internacional, que começa com a reunião do G-7, o grupo dos donos do mundo, no dia 2 de abril, passa por uma declaração do FMI de ajuda a países emergentes e culmina com uma reunião privada entre o exausto presidente Barack Obamma e seu colega mexicano, Philip Calderon, nos dias 16 e 17 de abril.
Uma semana depois, no dia 23, o presidente do México convocou uma reunião de emergência e, à noite, seu ministro da Saúde, José Angel Córdova Villalobos anunciou cadeia nacional ocorrência do vírus da gripe, e medidas excepcionais, como a imediata suspensão das aulas em todos os níveis da Cidade e Estado do México e a paralisação de sua vida econômica.
Na segunda-feira, de 27 de abril, a empresa farmacêutica Sanofi Aventis anunciou um investimento de 100 milhões de euros em nova fábrica de vacinas, bem como o envio de 236.000 doses de fármacos doados para o México para apoiar o controle da até então chamada gripe suína.
O autor do e-mail observou ainda:
1. Por mais de dois anos, a indústria farmacêutica mundial vem tendo problemas financeiros devido ao declínio nas vendas.
2. O México é uma perfeita plataforma para o lançamento da doença. Daqui sairão turistas que vêm de diferentes partes do mundo. Surpreendentemente, os países que apresentam prováveis vitimas de pacientes que estavam no México, indicando que vão reforçar seus controles sanitários, são os países que compõem o G7.
3. O que aconteceu esta semana. Muito provavelmente a suspensão do atividades em todas as empresas na Cidade e Estado do México, e As aulas foram suspensas até 6 de maio de onde o governo faráuma análise e verá se a farsa que deverá continuar, ou fará declaração de que "graças às medidas tomadas em tempo e apoio da opinião pública foram capazes de controlar a doença ".
O tiro pela culatra
De fato, neste domingo, o governo mexicano já se deu conta da trapalhada em que se meteu. Ontem mesmo, os ministros da Agricultura do México, Estados Unidos e Canadá divulgaram patética declaração conjunta em que pedem pelo amor de Deus que a comunidade internacional não use “o surto de influenza A H1N1 como motivo para criar restrições comerciais desnecessárias e que as decisões que se tomem estejam baseadas em evidências científicas sólidas".
O ministro da Saúde, José Angel Córdova Villalobos, refez sua fala alarmista, garantindo que a epidemia de gripe suína já entrou em fase de declínio. Já a bela chanceler Patricia Espinosa criticou as medidas "discriminatórias e carentes de fundamento" adotadas por alguns países contra cidadãos mexicanos por medo de contágio da gripe suína.
A chanceler se mostrou "especialmente" preocupada pelo caso da China - que doou sábado ao México material e equipamento médico avaliado em US$ 4 milhões - por “isolar, sob condições inaceitáveis, uma família de cinco mexicanos que foram levados à força para um hospital” e, depois, impedidos de deixá-lo até que a embaixada do México na China interveio, permitindo que eles fossem transferidos para um hotel.
"Não há justificativa nenhuma para violentar os direitos de cidadão algum, nem para adotar medidas que não têm base científica nem de saúde pública", advertiu a ministra.
Ela também criticou a decisão da Colômbia de se negar a sediar em Bogotá os jogos dos times mexicanos de futebol Chivas e San Luís pelas oitavas-de-final da Copa Libertadores da América.
Já nos Estados Unidos, em meio a um certo pânico em 21 estados, o diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, Richard Besser, também baixou a bola, ao afirmar que o vírus, que criou temores de uma pandemia global, pode acabar “tão perigoso” quanto uma gripe sazonal que circula todo o ano no mundo.
"Com a gripe sazonal, algo que nos atinge todos os anos, temos 36 mil mortes. Aqui, nós estamos vendo sinais encorajadores de que o vírus não parece mais severo do que um tipo que veríamos durante a gripe sazonal", disse Besser ao programa Fox News Sunday.
Os mexicanos mais informados estão indignados com a paralisação das atividades na cidade do México. Lamentam a ridícula corrida às farmácias para a compra de “cubrebocas”, cujos preços subiram de 2 para 7 pesos (20 reais), isso sem falar nas máscaras desenhadas, conforme o gosto do freguês.
Para desencalhar o Tamiflu
Mas com certeza, o móvel principal dessa montagem alarmista é desencalhar o Tamiflu, aquele medicamento que todos os países foram obrigados a comprar entre 2004 e 2007, por pressão do então secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, presidente do laboratório Gilead Aciences Inc, que comprou a patente do Tamiflu em 1996.
À base de anis estrelado, uma planta encontrada sobretudo na China, o medicamento passou a ser produzido pela Roche, num acordo com o laboratório de Rumsfeld. Sob a alegação de que a gripe aviária ia se espalhar pelo mundo com graves ameaças, os governos passaram a estocar o Tamiflu.
Como escrevi em 2007, As vendas do Tamiflu passaram de US$ 254 milhões, em 2004, para mais de US $ l bilhão, em 2005 e só não foram maiores porque o laboratório Roche não teve condições de produzir mais. Só o governo brasileiro destinou R$ 200 milhões para a compra do medicamento, que não teve a menor necessidade de usar. O produto pode ser encontrado em algumas farmácias a R$ 350,00 uma caixa com dez comprimidos.
Neste momento, a Organização Mundial da Saúde, a serviço dos piores interesses, decidiu recorrer ao fármaco encalhado para fazer frente à “epidemia” que deverá ter o mesmo destino e as mesmas consequências da Gripe Aviária, que, em 13 anos de existência não fez mais de 150 vítimas: esses números insignificantes não têm nada a ver com a fortuna gasta para favorecer laboratórios inescrupulosos.
Nesse marketing do medo estão envolvidos mais uma vez os mesmos interesses e os mesmos personagens da mentirosa pandemia aviária. E mais uma vez a população emocionalmente fragilizada servirá de bucha de canhão para um escândalo que, neste caso, além do favorecimento dos laboratórios, tem ainda como influente determinante a necessidade de abafar o noticiário sobre a crise que assola o mundo capitalista, ocidental e cristão.
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Pedro Porfírio
Rio de Janeiro, Brazil
Cearense, 65 anos, Pedro Porfírio chegou ao Rio sozinho, aos 16 anos, indo ocupar o cargo de secretário da União Brasileira dos Estudantes Secundários. Aos 17, fez-se jornalista e teve sua carteira profissional assinada como repórter da ÚLTIMA HORA do Rio de Janeiro. Aos 18, já era o editor da RÁDIO HAVANA, em Cuba. Aos 20, de volta ao Brasil, dirigia o semanário das Ligas Camponesas. Passou pelo CORREIO DA MANHÃ, TV TUPI e, aos 26 anos, era Chefe de Redação da TRIBUNA DA IMPRENSA. Preso e torturado em 1969, depois do AI-5, permaneceu encarcerado um ano e meio. Em liberdade, enfrentou uma cruel discriminação. Tornou-se teatrólogo, com 8 peças encenadas e ganhou o Troféu Mambembe, por sua obra O BOM BURGUÊS. Seu último texto encenado, em 1982, foi BRASIL, MAME-O OU DEIXE-O. Com a redemocratização, assumiu postos no governo do Rio de Janeiro e exerce agora seu quarto mandato como vereador.
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