domingo, 4 de outubro de 2009

O milagre aconteceu

Silvane Saboia



Não sei se fiquei alegre ou triste, mas quando vi "aquela coisa chorando e falando, se achando a bala que matou o Kennedy, a última coca-cola gelada do deserto", eu tive uma raiva danada!
Como diz a Mara, preferiria vê-lo chorando porque novos hospitais foram construídos, porque aqui no Nordeste não se anda mais kilômetros para arranjar água, ou por um acontecimento mundial de "união de países" que acabaria com a fome na África e no mundo todo!!
Ou até quem sabe, algum milagre, uma idéia luminosa, mágica...!?
Não há mais roubo no governo, os nossos idosos estão bem cuidados, limpos em suas caminhas solitárias, mas com uma vida digna!
O milagre aconteceu!!!
O mundo acordou!
Ninguém mais está querendo saber se tem água em Marte,ou em outro planeta!
Que uma lei poderosa, assinada por todos os senhores do poder, dissesse:
- “Enquanto houver alguém sem trabalho e com fome, nenhum gasto será feito até resolver esta situação!”
Eu dei meus parabéns ao Rio, cidade linda, charmosa!
Mas fiquei com tudo isso entalado na garganta desde ontem.
Hoje, quando acordei, abri a janela e a primeira cena que ví na rua foi a dos catadores de lixo, aqueles que vão levando a família toda dentro das carroças, crianças nuas e bem pequenas.
Aqui em Fortaleza esta cena é comum demais.
O jumentinho deveria até já ter pisca-pisca, já que atrapalha o trânsito.
Olimpíadas no Brasil!
Obras vão ser superfaturadas é claro, licitações, acordos e o escambau!
E eu fiquei vendo a carroça se afastando pela rua onde moro... o menininho sorria!
E o jumentinho seguiu seu caminho...
Será que vai ter corrida de jegues nestas olimpíadas?
Aqui no Ceará tem!
Uma coisa a se pensar pra 2016.

Resenha antecipada dos jogos olímpicos.



Haroldo P. Barboza - RJ/Vila Isabel*
O Brasil “ganhou” o direito de sediar os jogos olímpicos de 2016, conforme provável decisão do clube de Bilderberg. A “votação” serviu como mera formalidade para atender à programação das tvs. Votação secreta eletrônica. Não vimos nenhuma cédula sendo depositada. Devem ter usado o mesmo esquema brasileiro, onde “votamos” e não temos a materialização que permita a conferência do resultado.
Tal tese tem respaldo nas declarações do Governador de Tóquio:
O governador de Tóquio, Shintaro Ishihara, disse neste domingo que o Rio de Janeiro foi escolhido como cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016 por "razões políticas obscuras", sem explicar ao que se referia.
"É evidente que a designação da cidade olímpica está ligada a um intenso movimento político que não é visível do exterior", afirmou Ishihara após o Comitê Olímpico Internacional (COI) ter escolhido na sexta-feira passada o Rio, que concorria com Tóquio, Chicago e Madri.
Mas a mídia fez o povo acreditar que foi pelo “entusiasmo” do povão. “Provaram” isto através da presença de um aglomerado de banhistas no bairro de Copacabana. Esperavam quase 100.000 mas não conseguiram nem a metade. Conseguiram juntar quase 30.000 usando os seguintes artifícios:
- Marcaram o encontro na praia, que com sol a pino, já garantiria uns 10.000 banhistas.
- Convidaram bons cantores para o palco montado na areia. Este fato deve ter atraído mais uns 18.000 adeptos.
- O Município e o Estado decretaram ponto facultativo. Pelo menos mais 1.500 funcionários devem ter aproveitado a oportunidade de desfrutar da praia.
- Os demais 500 presentes faziam parte da turma de vendedores ambulantes e pivetes de plantão.
Se tivessem promovido uma enquête no Largo da Carioca (e mais 5 ou 8 praças do Rio) com uma cabine eletrônica permitindo que os passantes escolhessem entre “aprovo” e “não aprovo” certamente teríamos um bom termômetro para medir o tal “entusiasmo”.
Com a citação constante de que “vencemos” (o que?), a enorme parcela sofrida da população (a que chama de “gênio” o inocente do “Big Besta Brasil” que pronuncia uma frase de 5 palavras) vai continuar se alimentando de “orgulho”, apesar do estômago solicitar vitaminas.
Com certeza o evento trará alguns ganhos para o país. Mas a lei da contabilidade é cruel. Para que uns ganhem, outros precisam perder. Como no mercado de ações. Na nossa ótica, podemos avaliar os ganhos e perdas em diversos segmentos no resumo abaixo.
Não esquecendo que 95% dos melhoramentos na cidade ficarão restritos ao “perímetro olímpico do Rio” (PORJ) que circunda os trajetos percorridos por atletas, fornecedores, jornalistas e autoridades do evento.
Bairros como Cascadura, Encantado, Olaria e adjacências continuarão com ruas esburacadas, sem asfalto, sem lâmpadas e sem policiamento.
A tal mídia alardeia que o Brasil vai ganhar muito. Com certeza uma grande parte do mundo vai descobrir que Buenos Aires não é nossa capital. Mas a miséria que habita 90% dos Estados do Norte e Nordeste tende a piorar, pois recursos financeiros serão desviados para custear as obras do evento esportivo.
O Estado do Rio também vai inchar suas favelas. Vários desempregados de outros Estados virão para cá em busca de trabalho.
Diversos políticos vão usar esta “euforia” como trampolim político já em 2010.
Nos próximos 7 anos várias categorias terão empregos garantidos e aumento de renda, tais como: motoristas, garçons, guias de turismo, vendedores de camisetas, flâmulas e bandeiras e outros não citados.
Claro que em 2017 mais de 50% serão dispensados (como acontece todo ano depois do Natal) apesar de estarem anunciando que até 2027(?) serão criados 2 milhões de postos de trabalho por conta desta olimpíada.
Mas esta quantidade deveria ser criada a cada 5 anos independente de abrigarmos ou não competições esportivas!
Nossos valorosos e dedicados atletas finalmente contarão com patrocinadores para a preparação física e técnica.
As linhas de transporte de massa realmente poderão ser chamadas de legado, assim como novos hotéis e vias urbanas.
Praças serão recuperadas. Monumentos serão lavados, pintados e lustrados. Bueiros serão desentupidos. Mendigos serão deslocados para fora do PORJ. Será que desta vez resolverão as enchentes da Praça da Bandeira que já completam mais de 60 anos?
A área do cais do porto finalmente será modernizada (permitindo que pelo menos cinco hotéis flutuantes atraquem em 2016) para deleite nos estrangeiros que aterrissarem no aeroporto do Galeão.
A Baía da Guanabara deve sofrer uma limpeza (prometida há 30 anos) do lodo. Duro vai ser eliminar o cheiro oriundo dos esgotos abertos das favelas na periferia e dos óleos despejados de navios que não respeitam as normas.
O efetivo da PM deverá crescer em pelo menos 40%. Mas terão equipamentos e salários condizentes? As viaturas policiais abandonadas nos pátios serão recuperadas?
Durante dois meses pelo menos deverá ocorrer um “acordo” com traficantes (como em 1992 e 2007) para executarem suas incursões criminosas apenas fora do PORJ. Devem trazer as forças armadas do Exército (ainda que combalido) para garantir tal situação. Neste período, os criminosos das armas de fogo ampliarão suas ações nas localidades próximas: Friburgo, Marica, Petrópolis, Cabo Frio e outros recantos bucólicos.
Os criminosos das canetas letais continuarão à nossa volta sorrindo para as câmeras e dizendo que tudo farão pelo sucesso do evento (e de seus bolsos, é claro).
Pelo menos 5 favelas da zona Sul (que podem ser vistas do Pão de Açúcar e Corcovado) receberão melhoramentos para atender os justos anseios das comunidades. Mas as demais 700 favelas continuarão sofrendo com os problemas de saneamento e risco de desabamento de barracos.
O valor inicial do investimento está previsto em R$ 28 BI. Mas deve chegar a R$ 40 BI. E a diferença nós sabemos para quais bolsos irão: empreiteiros que vão usar material de custo Y e cobrarão 2Y; administradores que assinarão os contratos das licitações “transparentes”; fiscais que fecharão os olhos às deficiências existentes.
Basta lembrar que a vila do Pan2007 ainda não pode ser habitada por quem adquiriu os apartamentos. E do muro que desabou no estádio do “Engenhão” e não matou pessoas por sorte. Fora outras instalações abandonadas.
Mesmo assim, se faltar dinheiro para a farra esportiva, basta que aumentem os impostos sobre nossa poupança!
Podemos solicitar ao COI a inclusão de nova modalidade: “assalto orçamentário”.
Para finalizar: muitas áreas sociais dentro do PORJ sofrerão melhoramentos (principalmente de alvenaria para ilustrar fotos) para funcionarem adequadamente (pelo menos entre 2014 e 2017).
Tudo acima são considerações previsíveis. Nossa única certeza é que a educação e a saúde continuarão deficientes, para que o povo continue alienado e anestesiado, para que os ratos de gabinete continuem sugando nossa dignidade e enchendo suas contas bancárias.
As olimpíadas mundiais ocorrem a cada 4 anos num ponto do planeta.
Aqui, as olim...piadas acontecem diariamente. E nós somos os atletas que executam as mais perigosas atividades dentro deste “circo”. Nossa única medalha é o direito de continuar respirando (ainda sem impostos).
*Haroldo P. Barboza, morador de Viloa Isavel, é professor de  Matemática (infantil) / Informática (adulto) e autor do livro: Brinque e cresça feliz.

sábado, 22 de agosto de 2009

A pesquisa do Blog, o potencial de Cristóvan Buarque e a postura do PDT

O resultado da primeira pesquisa presidencial do blog PORFÍRIO LIVRE surpreendeu com o aparecimento do nome do senador Cristóvan Buarque em primeiro lugar, com 23% das indicações.

o resultado da primeira pesquisa impõe uma rápida análise, que espero partilhar com você.
A meu ver, os 30 votos em Cristóvan Buarque resultam de alguns fatores:
1. Sua corajosa e cristalina atuação nessa crise imunda que está decretando a falência do Senado como instituição republicana.
2. O desejo de uma boa parcela do eleitorado de opinião de ter uma alternativa à bipolarização fabricada. No seu caso, trata-se de um professor de consistente experiência tanto no âmbito da Educação – como reitor e ministro – como na gestão governamental, como governador do Distrito Federal e Senador.
3. A necessidade histórica de sustentar um programa de governo baseado na educação pública de qualidade, sem dúvida o maior investimento que se pode fazer em um país de tanto potencial como o nosso.
LEIA MATÉRIA NA ÍNTEGRA EM http://www.porfiriolivre.com/

Sobre a a baixa participação na passeata do "Fora Sarney"

Murillo Cruz*

Eu gostaria de emitir alguns comentários sobre a sua impressão de 'fiasco' da manifestação 'Fora Sarney'.
Eu estou certo de que vc já alcançou os 60 anos; e eu estou igualmente bem próximo deste marco.
Uma outra segunda questão que creio nos aproxima: somos lutadores (incansáveis e honestos), no campo da política, há muitas décadas, e de décadas com características bem diferentes das 'recentes'. E a minha (e a sua) experiencia deveria ser suficiente para nao se surpreender.
Ser surpreendido por fenômenos socioeconômicos é sintoma de ausência de análise completa. É por esta razão que eu não me surpreendi nem um pouco com a diminuta participação - 'na rua' - deste protesto.
Eu ficaria provavelmente surpreendido se existissem milhares neste 'protesto' (estrábico - ver abaixo). E aqui então é que eu gostaria de convidar-lhe a uma reflexão: eu particularmente não concordei com o mote desta manifestação, e conheço muitas pessoas que igualmente não concordam.
Talvez eu possa ser tachado de radical, quica nazi-fascista, etc. (aliás, ao longo de minha longa militância eu já fui identificado com quase todos os ismos possíveis !) ... mas o fato incontestável é que a limpeza daquele antro de delinquentes - senado, câmara, e outras casas de tolerância semelhantes - não passa pela retirada - pura e simples - de apenas um dos delinquentes.
Aliás, sempre foi esta a estratégia dos democratas ... 'alguma coisa tem que mudar, para que tudo continue igual' ... O delinquente sarney acabou acertando quando afirmou: 'Mas por que somente eu? ... Todos aqui são responsáveis por estes atos e procedimentos' !! E esta e' a pura verdade.
Vou portanto oferecer a minha opinião (e de milhares de brazileiros*): Não basta um Fora Sarney! Este delinquente deve ser fuzilado em praça pública, juntamente com outros delinquentes da mesma espécie. E se não for possível ser fuzilado, pelo menos preso por alguns anos deveria ser (aliás, há muito tempo!!). Eu estou absolutamente convicto de que a opinião acima é de milhares de pessoas. Eu pelo menos conheço centenas que pensam assim.
Lula megalômano
Agora eu gostaria de unir as modestas opiniões acima com a sua coluna de hoje ... Vc bem acerta quando tenta sair do 'campo político' stricto sensu na análise do lula, para incluir reflexões psicológicas. E por que eu digo isto? Porque ao longo de décadas eu tentei analisar a sociedade brazileira* usando categorias bem nanicas vindas da sociologia, da política e da economia.
Como atualmente eu leciono (também) no instituto de psicologia, e estudo bastante tais fenômenos, acabei convicto de que os 'problemas brazileiros' não são 'sociológicos', nao são 'jurídicos', e nem 'econômicos': os principais 'problemas brazileiros' são 'psicológicos'.
O brazileiro médio-típico é um retardado mental (cientificamente designado, e não pejorativamente considerado). O brazileiro médio-padrão certamente é a única degeneração racial que permite o funcionamento de um heliponto (um heliporto) no CENTRO de um parque de diversões (no Rio de Janeiro - Lagoa), onde transitam centenas de crianças, etc.; onde as toalhas de certos bares - que ficam a poucos metros - são presas por ferros porque 'voam' todas as vezes que os helicópteros levantam vôo e/ou chegam.
O brazileiro padrão e' a única 'subespécie' (do sapiens) que permitiu um confisco generalizado de suas moedas/riquezas, SEM QUE QUALQUER RESPONSÁVEL POR ESTE CRIME TENHA SIDO PENALIZADO. Não ha registro na Historia de semelhante debilidade (em tempos de paz).
O brazileiro médio é a única subespécie que permite que um estuprador e assassino seja elleito - democraticamente (sic) - presidente, que depois seja 'impichado' (deveria de fato ser linchado) por corrupção, e depois vire senador e presidente de uma comissão de m... qualquer daquele p... que se chama senado.
Eu não ficaria nem um pouco surpreendido se este assassino e estuprador fosse atualmente o presidente da comissão de ética daquela espelunca. Não existem exemplos igualmente na História de tamanha barbaridade, debilidade e retardamento social.
Bem, nao vou listar todos os exemplos, pois a minha lista e' infindável e vc mesmo deve possuir uma outra lista kafkiana ... Tudo isto eu afirmei acima, somente para lhe dizer que, mesmo sabendo disto tudo, a minha tarefa - e creio que a sua também, pois o que vc faz diuturnamente e' igualmente tarefas de 'professor', e' continuar em linha reta, sem perder o norte jamais.
E ademais, a sua ou a minha participação nas ruas é secundária, pois processos sociais são plurais e não individuais. Eu, por exemplo, não fui à manifestação por vários motivos (embora a tenha divulgado para as minhas listas); se eu tivesse ido, eu iria ficar 'de longe', analisando, refletindo, etc., ... para onde esta indo a nova geração ... pois são as novas gerações que têm o bastão nas mãos ...
grande abraço
p.s.1: estou escrevendo de um computador anglófilo.!! portanto sem acentos
p.s.2: escrevo sempre brazil, etc com z por questões obvias; quando o brazil deixar de ser uma colônia (e de quinta categoria) eu certamente escreverei brazil com S.
*Murillo Cruz é professor  concursado (Teoria Macroeconômica) (1977) do Instituto de Economia (IE-UFRJ); atualmente leciona no Instituto de Economia e no Instituto de Psicologia da UFRJ.
http://murillocruzfilho.blogspot.com/

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Lula cumpre apenas o script saído de um certo acordo de cavalheiros

Preferia achar que o ex-operário endoidou pelo inusitado de sua reluzente assunção ao trono.Qualquer médico residente do Pinel sabe dos efeitos alucinógenos que o poder opera sobre quem viveu uma infância miserável, de humilhações e traumas, abandonado pelo pai junto com a mãe analfabeta e uma penca de irmãos, quando o imponderável lhe põe às mãos o cetro do domínio sobre todos os pais e filhos, ricos e pobres, letrados e analfabetos.
Leia íntegra da matéria em PORFÍRIO LIVRE

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

No limiar da quinta catástrofe do Asimov

Paulo Cesar Rodrigues Borges
Pensei em escrever para reprovar essa apatia de um público de certo nível de instrução, como os "incluídos digitalmente", mas pensei bem e acho que mesmo estando no RJ, poderia ser um dos que ficaria contigo "de coração", mas não se mobilizaria para chegar às vias de fato, portanto, seria um hipócrita, um "fariseu".
Por que acho que não me mobilizaria? Você foi ao ponto. Por que estamos desanimados.
Sinto-me assim, como um búfalo velho, na savana, a ser devorado lentamente pelas hienas; moribundo, sentindo as dentadas atrozes dos carnívoros insaciáveis por sangue, a dilacerar a minha carcaça, sem reagir, sem receber a solidariedade dos outros búfalos que ainda podem escapar dos ataques e que, apesar de condoídos com a tragédia de um seu igual, vêem no banquete dos carnívoros a eventual oportunidade para durar um pouco mais.
Mas a metáfora que usei acima perde o seu efeito no caso, porque é da natureza das hienas, em matilha, tomarem sangue e não leite. É da natureza do búfalo velho afastar-se da manada para poupar os seus semelhantes.
A metáfora falha porque, como seres minimamente éticos, não deveríamos aceitar que nossos iguais em humanidade exercitassem o poder de forma contrária a princípios que acabarão por ameaçar o futuro da espécie.
Isaac Asimov, físico e escritor de ficção científica, em seu livro ESCOLHA A CATÁSTROFE, descreve o que chama de "catástrofe do 5º grau", numa escala que vai de 1 a 5 (1, para um cataclismo de proporções cósmicas, até 5, para a de natureza endógena, uma mutação corruptora de hábitos e costumes da espécie humana, que nos levaria à extinção).
Ao saber da sua tristeza em avaliar os poucos que lêem a sua coluna, por ela apelar ao raciocínio, ao tradicional modo de construir o saber, pela leitura e pela escrita, não lhe trago boas notícias, pois como professor universitário de um curso de engenharia, quando pedi aos alunos do última ano para escreverem apenas 15 linhas sobre o que achavam da importância de se estudar ética no seu curso, recebi deles caras feias, de desânimo, de má-vontade, ao ponto de uns chegarem a propor uma redução das linhas pela metade (cerca de 7). Não querem escrever. Ler, então, é para eles um sacrifício insuportável.
Será que estamos no limiar da quinta catástrofe do Asimov, Pedro?

Paulo César Rodrigues Borges
Engº Cartógrafo pelo IME e Dr. em Ciência da Informação pela UnB E-mail alternativo:

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O combate aos políticos corruptos passa pelo questionamento do voto eletrônico às cegas

Estudantes que não foram cooptados voltaram ao Senado para exigir a saída de Sarney. Mas eles é que foram presos.
“A fraude dos mesários consiste em se aproveitar a ausência de fiscais para inserir votos nas urnas-E em nome de eleitores que ainda não compareceram para votar”.
Amílcar Brunazo Filho, maior especialista no combate às fraudes das urnas eletrônicas.

Não estou nada surpreso com esse cessar fogo no tapetão azul do Senado desta república gaiata. Nem eu, nem você, provavelmente. Não faz muito, a Câmara Federal ganhou o benefício da penumbra e manteve suas trapaças no “sapatinho”. Na Justiça, você sabe, depois daquele arranca-rabo entre Gilmar e Joaquim, desceu a cortina da mais insípida calmaria.
A espetacularização da traquinagem vai sobrar para todos lá da corte. Excetuando-se uma meia dúzia de três ou quatro, estão todos enfiados na libidinagem política de corpo e alma. Mais de corpo do que de alma. Mas como são “multiflexes”, qualquer combustível lhes sacia os apetites vorazes.
Já tentaram mudar de assunto com a gripe suína, mas não deu. Agora, dona Globo e o Estadão voltaram à carga contra a Igreja Universal. Não pelos seus perigosos poderes de persuasão, mas pelo sucesso da Record, que já está cabeça com cabeça com o antigo império de comunicação.
Mas não será a única cortina de fumaça. O sistema faz do povo gato e sapato. Pauta sua indignação pela formulação manipulada dos elementos de conflito. Faz com que descarreguemos nossa bílis sobre dois ou três vilões. A gente cai dentro como se fossemos livrar o Brasil de todos os seus malefícios.
Neste sábado, estaremos em todo o país no grito do “Fora Sarney” , esperando que esse grito alcance todos os corruptos do Congresso. E vizinhanças.
Por cima da carne seca
No entanto, o sistema conta com a dispersão no dia seguinte. Sarney continuará por cima da carne seca porque comanda a pior súcia que já pisou o tapete azul. Lula morre de medo de que algo lhe aconteça. Ainda sofre do trauma da derrota da CPMF, quando não logrou o número necessário, apesar de contar então com votos contrariados de alguns aliados, como senadores do PDT.
Sarney conhece os meandros da política de cor e salteado. Aprendeu na ditadura, a que serviu com menção honrosa, a jogar com as fraquezas dos adversários. Coleciona robustos dossiês. Não existe um único dos seus colegas de que não possua um achado comprometedor.
Portanto, todo aquele bate boca histriônico está chegando ao fim. No Senado, ninguém é maluco de levar esse jogo de cena às últimas conseqüências. Como eu disse outro dia, nem o mais palatável dos senadores lembrou-se de questionar essa monstruosidade que é o eleitor votar em um e levar mais dois de quebra, que ele nunca viu mais gordo.
O suplente do ACM é o filho. O do Lobão, idem. E cada um que senta no banco dos reservas está lá não por qualificação política. Mas por credenciais só cabíveis quando o mandato é ganho por baixo do pano.
O Senado é o que é de cabo a rabo. Seu irmão do lado não é diferente. Só não tem suplente sem voto. Mas, sabe quanto custa hoje uma eleição de deputado federal? Assustam-me com os números milionários. Nem que vivessem 100 anos, a maioria dos políticos ganharia o gasto numa campanha.
Pior de tudo e a urna eletrônica
Isso não é tudo, porem. Você notou que ninguém fala dessas intocáveis urnas eletrônicas, concebidas sob a mesma égide dos atos secretos do Senado?
Isso é que é brabo. No tempo do meu pai, lá no Ceará, o “coronel” dava o envelope fechado para o peão botar na urna. Um dia, como contou Sebastião Nery em seu precioso folclore político, o eleitor foi perguntar em quem tinha votado. O patrão respondeu na bucha:
- O que é isso, rapaz, o voto é secreto.
Nada como um dia depois do outro. A tecnologia e os nossos preclaros ministros da Justiça Eleitoral fincaram pé e não adianta espernear. O voto hoje é tão secreto como nos tempo do meu pai. Você vota, vê até um retratinho, mas não tem como saber para onde foi o voto.
Sabe por que? No Brasil, ao contrário da Venezuela de Chávez que essa mídia chama de ditadura, o cidadão não tem como checar o seu voto, porque ele não é impresso.
Em janeiro de 2002, o então senador Roberto Requião, inspirado pela cruzada de Brizola, ainda conseguiu aprovar a Lei 10.408, que estabelecia a impressão do voto para eventual recontagem. Tão logo assumiu, Lula mandou revogar esse instrumento de controle, valendo-se de um projeto do senador tucano Eduardo Azeredo. (Nessas horas, eles se entendem muito bem). Protocolado em maio de 2003, o projeto revogatório foi aprovado pelo Congresso na tarde de 1 de outubro de 2003. À noite, Lula sancionou o que seria a Lei 10.740.
As fraudes da modernidade eleitoral
A urna eletrônica caiu como uma luva também para o voto digitado pelos próprios mesários, principalmente nas periferias da cidade. É um golpe surrado e conhecido, responsável pela eleição de deputados e vereadores, principalmente.
A partir de certa hora, como muitos eleitores desistem de exercer seu direito porque sabe que a multa é mínima, os mesários votam por eles. Para não haver erro, assinam mais ou menos entre uma linha e outra. Qualquer coisa, dá-se um jeito.
A maneira mais eficiente de impedir esse voto “biônico” e a adoção da urna biométrica, como existe na Venezuela desde 2004. Por esse sistema, para votar, o eleitor tem de colocar suas digitais na urna.
No Brasil, essa providência está sendo testada num ritmo em que, provavelmente nos próximos pleitos só alguns municípios contarão com esse inibidor de fraudes.
Sobre esse procedimento, responsável pela eleição de um numero surpreendente de deputados e vereadores ( e até majoritários – há quem diga que foi aí que o Gabeira perdeu a eleição para prefeito do Rio) o engenheiro Amílcar Brunazo Filho, a maior autoridade em urnas eletrônicas do Brasil, já detectou a possibilidade de novo tipo de burla com a utilização da mesma máquina para identificar o eleitor e receber seu voto.
“Na Venezuela, por exemplo, onde se adota a identificação biométrica do eleitor desde 2004, esta identificação é feita em máquinas próprias desconectadas das máquinas de votar (uma máquina de identificar pode atender a demanda de até 20 máquinas de votar)”.
O que eu quero lembrar é que essa fartura de políticos corruptos tem muito a ver com o sistema eleitoral brasileiro, tão suspeito que, para disputar a eleição e vencer no Paraguai, a oposição exigiu a devolução das urnas oferecidas pelo TSE do Brasil. Essa medida profilática foi considerada uma das razões da derrota do candidato oficial.
Portanto, por hoje, fica a advertência: a menos que acabemos com o atual sistema de voto eletrônico às cegas, sem controle e sem auditagem, que Sarney e seus colegas peraltas podem até sair de cena. Mas o esquema está montado: no lugar deles, surgirão outros da mesma laia e até mais vorazes e menos escrupulosos.
A luta contra a corrupção passa pelo questionamento dessas urnas secretas.
coluna@pedroporfirio.com

domingo, 9 de agosto de 2009

O golpe nos trabalhadores que não está no “Caminho das Indias”

Misterioso indiano serviu de “laranja” para a GE não pagar obrigações trabalhistas no Rio Não adiantou nada ter levado os diretores do Sindicato dos Metalúrgicos ao ministro do Trabalho. A fábrica da GE em Maria da Graça está fechando sem pagar compromissos trabalhistas.
"O sindicato vai estudar quem colocará na justiça: a "laranja" ELP(Grupo Indiano), a GE, ou as duas. Portanto, agora podemos admitir que a General Electric, deu mesmo um golpe criminoso em seus funcionários".
Tarcísio da Cruz Leal, operário da GE há vinte anos.
No amanhecer desta segunda-feira, dia 10 de agosto, cerca de 500 trabalhadores da General Eletric de Maria da Graça, ali ao lado do Jacarezinho, estarão se concentrando em frente ao prédio da GE/Celma, em Petrópolis para exigir o respeito aos seus direitos trabalhistas, burlados pela gigante norte-americana de forma recambolesca, bem ao estilo dos piores gângsteres do seu país.
Ao se deslocarem com todo o sacrifício que isso representa, os trabalhadores, liderados pelo Sindicato dos Metalúrgicos, vão querer decifrar o enigma que nem o governo do Estado conseguiu: como garantir o pagamento das verbas rescisórias, já que, a esta altura, nutrem pouquíssimas esperanças de manter seus empregos, numa novela que mostrou mais uma vez, infelizmente, o pouco caso do governo do sr. Luiz Inácio, através de u m Ministério do Trabalho impotente e convertido numa agência de repasse de dinheiro, através do FAT.
A essa novela teve seus primeiros capítulos em 2007, quando a matriz norte-americana anunciou o fechamento de 5 plantas industriais no exterior, entre as quais a de Maria da Graça, que já operava com carga mínima, dedicada exclusivamente à fabricação de lâmpadas. Naquele ano, tinha menos de 900 empregados, em contraste com seu tempo áureo, na década de 70, em que empregava 7 mil metalúrgicos.
Naquele então, no exercício do mandato de vereador, levei a diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos ao ministro Carlos Lupi. A GE havia decidido fechar a fábrica que funcionava há 90 anos no Brasil para importar lâmpadas da China, que lhe parecia mais vantajosa, como aliás, têm sido esses estranhos negócios da China, um país dirigido por um partido comunista, cujo maior trunfo é a oferta de mão de obra operária a preço de banana.
Lupi, acreditando na liturgia do cargo, pegou o telefone e ligou para a própria fábrica. O mais que conseguiu foi ser atendido pela diretoria de Recursos Humanos, que não estava habilitada a informar mais além da nota divulgada pela matriz, em Fairfield, Connecticut.
À época, circulavam informações de que um grupo brasileiro havia manifestado interesse em da continuidade às atividades da indústria, que ocupa um dos maiores parques fabris do Brasil.
Não obstante, com o Ministério do Trabalho totalmente à margem, a própria GE negociou com o que seria uma metalúrgica da Índia, para quem passou as instalações e as responsabilidades com os empregados.
Decorrido pouco mais de um ano dessa transação, os trabalhadores ficaram sabendo que as máquinas iam parar. Com o agravante patético, que não teria acontecido se o Ministério do Trabalho tivesse cumprido suas obrigações: o tal grupo indiano – ELP – entrou na história como uma espécie de laranja. Eximiu-se dos compromissos trabalhistas e ainda teria dado um cano de R$ 17 milhões na companhia norte-americana.
Com sua “evaporação” e a paralisação das atividades da fábrica, os trabalhadores ficaram a ver navios. Ao Sindicato dos Metalúrgicos só restou bater ás portas do governo do Estado, que havia chancelado a “transferência do controle” da fábrica de lâmpadas.
Ambos – sindicato e governo estadual – se deram conta do logro e correram atrás dos antigos patrões, a GE. Após uma tensa reunião, o sr. Jaime Saion, da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico, entrou em contato com o presidente da GE no Brasil.
Este, na maior cara de pau, alegou que o grupo norte-americano não tinha mais nada a ver com o parque industrial da Maria da Graça. Disse que ele também estava atrás do misterioso indiano da ELP ( que não saiu da novela de Glória Perez) para cobrar uma dívida de R$ 17 milhões.
O representante do governo do Estado repassou o problema para o sindicato, que terá de bater às portas da Justiça, enquanto os 500 trabalhadores restantes estão sem receber um níquel e não sabem sequer para quem apelar.
É uma situação inteiramente inédita, que atinge os trabalhadores no governo que se fez com o discurso obreirista, mas que virou a casaca e ainda imobilizou pela cooptação quem poderia estar oferecendo suas energias e sua experiência às vítimas desse verdadeiro golpe. E a todos os trabalhadores que começam a ser habituados á idéia de que chupar o dedo é preciso, pois afinal o homem lá de cima também já pegou no batente e já comeu esse mesmo pão que o diabo amassou.
É um golpe tão bem orquestrado que ainda não apareceu nas páginas dos jornais. A não ser numa pequena nota na coluna de Ancelmo Goes, do GLOBO deste domingo.
Golpe que mantém rigorosamente omissos as autoridades do Trabalho em todos os níveis - do Ministério, á secretaria Municipal do Rio de Janeiro, ambos, aliás, em entregues ao PDT, a quem cumpriria fazer o que João Goulart fazia em situações como essa.
coluna@pedroporfirio.com



sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A propósito da nota da OAB, pedindo a renúncia coletiva de todos os senadores

"O chefe, o comandante, é o presidente Lula. Ele foi o responsável. Se não tivesse o presidente Lula, o Sarney não seria candidato (à presidência do Senado), e o Sarney teria ido para casa".
Senador Pedro Simon

Presidente nacional da OAB, o advogado Cezar Brito quer uma atitude decente de todos os senadores

Com a responsabilidade de quem tem uma participação ativa nos momentos mais graves de nossa história, a Ordem dos Advogados do Brasil tornou pública a sua posição pela RENÚNCIA COLETIVA de todos os senadores.
O documento, fundamentado por algumas das razões que me levaram a pedir a extinção dessa casa legislativa redundante, onerosa, desnecessária e nociva, diz com todas as letras:
“A crise não se resume ao presidente da casa, embora o ponha em destaque. Mas é de toda a instituição - e envolve acusados e acusadores. Dissemina-se como metástase junto às bancadas, quer na constatação de que os múltiplos delitos, diariamente denunciados pela imprensa, configuram prática habitual de quase todos; quer na presença maciça de senadores sem voto (os suplentes), a exercer representação sem legitimidade; quer na constatação de que não se busca correção ética dos desvios, mas oportunidade política de desforra e de capitalização da indignação pública”.
Como se vê, não estamos exagerando na dose. A OAB não toca na questão estrutural, existência de duas casas legislativas com funções semelhantes, mas o simples fato de pedir a renúncia de todos os senadores, sem exceção, oferece um diagnóstico conjuntural de grande alcance.
Senadores sem brio e sem convicções
É claro que esse apelo não será considerado nem pelos trapaceiros mais conhecidos. Quando um meliante como Renan Calheiros voltou ao controle do Senado depois de ter renunciado à Presidência em função de uma penca de denúncias irrefutáveis, é porque a casa está inapelavelmente decadente.
É curioso observar que muitos desses senadores, detentores de mandatos em dobro, morrem de medo do sr. Luiz Inácio. É o caso do senador Eduardo Matarrazo Suplicy, que faz o gênero de bom moço, mas que amarela sempre nessas horas.
Não entendo igualmente as omissões dos senadores Paulo Paim e Marina Silva. Esta, inclusive, começou a falar na possibilidade de trocar o PT pelo PV com a perspectiva de ser candidata à Presidência da República. Ou será que está apenas barganhando maior carinho do Palácio do Planalto?
Para agravar, o decrépito presidente do Conselho de Ética (?),Paulo Duque, entrou na chicana, deliberando tornar secreto seu parecer que arquivou as representações pendentes para a abertura de processos contra o prior José Ribamar Sarney. Quem quiser conhecer oficialmente seu despacho, deverá esperar publicação no Diário do Senado: é mole ou quer mais?
Segundo suplente sem um único voto e sem qualquer atuação anterior – ele assumiu o mandato com a eleição de Sérgio Cabral para governador em 2006 – esse velho “chaguista” é a marca de um Senado que se tornou senil e não justifica um níquel dos quase dois bilhões e setecentos milhões de reais que consome anualmente.
Agindo como gigolô da crise
Isso tudo está acontecendo, infelizmente, devido ao baixo nível e a qualidade medíocre de nossos parlamentares. Sem o mínimo de preparo e envergadura moral, vivem sob o domínio do Poder Executivo, certos de que vão precisar da máquina na hora em que vão disputar a reeleição.
Daí terem razão os senadores Pedro Simon e Álvaro Dias sobre o envolvimento indevido de Lula em toda essa crise, da qual pretende tirar proveito, como é do seu feitio. Além do que disse Simon, vale registrar a declaração do tucano paranaense, que nesse caso está cheio de razão: "Há conexões entre as ações daqui e do Palácio do Planalto. Há participação ativa do governo nisso tudo. A questão eleitoral teve peso, a conquista pelo PMDB, a tentativa de mantê-lo com Dilma. Ele interferiu sempre, desde a eleição até mantê-lo na presidência na crise".
Mais do que isso, a interferência de Lula, agindo como o dono do PT, que desfigurou inclusive na imposição do nome de Dilma, sem as costumeiras prévias, tem alvos mais graves.
Além de desconstruir a CPI da Petrobrás, que esse Senado por si já não tinha condição nenhuma de investigar, o sr. Luiz Inácio investe na inviabilização do processo sucessório e no turvamento do ambiente político, com as piores intenções imagináveis.
Na prática, ele está destruindo seu próprio partido e os aliados do “campo popular”, pelo descrédito disseminado. O PT se fez principalmente devido ao voto de opinião, mais influente nas eleições majoritárias (presidente, governadores e senadores). Neste momento, é cada vez maior o cordão de petistas envergonhados ou arrependidos. Cada vez mais difícil imaginar uma campanha dos seus próceres locais, subordinados ao que há de pior na vida pública brasileira.
Difícil é saber aonde Lula quer chegar
Essa conversa de que a “base aliada” deve abrir mão de tudo em favor da candidatura presidencial só ilude os mais ingênuos. Dilma Rousseff jamais disputou uma eleição. É antipática e, na verdade, extremamente vulnerável.
Será muito desconfortável, por exemplo, que o PDT se incorpore de cara limpa à sua campanha. Além da postura entreguista que teve no Ministério de Minas e Energia, quando deu sequência aos leilões das jazidas petrolíferas, ela carrega o carma da traição a Brizola.
Não era ninguém antes das oportunidades que teve no governo pedetista de Alceu Colares. Feita secretária pela segunda vez no governo petista por indicação do PDT, virou-lhe as costas quando o partido decidiu romper com o governador Olívio Dutra. Com outros arrivistas, inclusive o próprio filho de Brizola, João Vicente, trocou a legenda pela sinecura e ainda se filiou ao PT.
Lula, que tem seus monitores de laboratório, não faz nada por acaso, apesar dos destemperos ocasionais. O que passa de fato por sua cabeça nem a própria Dilma sabe. A única coisa que parece evidente foi o gosto que pegou pelo poder. Um gosto que não tem limites.
A Nota da OAB sobre o Senado
Para o seu conhecimento, é o seguinte o teor da nota assinada pelo presidente nacional da OAB, em nome do seu Conselho Federal:
"O Senado está em estado de calamidade institucional. A quebra de decoro parlamentar, protagonizada pelas lideranças dos principais partidos, com acusações recíprocas de espantosa gravidade e em baixo calão, configura quadro intolerável, que constrange e envergonha a nação. A democracia desmoraliza-se e corre risco.
A crise não se resume ao presidente da casa, embora o ponha em destaque. Mas é de toda a instituição - e envolve acusados e acusadores. Dissemina-se como metástase junto às bancadas, quer na constatação de que os múltiplos delitos, diariamente denunciados pela imprensa, configuram prática habitual de quase todos; quer na presença maciça de senadores sem voto (os suplentes), a exercer representação sem legitimidade; quer na constatação de que não se busca correção ética dos desvios, mas oportunidade política de desforra e de capitalização da indignação pública.
Não pode haver maior paradoxo - intolerável paradoxo - que senadores sem voto integrando o Conselho de Ética, com a missão de julgar colegas. Se a suplência sem votos já é, em si, indecorosa, torna-se absurda quando a ela se atribui a missão de presidir um órgão da responsabilidade do Conselho de Ética.
Em tal contexto, urge fornecer à cidadania instrumentos objetivos e democráticos de intervenção saneadora no processo político. A OAB encaminhou recentemente ao Congresso Nacional, no bojo de proposta de reforma política, sugestão para que o país adote o recall - instrumento de revogação de mandatos, aplicável pela sociedade a quem trair a delegação de que está investido.
Trata-se de instrumento já testado em outras democracias, como a norte-americana, com resultados positivos. O voto pertence ao eleitor, não ao eleito, que é apenas seu delegado. Traindo-o, deve perder a delegação. Não havendo, porém, tal recurso na legislação brasileira, prosperam discursos oportunistas, como o que sugere a extinção do Senado. A OAB é literalmente contra a extinção do Senado.
O Senado não pode ser confundido com os que mancham o seu nome. Precisa ser preservado, pois é o pilar do equilíbrio federativo. Diante, porém, do que assistimos, a sociedade já impôs à presente representação o recall moral. O ideal seria a renúncia dos senadores. Como não temos meios legais de impor esse ideal - único meio de sanear a instituição -, resta pleitear que se conceda algum espaço à reforma política, senão para salvar o atual Congresso, ao menos para garantir o futuro.
CEZAR BRITTO
PRESIDENTE DO CONSELHO FEDERAL DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL”

coluna@pedroporfirio.com


Apenas a bola da vez de um regime de estelionatários políticos

Tasso Jereissati:
- “Não aponte esse dedo sujo pra cima de mim”
Renan Calheiros:
- Dedos sujos são os de vossa excelência. São os dedos sujos do jatinho que o Senado pagou.
- Pelo menos o jato é meu, do meu dinheiro, não é dos seus empreiteiros.
....V. Excia é um coronel cangaceiro de terceira categoria.
- E você é um coronel de merda!

Nesta quinta-feira, 6 de agosto de 2009, o Senado da República voltou a ser picadeiro de baixíssimo nível, assemelhando-se sem tirar nem por a um covil de bandidos dedicados à exposição da roupa suja no horário indevido.
Antes de qualquer comentário, cumpre-me sugerir que tirem crianças de perto no caso de sintonizarem a Tv Senado. O deprimente tom das discussões é realmente impróprio para adolescentes e jovens, que podem ter a idéia do que uma Casa Legislativa é um antro de moleques boquirrotos e boçais.
É realmente constrangedor dizer à meninada que aqueles colarinhos brancos de rabos presos são os mandatários incumbidos de produzir leis, fiscalizar o Poder Executivo e exercer a representação dos Estados.
É dramático admitir que eles estão ali com a responsabilidade de consolidar o regime democrático, pelo o qual algumas gerações lutaram com o sacrifício de suas vidas e de suas carreiras profissionais.
É patético aceitar que esse Legislativo teria por finalidade a maior responsabilidade na sustentação da democracia representativa. Com aqueles senadores, quase todos envolvidos em falcatruas e trapaças, os defensores das ditaduras não precisam dar um pio. O comportamento abjeto e suspeito dos detentores de mandatos estendidos de 8 anos, alguns sem a legitimidade de um voto sequer, oferecem o combustível necessário à explosão desse regime que não passa de uma grande farsa, uma fantasia envolta em falsos brilhantes.
Sem chance de regeneração
Neste momento, o pior que pode ocorrer ao cidadão brasileiro é imaginar que essa onerosa casa legislativa tenha salvação. Como eu escrevi ontem, o Senado brasileiro sofre de graves doenças congênitas.
Nasceu sob o signo da impostura com o objetivo de garantir casa, comida e roupa lavada para uma meia dúzia de políticos egressos de governos locais ou caciques vorazes, aos quais se oferece um mandato em dobro com um custo só equiparado ao dos tribunais superiores: com mais de 10 mil funcionários à disposição e todo tipo de mordomia, cada senador representa um gasto per capita diário de R$ 91.000,00, que teria melhor uso nas deficitárias rubricas de educação e saúde.
Esse parlamento desqualificado, em que pontifica um líder alijado da presidência como forma viciada de poupar-lhe o mandato - apesar de pilhado em todo tipo de trapaças - não vai se regenerar porque ele reflete o sistema manipulado pelas elites, onde a dominação de classe é sustentada pela alienação deliberada do povo e pelo cultivo de expectativas individuais, de ilusórias inspirações fratricidas.
Esse altar da mediocridade, da boçalidade e da corrupção faz o gosto dos interesses econômicos apátridas, aos quais o presidente Luiz Inácio se rendeu e sob cuja tutela, como um mamulengo assumido, joga com sua imagem empática e sua abusiva capacidade de cooptação, inclusive para dar proteção à súcia que enlameia a chamada Casa Alta do Parlamento brasileiro.
Não há como imaginar que o circo do Senado Federal exista à margem de um contexto permeado pela ascensão de estelionatários políticos, carreiristas e arrivistas sem qualquer compromisso com as instituições republicanas.
Poderes nivelados por baixo
Infelizmente, em função de um ambiente despolitizante, do vazio preenchido pela mistificação, o cinismo, a hipocrisia, a barganha, o suborno e a mentira, que não poupou nem os estudantes, o que foi lamentado inclusive em nota do Clube Militar, assinada por seu presidente, general Gilberto Figueiredo, nada de patriótico e ético pode se esperar de uma casa legislativa em nosso país.
Vale reconhecer, no entanto, que a qualidade moral e política dos senadores não é diferente da registrada em todos os podres poderes. A sociedade cometeu o grave erro de deixar que a vida pública seja prerrogativa exclusiva de políticos profissionais inescrupulosos, que gastam fortunas em campanhas eleitorais e exercem mandatos com a preocupação de compensarem os “investimentos”, na caça a todo tipo de vantagens, ao som de uma balada macabra de consequências abismais.
Enquanto os mandatários tratam de meter a mão no que encontrarem, o exercício da política econômica passou ao controle dos banqueiros, através do Banco Central e a feitura das leis foi transferida para o Judiciário, sob o império da hermenêutica.
O processo eleitoral tornou-se um jogo sujo de cartas marcadas. Os partidos grandes têm mais espaços na propaganda gratuita e recebem mais dinheiro do fundo partidário, tornando heróica a campanha dos menores, como se no regime de direito existissem legendas de primeira, segunda e terceira classes.
Como se o espectro partidário estivesse sujeito a hegemonias programadas, que conservam o PMDB, uma legenda sem compromissos, sem caráter, sem líderes nacionais e sem apelo como o maior partido do país, apesar da desmoralização pública assinalada.
Urnas que facilitam a impostura
As urnas passaram a ser verdadeiras caixas pretas, imunes a qualquer tentativa de conferência. Agora mesmo, o chefe dessa megafraude política, senhor dos anéis e da caneta, oferece ao sistema eleitoral suspeito a garantia de que vetará qualquer tentativa de estabelecer a impressão do voto para eventual conferência, fazendo os gostos das raposas que se perpetuam nos podres poderes sabe Deus como.
É bom que se diga que a revogação da impressão do voto, resultante de uma Lei aprovada em 2002, foi uma das primeiras providências do Sr. Luiz Inácio tão logo assumiu a chefia do governo.
Enquanto isso, a Justiça Eleitoral limita a algumas cidades o sistema de identificação biomédica (urnas com leitura digital), optando por uma solução cara, quando uma tecnologia barata garantiria a aplicação desse controle em todo o país já no próximo pleito, à semelhança do que acontece na Venezuela,.
Por onde quer que se olhe o exercício da vida pública no Brasil é flagrante o processo de distorção que faz da nossa democracia um grande logro e produz essa laia de políticos corruptos, canalhas e inescrupulosos.
O Senado que nós vemos, e que precisamos extinguir por desnecessário, oneroso, redundante e nocivo, é apenas a bola da vez nessa sequência indecente de afrontas à dignidade dos cidadãos brasileiros.
Porque, em verdade vos digo: os poderes dessa falsa democracia estão tão degenerados que sempre haverá um escândalo para o consumo da mídia e o desencanto de um povo, instado deliberadamente a ficar de fora “para não se misturar com porcos”.
coluna@pedroporfirio.com

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A morte do Senado e o nosso grito parado no ar

No caricato "Conselho de Ética"O dia que o "senador biônico" livrou a cara de Sarney e levou o Senado à morte
“A verdade se corrompe tanto com a mentira como com o silêncio”
Marcus Túlio Cícero
Filósofo, orador e político romano ( 106 A.C a 43 A.C)


Não há mais dúvidas: o Senado morreu. Sem choro, nem vela essa onerosa hidra dos podres poderes deu seu último suspiro quando o simulacro de Conselho de Ética, encabeçado por um político carcomido, que lá chegou sem um voto sequer, desligou os aparelhos pelos quais ainda respirava, ao mandar para a lixeira no mesmo embrulho representações para abertura de processo contra o prior José Ribamar Ferreira de Araújo Costa e o que ainda restava de pudor naquele valhacouto.
Só nos resta adotar as providências cabíveis para seu sepultamento em cova tão profunda que jamais possa ressurgir com suas cabeças degeneradas e destituídas de todo e qualquer recato.
Haverá resistência ao enterro, mas se nós quisermos nada nos impedirá dessa tarefa saneadora. Sim, nós podemos livrar o país desse magote de sanguessugas insaciáveis. Nós podemos, sim, pelo exercício da cirurgia, da quimioterapia e da radioterapia. E da pá de cal.
Valhacouto oneroso, redudante e nocivo
O Senado Federal é uma redundância legislativa. Não é necessário. Ou melhor: é mais do que desnecessário, é nocivo pelos próprios vírus inerentes: mandatos de 8 anos, suplentes sem votos, cenáculo de intocáveis, práticas tão imorais que são blindadas pela ilegalidade dos atos secretos.
O Senado Federal da República Federativa do Brasil não é uma casa republicana. É um amontoado de feudos onde a quase totalidade dos seus senhores pode se dar ao luxo de pintar e bordar de costas para a opinião pública, para a moral e os bons costumes.
O Senado Federal é produto de cartas marcadas. Não é qualquer um que pode disputar uma de suas 81 cadeiras. Os partidos usam de um processo de exclusão tão explícito que só os velhos caciques e os ungidos por eles ganham legendas.
Por esse gargalo, resta ao cidadão o mínimo de opção. Quase sempre é obrigado a escolher entre o diabo e o “coisa ruim”. E ainda é ludibriado quando pode votar em dois ao mesmo tempo, isso para evitar a disputa limpa, facilitando os conchavos inspirados nas mais abjetas conveniências.
O Senado Federal é a única casa aonde se chega sem votos. Padece da síndrome do biônico dos tempos obscuros. Você escolhe um e habilita três. Dois você nem sabe quem é.
Em geral, é elemento sem condições de submeter-se sequer a uma eleição de síndico do seu prédio. Veja o caso desse Paulo Duque, o provecto coveiro da casa onde chegou por descuido.
Nos tempos sujos do chaguismo, ainda teve mandatos de deputado estadual. Com o desmoronamento desse reinado corrupto, sumiu da prateleira. Mas ficou à sombra, colando num e noutro. Até que ganhou a condição de segundo suplente do senador Sérgio Cabral.
Este, eleito governador, levou para a Casa Civil o seu fiel escudeiro, Regis Fichter, primeiro suplente igualmente sem voto, abrindo a segunda janela para o fracassado político fruir do paraíso no limiar dos oitenta anos.
Ninguém melhor do que ele para ser o emblema do Senado Federal da República Federativa do Brasil. Conduzido ao comando do Conselho de Ética com a missão específica de proteger os correligionários pegos com a mão na massa, declarou seu desprezo pela opinião pública, a que não se submeteu para ganhar o cargo “eletivo” e a cujo julgamento não se imagina exposto.
Mandatos para proveito pessoal
Há alguns senadores bem intencionados. Poucos, mas há. No entanto, nenhum deles, em tempo alguma, levantou a voz contra a fraude do suplente sem voto. Ao contrário, todos eles, sem exceção, carregam o contrapeso dos bastardos, escolhidos sabe o diabo por quais “negociações”.
O Senado seria a casa moderadora, a representação dos Estados. Eufemismos baratos, mentiras assimiladas com carinho e afeto também pela mídia, que age pontualmente.
Porque, ao contrário do que acontece em países como Alemanha, Áustria e Índia, para citar alguns, os senadores legislam, fazem tudo o que se atribui à Câmara dos Deputados e ainda têm outras prerrogativas, hipertrofiando seu poder de barganha, empanzinado pelo mandado estendido.
Com essa duplicidade de casas legislativas, que só se dá a nível federal (ao contrário do que acontece nos Estados Unidos) o Parlamento reverbera a mais patética ambiguidade. Faz de tudo, menos legislar. Ou então produz leis cosméticas, destinadas ao anedotário institucional.
O usual é a instrumentalização do mandato para proveito pessoal e sustentação de interesses espúrios, no assalto crônico aos silos do patrimônio publico. Pelo poder que acumulam, os parlamentares acabam titulares das estações de rádio e TV dos seus Estados, das prebendas de onde jorram cintilantes pepitas, do viciado tráfico de influências, muito mais poderoso do que o de drogas.
A salvação do prior e o crepúsculo da casa
O que aconteceu no Senado Federal, com as bênçãos do chefe do Executivo, mostrou que Sarney tem razão quando ele diz que não é o único a nos passar para trás. Como seu parceiro Renan Calheiros e seu endiabrado novo aliado Fernando Collor, cujo olhar fala por si, ele está ganhando a comenda do homem acima de qualquer suspeita.
Seus pares vão assinar o “nada consta” com a sem cerimônia e o cinismo dos que se servem do regime representativo para levar o povo a sentir atração pelas ditaduras, onde haja pelo menos a sensação do combate à corrupção, à molecagem e à impunidade.
Sarney vai sair incólume, apesar das mentiras e das trapaças em que se viciou de tal forma que é capaz de rir de nossa cara com uma certa dose de sadismo.
Permanecerá o soberano intocável da festa caipira, animando a quadrilha com seu malabarismo sincronizado com o compadrio dos podres poderes.
Mas se poderá preservar sua fortuna e manter a atenção especial aos familiares e similares, estará, ao mesmo tempo, nos oferecendo fermento para que, enfim, levantemos nossos traseiros das poltronas, desliguemos os verdugos eletrônicos e passemos da palavra à ação.
Nós, os cidadãos honestos e trabalhadores, ainda somos a grande maioria. Maioria silenciosa, tudo bem. Mas que tem tudo para soltar esse grito de revolta que está parado no ar.
Vamos dar a nossa resposta. Nós podemos e devemos fazer a nossa parte.
coluna@pedroporfirio.com

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

NO JOGO DURO CONTRA A CORRUPÇÃO, UM VÍRUS ME IMOBILIZOU POR UMA SEMANA

O acesso a este cadastro havia sido bloqueado pelo vírus que atacou no fim da tarde de sexta-feira, 31 de julho
O programa do meu JORNAL ELETRÔNICO POR CORRESPONDÊNCIA foi atacado por um vírus às 16h50 do dia 31 de julho de 2009. Em consequência, fiquei impedido de enviar minhas colunas a 4859 destinatários até hoje, ao meio dia, quando o provedor concluiu o “restore” de todos os arquivos, pastas e banco de dados do “palanque livre”.
Tenho uma suspeita sobre a origem desse ataque, mas vou preferir ficar observando. O vírus não se alojou no meu computador, mas no próprio provedor, eliminando as páginas de acesso aos cadastros de endereços e de matérias do JORNAL ELETRÔNICO POR CORRESPONDÊNCIA.
Por pouco, não perdi toda essa memória. O ataque se deu no final da tarde de uma sexta-feira e o suporte da Locaweb só faz restauração de arquivos nos horários comerciais de segunda a sexta-feira.
Além disso, para me certificar da origem do problema, tive que contatar o profissional que fez o programa, há 5 anos, na empresa em que trabalha, de segunda a sexta-feira.
Acontece que a Locaweb só guarda os dados por 7 dias. Demorasse mais, nesta quinta-feira, já não teria mais como recuperar os dados acumulados. Curiosamente, o vírus só afetou o programa específico, onde faço o JORNAL ELETRÔNICO POR CORRESPONDÊNCIA. Site e blogs foram poupados.
As mensagens enviadas diretamente para os meus endereços Porfírio@palanquelivre.com e coluna@pedroporfirio.com tiveram seus cursos normais. Foram recebidas e respondidas.
Pedi a alguns parceiros que costumam repassar matérias que informassem do bloqueio. Quero desde já agradecer aos que me ajudaram na divulgação do ataque.
Isso aconteceu depois que fiz uma consulta sobre a sugestão de vários amigos em relação à possibilidade de me candidatar a deputado federal. O número de respostas positivas me surpreendeu: em dois dias, já chegava a duzentos. Nunca qualquer outra consulta havia registrado número tão expressivo.
Mas significativo ainda foi o teor das respostas. Registrei um elevado índice de esclarecimento político dos leitores e amigos. Embora muitos temas fossem sugeridos, a necessidade de um combate frontal à corrupção e aos desvios de conduta, como sempre faço nesta coluna e sempre fiz no exercício de cargos públicos, aparece de longe como a maior preocupação de todos.
Sobre essas respostas, que ainda estão chegando, farei uma análise específica, até porque elas pesarão na minha decisão em relação a 2010.
Espero continuar merecendo a sua atenção e agradeço pelo carinho e a atenção de todos.
Pedro Porfírio

terça-feira, 4 de agosto de 2009

VÍRUS BLOQUEIA MEU JORNAL ELETRÔNICO DESDE O DIA 1 DE AGOSTO

Estou sem condições de mandar matéria para cerca de 5 mil destinatários e ainda posso perder todo o cadastro.
O bloqueio ao PAINEL que dá acesso ao meu cadastro é feito por um vírus que é detectado pelo meu antivirus, mas não pode ser removido, porque ele se encontra no provedor. Cada vez que tento abrir o programa, aparece essa tela, impedindo que dê o próximo passo, já que o menu com as opções de acesso não aparece.


Comunico que o cadastro do meu JORNAL ELETRÔNICO POR CORRESPONDÊNCIA foi atacado por um vírus às 16h50 do dia 31 de julho de 2009. Em consequência, até o presente momento, manhã do dia 4, meu acesso ao sistema de postagem pelo programa está bloqueado.
Já entrei em conato com o profissional que criou o programa e com a LOCAWEB, que hospeda meu banco de dados. Até agora, nenhuma solução.
Esse bloqueio não me impede de receber ou enviar e-mails fora do programa. Mas só nele tenho os cerca de 5 mil endereços que recebem minhas colunas.
A solução apontada pelo técnico está no backup do banco de dados, com data anterior ao ataque. Fiz a solicitação à LOCAWEB, que só aceita comunicação através de um “helpdesk”. Pelo telefone, não atende a esse tipo de pedido. Ela guarda os dados de um cliente por 7 dias. Se até quinta-feira não fizer o “restore”, terei perdido todo o trabalho de mais de cinco anos.
Em consequência, esta madrugada, enviei um desesperado recado à LOCAWEB, cujo teor transcrevo abaixo.
Isso aconteceu depois de ter recebido um volume surpreendente de resposta à minha consulta sobre se devia ou não ser candidato a deputado federal. Essas respostas representaram mais do triplo de qualquer outra consulta já feita.
Ainda não sei o que fazer se o cadastro hospedado na LOCAWEB não foi restaurado. Mas, desde já, peço que informe esse bloqueio às pessoas de sua lista.
Veja o que escrevi à LOCAWEB às 5h18m neste dia 4 de agosto:
Acrescentando: sou apenas um jornalista que hospedo meus sites e banco de dados (cadastro) há 6 anos na LOCAWEB, pagando rigorosamente em dia, sem um único atraso. É complicado ter restrito meu contato a esse suporte a esse sistema de recados, em que não posso ser orientado pessoalmente por um profissional da LOCAWEB. Minha atividade de transmitir a minha coluna está paralisada desde o dia 1.8.09 porque um vírus aparece quando tento abrir a página do banco de dados - http://www.palanquelivre.com/cpanel/default.asp - Creio que o backup deve ser feito a partir desse endereço.
O virus aparece com a seguinte informação C:\users\Pedro Porfirio\AppData\Local\Microsoft\Windows\Temporarary Internet Files\Low\Content.IE5\6DCI9GBI\default[3]htm.
Consultei o profissional que fez o programa e hospedou na LOCAWEB e ele disse que o backup deve ser feito para todo o palanquelivre.com Não entendi essa "tabela" de cobrança. Há 6 anos (ou mais) nunca recorri a esse serviço, o qual teria direito, pelo exposto, uma vez por mês. Agora, enquanto nós vemos passar o tempo, a LOCAWEB me surpreende com essas informações e posterga a solução. Pelo que fiquei sabendo, os dados são guardados por 7 dias. Se hoje não houver uma providência de parte da LOCAWEB, estarei iniciando a contagem regressiva para a perda de um cadastro de quase CINCO MIL ENDEREÇOS, além das matérias guardadas. Isso representa a DESTRIUIÇÃO DE SEIS ANOS DE TRABALHO. ISSO ME CAUSARÁ DANOS IRREPARÁVEIS. Nesse caso, quem será responsabilizado? Se as informações acima não forem suficientes, creio que só pelo contato telefônico poderei entender melhor o que devo informar. Neste instante, são cinco horas da manhã. Porque não consigo dormir enquanto o problema persiste. Esclareço que tenho 66 ANOS DE IDADE. A produção e envio das minhas colunas é a única atividade jornalística a que me dedico. O que me acontecer, em termos de saúde (tenho problemas de pressão alta e outros típicos da idade) será por conta desse CAMINHO BUROCRÁTICO DISTANCIADOR estabelecido pela LOCAWEB. Repito: a demora no atendimento poderá me causar sérios danos. Caso isso aconteça, não me limitarei a dispensar a hospedagem da LOCAWEB. Portanto, PRECISAMOS ESCLARECER ISSO HOJE, de qualquer maneira. Preciso ter de volta os dados do meu cadastro, que estão no endereço http://www.palanquelivre.com/cpanel/default.asp
Sem mais:
PEDRO PORFÍRIO


segunda-feira, 27 de julho de 2009

A submissão da UNE à castração do pensamento crítico (II)

Lula transformou o Prouni no caminho sorrateiro de privatização do ensino superior. Só a UNE não viu.

“O Programa Universidade para Todos deve operar, à semelhança do PROER para o sistema bancário, em benefício da recuperação financeira das instituições particulares endividadas e com alto grau de desistência e de inadimplência”.
Cristina Helena Almeida de Carvalho, Universidade de Campinas


“Como uma operação de salvamento para o setor privado, apesar de mascarado por um discurso demagógico de “democratizar” o acesso ao ensino superior, o governo Lula implementou o ProUni”.
Sergio Campos de Almeida, Universidade Federal Fluminense.

Grande parte das instituições que participam do ProUni não poderia estar funcionando, caso houvesse controle social sobre as privadas. Ademais, o ProUni permite que, para os pobres, as instituições privadas forneçam cursos seqüenciais de curta duração, conferindo, absurdamente, diplomas. Em terceiro lugar, o ProUni foi transformado na principal estratégia do governo para a educação superior e, por isso, legitima o sucateamento planejado e sistemático das universidades públicas, visto que a renúncia fiscal do programa tem como contrapartida o congelamento das verbas das federais”.
Roberto Leher, Universidade Federal do Rio de Janeiro

Para ser justo é preciso reconhecer que o atrelamento da UNE, UBES e de algumas entidades estudantis ao governo Lula afigurou-se como questão se sobrevivência e deve ser visto num contexto de açodada mediocridade intelectual e desinformação generaliza que acometem a sociedade brasileira como um todo.
A UNE de hoje é antes de tudo um poço de equívocos. Pode até ser que uma meia dúzia de maladrinhos faça da profissionalização do exercício de liderar o atalho mais cômodo para inserir-se num universo em que as possibilidades de trabalho digno são cada vez menores.
Visão da saúde ao gosto da Fundação Ford
Mas a garotada de hoje está sendo deliberadamente circunscrita à cultura dos clichês e à manipulação dolosa de suas expectativas e seus anseios. Quando os dirigentes da UNE acreditam que prestar serviço à saúde é tão somente formar caravanas pelo país para difundir o sexo seguro e defender o direito ao aborto, percebe-se com são presas fáceis de práticas diversionistas, ao gosto do Banco Mundial, da Fundação Ford e de um sistema que fracassa continuamente no enfrentamento do grande caos que tem sido a alegria da medicina privada.
Caravanas dessa natureza nos fazem ter saudade do Projeto Rondon, incrementado no regime militar, que levou estudantes ao contato produtivo com as realidades sociais dos grotões, exercendo um pouco do seu conhecimento aprendido nas universidades urbanas.
Lamentavelmente, não ocorre a esses jovens tão fixados na prática do sexo seguro a difusão da melhor receita para a tragédia sanitária - as práticas preventivas sobre todas as ameaças, configuradas na distribuição pelo país do MÉDICO DA FAMÍLIA, programa vitorioso em Cuba e em outros países (veja o exemplo de Niterói) que assimilaram o óbvio: é no relacionamento cotidiano com as pessoas saudáveis que os profissionais da área podem evitar formação de exércitos de enfermos e a sobrecarga dos equipamentos públicos de socorro.


Vocação para o haraquiri
Cito esse caso como um exemplo da manipulação dos jovens. Mas, ressalvando que não são os únicos prisioneiros dessa imensa cortina de fumaça que se abate sobre o país pelo culto da ignorância, lamento que o atrofiamento mental da juventude venha assumindo as feições de um verdadeiro haraquiri.
É o caso do envolvimento com o programa de salvação das empresas particulares de ensino pela matemática da renúncia fiscal e o direcionamento de milhares de jovens para a ocupação de 49% de suas vagas não preenchidas.
É no acumpliciamento com esse projeto de destinação dos recursos públicos para faculdades de baixa credibilidade que a UNE oferece sua graciosa ajuda à estratégia de privatização do ensino universitário, tarefa a que o governo Lula se propôs na estrita observância do relatório assinado por dois figurões do Ministério da Fazenda no governo Fernando Henrique, Marcos Lisboa e Joaquim Vieira Ferreira Levy, este sacado por Sérgio Cabral de uma vice-presidência do BID para assumir Secretaria da Fazenda do Estado do Rio.
Essa origem “tucana” do Prouni foi demonstrada com toda clareza pelo professor Roberto Leher, doutor em Educação pela Universidade de São Paulo e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em entrevista a Maria Cristina Siqueira, publicada em 11 de janeiro de 2007 pelo jornal FOLHA DIRIGIDA. Esses dois sábios, aliás, foram mantidos pelo governo Lula dentro de seu compromisso de seguir as pegadas de FHC, de inspiração nos acordos com o FMI, na área econômica.
“O Programa Universidade para Todos - Prouni — teve origem no conhecido documento Análise dos Gastos Sociais, de 2001-2002, do Ministério da Fazenda, escrito por Marcos Lisboa e Joaquim Levy, então dirigentes desse ministério e (posteriormente) principais operadores da política econômica atribuída a Palocci. No documento, os dirigentes ponderavam que as universidades públicas são muito onerosas e elitistas e que, por isso, melhor seria alocar os recursos públicos para adquirir vagas no mercado, visto que as privadas, na avaliação do citado documento, são notoriamente mais eficientes do que as públicas. Mais tarde, ficou evidente que essa modalidade de parceria público-privada seria encaminhada pelo Prouni”.
Após a publicação da Medida Provisória, editada às pressas e sem discussão no Congresso, para atender ao lobby das faculdades privadas, a comunidade acadêmica produziu farto material demonstrando todo o mal que esse programa faria a curto, médio e longo prazo ao nosso ensino. A UNE, no entanto, preferiu eximir-se do debate.
Bolsa-Família universitário
No caso das bolsas nas escolas privadas, praticamente imunes aos controles impostos na esfera pública, guardadas as proporções e as especificidades, há uma certa semelhança ideológica com o já famoso “Bolsa-Família”.
Porque ambos têm caráter compensatório e imobilizam segmentos sociais. Entre os jovens bolsistas, persiste a insegurança em relação à qualidade do ensino ministrado e sua habilitação para o exercício da profissão escolhida, embora em sua grande maioria os cursos abertos pelo programa não se incluam entre os de maior rigor escolar.
Em defesa da postura da entidade, Tiago Ventura e Joanna Paroli, dirigentes eleitos no Congresso de Brasília, assinam artigo na revista CARTA CAPITAL, no qual lembram que no evento anterior os estudantes expressaram discordâncias com o governo Lula.
“Neste encontro, a entidade levou, em parceria com a Coordenação dos Movimentos Sociais, mais de 8 mil estudantes às ruas exigindo o "Fora Meirelles", demarcando a sua posição de discordância com a política econômica do Governo Federal e a sua autonomia política, que é constantemente reafirmada na política de boicote ao ENADE, nas críticas à política de comunicação e nas exigências de se avançar cada vez mais nos investimentos e democratização da Universidade brasileira, derrubando, por exemplo, os vetos dados pelo Governo FHC ao Plano Nacional de Educação e a manutenção da Desvinculação da Receita da União na área da educação”.
Que eu saiba, Meireles está mais dentro, mais prestigiado do que nunca e a UNE calou. Da mesma forma, nada da pauta enunciada foi objeto de mudança pelo governo. E não se falou mais nisso.
Pior: com a chantagem de uma falsa dicotomia eleitoral e de um pragmatismo velhaco, os estudantes perderam uma boa oportunidade de pintar os rostos outra vez, tamanha a corrupção personificada por Sarney (o protegido do homem) como uma peste mortífera, cujos efeitos se espalham por todo o tecido social e comprometem a própria razão de ser do regime democrático.


Esse silêncio canhestro encomendado por seus tutores fala mais alto do que os 72 anos de lutas de uma entidade que ostensivamente tirou seu time de campo numa hora em que o país inteiro não esconde sua perplexidade e sua revolta. E mais precisa do grito de indignação dos jovens.



sexta-feira, 24 de julho de 2009

A submissão da UNE à castração do pensamento crítico (I)


Ao pintar na grande mídia, em 1978, ainda sem a barba programada, Lula queria ver os estudantes pelas costas.

“Privatizaram o conhecimento que só à humanidade pertence”
Bertold Brecht, teatrólogo e pensador alemão (1898 -1956)

“Os estudantes são os patrões de amanhã. Pega, por exemplo, a greve da Scania. Os estudantes da FEI não fizeram greve, estão trabalhando lá como estagiários da FEI. Os únicos estudantes honestos que eu vi foram os estudantes da Fundação Getúlio Vargas”.
“Quando os estudantes resolveram fazer um ato público para angariar esmolas para a classe trabalhadora, eu fiz uma nota oficial – vão dar esmola para a mãe deles”.
Lula, em entrevista a Ruy Mesquita, herdeiro do “Estadão”, em julho de 1978, o que levou o “barão da imprensa paulista” a considerá-lo um líder proletário autêntico, “incontaminado política ou ideologicamente”.

“Ou os estudantes se identificam com o destino do seu povo, com ele sofrendo a mesma luta, ou se dissociam do seu povo, e nesse caso, serão aliados daqueles que exploram o povo”
Florestan Fernandes, sociólogo e ex-deputado federal pelo PT-SP (1920-1995)

“O governo Lula é outra razão da alienação. Os jovens se sentem obrigados a apoiar o governo atual, porque têm origem de esquerda, e porque acreditam que ele age no limite do possível. Ao limitar-se ao que é possível, a juventude envelhece”.
Senador Cristóvam Buarque, artigo publicado em 16 de agosto de 2008.

“Entendemos que esta entidade não é mais representativa das lutas estudantis e muito menos um instrumento para tais, considerando que se opõe às lutas das próprias entidades gerais (como o DCE UFU), filiadas à ela, ainda hoje, por questões históricas.”
DCE da Universidade Federal de Uberlândia, junho de 2008

“Devido ao fato de estar vinculada a um partido da base aliada do Governo Federal, a UNE assumiu uma posição extremamente governista, quando defendeu o Prouni, deixando de lado algumas de suas bandeiras históricas, tal como a luta pela Universidade Pública, Laica, Gratuita e de Qualidade para todos”.
Ivandick Rodrigues dos Santos Jr, acadêmico de Direito da Universidade Mackenzie

“Vivemos um momento de alienação, não só dos universitários, mas da juventude como um todo: o sistema “massifica” a juventude, tratando a todos como uma coisa só que ainda é muito imatura para tomar decisões e opinar acerca dos caminhos do país”.
Fernanda Senna, Universidade Federal de São Paulo.

Quando começou a pintar na grande mídia como “o cara” que nada tinha com as lutas do passado e era “apenas um torneiro mecânico” sedutor, Lula tinha pavor dos estudantes.
Demonstrou isso em algumas entrevistas. Mas não ficou só no discurso. Numa das greves badaladas, determinou que sua tropa de choque tomasse os jornais que os estudantes do MR-8 e do PC do B distribuíam e pôs o grupo para correr, insuflando os trabalhadores contra os garotos que queriam “politizar o movimento”.
De mala e cuia no Congresso da UNE
Mas o mundo dá muitas voltas. Nesses dias empanados de uma Brasília de cabeça para baixo, Lula entrou para a história como o primeiro presidente da República a comparecer a um Congresso da UNE, isso no sexto ano de governo e levando a tiracolo a presidenciável que saiu do bolso do seu colete.
Quem mudou? Lula? Os estudantes? Ou mudaram os tempos? Por que só agora, quando joga todas as suas fichas numa candidata inventada por ele? Antes outra pergunta:
Congresso da UNE? Menos. Cartorialmente, sim. Mas, de fato, um encontro encorpado pelos bolsistas do PROUNI, um programa que socorreu as escolas privadas, ocupando seus espaços ociosos mediante a renúncia dos tributos devidos, segundo a mesma aritmética que terceiriza a assistência médica do SUS, em que não falta a manipulação dos números para escamotear a injeção maciça R$ 3 bilhões de recursos públicos no ensino mercantil.
Entidade comprometida até a medula
O evento universitário chocou os que imaginam as entidades estudantis como vanguardas incorruptíveis do pólo acelerador da história. Por sua natureza, espera-se que o envolvimento de jovens na vida política se dê pela via da contestação às práticas inescrupulosas e até ao próprio sistema.
No entanto, a União Nacional dos Estudantes, que nasceu no combate ao nazi-facismo quando o governo do Estado Novo tinha entre seus próceres influentes simpatizantes, renegou sua história para se transformar num deprimente cabide de interesses, sucumbindo aos encantos do poder, no mesmo ritual dos sindicatos e das organizações não governamentais de alto teor arrivista.
Ironicamente, o abandono das bandeiras pelo ensino público de qualidade, com a garantia de acesso a todos, e da defesa da soberania nacional, o questionamento do modelo econômico, acontece pela ostensiva transformação da entidade em “aparelho estudantil” do Partido Comunista do Brasil, uma verdadeira fraude ideológica, que tenta submeter e cooptar a juventude pelas ofertas de programas e sinecuras no Ministério dos Esportes, com o qual foi aquinhoado desde a ascensão de Lula.
Com muita sede ao pote
Erram os que imaginam que essa rendição decorra tão somente das patacas oferecidas pelo governo e pelas estatais. Nos tempos idos, antes de 1964, o governo federal destinava subvenções a UNE, UBES e entidades estaduais. Até 1963, antes da implantação do Programa Nacional de Alfabetização - PNA – que mobilizou dezenas de jovens do Partido Comunista Brasileiro – o “partidão” - numa tarefa de grande alcance social, as lideranças se protegiam na explicitação de suas próprias propostas de luta pela democratização do ensino, no apoio aos movimentos pelas reformas de base e a denúncia da desnacionalização da economia.
Até 1964, quando o número de universitários não chegava a 130 mil, e o de secundaristas beirava o milhão e 400 mil, 80% das escolas superiores eram públicas, número inversamente proporcional ao que acontece hoje. O Colégio Pedro II, o Instituto de Educação, o Colégio Militar e os ginásios estaduais ofereciam o melhor ensino, travando-se já nos primeiros graus a corrida pelo privilégio de frequentar um estabelecimento público de qualidade.
Ao longo desses 43 anos, a educação foi-se afastando de seus fundamentos essenciais, num processo que culminou com a castração intelectual dos jovens. A maioria silenciosa fixa-se na caça ao canudo, embora ainda sejam dramáticas as estatísticas de evasão escolar em todos os níveis do ensino.
A privatização do pensamento crítico
A mudança do perfil universitário, com o crescimento voraz das escolas e das vagas nos estabelecimentos privados alimentou o processo de desfiguração do ensino superior, irradiando-se na consolidação da ESCOLA MEDÍOCRE, afogando nas perdidas ilusões quase dois milhões de universitários, 79% dos quais pagando para habilitar-se ao mercado de trabalho.
A UNE de hoje não é mais o espaço da formação de líderes como antes porque sua base social foi igualmente privatizada, com o seu inevitável empobrecimento intelectual.
Não se fala mais na educação como um todo, que contemple as camadas de base, desde as primeiras letras. Ao contrário, o sistema circunscreveu os universitários à patética “filosofia” da “farinha pouca, meu pirão primeiro”, oferecendo soluções cosméticas e inúteis, como as políticas de cotas destinadas tão somente a compensar o sucateamento do ensino público de segundo grau.
O dedo nas feridas
Quando ocupou o Ministério da Educação, do qual foi demitido pelo presidente assumidamente ignorante com os requintes da torpeza, do desrespeito e da humilhação, o senador Cristóvam Buarque ficou falando sozinho numa das mais corajosas propostas educacionais - o resgate do ensino de primeiro e segundo grau.
Mas não ficou aí. É dele a mais inteligente reflexão sobre os descaminhos percorridos pela minoria talhada para o aparelhamento da UNE e da UBES, transformadas em monopólios da garantia dos benefícios da carteira de estudante.
Em artigo publicado no jornal O GLOBO, em 16 de agosto de 2008, ao proclamar que “nunca foi tão necessária uma juventude revolucionária”, o ex-ministro, ex-governador e ex-reitor da Universidade de Brasília lembrou que “antes, a revolução defendida pela juventude universitária era a favor da nação, do povo, mas também dos jovens”.
"Com o apartheid social que caracteriza o Brasil de hoje, a classe média sabe que seu padrão de vida e de consumo sairá perdendo se houver distribuição de renda para os pobres. Os jovens universitários percebem que não há espaço para todos".
"Para eles - escreveu Cristovam Buarque - os únicos empecilhos para chegarem ao paraíso são a Aids e as mensalidades da universidade particular. A revolução está no Prouni e no sexo seguro”.
Do seu antológico artigo (que pode ser lido na íntegra clicando aqui), extraí verdadeiras lições:
“A UNE vai fazer uma caravana nacional para debater educação, saúde e divulgar práticas de sexo seguro. Isso pode significar que o movimento universitário esteja saindo da paralisia e do corporativismo para encontrar uma nova causa. Mas, ao mesmo tempo, passa a idéia de que os universitários continuam desligados da necessidade de o Brasil fazer uma revolução na sua sociedade”.
“Mais importante do que esse saudosismo arrogante é entender por que a juventude universitária ficou conservadora, enquanto a realidade social de hoje é ainda mais perversa do que era antigamente: a corrupção domina, a violência controla as ruas, a desigualdade se transformou em apartação, a educação básica é uma calamidade vergonhosa, o planeta se aquece’.
“Alguns põem a culpa nos 21 anos da ditadura, esquecendo-se de que já temos 23 anos de democracia. A culpa é mais da democracia do que da ditadura, porque, naquele tempo, havia uma forte militância juvenil pela liberdade. A democracia calou os intelectuais e alienou a juventude”.
“A juventude universitária não defende a necessária revolução na educação de base. Intui que, se todos os pobres do Brasil tiverem educação de máxima qualidade, a juventude de classe média e seus filhos sofrerão forte concorrência. A exclusão educacional e a má educação dos que sobrevivem até o fim do ensino básico é uma forma de proteger os que têm acesso a boas escolas”.
Voltarei ao assunto.
coluna@pedroporfirio.com


A privatização do ensino e suas consequências nefaastas












terça-feira, 21 de julho de 2009

Honduras de Zelaya, o conflito com os espoliadores da América Central


“Quando os militares de Honduras derrubaram o governo eleito de Manuel Zelaya, ouviu-se um suspiro de alívio nas salas da Chiquita Inc., grande corporação da plantação e distribuição de frutas. No início de 2009, a empresa, que tem sede em Cincinnati, fez eco às críticas contra o governo em Tegucigalpa, que aumentara o salário mínimo nacional em 60%. A Chiquita reclamou que as novas leis afetariam seus lucros; que a empresa passaria a gastar em Honduras mais do que na Costa Rica: 20 cents a mais para produzir um engradado de abacaxis e 10 cents a mais, para ser exato, para produzir um engradado de bananas. No total a Chiquita alegou que perderia milhões de dólares por efeito das reformas trabalhistas de Zelaya, dado que a corporação produzia cerca de 8 milhões de engradados de abacaxi e 22 milhões de engradados de bananas por ano”.
Nikolas Kozloff, autor de Revolution! South America and the Rise of the New Left

Como, por assim dizer, Honduras está em chamas, retomo o contato com o primeiro grande desafio do governo Obama, dando continuidade ao comentário de 6 de julho, munido de novas informações e convencido do dever de oferecer meu depoimento como contribuição à formação de opinião em nosso país.
Desafio porque está difícil acreditar que “el negrito”, como o presidente dos EUA está sendo chamado pelos golpistas, tenha entrado de gaiato no navio. Desafio porque Honduras sempre foi o pivô das piores políticas de intervenção dos Estados Unidos na América Central.
A batalha que se trava hoje nesse país de menos de 8 milhões de habitantes, espoliada pela multinacional Chiquita Brands International Inc (ex-United Fruit e maior distribuidora de frutas dos EUA), é a senha para a retomada dos seus vizinhos, que somam mais de 40 milhões, hoje percorrendo um caminho alternativo, completado com a vitória do candidato da Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional, em El Salvador.
E mais do que reagir à ruptura da ordem constitucional, eventualmente fora de moda, cabe-nos um posicionamento claro em relação ao poderio das empresas estrangeiras, habituadas a virar a mesa em nosso continente quando seus interesses são contrariados.
Como nos velhos tempos

Acrescente-se a isso a compreensão de que, como centro de dominação, a potência do norte, mesmo em queda livre, jamais renunciou aos seus dotes imperialistas. Tanto que essa quartelada contra o presidente Zelaya teve a mão grande do embaixador Hugo Llorens, do esquema do cubano-norte-americano Otto Reich, poderoso no governo Bush e sócio de concessionária de telefonia em Honduras.
Quando Hillary Rodham Clinton assumiu a Secretaria de Estado ficou sabendo que Bush enviou Llorens para Tegucigalpa em setembro passado com segundas intenções. Soube que, já na primeira semana como embaixador, manteve reunião com o general Romeo Vasquez, amigão dos traficantes de armas Thomas Posey e Dana Parkes, introduzidos em Honduras pelo sinistro John Negroponte, o inglês-norte-americano, que completa 70 anos hoje, como peça-chave da rede sionista (da qual Otto Reich é “valete de ouro”).
Para comprometer mais ainda estabelecimento yankee, já se sabe que o general Vasquez e seu colega Luis Javier Prince Suazo, chefe da Força Aérea, ambos com cursos “especializados” na Escola das Américas, tiveram apoio logístico da base militar norte-americana de El Aguacete, implantada pelo então embaixador Negroponte em 1981 como escola de guerra e tortura em Soto Cano (Palmerola), a 97 km de Tegucigalpa. Contígua à base, um conjunto de 44 prédios, funciona a Academia da Força Aérea de Honduras.
Washington na fita

Washington admitiu recentemente que teve conhecimento prévio do plano golpista em detalhes, pelo menos dez dias antes. Na segunda feira, 29, porta-vozes do Departamento de Estado, em declarações à imprensa, comentaram que seu embaixador e uma equipe de diplomatas norte-americanos “estavam em conversações” com os principais atores do golpe há mais de um mês. Essas conversações intensificaram-se durante a semana aprazada, quando o embaixador norte-americano em Tegucigalpa, Hugo Llorens, se reuniu três vezes com os militares golpistas e os grupos de empresários da COHEP – Confederação Hondurenha de Empresários, inclusive os executivos da Chiquita Brands International Inc e da Covington & Burling, lobista atuante, que pôs recentemente John Negroponte como seu vice-presidente e da qual foi sócio Eric Holder, atual Procurador Geral dos EUA, co-coordenador geral da campanha de Obama.
Ofereço essas informações para você entender a abrangência do projeto golpista e entender porque não restou outra alternativa ao presidente Manoel Zelaya, apenas um liberal rico, mas com grande sensibilidade social e corajoso patriotismo, senão assumir a liderança da insurreição popular que ganha as ruas de Honduras na repulsa ao golpe militar.
Quando pediu ao presidente Oscar Arias para tentar uma “solução negociada” a sra. Clinton cumpriu o seu papel no script golpista. Na última semana, sob o comando do “paramilitar” Billy Joya Amendola (também conhecido como Dr. Arranzola), ministro conselheiro do impostor Micheletti, grupos de mascarados executavam próceres legalistas, entre os quais Roger Iván González, líder do Partido União Democrática Unionista, morto dia 11 em sua casa de San Pedro Sula, e seu correligionário Ramon Garcia, assassinado no dia seguinte.
Dentro do plano golpista, chancelado pelo embaixador Llorens, projeta-se um conflito na América Central, começando por um choque com a Nicarágua, ainda afetada pela guerra civil dos anos 80. Honduras é o país com maior arsenal bélico da região e uma tropa comandada pelos remanescentes do tenebroso Batalhão 316, treinado pela CIA e por especialistas da ditadura argentina, com a tarefa de exterminar elementos hostis em Honduras, El Salvador e Nicarágua.
Batalhão 316, a matriz do golpe
Para saber mais sobre a matriz da cúpula militar de Honduras, leia o que colhi a seu respeito:
A CIA foi uma peça-chave para o treinamento e equipamento do Batalhão 316. Seus membros eram aero-transportados a um lugar secreto dos Estados Unidos para receber treinamento em técnicas de vigilância e interrogatório, e depois a CIA continuava treinando-os em bases hondurenhas.
Desde 1981, os Estados Unidos cederam fundos clandestinamente a especialistas argentinos em contra-insurgência para que esses treinassem as forças militares em Honduras. Nessa época, a Argentina era famosa por sua própria “guerra suja”, que custou pelo menos 10.000 mortos ou “desaparecidos” nos anos 70. Instrutores argentinos e da CIA trabalharam ombro a ombro no treinamento dos membros do Batalhão 316 em um acampamento em Lepaterique, um povoado a umas 16 milhar ao oeste de Tegucigalpa.
O General Gustavo Álvarez Martínez, quem em sua qualidade de Chefe das forças armadas hondurenhas dirigia pessoalmente o Batalhão 316, recebeu um forte apoio dos Estados Unidos, inclusive após haver dito a um Embaixador estadunidense que pretendia usar o método argentino de eliminação de subversivos.
Em 1983, quando os métodos repressivos de Álvarez eram bem conhecidos pela Embaixada dos Estados Unidos, a Administração Reagan lhe condecorou com a Legião do Mérito por “promover o êxito do processo democrático em Honduras”. Sua amizade com Donald Winters, chefe da estação da CIA em Honduras, era tão estreita que quando Winters adotou uma criança pediu a Álvarez que fosse o padrinho.
Um oficial da CIA radicado na Embaixada dos Estados Unidos ia com freqüência a uma prisão secreta conhecida como INDUMIL, onde se torturava, e ali visitava a cela de Inés Murilllo, vítima de abdução. Essa prisão e outras instalações do Batalhão 316, estavam fora do alcance dos funcionários hondurenhos, incluindo os juízes que tentavam saber o paradeiro das vítimas de seqüestro.
É desconhecido o número exato de pessoas executadas pelo Batalhão 316. Ao longo dos anos foram encontrando corpos não identificados nem reclamados, enterrados em zonas rurais, ao longo de rios e nos bosques.
Posteriormente, em 1993, o Governo de Honduras publicou uma lista de 184 pessoas desaparecidas e presumidamente mortas. O descobrimento de um corpo identificável permitiu aos promotores tentar colocar corpos de outras vítimas à disposição da justiça.
Zelaya em Honduras para a luta
O site Pátria Latina informou que o presidente Zelaya já se encontra em território hondurenho. Em matéria assinada por Laerte Braga, garante que a insurreição constitucionalista já começou:
“Neste momento o presidente entrou em Honduras e vai permanecer.A greve geral está afetando diversos setores da economia do país. São visíveis os sinais de descontrole dos golpistas. A repressão aumenta, mas já não há unanimidade entre os militares que depuseram o presidente há quase vinte dias.
Uma grande marcha com voluntários de diversos países principalmente da América Latina começa a dirigir-se a Tegucigalpa. Muitos norte-americanos de organizações pela democracia e direitos humanos estão se associando a marcha. Outros chegam de países da Comunidade Européia.
O presidente não pretende mais retirar-se do território de Honduras. Sua mulher e sua filha lideram mobilizações em vários pontos principalmente na capital. As manifestações em toda Honduras estão provocando ondas de grande emoção no país”.
Governo brasileiro com presidente legal
Neste dia 20, O GLOBO publicou matéria assinada por Eliane Oliveira, na qual garante que a diplomacia brasileira está assumindo uma posição firme, causando o primeiro aranhão nas boas relações entre Brasil e Estados Unidos, desde a posse de Barack Obama, no início deste ano. Os dois países divergem sobre a forma como as negociações envolvendo Honduras estão sendo conduzidas pelo presidente da Costa Rica, Oscar Arias. Enquanto os EUA aplaudem a busca de um governo de coalizão entre o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, e os autores do golpe de Estado que colocaram no poder o presidente do Congresso Hhndurenho, Roberto Micheletti, o Brasil defende que nenhum acordo seja feito sem que Zelaya possa voltar ao país e reassumir o cargo.
A ser verdadeira essa notícia, observa-se uma mudança na política externa do governo Lula, que procurou seguir a estratégia inspirada desde Afonso Arinos (no governo Jânio Quadros) com o cuidado de não contrariar Washington. Dessa vez, teríamos um Brasil mais próximo dos seus irmãos latino-americanos, em ostensiva divergência com os Estados Unidos.
Espero voltar ao assunto com mais informações e opiniões.
coluna@pedroporfirio.com

domingo, 19 de julho de 2009

Antes que eu me esqueça: aos petistas decentes, com carinho


"Lula deixa uma grande frustração no que se pensava ser uma de suas maiores habilidades: a política partidária. Lula nada fez para evitar a desconstrução e a perda da autoridade moral do Congresso. Os partidos estão mais fracos e deteriorados do que antes da sua posse. E é papel do chefe de Estado fazer com que as instituições como o Parlamento sejam vigorosas".
Senador Tião Viana (PT Acre)
Antes de escrever qualquer outra matéria, gostaria de esclarecer alguns pontos suscitados a partir de comentários de alguns destinatários das minhas colunas. Falo especificamente de três petistas (ou simpatizantes) que criticaram minhas opiniões, escrevendo:
"Cara, você não cansa né?Gostaria de ver você atacando gente do naipe de Paulinho da Força e Geraldo Vinholi, será que estes não são caciques do seu querido PDT, partido que em São Paulo não passa de uma legenda de aluguel".Daniel Souza
"Durante dois anos, diariamente, vcs tentaram acabar com o PT e com o governo do presidente Lula, nada conseguiram. Vocês querem ocupar politicamente o lugar do PT, mas deveriam trabalhar para serem mais um partido de esquerda no Brasil e não têm capacidade para fazê-lo, por isso, se preocupam tanto com o PT. Os inimigos da classe trabalhadora não é o PT e sim o PSDB, DEM, os ruralistas, pecuaristas, latifundiários, banqueiros, etc. Sugestão: enquanto vcs. não se organizam, nem vão para o poder, que tal se preocuparem em bater, politicamente, nos representantes da burguesia"?
Eloísa Helena
"Por mim esta CPI não sai. Frase histórica do caudilho Leonel de Moura Brizola dita no processo histórico da instalação da CPI que viria a cassar o mandato do então presidente e pai dos CIAC,s, sugeridos por Brizola e todo o seu PDT.O mais interessante é que passados quase vinte anos esta frase ainda soa na minha cabeça como uma traição num momento histórico tão importante".
Demaclubdosoul
Preferia que o PT fosse coerente
Pelo respeito que devo a todos os que me escrevem, permito-me dizer:Preferia que Lula e o PT fizessem um governo progressista, focado nas suas antigas bandeiras. Governo que encarasse com coragem a necessidade de uma reforma agrária que fixasse milhões de sem terras no campo, defendesse a soberania nacional, assumisse a educação pública a partir das primeiras letras, como propôs Cristóvam Buarque, adotasse como estratégia o programa médico da família, questionasse as privatizações-doações, preservasse e avançasse nas conquistas sociais dos trabalhadores, optasse, como meio de enfrentar a pobreza, a abertura de alternativas de sobrevivência digna, pela existência de opções de trabalho, e desse combate exemplar à corrupção e ao tráfico de influência.
Preferia que o PT tivesse sido coerente: não pelo Lula, cuja verdadeira biografia ainda será conhecida um dia, quando seu enorme poder de mistificação e coação evaporar-se no tempo e no espaço. Mas pelos milhões de brasileiros que jogaram todas as suas esperanças no governo encabeçado por um ex-operário, ex-pau-de-arara, numa ruptura com toda uma tradição de governantes saídos das elites.
O Partido dos Trabalhadores, por seu histórico e pela votação recebida por Lula, teria condições de empreender uma mudança de grande alcance social, fortalecendo ao mesmo tempo os valores da nacionalidade, tal o potencial do Brasil, muitas vezes maior do que de outros países que registram avanços mais ostensivos.
Não pensava no papel carbono
Não podia imaginar que o governo Lula fosse exatamente igual ao do PSDB, com outro figurino e outros personagens. Desde aquele dia 12 de novembro de 2002, quando Lula foi recebido por Bush ainda como presidente eleito, começou a dar sinais de que iria trabalhar sob a tutela dos donos do mundo, opção que se tornou explícita com a manutenção da política econômica e até dos seus executores, que passaram a seguir a bússola do Sr. Henrique Meireles, ex-presidente mundial do Banco de Boston, que fora eleito deputado federal em campanha milionária no Estado de Goiás, justamente pelo PSDB.
A primeira preocupação de Lula, já presidente, foi patrocinar a segunda "reforma da Previdência" (a primeira foi de FHC), com a amputação de direitos e a minimização da aposentadoria para jogar os trabalhadores, principalmente os servidores públicos, nas malhas da previdência privada, tal como aconteceu com os planos de saúde. Com essa reforma, introduziu um patético estupro do direito: o servidor aposentado continua pagando para a Previdência, mesmo fora da ativa.
No decurso do seu governo, Lula foi se distanciando ostensivamente dos antigos discursos em função dos quais seu partido chegou ao governo da República. E foi assumindo claramente os velhos truques e os viciados expedientes dos governantes que combatia de unhas e dentes. As elites financeiras e o agronegócio nunca foram tão paparicados e protegidos.
O patrocínio do ócio remunerado
O receituário adotado como forma de socorrer os enormes bolsões de miséria repetiu as fórmulas assistencialistas mais perniciosas, que vêm desde o "Programa do Leite", ainda na época de Sarney, passando pelas "ajudas" diversificadas no governo FHC, até chegar ao "Bolsa Família", um verdadeiro crime contra seus "beneficiários", cujo escopo essencial é criar um "exército de ociosos dependentes do poder público" convertido em massa de manobra de multiuso.
O governo que tem no PT sua espinha dorsal absorveu as teorias do poder predominantes desde que a República é República. Passou a ser apenas a ponta do iceBerg de um pacto político conservador e continuísta, operando sempre na direção da adequação do país ao sistema internacional, com o sacrifício dos direitos dos trabalhadores, cujas lideranças foram subornadas pela cooptação, e dos interesses nacionais.
Dentro desse acordo, não causa espécie que os principais Estados venham sendo governados por partidos de "centro" (PSDB e PMDB), o mesmo acontecendo com as capitais mais importantes.
A preservação desse quadro já está sendo sinalizada com todas as letras, com a decisão de principalizar a candidatura de Dilma Rousseff a qualquer preço. Até mesmo na Bahia, onde o PT tem o governador, admite-se uma composição caudatária com o PMDB.
A desfiguração das práticas partidárias
O processo de escolha da sucessora de Lula afrontou a história de um partido que realizava discussões em várias instâncias antes de bater o martelo. A escolhida não é a candidata mais indicada para o PT, sob todos os aspectos, até pela total falta de experiência como candidata. E ainda poderá levar a uma acachapante derrota, no primeiro turno, em benefício do PSDB, como se ela tivesse sido imposta ao partido para facilitar o lado dos aliados históricos na social-democracia e no neoliberalismo.
Confinado, o PT jamais cogitou de discutir nomes como o senador Paulo Paim, um dos mais coerentes parlamentares da legenda, ou do senador Eduardo Suplicy, detentor de enorme bagagem e um grande crédito político: foi eleito e reeleito para o cargo em pleitos em que só havia uma vaga ao Senado, justamente no maior Estado do país.
Pelo conhecimento que tenho da história e pela própria vivência, ouso afirmar que causa mais danos ao povo brasileiro aquele que saiu de suas entranhas e pratica as piores políticas com o carisma de sua história, do que os neoliberais de carteirinhas.
Ambos servem aos mesmos propósitos coloniais, mas o partido "dos trabalhadores" e o ex-operário beneficiam-se com as vantagens da identificação com o grosso da população, dominada pela expectativa inercial emanada do presidente "igual".
O presidente Lula não se conformou em seguir as pegadas de FHC na política econômica e no assistencialismo compensatório. Decidiu bancar as práticas desonestas e nocivas no exercício do poder, aliando-se a conhecidos delinquentes, aos quais tem emprestado o suporte de sua popularidade.
O mal de acolitar corruptos
Na hora em que passa a mão nas cabeças de corruptos pilhados em flagrante, Lula fragiliza o mandato popular e desmoraliza a própria democracia, causando uma enorme frustração nos segmentos informados da sociedade e transformando maus hábitos em fatos consumados para o conjunto do povo, que é estimulado a abrir mão dos valores morais e éticos, em nome de uma governabilidade parida no escuro das piores transas.
Dentro desse contexto, que poderei voltar a dissecar, parece mais salutar e mais consequente priorizar, para efeito de combate, aqueles que acabam prestando mais serviços ao sistema internacional e às classes dominantes justamente pela imagem pretérita e pela fantasia diabólica atribuída a seus adversários.
Esse combate a violências morais tão inimagináveis como o apoio a Sarney, Renan Calheiros e Fernando Collor deveria ser travado dentro do próprio partido que tanto se jactou do apego à ética e aos bons costumes.
Fechar os olhos ou procurar justificativas grotescas para tais desvios de conduta é contribuir para um enorme desserviço ao Brasil, ao seu povo e, em particular, a todo o chamado campo progressista, hoje afogado no mesmo mar de lama em que chafurdam larápios irrecuperáveis.
Pense nisso, antes sacar de sua arma.
Vale a pena ver.
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quinta-feira, 16 de julho de 2009

A morte cerebral do autodenominado partido dos trabalhadores

Da sedução dos podres poderes à coma depressiva com a perda de identidade
"As doses de formol que estão injetando nos trabalhadores só serão visíveis quando o estado do país for irremediavelmente terminal".
Dayse Amorim Mattos, ex-Varig, comentando minha última coluna.

Aos 29 anos, o Partido dos Trabalhadores está tendo uma virtual morte cerebral. É o que informam fontes fidedignas diretamente da UTI do Hospital da Praças dos Três Podres Poderes de Brasília, Distrito Federal.
Especialistas vindos dos principais centros de avaliação do mundo ocidental e cristão divergem sobre o tempo de sobrevivência vegetativa do partido totalmente acorrentado pelo todo poderoso príncipe operário.
Os norte-americanos da Johns Hopkins University, onde Lula fez em 1973 um curso tão misterioso que não consta do seu currículo, acreditam que por sua origem em laboratório, com as bênçãos de Deus nas sacristias receosas do dia seguinte ao regime militar, as recentes alquimias poderão prolongar a existência da legenda, mesmo com o cérebro irremediavelmente putrificado.
Para eles, a transfusão do sangue recebido de José Sarney, Fernando Collor e Renan Calheiros poderá produzir um milagre: o corpo dispensará as funções do cérebro e o partido se nutrirá da química fisiológica prolongadora de alguns órgãos, especialmente do aparelho digestivo.
Como acham que tempo é dinheiro, os norte-americanos avançaram na manipulação da semântica: dinheiro é tempo, dizem convencidos de que o partido acumulou gorduras vitais no exercício físico do mensalão e de outros passos acelerados na busca da glamorosa vida mansa de invejável esplendor.
Assim também pensam os israelenses, para os quais as recentes injeções de recursos públicos no sistema financeiro e na construção civil gerarão algumas células-tronco que salvarão a vida do partido e engordarão seus dirigentes, fecundando uma espécie de clone do moribundo, ao qual caberá representar a marca registrada, que tanto sucesso fez nos primeiros anos do novo século.
Os ingleses parecem mais prudentes. Às voltas com doença semelhante no seu Partido Trabalhista, acham que só um cérebro de platina, extraída das terras aparentemente indígenas, poderá influir no metabolismo de um grêmio que se esqueceu de tudo o que viveu até os 23 anos.
Todos admitem, porém, que o PT dos barbudinhos e cabeludos não tem mais chances de vida. A única saída será contaminar os outros parceiros do agonizante "campo progressista", de forma a impedir que se revitalizem com o inevitável passamento do partido que entrou em coma ao receber ordens expressas para obedecer cegamente ao mais antigo dos proxenetas da República, dotado de poderes como a onisciência e a onipresença, sobre o qual o popularíssimo presidente baixou o sacrário do homem sobrenatural, que paira acima de qualquer questionamento moral.
Segundo as fontes fidedignas que prometemos jamais revelar, numa coisa os especialistas concordam totalmente: as causas da morte cerebral do Partido dos Trabalhadores estão na alta carga de arrivismo produzida por sua metamorfose, em função do consumo exagerado das drogas dos podres poderes.
Antigos neosindicalistas e tremendões neoesquerdistas absorveram por osmose os solventes do neoliberalismo e os ingredientes do neopatrimonialismo, cegando com os encantos e as facilidades do poder, num Estado que se apropria de 38% do produto do trabalho e os faz evaporar na feérica orgia das ONGs amigas e das empreiteiras agradecidas, enquanto livra a cara das montadoras multinacionais onde tudo começou.
No diagnóstico obtido pela ultra-sonografia, os especialistas verificaram que os petistas meteram a mão nas tetas e nas nádegas da viúva, tornando-se dependentes insaciáveis e incuráveis da sodomia política.
Aprendendo mais do que as quatro operações aritméticas, utilizaram-se da equação das porcentagens, mas embolaram os números, quando recorreram à ajuda de matemáticos como Marcos Valério e se deixaram monitorar pelo banqueiro Henrique Meireles, pós-graduado em macroeconomia da dependência.
Imobilizado pelo cavalo-de-pau do governo e com suas antigas canções desafinadas, o Partido dos Trabalhadores perdeu a própria voz, diante do cala-boca implacável que o sapo barbudo impôs, como exercício orgástico típico de quem se imagina um semideus vivo, de posse da máquina mortífera e de todos os engenhos formatadores do comportamento humano. O PT, que se ufanava de um folclórico democratismo, de uma fictícia audição das bases, já não tem mais como enganar.
Pior. Sabe que terá de vender a própria alma para garantir a vitória da ungida pelo homem, falsa turquesa, que nunca soube o que é disputar uma eleição, nem para associação de moradores, e nem nunca suou camisa nas suas bases franciscanas.
Esse constrangimento produziu um tenebroso estado de depressão e uma macabra crise de identidade. O antigo conflito interno das correntes políticas foi substituído pela melancólica disputa de bocas na máquina pública e no dinheiro dos seus ralos, agravada pela sua sujeição aos desnacionalizadores e desmatadores da Amazônia, aos latifundiários do agronegócio com sua poderosa "bancada ruralista", e às velhas raposas que transformaram a vida pública numa obscena bolsa de valores, onde a moral, a dignidade, a decência, a coerência, a ética e os compromissos históricos, sempre em baixa, vão a leilão todo santo dia.
Não surpreende, pois, que a alcatéia dos discursos inflamados contra a corrupção e a espoliação do trabalho tenha estourado os miolos do cérebro na hora em que se viu subordinada àqueles que condenavam ao cadafalso em ruidosos vitupérios.
A demência com a perda de identidade, o descrédito, a dependência de vantagens e a morte anunciada são consequências de uma tragédia existencial que qualquer leitor de orelhas dos livros de Freud vinha diagnosticando sem recorrer ao estetoscópio.
Nos estertores entre quatro paredes, a novidade foi a decisão do partido de vestir-se de uma imobilizadora camisa de força, enquanto passava a falar palavras desconexas, estranhas ao antigo vocabulário, tentando compensações na satisfação dos instintos selvagens.
Para os petistas quiméricos, tudo o que está acontecendo tem o peso do castigo de Deus. Daí os flagrantes de autoflagelação do inconsciente, enquanto o ego deita e rola sem saber onde isso vai dar.
Ter de engolir a mais explícita ilegitimidade no jogo de poder dentro do Senado, ter de participar da blindagem de Sarney e de sacramentar dois suplentes sem votos para a Presidência da CPI da Petrobrás e do Conselho de Ética foi a gota d'água.
Os bigodes do Mercadante e os fios da careca do Suplicy entrelaçaram-se no deprimente espelho do infortúnio, culminando com a morte cerebral, que os ébrios arautos da corte tentam inutilmente esconder, esquecendo que tenho boas fontes, inegavelmente fidedignas.

terça-feira, 14 de julho de 2009

A pior ditadura é a ditadura de democracia

Intimidades dos podres poderes
“Tirar Sarney significa abdicarmos da eleição da Dilma”
De um "companheiro" militante da base governista, indignado com a posição dos senadores do PT que ousaram criar embaraços ao presidente do Senado, novo herói do PT.

A pior ditadura é a ditadura da democracia. Escrevi esta frase para aprofundá-la há pouco mais de uma semana. Era madrugada e o seu silêncio me municia nas aventuras do pensamento e da busca de respostas nas profundezas do imponderável.
Escrevi em empaquei. Queria dissertar sobre a ambiguidade encontrada em todos os atos, em todas as manifestações, em todas as atitudes que movem a sociedade humana. Mas empaquei. Daí ter passado uma semana sem digitar uma única palavra.
Você não deve passar por isso porque, certamente, é um ente sadio. Eu não sou, confesso. Tenho o coração ferido pelas flechas da dúvida reveladora. A minha é uma dúvida motora. Sirvo-me dela como uma bendita vacina, uma paranóia indispensável. E não me culpo. Sei que é por aí que o mundo gira. Sei e provo.
Tenho o cérebro em chamas como um vulcão em ebulição. Pode ser um caso médico, pode sim.
Democracia é isso que está aí?
Cheguei a desconcertantes conclusões que, por si, geraram outras tantas, em desacordo e em confronto. Assim, fiz-me um homem livre. À distância você pode me idealizar de todas as formas, belas e feias.
Mas permita-me que, por algumas linhas, me tenha como referência dessa conversa de hoje. Não quero ser paradigma, mas essa montoeira de informações endoidece qualquer um.
E o que é a doideira senão a chave da história? Não foi essa percepção que fez de Erasmo de Rotterdan, autor de “O Elogio da Loucura” em pleno alvorecer do Século XVI, o “príncipe dos humanistas”?
Mergulho nessa cantata ao sabor da mais despojada imprudência. Não este é o som de um cotidiano açoitado pelos assaltos impunes que se perpetram à luz do dia aos cofres públicos e às consciências vulneráveis.
As páginas e as telas se ocupam de uma novela tragicômica que fala de um país onde a perda do pudor compensa na alça do poder. Não há mais nada que me faça acreditar na regeneração dos próceres, dos que se deixaram seduzir pela luxúria e perderam todo recato, convencendo-me – e a muitos ainda pensantes – da inutilidade de um regime que se proclama expressão da mais saudável forma de poder.
Esse é o problema. Por obra e graça do meu incorrigível distanciamento critico, começo a me perguntar se, de fato, no fundo, no fundo, não estamos todos sujeitos e expostos a uma grande fraude que o vulgo chamou de democracia.
Sim porque, paciência, detenha-se em olhares mais amiúdes, sem essa de sujeição ao disponibilizado sob encomenda, e você terá a sensação de um grande logro. Onde quer que você alveje verá no mesmo espaço a superposição dos contrários ao que aparenta.
Democracia, isso que está aí, esse embuste arrivista? Ou então a democracia não é bem o que se infere de sua etimologia. O que se contempla antes é a porca manipulação das normas e das instituições, feitas promíscuos valhacoutos onde o vale tudo a tudo submete.
A fórmula da “ditadura democrática”
Neste momento, essa democracia se presta a um exercício sofisticado da mais cínica ditadura. E uma fórmula tida como infalível pelos cérebros do sistema, devidamente remunerados pelos banqueiros da super-ong “Diálogo Interamericano”.
Através da distribuição de migalhas que saciam milhões de famílias pobres, dispensadas do suor do rosto para obter o pão de cada dia, cria-se um grande curral, algo que representa o peso maior e mais homogêneo do eleitorado. É um capital eleitoral decisivo na escolha dos governantes, na medida em que a massa que labuta tem comportamento diversificado diante das urnas.
Uma segunda camada, igualmente numerosa, é abocanhada pela adoção de políticas salariais focadas no crescimento de quem ganha menos. Desde 2003, o mínimo foi tendo reajustes superiores aos dos demais trabalhadores, como se estes fossem marajás e não precisassem recuperar o poder aquisitivo aviltado há décadas.
Nivela-se por baixo, operando o entorpecimento dos aparentemente favorecidos por reajustes que os equiparam aos que tinham remuneração pouco superior. Temos aí outro celeiro de votos.
Concentra-se uma parte dos investimentos públicos em obras de vitrine, que enchem os olhos, sobretudo, dos que não vão delas se beneficiar, mas são facilmente laçáveis pela perspectiva de um dia serem contemplados. No complexo do Alemão, estão gastando os tubos para fazer um teleférico com seis estações, de reduzido custo-benefício social.
No entanto, a sua exibição ao vivo e a cores, quando estiver pronto, produzirá o deslumbramento necessário para a engenharia dos sonhos. Os ricos e a classe média, sempre assustados com a violência, verão que o governo olhou para os pobres e deles poderá cobrar a aceitação de sua sujeição social nos estratos subalternos, com a facilitação do expurgo dos transgressores que fazem casamatas em seus morros. Mais ingrediente para a sopa de votos.
A corrupção como peça do poder
Coopta-se a inteligência e amestram-se os núcleos do pensamento crítico. Aí as picaretas mais adequadas são as organizações não governamentais que profissionalizaram a solidariedade e assumiram funções governamentais sem os rigores da contabilidade pública. Em 2003, sabia-se de 25 mil ONGs. Hoje, pela última contagem, já passavam de 350 mil, todas de olho nos favores dos entes oficiais e das restantes empresas estatais.
Com tantas ferramentas à mão, o chefe do governo pode muito bem dispensar o velho discurso basista do seu desfigurado partido e tirar do bolso do colete direto para a sua cadeira – ele já não sabe o que é um macacão – uma auxiliar que nunca disputou uma única eleição, que entrou em suas fileiras pela janela da traição aos 15 anos em que se beneficiou do brizolismo, quando este ainda tinha leite nas tetas.
Quem tem esses instrumentos “democráticos” à mão não precisa recorrer a qualquer regime de força. E ainda pode pintar e bordar, na formação de alianças com o que há de pior em maus costumes, mas que pode fazer exatamente o trabalho sujo de que um governante precisa para garantir seu futuro e dos filhos, netos, bisnetos e gerações seguintes.
Falei hoje apenas a fórmula da invencibilidade no Poder Executivo. Mas poderia tratar dos outros podres poderes, onde também o regime de direito é uma balela.
E termino por hoje com a exposição do efeito mais trágico de tudo isso: pessoas que tiveram boas intenções na juventude fazem hoje o culto da convivência com a corrupção como se essa fosse condição para completar a alquimia do poder eterno.
É pelo menos o que se infere de uma correspondência pública de um militante lulista, na qual ele diz sem a menor cerimônia a uma companheira:
“CORRUPÇÃO É PROBLEMA DA POLÍCIA. NÃO É PROBLEMA POLÍTICO.
Quem transforma corrupção em problema político é a MÍDIA GOLPISTA. Esse jogo NÃO NOS INTERESSA. TEMOS QUE REAGIR.
Digo mais: DEVEMOS SIM, DEFENDER O SARNEY e IMPEDIR que ele se afaste ou renuncie COMO QUER A oposição e a CANALHA PETISTA DO SENADO QUE SE CAGA DE MEDO DA MÍDIA GOLPISTA”.
coluna@pedroporfirio.com

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Tudo que sei sobre o assalto ao poder em Honduras

Zelaya pode ter sido golpeado por John Negroponte, ex-subsecretário de Estado de Bush e ex-embaixador em Honduras
“Este é um duro golpe da direita contra pessoas inocentes. Os pobres simplesmente exigem mudanças, e por pedirem mudanças sofreram um golpe de Estado”.
Manoel Zelaya

Antes que você me cobre, falemos de Honduras, cenário de um insólito assalto ao poder que tem tudo para dar com os burros n’água em questão de dias.
Antes dessa molecagem financiada pelos poderosos empresários Carlos Flores e Ricardo Maduro, que já estão arrependidos, quase nada se falava dessa república centro-americana de 7 milhões e 700 mil habitantes, até há pouco sob controle total de um consórcio envolvendo as multinacionais da banana, do café e do camarão,os velhos políticos corruptos, a igreja católica, encabeçada pelo cardeal Oscar Andrés Rodrigues, e os militares liderados pelos generais Douglas Fraser e Romeo Vásquez, em cujos prontuários aparecem acusações sobre envolvimento com grupos paramilitares e com o tráfico internacional de armas e drogas.
A decisão dos golpistas de bloquear a pista do aeroporto de Tegucigalpa para impedir o retorno do presidente Zelaya deixa clara a fragilidade do grupo. Antes, o arrogante “chanceler provisório” Enrique Ortez Colindres havia dito que se Zelaya pisasse em território hondurenho seria preso.
A postura assumida pelos golpistas nesse domingo entra para o folclore das quarteladas. Em geral, o deposto vai para o exílio. Nesse caso, com a comoção provocada no país, Zelaya decidiu expor-se à prisão e às violências, que estão sendo praticadas por um grupo de encapuzados. Mas estes não se sentem em condições de prendê-lo, o que poderia provocar algo semelhante ao que aconteceu na tentativa de golpe na Venezuela, em 2002.
Daí não ter dificuldade em prever a volta do presidente constitucional, ainda mais fortalecido para seu projeto de mudanças.
Um homem surpreendente
O presidente José Manoel Zelaya Rosales, deputado por três legislaturas e eleito em novembro de 2005 pelo conservador Partido Liberal, derrotando outro conservador, Porfírio Pepe Lobo, do Partido Nacional, é uma figura surpreendente. Rico fazendeiro e madeireiro, percebeu que a velha política de total submissão aos interesses da oligarquia tinha se esgotado.
No segundo ano do seu governo tratou de se aproximar do presidente Hugo Chávez e de redesenhar as relações do governo com as camadas pobres do país, que estão entre as mais miseráveis de toda a América Latina.
Antes de ser presidente, foi ministro do Fundo de Investimento Social, quando implantou o programa de Condados Abertos, visando descentralizar as decisões e dar mais poder às comunidades. Essa experiência foi, de fato, o primeiro contato com os agrupamentos que se organizavam em torno de propostas criativas para vencer a miséria.
Crise do salário mínimo
Mas foi sua decisão de aumentar o salário mínimo em 60% que produziu o combustível do conflito atual. Com esse reajuste, o mínimo em Honduras é de 5.500 lempiras ( R$ 611,00) nas zonas urbanas e de 4055 (R$ 450,00) na rural. Com isso, tornou-se ídolo dos trabalhadores, ganhou o apoio do partido Unficação Democrática, de tendência socialista, e das organizações sociais, como a Via Campesina.
Em compensação, despertou a ira dos seus antigos parceiros da classe rica, que ainda pensa Honduras como um feudo dividido entre um restrito grupo de endinheirados.
Com suas primeiras medidas de cunho social, Honduras registrou um crescimento anual de 7% e reduziu de 70 para 60% o número de hondurenhos na faixa de pobreza absoluta.
Sua decisão de integrar a Alternativa Bolivariana para a América azedou as relações com os Estados Unidos, no governo Bush. Isto porque foi graças a essa nova aliança que Honduras passou a se beneficiar de uma ajuda efetiva, com registrou o jornalista F.C Leite Filho, em substancioso artigo difundido pela REDE PDT: “a capitalização do Banco Nacional de Desenvolvimento Agrícola (Banadesa), com 100 milhões de dólares para financiamentos a camponeses, artesãos e pequenos comerciantes, que não têm acesso aos bancos privados, a doação de 100 tratores para apoiar a produção campesina e aumentar a produtividade no campo; a ampliação das brigadas médicas cubanas e educativas para declarar, nos próximos 14 meses, que Honduras é livre de analfabetismo. Finalmente, o país se beneficiaria dos programas de independência energética e de programas de comunicação com potencialização do canal de televisão nacional hondurenho (canal 8) com programas educativos e culturais”.
Honduras paralisada
Dolores Jarquin, da Via Campesina, e Beatriz Gomez, da Confederação Unitária dos Trabalhadores de Honduras, que não haviam votado em Zenaya, estão entre os milhares de líderes que comandam uma greve que dura desde o assalto de 28 de junho.
Beatriz declarou que Zelaya teve uma atitude inédita diante das greves e manifestações. “Ele não dava ordem aos militares para conter os protestos, tentava o diálogo, e isso não era costume no país”.
Durante o governo de Zelaya, as greves não foram frequentes, mas manifestações como interrupção do trânsito de veículos na capital e paralisação de atividades aconteceram algumas vezes. O governo não teve o hábito de ordenar a mobilização de policiais ou do exército para conter as manifestações.
Além do aumento do salário mínimo, Beatriz e Dolores apontam outras medidas que agradaram aos trabalhadores, como a reforma do sistema público de saúde e os programas de educação. “Ele criou os hospitais, programas preventivos, como o Saúde da Família, que não existia. Na educação, criou programas de alfabetização e
programas de acesso à universidade”.
Aumentou o número de unidades móveis de saúde e de programas preventivos em regiões afastadas. Isso permitiu controlar a malária e melhorar o saneamento público. Na educação, implantou o método de alfabetização cubano chamado “Yo sí puedo”, desenvolvido para 5 mil jovens e adultos, com o qual espera eliminar o analfabetismo até o próximo ano. “Ele criou um estatuto para os docentes. Isso era reivindicado há aproximadamente 12 anos pelos professores. Foi uma das primeiras ações dele”, disse Beatriz.
Quem deu o golpe
Um personagem muito conhecido dos hondurenhos e do mundo estar por trás do golpe, que tem a chancela da maioria da Suprema Corte, que, lá, é integrada por juízes eleitos pelo Congresso unicameral com mandato de sete anos.
Não me surpreenderá se tudo não saiu da cabeça doentia de John Negroponte, embaixador dos EUA em Honduras de 1981 a 1985, responsável pelo recrutamento dos contras da Nicarágua na década de oitenta, que chegou a subsecretário de Estado no governo Bush, isso depois de ter tipo papel chave na invasão do Iraque como chefe de uma central de espionagem criada para unificar todos os serviços secretos dos EUA.
Com a posse de Obama, ele caiu no ostracismo e, aos 70 anos, foi ser bolsista e docente do Whitney e Betty MacMillan Center for International Studies e Espaço da Universidade de Yale.
Quando esteve em Honduras, implantou na base militar dos EUA de El Aguacete, na cidade de Palmarolas, o centro centro de detenção e torturas, com a cooperação da CIA e de militares argentinos.
Negroponte foi quem aproximou os traficantes de armas Thomas Posey e Dana Parkes com os militares hondurenhos e conseguiu que a ajuda militar estadunidense passasse de quatro para setenta e sete milhões de dólares anuais.
De fato, o governo Obama foi surpreendido pela trama. Segundo o jornalista venezuelano José Vicente Rangel, o Departamento de Estado se posicionou contra o golpe quando seus funcionários Tom Shannon e James Steimberg ligaram para o embaixador Hugo Llorens, recomendando que não desse nenhum apoio aos golpistas.
Há que observar ainda que Israel foi o primeiro país a reconhecer o governo saído do golpe e são muito estreitas as relações de Negroponte com os grupos sionistas. O outro país que formalizou o reconhecimento foi Taiwan, que vive no isolamento imposto pela China Popular.
coluna@pedroporfirio.com


sexta-feira, 3 de julho de 2009

Quando o preço da governabilidade é a garantia da impunidade

O beijo da senadora Iledi Salvatti, lider do governo, simboliza a profunda intimidade entre o PT de Lula e Sarney, antigamente visto como Ladrão pelo chefe do governo.
"A aliança com o PMDB é fundamental para o país. Não me peçam um ato oportunista de acabar com a governabilidade."
Aloizio Mercadante, líder do PT no Senado.

José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, codinome Sarney, é tudo de ruim que o diabo pôs na Terra para provar que Deus não criou o homem à sua imagem e semelhança, como proclamam em loas antigas canções litúrgicas.
Não é o único senador da pá virada, antes, pelo contrário. Entre eleitos e suplentes biônicos, cabeludos, bigodudos, carecas e gorduchos, poucos podem atirar a última pedra. Mas o “tzar do Maranhão” que fraudou seu domicílio eleitoral para ganhar mandato pelo Amapá indefeso é o capo. Sem tirar nem pôr, é o poderoso chefão, tendo o alagoano José Renan Vasconcelos Calheiros como seu pustulento principal escudeiro.
Por ser o que é, Lula e seus miquinhos amestrados o consideram o fiador da GOVERNABILIDADE.
Se ele rodar, o governo vai junto, pensa o presidente. Essa é a razão do humilhante enquadramento imposto aos senadores petistas que, paradoxalmente, bateram chapa com Sarney na eleição para a presidência do Senado. E agora se agacham, pusilânimes, à ordem do chefe Luiz Inácio.
Mas também, por ser o que é, José Ribamar será o coveiro do príncipe operário, que já o chamou de LADRÃO quando ele presidia a República, cargo a que chegou às custas do cadáver de Tancredo Neves, de quem se fez vice ao trair vinte anos de participação na ditadura, boa parte como presidente do partido oficial.
Coveiro, sim, como foi do regime militar, a quem serviu de olhos fechados, e de quem se serviu sem cerimônias ou constrangimento, quando os poderosos generais usavam antolhos programados para só enxergarem “a ameaça comunista”.
José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, codinome Sarney, ganhou uma bóia palaciana com a estrela vermelha. Pior. Quando afundar na lama do Planalto terá ilustres companhias, raposas e canastrões, metidos a besta e impostores ideológicos, porque pelo andar da carruagem os podres poderes estão em adiantado estado de decomposição.
Ou você acha que se sustenta por muito tempo um governante que precisa de um notório corrupoto para garantir sua governabilidade?
É meio brabo, mas o todo poderoso campeão de audiência abriu seu coração e mostrou as entranhas. Tem medo de perder maioria parlamentar se não arranjar uma muleta de titânio para o velhaco que mescla a alma de rato com o cérebro de camaleão.
Se não é por medo é pior. Desde que atravessou a soleira do palácio, para o orgasmo múltiplo da dama deslumbrada que é a patética personificação da mulher que não trabalha, mas deita e rola, Luiz Inácio sucumbiu às tentações do demônio e deixou correr solto.
Filhos, irmãos e apaniguados meteram a mão na carne seca e mandaram ver. Rapidinho, estavam todos mamando nas tetas da nação, seja pelas prebendas afrodisíacas, pelos peitos fartos das estatais, pela orgia das ONGs ou pela libidinosa distribuição de favores e facilidades a banqueiros e fazendeiros, junto com os níqueis para a massa famélica, seduzida no bordel da migalha do menor esforço, pelo exercício prostituto do “dá um pão, toma retribuição”.
O PT, quem diria, aquele mesmo que não poupou nem Brizola (valendo-se da frase infeliz de apoio a Collor) no ofício de desacreditar (e desmoralizar) adversários, na produção de piches contra quem lhe interpusesse o campinho, converteu-se de repente no mais insaciável chupa-cabra.
Pelo verbo dos vigários que lhes serviram água benta, as outrora vestais despiram-se do manto púrpuro e caíram na gandaia na busca do melhor da vinha, em cânticos lascivos do “faça o que eu digo e não o que eu faço” ou da gula do “farinha muita, meu pirão primeiro”.
Nada seria mais inevitável do que essa safra de políticos transgênicos, saídos da alquimia entre os híbridos representantes do semifeudalismo recalcitrante (como o The Economist de Londres definiu Sarney) e os caras de pau do “novo sindicalismo”, da “nova esquerda” e da “nova sacristia”.
É de se concluir que nessa trama, cujo ápice é a salvação de Sarney, incólume hoje, como incólume ontem foi Renan Calheiros, resulta da fome com a vontade de comer.
A turma que depende dos ingredientes dos podres poderes para continuar com a mão na massa já recebeu o mote: salvar o pai (e avô) generoso é garantir a governabilidade.
Daí juntarem-se as peças da trama que culminou com a cassação do governador Jackson Lago, brizolista histórico, para reentronizar a filha de Sarney no governo do Maranhão, Estado que virou seu feudo desde 1965. Nessa articulação, em que a verdade jurídica foi para a lixeira, deve ter sido em nome da governabilidade que o presidente da República e seus miquinhos amestrados mexeram seus pauzinhos e lograram por via judicial o restabelecimento da capitania hereditária, fórmula, aliás, que deve ter inspirado os golpistas de Honduras.
As vozes do petismo lambuzado não falam do “socialismo do Século XXI”, como Hugo Chávez. Antes, optaram pelo “patrimonialismo do Século XXI”, com a harmônica apropriação do público pelo privado ao som do Bolero de Ravel. (Lembra daquele povo de branco reunido por Duda Mendonça na campanha de 2002?).
A partir de agora, José Ribamar, que recentes revelações fizeram-no um homem morto, está ressuscitando pelas mãos milagrosas do sapo barbudo e dos seus prendados miquinhos amestrados.
A menos que descubram outros furos, dos muitos que ainda permanecem ocultos, o questionamento de Sarney vai desaparecer da mídia, pouco a pouco, para não pegar mal. É o que determina o homem mais popular do Brasil. E como disse um dia Carlos Lupi, o ministro do PDT, “o presidente fala, a gente obedece”.
Estamos entrando no recesso parlamentar – as generosas férias do meio do ano pagas pelo omisso cidadão-contribuinte-eleitor – e as festas juninas, que são mais animadas em julho, consagrarão outras quadrilhas, essas apenas ingênuas encenações na dança inocente de inspiração caipira, dando motivação para uma pausa que refresca na praça de guerra da política.
Mas a metrópole satânica do Planalto não bobeará, para não dançar. Por todos os dias e por todas as noites, continuará produzindo suas vacinas contra o pensamento crítico e espargindo o veneno necessário à perpetuação desse estelionato histórico sem se dar conta de que está brincando com fogo: quem tem um sagrado aliado como José Ribamar não precisa ter inimigo.
De onde a fatalidade do destino: quando menos a corte esperar, a casa vai cair como um castelo de cartas. E aí serão como em todas as débâcles: cada um que trate de safar-se da ira dos enganados.
coluna@pedroporfirio.com

quinta-feira, 2 de julho de 2009

O que fazer: as respostas que compõem uma grande lição

A minha coluna “O que fazer”, enviada na madrugada de sexta-feira, dia 26 de junho, motivou reflexões tão importantes para todos nós que resolvi publicar em PDF os e-mails recebidos e respondidos . É possível que, como tomei essa decisão com certo atraso, tenha omitido alguma opinião. Se for o caso, peço que você me comunique.
Como respondi a todos, estamos abrindo um debate sobre O QUE FAZER neste país de perigosos estelionatos políticos, em que os maus hábitos na vida pública parecem consolidados e blindados pela armadura da impunidade.
Nesta correspondência, divulgo frases extraídas das respostas. Mas a íntegra das mesmas pode ser lidada em PDF,
clicando aqui.
Espero que você leia cada uma das opiniões e alimente esse debate tão importante para o país. Na maioria dos casos, omiti o nome completo do autor do comentário, imaginando que ele escreveu a mim e não me delegou autorização para tornar públicas as suas opiniões.
Pedro Porfírio

“Antes os mercenários eram contratados para matar, hoje são contratados para mentir”.
Américo A.
“Há que se esperar o parto de um LÍDER macho e com disposição para uma luta sem trégua e desesperada”
Cmte Luiz Pereira
"O erro vem de muito longe e exige uma mudança radical dos costumes”
Anna Greta, da Suécia.
“Não vejo nenhum homem capaz de mostrar o caminho para a saída desse país”.
Gonzaga Lopes
“Desde as Capitanias hereditárias ao tucanato e principalmente durante o "governo" militar, as oligarquias quiseram que o rumo fosse o atrelamento às potências”.
Marcelo A., do México
“Costumo dizer que o regime implantado no País depois dos governos militares é uma DEMOCRACIA DE FACHADA".
Solimar G. Leitão
“Não desanime. A luta se dá em todas as frentes”
Jorge Cárpio
“A indignação toma conta de todos nós que esperamos um mínimo de respeito por parte dos servidores públicos com cargos efetivos ou temporários”.
Maristela M.
“Num regime democrático há um momento em que nos manifestamos, acreditando!!! Entretanto nossos poderes estão podres”.
Pedro Paulo
“Aos 73 anos compreendo, agora, a ilusão de pensar que no curto período de uma existência, há possibilidade de grandes e rápidas mudanças”
Sérgio M.
“Precisamos romper com ESTECÍRCULO VICIOSO que já vem desde priscas eras”
Leon
“A sociedade que faz revoluções é a classe média e esta está minguando, desaparecendo e se transformando em servos de senhores feudais”.
Bengochea
“Uma coisa depois da outra, se a internet esclarece, a atitude constrói o avanço”.
J. Netto
“Você contribui muito para manter acesa nossa capacidade crítica, nossa vontade de mudar, apesar deste lodaçal em que nos encontramos”.
H. Leal
“Meu modesto entendimento resume-se no sentido de reunirmos pessoas indignadas e revolucionárias em suas atividades e atitudes, pois só assim poderemos tentar mudar o curso da história deste país”.
Oswaldo Duarte
“Sempre tomo o cuidado de tentar ver a quem interessam certas notícias. Até que ponto o que informam é relevante? Porque não gosto de me sentir massa de manobra”
Maria Helena
“A solução para o Brasil e voltar-se para o único regime realmente legítimo que o pais já teve a MONARQUIA”.
Luiz Oliveira
“Estamos reféns da imoralidade, indiscutivelmente estamos anestesiados, principalmente a juventude que patética deve ouvir e ver tantos escândalos que nem se interessa mais”
Mário Telmo
“Vivemos num país onde o presidente confunde o povo com suas palavras estapafúrdias, mas lhe provê de migalhas que (só) lhe atrofia a dignidade”.
Gervásio G.B.
“A guerra é espiritual, Pedro, e só Ele reúne as condições para o momento que só Ele sabe”
José Guilherme
“A esquerda esclarecida prefere Lula (mesmo com Sarney) para evitar o retorno dos DEMos e dos tucanos. No entanto, são todos iguais, dependendo sempre de uma parcela podre do PMDB”.
Saulo, da Austrália
“Sou dos que costumam repassar seus textos inclusive para os nossos "parlamentares".
Maronildo
“Você, amigo, vem combatendo o bom combate e pode estar certo de que os resultados estão em gestação, não na velocidade que todos gostaríamos, mas num ritmo que foge à compreensão humana”.
R. Moreira
“Você não está só. A esperança de um mundo melhor vencerá, mesmo nos momentos de dificuldades, quando não vemos luz”
Jorge Rubem
“Desde a independência do Brasil o "coronelismo" tomou conta de nosso País, só que se sofisticou, profissionalizou-se”
Nelson M.
“Muito do que penso hoje é reflexo direto da leitura de seus textos, o que torna compreensível que atualmente vislumbre como principais vícios da sociedade brasileira (quiçá, em variada proporção, mundial) seja a insensibilidade com seu próprio destino e a completa ausência de juízo crítico, uma absurda preguiça de pensar”.
Renato Moreno dos Santos
“Mas você, Pedro, também me iludiu com suas palavras equivocadas”.
N.O. Bastos
“A maior contribuição da ditadura ao Brasil foi, exatamente, matar o pensamento brasileiro”.
W. Lacerda
“O Brasil caminha para o caos! Próximas gerações estarão perdidas! Nossa jovens cabeças pensantes estão caindo fora desse país de banana”
William
“O que fazer? Simples. EXERCER A DESOBEDIÊNCIA CIVIL DE FORMAIMPACTANTE”.
Leila Brito
“O país é que está sob o comando de loucos, imorais e boçais de todos os tipos e espécies”.
Norton
“Graças a Deus que agora podemos pensar e escrever como donos da verdade, porque antes da internet só podíamos nos contentar em ler toda a mídia”.
Lourival
“Bela reflexão amigo Porfírio”.
Álvaro Bastos

sexta-feira, 26 de junho de 2009

O que fazer? Responda-me se for capaz!

“A História é um conjunto de mentiras sobre as quais se chegou a um acordo”.
Napoleão Bonaparte

Hoje, vou tentar ser o mais breve e o mais objetivo possível.
Não falarei com base nas exaustivas pesquisas que costumam fundamentar minhas opiniões.
Acho até que um dia já toquei no assunto.
Mas não me darei ao trabalho de remover meus arquivos.
Move-me a repercussão das minhas últimas colunas, sobretudo a que fala do Senado. Nesta, defendo o parlamento unicameral, com o fim do Senado, que se transformou numa Câmara Paralela e perdeu seu caráter revisor e moderador. Porque ele também legisla. Isso detalharei em breve.
Veio-me então a “pergunta que não quer calar”: O QUE FAZER?
Escrevo, felizmente, para um universo de parceiros cuja marca essencial é a DIVERSIDADE DE OPINIÕES E REAÇÕES.
Dependendo da coluna, uma área de opinião se manifesta.
Mas há uma coisa em comum: quem se dá ao trabalho de ler minhas colunas não o faz por acaso. Quem costuma repassá-las age como se a endossasse. Quem publica em seus blogs, da mesma forma.
Quando pergunto o que fazer é porque temo OS LIMITES DA INTERNET. Como tudo no processo histórico, o que traz o bem vem com o seu contrário. Não precisa ser dialético para pensar assim.
A INTERNET abriu um horizonte sem fim para todos. Recebo muitas opiniões – próprias e repassadas.
Alguns parceiros são férteis mais da conta. Imagino que têm muito tempo para pesquisar e mandar informações e outros tipos de e-mails. E que acreditam piamente na fortaleza desse novo e ágil modo de repassar idéias, sentimentos e reflexões.
Meu medo é que alguns considerem o uso da INTERNET a única atitude a tomar. Repassam abaixo-assinados, recortam jornais, reproduzem manifestações, noticiam acontecimentos. Porém, desculpe se estou equivocado, não fazem mais do que isso.
Sabem que os podres poderes estão nas mãos do que há de pior, ao ponto da maioria do povo já não considerar a democracia tão indispensável assim.
Sabem que estão nos roubando, nos espoliando e tornando nossas vidas mais sacrificadas. E quem mete a mão não é apenas o político: você começa a ser roubado no seu condomínio, já disse isso aqui.
Sabem que vivemos sob o signo da hipocrisia. Os grandes beneficiários dessa permissividade moral são os mais poderosos:
Não temem a violência, porque podem blindar seus carros, fortificar suas residências e contratar seguranças.
Não temem as crises, porque guardam seus planos alternativos. Mesmo quando suas empresas vão à lona, o deles está garantido.
Ontem mesmo, li no GLOBO:
Bancos recebem 10 vezes mais que país pobre
Em 1 ano, socorro a instituições somou US$ 18 trilhões. Nações em desenvolvimento tiveram US$ 2 trilhões em 49 anos.
Há em comum, também, entre os leitores e parceiros, o sentimento de INDIGNAÇÃO, o que me faz um cultivador de esperanças.

No entanto, o sistema consegue confundir as pessoas, canalizando esse sentimento para alvos artificiais. Consegue, por exemplo, que o cidadão indignado considere virar as costas para a política, criminalizar a vida pública, como a atitude mais coerente, mais pura, mais decente.
Com isso, abre mão de sua cidadania, de suas armas constitucionais, e deixa que a política seja monopólio dos canalhas.
Claro, ninguém agüenta mais tanta metamorfose. No palanque, fora do poder, o cara é uma fera. Quando chega lá, deixa o dito pelo não dito, recorre a uns truques que o poder disponibiliza e vai fazer o mesmo, ou pior, do que aqueles que criticava.
Mas por que isso acontece?
Uma coisa é certa: somos um povo assumidamente despolitizado e vulneravelmente desmobilizado. É mentira dizer que há uma “sociedade civil organizada”. E por que só civil? O militar não é um cidadão, não paga impostos? Por que civis e militares cultivam diferenças de ofício, quando o que pode nos unir e nos separar é a visão que temos da Pátria e da sociedade?
Essa reflexão se aplica aos que se deixam inflamar por preconceitos. Agem e se posicionam sob a bitola da miopia: os seus favoritos estão sempre certos, suas idéias são sempre as únicas palatáveis, suas palavras são incontestáveis. Conceitos opostos emitem sobre seus contrários, como se cada um de nós fizesse parte de uma religião sagrada na intolerância, de uma seita estruturada no ódio, de uma torcida petrificada pela paixão.
A sociedade dos DONOS DA VERDADE ganhou dimensões planetárias com a INTERNET. Para cada resposta que recebo a uma coluna de opinião, vêm 20 e-mails com outras manifestações, a mairia sobre outros assuntos.
Chegamos ao fundo do poço em matéria de raciocínio e pensamento. A tirania da fatalidade nos imobilizou. Pessoas honestas e inteligentes renderam-se ao maniqueísmo urdido pelo sistema. Mesmo que você tenha que escolher entre o “diabo e o coisa ruim”, você não consegue ver outra alternativa, pelo menos para hoje.
É como se a (má) sorte estivesse lançada. Advertem-me que 2010 bate à porta. Não há como escolher fora dos protagonistas postos, dos grupos e dos interesses cristalizados.
É pegar ou largar. Pensar numa TERCEIRA VIA, numa alternativa diferente, pensar em quem não ocupou os espaços do poder e da máquina midiática seria inútil. Não há mais tempo. Não há como amalgamar as indignações justas: somos um rebanho de desgarrados e pt saudações, dizem-me a toda hora.
Será isso mesmo?
Se a INTERNET rompeu todas as barreiras, se podemos chegar em segundos a qualquer ponto do planeta, se cada dia mais pessoas se familiarizam com esse tipo de comunicação, terão razão realmente os fatalistas?
Não sou pretensioso, não sou mais criança, não me alimento de utopias, mas, sinceramente, EU ACHO QUE NÃO.
Como sempre digo, UM DIA A CASA CAI.
Não é só questão de estômago. É de cérebro mesmo. Não é necessário engolir “o sapo barbudo” e seus miquinhos amestrados só para não deixar que o tucanato volte para fazer pior. Até porque, insisto, não há a mais tênue diferença na essência de ambos os governos. Mudaram os figurinos, mas os mesmos donos do mundo continuam donos dos nossos destinos, tratando primeiro de seus mesquinhos interesses e jogando sujo para permanecerem por cima da carne seca, segundo as práticas comuns a todos os profissionais da política: ganhar, permanecer no poder ou a ele retornar.
Como ninguém é insubstituível, da mesma forma, ninguém é invencível. Há bem pouco tempo, ninguém poderia imaginar que um negro, por mais “assimilado” que fosse, assumiria a Presidência dos Estados Unidos. Nem que um “ índio cocalero” triunfasse na Bolívia ou que um economista de um mini-partido vencesse as eleições presidenciais no Equador, enfrentando o homem mais rico do país. Até mesmo na Europa, de tradição partidária enraizada, novas forças estão surgindo, como na Inglaterra, e passando para trás cabeças coroadas do Partido Trabalhista e dos Conservadores.
O grande problema entre nós brasileiros é o vício do caminho curto, aquele que esta ao alcance do seu nariz. Esse vício é próprio dos derrotistas. E tão nefasto que embaça o horizonte possível. Quando entrega os pontos antes de lutar, o cidadão pode estar abrindo mão de uma vitória possível.
A historia do Brasil é rica no ensinamento de que QUERER É PODER, apesar da grande maioria estar anestesiada por qualquer coisa que compense.Por todo o Século XX (e até antes) as mudanças bruscas ocorreram sem traumas, muito mais pelo desgaste dos governantes do que pela capacidade operacional dos opositores.
Ou você acha que foi preciso um arsenal para a Proclamação da República, o triunfo da Revolução de 30, o Estado Novo, a volta constitucional de 1945, a quartelada de 1964 e a volta do regime “democrático”, na década de 80?
Hoje, diante de um deserto de homens e idéias, corremos o risco de cair num vazio, sofrendo conseqüências dramáticas dessa passividade até mesmo na própria célula familiar: outro dia, uma professora muito inteligente comentou comigo: sou da última geração em que os filhos obedeciam aos pais e da primeira em que os pais obedecem aos filhos.
Podemos estar à beira do sepulcro de uma democracia que ainda não disse a que veio, da falência da sociedade humana, submergida no lamaçal que inunda o país como uma onda de dejetos paralisantes.
Essa inércia pode abrir caminho à aventura, que só não acontece porque estamos TODOS IMOBILIZADOS, a começar por essa juventude perigosamente alienada e exposta a outros tipos de apelos “contestatórios”.
Eu pensava que ia escrever pouco, mas escrevi muito. E poderia continuar. Mas vou parando por aqui, na ESPERANÇA DE QUE VOCÊ TAMBEM SE MANIFESTE, DIGA O QUE PENSA, diga ate se acha que estou DELIRANDO.
Mas, por tudo quanto lhe é sagrado, fale alguma coisa, qualquer coisa. Diga que podemos fazer algo. Diga que você está vivo. Ou então CALE-SE PARA SEMPRE.
coluna@pedroporfirio.com

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Não se iluda: o Senado é um caso perdido

Ficar apenas na crítica do último escândalo equivale a querer enxugar gelo. Isso que o acaso está trazendo à tona é jornal de ontem e, com certeza, frequentará as manchetes dos jornais de amanhã.

"A Nova República é pior do que a velha, porque antigamente na Velha República era o militar que vinha na televisão e falava, e hoje o militar não precisa mais falar porque o Sarney fala pelos militares ou os militares falam pelo Sarney. Nós sabemos que antigamente _antigamente, os mais jovens não conhecem, mas antigamente se dizia que o Ademar de Barros era ladrão, que o Maluf era ladrão. Pois bem: Ademar de Barros e Maluf poderiam ser ladrão, mas eles são trombadinhas perto do grande ladrão que é o governante da Nova República, perto dos assaltos que se faz."
Luiz Inacio Lula da Silva
Aracaju, 6 de setembro de 1987


Sarney e Lula: eles se merecem

O que é um antro de escroques em comparação com o Senado desta pútrida República dominada por gigolôs das massas despolitizadas e sacripantas arrivistas?
Disse José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, codinome Sarney, que a exposição das vísceras desse valhacouto que custa ao contribuinte os olhos da cara não o atinge unicamente, mas à toda súcia do tapete azul.
“A crise do Senado não é minha, a crise é do Senado”. – disse e repetiu outras vezes como um bordão de uma mal encenada tragicomédia.
E disse mais, na maior cara de pau, no seu patético pronunciamento de 16 de junho:
“Eu só conheço um ato secreto, durante o tempo do Presidente Médici, em que ele declarou que iria haver decretos secretos. Eu não sei o que é ato secreto. Aqui, ninguém sabe o que é ato secreto”....
Lula, amigo de fé, camarada
Solícito, cúmplice e solidário, como se igualmente alvejado, perfilou-se ao seu lado Luiz Inácio da Silva, codinome Lula, essa figura deletéria que o castigo de Deus transformou no político mais popular do Brasil: "O senador tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum”.

E continuou: "Não sei a quem interessa enfraquecer o Poder Legislativo no Brasil. Quando o Congresso foi desmoralizado e fechado, foi muito pior para a democracia". Não satisfeito, acrescentou: "Eu sempre fico preocupado quando começa no Brasil esse processo de denúncias, porque ele não tem fim e depois não acontece nada".
“Congresso desmoralizado e fechado”, quando cara pálida? Comparar aqueles dias do Congresso como adorno aos de hoje é superar-se no cinismo ou na ignorância.
Ora, Lula pega pesado na defesa do parceirão porque conta com a nossa “interpretação dialética”, inspirada nos ensinamentos de Maquiavel, o mestre de todos os mestres, segundo os quais os fins justificam os meios.
As armas da invencibilidade
E joga com os mecanismos da invencibilidade, que falam mais alto do que as três armas temidas, outrora: 350 mil ONGs (contra 25 mil quando assumiu) de olho nas verbas distribuídas por uma penca de ministérios, dirigentes de 16 mil sindicatos na fila do bem bom, centenas de líderes estudantis de cara lavada e olhares concentrados na emissão de rendosas carteirinhas, 40 milhões de famélicos viciados pela esmola do bolsa-família e 22 mil cargos de chefia só na máquina federal, todos devidamente mapeados em 2007 pelo ministro Tarso Genro.
Com tais fortificações e algumas encenações de fazer inveja ao nosso teatro ele vai tirar Sarney da enrascada, como tirou Renan, ganhando, como contrapartida, o sepultamento da CPI da Petrobras, tida pelos ingênuos como meramente privatizante, como se FHC e ele já não tivessem rasgado o monopólio estatal do petróleo com a entrega da exploração de nossas jazidas aos trustes, mediante a remuneração de 27% do produzido, a mais baixa do mundo.
Aliás, não precisava desse conchavo: esse Senado aí já se descredenciou para investigar até o caça-níquel da esquina, muito menos uma estatal cujo orçamento de R$ 290 bilhões é o dobro do Estado de São Paulo, o mais rico do país.
A natureza atávica da Casa
Com chancela tão rochosa, o ancião José Ribamar, que dá as cartas no Brasil por décadas a fio, deixou dito que tudo que fez ou apadrinhou é da natureza dessa “câmara alta”, contra-peso desnecessário, criado na primeira Constituição de 1824 para ser a nossa “Câmara dos Lordes”, com acesso restrito a maiores de 40 anos e rendimento anual mínimo de 800 mil réis.
Ao longo desses 185 anos, essa casa, hoje despida dos pés à cabeça, sempre foi o paraíso magistralmente definido por Darcy Ribeiro, especializando-se, na República, em ser um prêmio para ex-governadores e caudilhos influentes sem vocação para o Executivo.
Ao Senado, nada se deve. Quem olhar sua trajetória vai achá-lo no ofício viciado de sacramentar as vontades dos donos do poder, como aconteceu em 1964, quando o pecuarista paulista Auro Moura Andrade, na sua presidência, apressou-se em declarar vago o cargo de Presidente da República quando João Goulart ainda se encontrava em território brasileiro.
E como ocorreu depois da derrota da ditadura, nas eleições de senadores, 1974, quando, só para garantir total obediência aos governos dos generais, acolheu calado o balaio de colegas biônicos, para lá conduzidos sem votos, à semelhança do que acontece hoje, mas sem sofismas, com esses “suplentes secretos” que cantam de galo como se legítimos representantes fossem.
Sarney não exagerou na dose. Buscou dividir os dolos expostos com a corporação de rabo preso, tendo a seu favor, como trunfo irresistível, a mais ampla e irrestrita conivência daquele que, num passado não muito remoto, o chamou de ladrão e de grileiro.

Um antro de saliências que você consente
O Senado da República, uma redundância legislativa que sobrevive hoje no fausto dos podres poderes, como casa de saliências regiamente remuneradas dos velhos políticos, operou a dialética do apodrecimento (Leia "a farra é deles" radiografia feita pelos repórteres Otávio Cabral e Alexandre Oltramari) em meio ao consentimento geral, isto é, ao seu consentimento, caro leitor.
Ou você já questionou por que um senador tem mandato de oito anos, quando todos os demais ganham quatro?
Quando você se insurgiu diante da peculiaridade de poder votar ao mesmo tempo em dois candidatos ao Senado, o que não acontece em nenhum outro cargo parlamentar?
Quando você levantou sua voz contra os suplentes biônicos, que podem ganhar mandatos inteiros, como o suplente do ex-governador Roriz, sem sequer ter seu nome levado ao conhecimento dos eleitores?
E os suplentes hereditários, como os filhos de Antônio Carlos Magalhães, do ministro Lobão e outros que permanecem na moita? Você chiou, pelo menos?
Quando você peitou essa fraude do domicílio eleitoral que, por deboche, fez do cacique do Maranhão senador pelo Amapá?
Quando você pediu um balanço legislativo das duas casas do Congresso? Calculam o custo delas dividindo o orçamento pelo número de parlamentares. Mas nunca pararam para calcular esses valores pela produção legislativa, que é pífia e tão lenta como os 70 milhões de processos que se arrastam no Poder Judiciário.
Uma duplicidade anacrônica
Para que serve afinal essa casa que se lastra na anacrônica “representação dos Estados”, um estratagema velhaco que foi buscar razão de ser nas priscas eras, como se o Brasil não fosse de fato um regime unitário, com a União arrecadando e repassando a parte gorda dos tributos?
Dispensam esse pleonasmo países como Portugal, Grécia, Suécia, Dinamarca, Islândia, Venezuela, Finlândia, Turquia, Israel, Síria e Noruega, de um total de 112 que têm parlamentos unicamerais, contra 75 que ainda conservam a duplicidade, alguns destes com poderes restritos, como na Inglaterra, França, Alemanha, Áustria, Bélgica, e Índia.
Para você, que não é obrigado a manjar de todos os sofismas políticos, parece que a existência de duas casas do Legislativo – que, ao contrário dos Estados Unidos, só ocorre no plano federal – é condição pétrea do sistema democrático representativo. Nos Estados Unidos, ressalve-se, o Senado veio primeiro, após a guerra da independência, por iniciativa dos líderes das 13 ex-colônias, que mantinham (e mantêm) autonomias reais, configurando uma federação de fato e de direito.
Estudos da própria (e competente) Consultoria Legislativa do Senado apontam: na Europa, berço da civilização democrática, há 30 países unicamerais para 17 bicamerais; na Ásia milenar, 23 unicamerais para 16 bicamerais; na África, 33 unicamerais para 19 bicamerais; na Oceania, 11 unicamerais para 3 bicamerais. Só nas Américas, ainda pela influência norte-americana, o número de bicamerais é maior: 20 contra 15 unicamerais.
Perdendo a fé na democracia
Esse mesmo meticuloso levantamento, realizado por Elton E. Poveiro Junior, exibe a transcrição de uma pesquisa do jornal The Ecnomist, de Londres, na qual já em 2001, antes mesmo das super-safras de escândalos, apenas 30% dos brasileiros consideravam que a democracia é preferível do que qualquer outra forma de governo. Em 1996, antes do governo FHC sair do armário para patrocinar a privataria, esse percentual chegou a 50%.
Para melhor entendimento, em 2001, apostavam na democracia 79% dos uruguaios, 71% dos costarriquenhos, 62% dos peruanos; 58% dos argentinos, 57% dos venezuelanos, 57% dos hondurenhos e 54% dos bolivianos.
Esses escândalos recentes não são os primeiros e nem serão os últimos. O que você espera de uma turma que livrou a cara de Renan Calheiros, pilhado numa fieira de maracutaias, e que, num piscar d’olhos, voltou a ser o seu capo, mercê sabe Deus de quantos ameaçadores segredos coleciona sobre seus pares?
O Senado não é a única casa onde os delinqüentes deitam e rolam. A Câmara já nos brindou, entre outros, com o sórdido espetáculo do “mensalão”, obra da santa arquitetura petista, e a farra da generosa distribuição de passagens aéreas para este mundo afora. Por todo o Brasil, assembléias legislativas e câmaras municipais não são diferentes e se aproveitam da penumbra em que vivem.
Chantagem que garante a impunidade
Como não é diferente a prática indecente nos demais poderes, emblematicamente encabeçados por Gilmar Mendes e Luiz Inácio.
Tudo sob a chantagem de que tais instituições são as colunas da democracia, e esta pode ser a pior forma de governo, excetuando todas as outras que foram tentadas ao longo dos tempos, como definiu Winston Churchill, com a posterior chancela de Ulisses Guimarães.
Mas as revelações dos delitos que, como disse, custam quase R$ 3 bilhões por ano ao contribuinte (dinheiro que não acaba mais) fatalmente submergirão no mar de lama que já extravasou ao som da aquarela do Brasil e nada acontecerá aos delinqüentes blindados pela panacéia da impunidade, composta de ignorância, alienação, conformismo, manipulação, vira-casacas e adesismos tresloucados.
Ficar apenas na crítica do último escândalo equivale a querer enxugar gelo. Isso que o acaso está levando à tona é jornal de ontem e, com certeza, frequentará as manchetes dos jornais de amanhã.
coluna@pedroporfirio.com

Sobre a natureza dos legislativos vale uma leitura do trabalho de Elton E. Poveiro Junior, publicado pela Coordenação de Estudos da Consultoria Legislativa do Senado Federal, onde, ressalve-se, existem profissionais altamente qualificados e dedicados, que não têm nada a ver com a ratatuia de fantasmas e apaniguados enxertados elos barões da casa.
Recomendo também o estudo de Peterson de Paula Pereira, procurador da República no Amazonas, sobre o processo legislativo.

domingo, 21 de junho de 2009

A amputação dos direitos trabalhistas está a caminho. Só Lupi não viu

De como Lula e sua máquina “biafraram” o PDT e similares(VII)
"Uma das formas de reduzir a informalidade no trabalho é o estímulo à contratação formal dos trabalhadores por meio da desoneração RADICAL da folha de salários”.
Ministro Roberto Mangabeira Unger, em palestra no TST, dia 16 de setembro de 2009.
No final da tarde da quarta-feira, 8 de abril de 2009, o tempo úmido e as nuvens carregadas deixavam os líderes da meia dúzia de centrais sindicais acabrunhados, mas dispostos a espernear perante o presidente da República, que os recebeu com a irreverência de sempre na hora da Ave Maria.
Contritos, os quase sempre arrogantes senhores do sistema sindical estavam em Palácio para deixar o dito pelo não dito. Metidos a ladinos, não contavam a astúcia do enigmático professor Roberto Mangabeira Unger, hoje o bamba da corte, que obteve deles, à revelia do Ministério do Trabalho, os subsídios e os sentimentos auscultados para seu projeto de reforma trabalhista, que desonera a folha de pagamento, livrando os empresários até da contribuição patronal ao INSS vinculada aos salários.
A pequena romaria, dessa vez, tinha no séquito o ministro Carlos Roberto Lupi, o último a saber daquilo que o gênio americanizado chamou de “desoneração radical” e de “reconstrução das relações trabalho/capital”.
“Reforma trabalhista” de costas para o Ministério do Trabalho
Na verdade, desde que virou a casaca sem trocar a gravata clara, o professor vitalício da Universidade de Harvard, que teve Obama como aluno, passou a ter mais poderes do que qualquer outro ministro, quanto mais o do PDT, tratado a trancos e pescoções verbais pelo príncipe operário.
Dourar a pílula na amputação dos direitos trabalhistas não foi difícil para ele, tão competente que prestou serviços muito bem remunerados ao banqueiro Daniel Dantas, na condição de “trustee” (procurador, numa tradução aproximada)da Brasil Telecon entre 2006 e 2007, ano em que foi feito ministro de Assuntos Estratégicos e já chegou derrubando a senadora Marina Silva da pasta do Meio Ambiente, que chefiava desde o primeiro governo Lula.
Quando ainda no segundo semestre de em 2007 Mangabeira Unger recebeu a incumbência de elaborar um projeto palatável de revisão drástica da CLT o ministro Carlos Roberto Lupi foi informado, com a indicação de que ficasse fora das tratativas e manifestasse total apoio ao que se concluísse, como aconteceu no primeiro de maio de 2008, dois dia depois de conhecer o seu texto, publicado na íntegra pelo jornal VALOR ECONÔMICO, sob o título “Diretrizes a respeito da reconstrução das relações entre o trabalho e o capital no Brasil”.
"A questão da desoneração é muito positiva porque, em tese, ela traz automaticamente a geração de emprego” – declarou Carlos Lupi na festa da Força Sindical, mas cuidou de acrescentar uma ressalva que não agradou à corte: “mas tem de estar muito amarrada, senão você faz a desoneração fiscal e ninguém quer gerar emprego”.
Sabendo que uma das idéias cristalizadas na proposta era substituir a contribuição patronal ao INSS calculada pelo salário por um imposto estimado sobre o faturamento, Lupi, que em nenhum momento questionou seu alijamento das discussões, ainda quis deixar uma ponderação, que se perdeu nas ondas da mídia: "há uma preocupação porque a Previdência já tem muitos problemas. Nós não podemos agravar a situação da Previdência”.
O último suspiro do PDT
Sua declaração se deu quando a imprensa insistia que ele teria favorecido o PDT e a Força Sindical no repasse de verbas do FAT, fato que ele desmentiu com números, ao demonstrar que as prefeituras mais beneficiadas eram ironicamente do PSDB.
Qualquer um sabe que há relação entre os acontecimentos. Naquele momento da declaração, Lupi estava acuado, mas uma vez.
Para o PDT será o último suspiro oferecer sua chancela a qualquer mudança que desfigure a CLT, cujo teor abrangente já tem respostas para as variáveis alegadas pelos que querem reduzi-la à peça de museu.
Mas as centrais sindicais deram corda ao projeto do ministro Mangabeira Unger e só refizeram o discurso pela mudança radical também na estrutura sindical, com a qual a negociação principiaria na empresa, através da figura “agente sindical”, que representaria todos os segmentos no mesmo local de trabalho.
No dia 3 de julho de 2008, o presidente da República recebeu em Palácio os ministros Mangabeira Unger, Luiz Dulci (Secretário Geral da Presidência) e Luiz Marinho (Previdência) juntamente com os cabeças da meia dúzia de centrais sindicais.
Lula empolgado com a “reforma trabalhista”.
No dia seguinte, a imprensa noticiou: depois de uma reunião que durou quase três horas, na noite de quinta-feira, com a participação dos dirigentes de seis centrais sindicais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro extraordinário de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger, bateram o martelo numa agenda mínima para promover "mudanças radicais" nas relações entre capital e trabalho no Brasil.
O jornal Valor Econômico observou: a partir do diagnóstico de que o regime trabalhista criado nos anos 40 do século passado por Getúlio Vargas, embora tenha trazido avanços à sua época, tornou-se obsoleto ao deixar a maioria dos trabalhadores fora de sua proteção, Mangabeira e sua equipe vêm debatendo o tema há oito meses com as centrais, sindicatos patronais e grandes empresários. O objetivo é encontrar pontos de convergência e, a partir daí, formular propostas e enviá-las ao Congresso até o fim deste ano.
O ministro, que é professor licenciado da Universidade de Harvard, diz que a economia brasileira corre o risco de ficar presa entre economias de trabalho barato e aqueles de tecnologia e produtividade elevadas. O risco é agravado pelo fato de economias de trabalho barato, como a China, estarem se transformando, em alguns setores, em economias de alta produtividade. O interesse do país, sustenta Mangabeira, é valorizar o trabalho e o aumento da produtividade.
“O regime trabalhista, criado por Vargas e instituído pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), é um obstáculo a esses dois objetivos”.
No final da matéria, o jornal destacou que “na reunião de quinta-feira passada, o mais empolgado com os avanços contidos nas propostas era o presidente Lula”.
Culpando a CLT pelo trabalho informal
Dia 16 de setembro de 2008, Mangabeira apresentou suas propostas aos ministros do Tribunal Superior do Trabalho. E, para justificar a redução drástica das obrigações trabalhistas, disse que a maioria dos trabalhadores vive na informalidade devido às exigências de garantias impostas às empresas pela CLT.
Entre outras conquistas sociais que, em nome do governo, Mangabeira Unger considera anacrônicas está o salário mínimo: “não bastam políticas que procuram influenciar o salário nominal, como sobretudo a política do salário mínimo. Tais políticas têm eficácia restrita. São facilmente anuladas por inflação quando não barradas por política monetária comprometida em manter a estabilidade da moeda”.
Por desoneração da folha de pagamento, ele entende o fim do salário-educação, a reformulação nas fontes de recursos para o “Sistema S”, e, principalmente, a mudança nos cálculos da contribuição para a Previdência Pública.
Embora admitindo que a proposta de um imposto declaratório é suscetível de evasão fraudulenta, o documento do ministro assinala que tende a prevalecer em sua reforma a idéia de substituir a folha se salários pelo faturamento como base para cobrar a parte patronal da contribuição previdenciária.
(Isso acontece já na área rural, registrando uma arrecadação mínima, apesar da pujança do agro-negócio).
Mais uma vez, como vimos, o ministro do PDT caiu na roda e até o momento tem demonstrado que seguiu aquele conselho da ex-ministra Marta Suplicy: relaxou e gozou, porque vale mais um cargo na mão, do que o confronto com os podres poderes.
coluna@pedroporfirio.com

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Ouvindo de cabeça baixa as reprimendas públicas do presidente

De como Lula e sua máquina “biafraram” o PDT e similares(VI) Lula nos EUA: le não escolhe lugar quando tem de esculhachar seu ministro do Trabalho
"Em outros tempos e costumes, a esta altura o ministro do Trabalho, Carlos Lupi estaria com o pedido de demissão pronto e assinado para entregar ao presidente Lula assim que puder ser recebido no gabinete do Palácio do Planalto”.
Vilas Boas Corrêa, a propósito do agressivo desmentido de Lula no uso do FGTS para capitalizar a Petrobrás.
Na relação do governo do PT com o Ministério do Trabalho parece existir a maior fonte de desgaste futuro. A impressão que a opinião pública tem é que o presidente da República mantém o ministro Carlos Lupi no cabresto, sujeito a constrangimentos públicos, como em 22 setembro de 2008, quando Lula o espinafrou de forma tão humilhante que levou o veterano jornalista Vilas Boas Correas escrever que a única postura digna para o ministro seria entregar o cargo.
Lupi havia anunciado no domingo, 21, que o governo autorizaria o uso de contas no FGTS para investimentos na Petrobras, como aconteceu no passado.
Na segunda-feira, 22 de setembro de 2008, em Nova York, onde se reuniu com figuras importantes do sistema financeiro internacional, Lula expôs o seu ministro a uma reprimenda humilhante:
"Eu acho abominável alguém fazer uma manchete irresponsável daquele jeito sem nunca ter conversado comigo, sem que eu nunca sequer tivesse pensando na idéia. Acho isso uma irresponsabilidade" – disse, demonstrando visível aborrecimento.
Acontece que a idéia não era do ministro, mas do próprio Lula, conforme a FOLHA DE SÃO PAULO, do mesmo dia 21. Lupi, precipitado, apenas confirmou a intenção para a Globo News. Na matéria, assinada por Kennedy Alencar, o jornal informa:
“Pessoas com conta no FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) poderão usar esses recursos numa nova rodada de investimentos na Petrobras.A Folha apurou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu permitir o uso do FGTS na capitalização que fará na Petrobras para explorar o petróleo da camada pré-sal”.Quando a idéia provocou cara feia dos corretores de Wall Street, Lula repetiu o velho hábito de mau caráter, com um desmentido dúbio, que dividia a responsabilidade pela notícia infausta entre a mídia e o seu ministro.
Esse vocabulário acusatório levou Carlos Lupi a uma reação ainda mais infeliz, quando declarou à Agência Brasil (oficial): "O presidente disse que não tem estudo. O presidente fala, a gente obedece".
Lupi desautoriza Lupi outra vez
Mas esse não foi a única repreensão pública do príncipe operário que deixou Lupi mal na fita. No dia 16 de janeiro de 2009, O GLOBO publicou matéria com o título: “Declaração de Lupi irrita Lula”.
No dia 13, em audiência com o presidente, o ministro havia sugerido a vinculação da redução de impostos ao compromisso das empresas de manter os empregos. Lula gostou da idéia, mas diante da reação do patronato, disse que chamaria a si essa questão, mandando o ministro calar a boca.
Sua proposta tinha lógica: ele argumentou que os recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) são dinheiro do trabalhador e não podem penalizá-lo. Segundo Lupi, Lula lhe pediu que apresentasse uma proposta concreta nesse sentido.
"Quero vincular (os repasses) e cruzar com os dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados). Não posso voltar atrás, seria para os novos
(repasses)", disse Lupi a jornalistas sobre sua sugestão.
Foi o bastante para os barões da FIESP baterem na porta do velho parceiro, dizendo que poderiam ficar de mal com o governo se a idéia tivesse curso. A crise com o setor industrial foi aberta no dia anterior, após Lupi ter dito que estava analisando impor sanções a empresas que receberam incentivos fiscais e crédito do governo e agora ameaçam demitir. O presidente das Federações das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, reagiu e cobrou a lista das empresas que estariam sendo salvas. Lupi, que estava no Chile para uma reunião da Organização Internacional do Trabalho (OIT), determinou à sua equipe que elabore a lista o quanto antes.
Mas ouviu um chega prá lá sonoro do seu chefe. Um auxiliar direto do presidente afirmou que as declarações de Lupi não correspondiam à posição oficial do governo. “Pelo contrário. Por essa avaliação, neste momento de crise internacional, tudo o que o governo não deve fazer são ameaças de retaliação aos empresários, e sim estimular ao máximo a capacidade produtiva das empresas”.
No dia 15, representantes de setores empresariais com bom trânsito no Palácio do Planalto manifestaram contrariedade com as declarações de Lupi. Por isso, a determinação de Lula é não alimentar a polêmica, para deixar claro que essa é uma opinião pessoal do ministro e que não há qualquer estudo em curso com o objetivo de aplicar punições aos empresários.
Dinheiro do FAT para os latifundiários
Por falar em FAT, um robusto fundo de R$ 158 bilhões, mais uma vez Lula deixou Lupi numa saia justa diante de sua proposta de reformular seu regimento interno para assegurar ao governo a presidência do órgão, sem rodízio com as entidades sindicais de patrões e empregados.
Durante todo o último mês de abril, incentivado pelo próprio presidente, o Ministério do Trabalho trabalhou numa minuta de reforma. A notícia vazou e as entidades patronais, junto com a CUT, uniram-se para barrar a proposta. A mais ouriçada foi a Confederação Nacional da Agricultura, cuja presidente, senadora Kátia Abreu, deverá assumir o fundo a partir de agosto. Com a reação, Lula simplesmente mandou Lupi enfiar sua minuta na gaveta.
Antes mesmo da poderosa latifundiária assumir a presidência de um FUNDO DE AMPARO AOS TRABALHADORES, seu conselho já facilitou o lado do endeusado agro-negócio. No último dia 31 de março, apadrinhados pelo governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, um dos maiores plantadores de soja do país, o Conselho do FAT decidiu estender para 30 de agosto às parcelas devidas pelos fazendeiros, que venceriam naquele dia.
Foi atendido também o pleito para que seja dada a condição de pagamento, em 1º de setembro, de 5% da parcela de 2008 e de 10% da parcela de 2009”. E mais: com farta apropriação do Fundo de Amparo ao Trabalhador (e não aos latifundiários) o agro-negócio ganhou de quebra mais 24 meses para quitar empréstimos por meio da linha de crédito FAT Giro-Rural. O prazo passou de 60 meses para 84 meses para pagar os empréstimos feitos junto a fornecedores de insumos nas safras 2004/2005, 2005/2006, e 2006/2007.
Com a senadora Kátia Abreu à frente do FAT a partir de agosto, o governo do PT estará sendo coerente com sua opção pelos ricos, em detrimento dos sem terra, a quem nega a reforma agrária e compensa com dinheiro para as ONGs da área. Mas o PDT é quem vai pagar o pato na hora em que aparecer um líder sindical decente e perguntar por que o dinheiro destinado a amparar os trabalhadores tem sido farto no financiamento dos grandes proprietários de terras.
Trabalhadores da aviação ficaram a ver navios
Lupi tem sido igualmente desautorizado a cada compromisso que assume com segmentos profissionais que acreditam que ele, formalmente ministro do Trabalho, pode ajudar junto ao governo no encaminhamento dos seus legítimos direitos.
Foi assim no caso da Varig. Numa audiência pública, dia 4 de maio de 2007, na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, ele assumiu a responsabilidade de expor ao próprio presidente a situação inédita criada pela aplicação da Lei 11.101/05, que, ao prever a possibilidade de evitar a falência de uma empresa, extinguiu as regras da Lei de falência de Getúlio, que priorizava os créditos trabalhistas.
Com essa Lei, a pendência foi para a Vara Empresarial e a Varig foi vendida e revendida de costas para as dívidas com seus empregados que, apesar de trabalharem na aviação, ficaram a ver navios.
Além disso, por conta dessa “falência protegida”, os milhares de aposentados e pensionistas do Fundo Aerus viram reduzidos seus benefícios quase a zero. A Varig tem uma dívida superior a 3 bilhões com o fundo, autorizada na prática pelo Ministério da Previdência, que sacramentou 19 acordos de repactuação não honrados pela empresa.
Depois da audiência, Lupi recebeu no seu gabinete do Rio de Janeiro uma comissão de associações de profissionais da Varig. Nesse encontro, que presenciei pessoalmente, as representações de pilotos, comissários e mecânicos de vôo colocaram em suas mãos uma engenhosa fórmula pela qual o governo reconhecia a dívida com a Varig por conta da defasagem tarifária e exigia que as dívidas com os demitidos e os aposentados fossem honradas com o dinheiro proveniente desse acordo. Para tanto, os empregados ofereciam um caminho para a disponibilização dos recursos necessários sem forçar o Tesouro.
Lupi comprou a idéia, mas ficou perdido dentro do governo. Ninguém lhe deu a necessária atenção e ele não podia passar isso para os interessados. Ao contrário, como a direção do Sindicato dos Aeronautas, que sacramentou o leilão pela nova lei, é de gente do PT muito próxima de José Dirceu, e tem seus próprios canais no Palácio, o ministro do Trabalho levou um gelo e ficou sem ter o que dizer para as pessoas que acreditaram no seu taco.
Numa outra situação, os trabalhadores da Bloch chegaram até ele, com o apoio inclusive do vice-presidente da OAB carioca, Lauro Shuch. Aí era uma situação menos complicada. Com a Bloch falida desde 2000, ainda pela Lei antiga, os trabalhadores esperavam o leilão do prédio do Russel para receber seus créditos. No meio do caminho, a Procuradoria da Fazenda obteve uma decisão da 3ª Câmara do Tribunal de Justiça do Rio garantindo primazia no resultado do leilão, o que entrava em confronto direto com o disposto na Lei, de forma explícita e incontestável.
Lupi prometeu conversar a respeito com o ministro Mântega, mas não se soube de qualquer mudança em sua postura, o que tornará matematicamente impossível que os trabalhadores recebam o dinheiro que esperam há 9 anos.
Poderia citar outros exemplos, como o caso do fechamento da fábrica da GE, no Jacaré. Mas esses fatos citados já servem para demonstrar por que alguns maledicentes referem-se ao presidente do PDT como o “bobo da corte”.
coluna@pedroporfirio.com

quinta-feira, 18 de junho de 2009

No Ministério do Trabalho, mas alijado dos conflitos trabalhistas

De como Lula e sua máquina “biafraram” o PDT e similares(V)
“Em janeiro de 1954, começou a crescer a pressão dos trabalhadores pelo aumento do salário mínimo. Manter o salário em níveis não inflacionários era condição indispensável para o êxito da política de estabilização desenvolvida por Oswaldo Aranha nos últimos meses. Entretanto, corriam boatos de que Goulart cederia às pressões populares e concederia um aumento para o mínimo de cerca de 100%...
... Nesse sentido, (os 42 coronéis que assinaram manifesto) teciam sérias críticas ao aumento de 100% do salário mínimo proposto por Goulart, que provocaria distorções salariais graves, fazendo com que um operário percebesse um salário próximo ao de um oficial do Exército”.
Célia Costa, CPDOC da Fundação Getúlio Vargas


Quando, aos 34 anos, o então deputado federal João Goulart assumiu o Ministério do Trabalho, em 17 de junho de 1953 (há exatos 56 anos) o país estava envolvido numa grande convulsão social.
Às greves dos 300 mil e dos marítimos, o seu antecessor, Segadas Viana, que responder com a Lei de Segurança Nacional, sob a alegação de que esses movimentos tinham implicações subversivas e eram encabeçados pelos comunistas.
O presidente Vargas não concordou com essas posturas e o correligionário pediu demissão. Ao assumir, Jango inverteu o discurso. Partiu para a negociação e obteve acordos que levaram ao fim das greves dez dias depois de sua posse.
No mesmo instante em que fizera do conterrâneo de São Borja o responsável pelo política governamental na área do Trabalho, Getúlio chamou também Osvaldo Aranha para ser o ministro da Fazenda.
Este assumiu com força total, por toda a sua história: já em 1931, no apogeu do governo saído da Revolução de 30, ocupara o mesmo Ministério. Quando reassumiu, em 1953, voltava com as simpatias do FMI e a disposição de adotar uma política de estabilização econômica, com receitas conservadores de combate à inflação.
Jango, no entanto, bancou o aumento de 100% no salário mínimo, desencadeando a mais tensa crise no segundo governo Vargas, agravada com um manifesto de 42 coronéis contra ele. Jango e o ministro da Guerra, Ciro do Espírito Santo Cardoso, da ala nacionalista do Exército acabaram deixando o governo em fevereiro de 1954.
Em 1 de maio, no entanto, Getúlio decretou o aumento de 100% no mínimo, tal como havia proposto João Goulart.
Mas isso foi passado
Esses são fatos que pertencem a um passado em que o Ministério do Trabalho Indústria e Comércio respondia com todo o respeito devido pelas questões trabalhistas. Fatos que tornam caricata essa pasta desde o governo Colllor, até os dias de hoje. Hoje, principalmente.
Não se sabe se Carlos Roberto Lupi tinha noção do mico que recebia. Afinal, 48 horas antes de ser empossado, era tido e havido como novo titular da Previdência.
Mas, além do contingenciamento institucional, o sucessor de Leonel Brizola na presidência do PDT teria que vestir uma apertada saia justa. Era o primeiro ministro na “Era Lula” que não saía das entranhas do petismo. Antes, pelo contrário: às vésperas de assinar o termo de posse, uma arrogante comissão de dirigentes da CUT foi ao palácio para tentar barrar sua nomeação.
Presa fácil de uma mídia hostil
Logo no primeiro momento, o primeiro tropeço. Questionado pelo repórter Gerson Camarotti, de o GLOBO, sobre as restrições ao seu nome, saiu-se com uma resposta que foi amplamente explorada: “Antes de eu ser convidado, investigaram a minha vida. Chegaram a ir no colégio em que estudei. Ninguém encontrou nada que agredisse a minha honra. Também não sou corno. Além disso, não tenho paixão por pessoa do mesmo sexo”.
Não era, evidentemente, uma resposta adequada para quem iria integrar o primeiro escalão da República. No entanto, a mídia, que tem uma má vontade muito grande com o brizolismo, percebeu que não seria difícil pegá-lo no contrapé, convicta de que neste caso o peixe realmente morre pela boca.
A transmissão do cargo só ocorreria na terça-feira, 3 de abril de 2007. Na mesma semana, o grupo responsável pelo combate ao trabalho escravo pediu demissão do Ministério, insinuando que Lupi vacilaria nessa área.
De imediato, pôde nomear apenas o seu chefe de Gabinete, Marcelo Panela, e o secretário geral do Ministério, Ronaldo Lessa, ex-governador de Alagoas, que ficaria pouco tempo no cargo.
Comissão de ética pede a cabeça
Mal sentou na cadeira que foi de João Goulart, começou a ser alvo de pressões. A Comissão de Ética Pública, presidida pelo banqueiro Marcílio Marques Moreira, exigiu sua demissão, alegando que não podia acumular o cargo de ministro juntamente com a Presidência do PDT.
Isso lhe valeu um esforço pessoal para obter apoio do presidente Lula. Afinal, quando o senador Francisco Dorneles ocupou esse mesmo ministério, também era presidente do PP. E ninguém deu um pio.
Lula, ao contrário, tentou convencer Lupi a decidir entre o Ministério e o partido, contando, inclusive, com a ajuda dos senadores Cristóvão Buarque e Jefferson Perez. No entanto, só em março de 2008, depois que a imprensa publicou denúncias sobre convênios do Ministério do Trabalho que “favoreciam” políticos do PDT e a Força Sindical, presidida pelo deputado pedetista Paulo Pereira da Silva, Lupi cedeu e se licenciou da presidência do partido, embora tivesse declarado que, colocado contra a parede, abriria mão do Ministério, fato que foi cobrado pela deputada Cidinha Campos.
Durante os 11 meses da novela sobre a permanência ou não na presidência do PDT, praticamente não se falou de outra coisa. Lupi parecia portador do “pecado original”. E até para proceder algumas mudanças em superintendências regionais, tinha que superar todo tipo de obstáculo.
Alijada dos conflitos trabalhistas
Já então, o núcleo central do Poder começou a tirar dele responsabilidades inerentes ao seu ministério. Foi assim quando, questionado pela ONU sobre trabalho nos canaviais de São Paulo, Lula criou um grupo de trabalho para apurar as denúncias, colocando à frente o ministro Luiz Dulci, Secretário Geral da Presidência, dispensando qualquer colaboração de Lupi e seus auxiliares.
Situação semelhante iria acontecer na greve dos Correios, de longa duração, em que o Ministério do Trabalho foi totalmente alijado. Na hora de designar um negociador pelo governo, Lula confiou a tarefa ao ministro Hélio Costa, das Comunicações.
Mas o que mais sobressai na relação degradante entre Lula e seu ministro do Trabalho é a frequência de reprimendas através da imprensa, obrigando-o a assimilar de cabeça baixa.
Dessas, a mais humilhante levou o veterano jornalista Vilas Boas Corrêa a escrever em 24 de setembro de 2008:
“Em outros tempos e costumes, a esta altura o ministro do Trabalho, Carlos Lupi estaria com o pedido de demissão pronto e assinado para entregar ao presidente Lula assim que puder ser recebido no gabinete do Palácio do Planalto”.
Serão esses constrangimentos desgastantes que reportarei na próxima matéria da série, juntamente com as experiências que testemunhei pessoalmente, quando Lupi recebeu trabalhadores da Varig, Bloch e do Sindicato dos Metalúrgicos. Gerou expectativas nesses grupos, mas acabou passando a impressão que o governo não dava a menor atenção para as suas gestões como Ministro do Trabalho e Emprego.
coluna@pedroporfirio.com

terça-feira, 16 de junho de 2009

Lupi foi apenas uma isca na guerra pelo controle da Previdência

De como Lula e sua máquina “biafraram” o PDT e similares (IV)
Luiz Gushiken, um arquivo vivo dos acordos secretos de Lula na área, ainda é quem dá as cartas na Previdência

"O Brasil está na mira dos fundos de pensão norte-americanos, que têm uma capacidade de investimento de US$ 5 trilhões em mercados emergentes.O diretor da AFL-CIO (Federação Americana do Trabalho), Stanley Gacek, se reuniu hoje com o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, para discutir os critérios utilizados pelos fundos norte-americanos para investir em outros países. A AFL-CIO é a principal central sindical norte-americana, e Gacek é amigo pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva”.
FOLHA DE SÃO PAULO, extraída da minha coluna na TRIBUNA DA IMPRENSA de 5 de setembro de 2003 (republicada agora no blog).


A impressão que tive nesse episódio narrado ontem é que Carlos Lupi bateu no banheiro masculino e alguém gritou, lá de dentro:
- Tem gente!
Apertado, entrou na porta ao lado. Era o banheiro destinado a deficientes.
Trocando em miúdos: Informado desde o início de março que seria o ministro da Previdência, o presidente do PDT se preparou para enfrentar um dos maiores desafios – provar que a previdência pública é viável, ao contrário do que propagam os abutres comandados por Luiz Gushiken, o ex-libelu e ex-sindicalista que virou consultor previdenciário de mão cheia.
Teria a seu lado, além de Manoel Dias, advogado brilhante e profundo conhecedor da matéria, uma plêiade de auditores fiscais altamente preparados e dispostos a demonstrar que o modelo previdenciário brasileiro, baseado na solidariedade entre gerações, ainda é o mais indicado para o nosso país.
De sobra, teria também a seu dispor os verdadeiros números da Previdência, que só é deficitária nas contas marotas dos prepostos do sistema financeiro. Seria uma Previdência capaz de intervir para evitar tragédias, como a que massacrou os aposentados do Aerus (Varig e Transbrasil) e maquinações, como as que forçaram os beneficiários dos grandes fundos , como o Petros, a mudarem suas regras no meio do jogo.
Medo de um novo Brito e....
Mas a turma do PT não dorme em serviço. Lembrou que foi numa gestão corajosa à frente desse Ministério que o então deputado gaúcho Antônio Britto “bombou” politicamente e se tornou o melhor nome do PMDB para suceder Itamar Franco, de quem era ministro, nas eleições de 1994, possibilidade que recusou para disputar e ganhar o governo do Rio Grande do Sul.
O mesmo grupo também não admitia que o ministério lhe escapasse às mãos grandes como aconteceu na primeira “reforma ministerial do governo Lula”, em 2004, quando Ricardo Berzoini foi deslocado para o Ministério do Trabalho para dar lugar ao senador peemedebista Amir Lando que, por sua vez, passou a cadeira ao colega Romero Jucá. Estes dois prejudicaram em parte o esquema petista, mas criaram os seus, levando Lula a pôr no lugar o “técnico” Nelson Machado numa longa interinidade, de 21 de junho de 2005 até 29 de março de 2007.
Apesar do decantado déficit, a Previdência é disputada por dentro e por fora. De 1985 a 2007, teve nada menos de 17 ministros, cada um com seu cada um.
Balão de ensaio
A cogitação do nome de Lupi para aquela pasta pareceu, aos mais vividos, um tremendo balão de ensaio, uma jogada com segundas intenções em que ele foi exposto como calouro de calças curtas no mundo enigmático dos podres poderes.
Nesse jogo sujo, é muito provável que Lula e sua entourage viessem tentando recompor os elos originais, estabelecidos em 2003, com o esquema internacional comandado por seu influente amigo ( e monitor) Stanley Gacek.
O ambiente de 2007 era semelhante ao de 2003, com a vantagem do replay eleitoral e a desvantagem da contagem regressiva de 4 anos.
A relação com os interesses representados por Stan, como Lula tratava o diretor de relações internacionais da Central Sindical AFL-CIO, havia sido confiada a Gushiken, com a ajuda de do advogado e ex-deputado federal Luis Eduardo Greenhalgh.
A saída de Ricardo Berzoini em 23 de janeiro de 2004 gerou uma zona cinza nesses laços, que se tornou mais escura com a derrota de Greenhalgh na disputa para a Presidência da Câmara, em fevereiro de 2005.
A força de Gushiken e Stan
Em junho desse ano, para restaurar em sua plenitude os vínculos com os grupos financeiros intermediados por Stan, visando a uma maior participação de fundos estrangeiros no Brasil, Lula devolveu a hegemonia total da política previdenciária ao grupo de Gushiken, que, por sua vez, alvejado no escândalo do “Mensalão”, perdeu o status de ministro e foi para a sombra do chamado Núcleo de Assuntos Estratégicos, de onde continuou mexendo seus pauzinhos em que se especializara através da sua empresa Gushiken & Associados, criada em 1998 e rebatizada em 2002 como Global Prev. Essa empresa foi apontada em 2003 como a verdadeira autora da reforma da Previdência de Lula pelo consultor legislativo Magno Mello, em seu livro “A Face Oculta da Reforma Judiciária”. No período em que o “chino” dava as cartas, aumentou seu faturamento em 600%, tendo com principais clientes os fundos de pensão.
Embora Gushiken tenha maior interesse na área dos fundos de pensão, que ainda controla, conforme denúncia dos conselheiros do Petros eleitos em maio, derrotando a CUT, ele é bastante temido como um arquivo vivo dos acordos secretos envolvendo a campanha de Lula em 2002.
Rainha da Inglaterra e porta-voz do CAGED
Lupi entrou como bucha de canhão na guerra fria que se processa nos bastidores do petismo e associados. Ele não viu porque era um neófito na corte. Se viu, consentiu. E, a bem da verdade, até hoje se presta a essa condição, com suas características pessoais, seu modesto nível de exigência política no trato da fatia que lhe foi destinada e seu singelo deslumbramento, como demonstrarei mais adiante.
Contudo, ao engolir a mudança de pasta nos acréscimos da “reforma ministerial”, Lupi abriu sua guarda por antecipação. Mostrou uma personalidade fraca e demonstrou de forma explícita que aceitava qualquer coisa, embora o Ministério do Trabalho, hoje convertido numa agência de programas sociais e informações estatísticas, tenha sido historicamente um espaço dos trabalhistas.
A rapidez com que aceitou seu deslocamento demonstrou que estaria disponível para exercer qualquer papel no jogo do poder, desde que pudesse desfrutar do prazer pessoal e das mordomias que um cargo de Ministro de Estado oferece.
Não foi difícil para Lula aplicar no seu dócil aliado as regras análogas às da Rainha da Inglaterra, que “reina, mas não governa”. Traduzindo na fria realidade dos fatos, nesses 26 meses no Ministério, o mesmo em que Jango foi peça chave no tempo de Getúlio, o atual titular virou uma espécie de porta-voz do CAGED, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, criado pela Lei 4.923/65, sob inspiração do ministro Arnaldo Sussekind, que, apesar de nomeado pelo general Castelo Branco, foi um grande obstáculo aos projetos para o esvaziamento da CLT, de cuja comissão elaboradora participou,em 1942, quando tinha 24 anos de idade.
Todo mês, Lupi antecipa os números colhidos por esse sistema, que reflete situações geradas muito mais pela política econômica do governo do que pela atuação direta do Ministério do Trabalho.
Fora disso, tem sido escanteado rotineiramente por Lula, do qual já se habitou ouvir de cabeça baixa constrangedoras reprimendas públicas. Essa situação é tão vexatória que até a “Reforma Trabalhista” foi confiada no sapatinho a Mangabeira Unger, o tal ministro de Assuntos Estratégicos, que concluiu sua clamorosa proposta sem nunca ter ouvido um só palpite do ministro do Trabalho e Emprego.
coluna@pedroporfirio.com

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Stanley Gacek, o todo poderoso

Este é Stanley Gacek, o ato funcionário da central sindical norte-americana que monitora Lula desde seus tempos no ABC (Foto Agência Brasil)

Antônio Cruz

Artigo que escrevi na Tribuna da Imprensa, de 15 de setembro de 2003

Anote este nome, Stanley Gacek: é ele quem dá as cartas

Desde que foi eleito, Lula teve pelo menos quatro encontros com Stanley Gacek - dois no Brasil e dois nos Estados Unidos. O advogado norte-americano, de 50 anos, conversou também com os ministros Antonio Palloci, Ricardo Berzoini e Luiz Gushiken: com todos falou de fundos de pensão e da "reforma da previdência".

Íntimo do presidente, a quem introduziu oficialmente há mais de vinte anos no poderoso círculo dos pelegos sindicais dos Estados Unidos, é ele o principal intermediário dos fundos de seu país. Dominando o português melhor do que muitos brasileiros e casado com a brasileira Liliane Fiúza (petista de carteirinha), Gacek é a peça-chave das articulações que redundarão, até o final do mês, nas expectativas do senador Sarney, na concretização da abertura escancarada do "mercado de servidores públicos" para os insaciáveis fundos privados de pensão.

Quem quiser entender o cavalo-de-pau do "príncipe" operário deve correr atrás de Gacek, que, pelo "profissionalismo", bem pode ser um agente da CIA. Se não chegar a tanto (não tenho provas), com certeza está no mesmo esquema.

Foi ele quem, em 1992, promoveu o primeiro encontro do BID, FMI e dos cabeças do "Diálogo Interamericano" com 80 líderes sindicais emergentes da América Latina. Foi quem, muitos anos antes, em 1980, viajou ao Brasil para levar a "solidariedade" da poderosa AFL-CIO a Lula, em sua prisão-show de 31 dias.

E mais: descendente de poloneses, foi ele quem, em 1981, depois de estender o tapete dos pelegos sindicais norte-americanos, levou Lula a Varsóvia para trocar figurinhas com Lech Walesa, o metalúrgico de Gdansk que recebeu toda ajuda da CIA para minar o governo da Polônia e chegar à presidência.

A missão de Gacek

Como você sabe, ando fuçando tudo para entender a genealogia da traição. Quanto mais bisbilhoto os passos do príncipe, mais sinto necessidade de farejar. O tempo vai passando e a pesquisa vai inchando, atrasando-se por si. Porque certas informações são guardadas a sete chaves, ainda mais em se tratando das peraltices de um homem que tem na mão a chave do cofre e o controle de todos os podres poderes.

Mas certas articulações são públicas e na maior cara-de-pau.

Desde o primeiro encontro com Lula, em novembro passado - na companhia do presidente da central sindical AFL-CIO, John Sweeney -, a cobrança foi na bucha: queria saber quando o novo governo ia mandar para o Congresso o projeto de abertura do mercado aos fundos privados de pensão, um dos cinco melhores negócios do mundo.

Veja o que informou, à época, Paulo Sotero, correspondente do "Estado de S. Paulo": "Os anos de atenção ao Brasil por Stan, como ele é chamado por Lula e pelos amigos, serão simbolicamente recompensados na tarde da próxima terça-feira, quando o presidente eleito chegar à sede da AFL-CIO, a central sindical americana. Diretor internacional adjunto da AFL-CIO para a América Latina, Gacek receberá o amigo ao lado do presidente da entidade, John Sweeney.

"Será uma grande honra para o movimento sindical dos Estados Unidos receber o presidente eleito do Brasil', disse, num português fluente.Em décadas recentes, o único outro presidente eleito que visitou a AFL-CIO foi o polonês Lech Walesa, fundador do movimento Solidariedade".

Stan, como Gacek é tratado pelos íntimos, inclusive Lula, havia trazido ao Brasil, no final da campanha de Lula, nada menos do que o reverendo Jesse Jackson, um ativista de peso de grande força na mídia americana, em companhia de Dennis Rivera, vice-presidente do milionário Sindicato Nacional dos Trabalhadores em Serviços dos Estados Unidos.

Participou de comícios do PT, enquanto Jesse Jackson dava entrevistas, encantado com a "eletricidade" da campanha petista.Como não podia deixar de ser, veio para a posse do amigo, dividiu um prato de comida com o presidente e Gushiken e voltou em maio, depois do envio do projeto privatizante ao Congresso.

Aí, foi negociar diretamente com Palocci, conforme informou Fabiana Futema, da "Folha de S. Paulo": "O Brasil está na mira dos fundos de pensão norte-americanos, que têm uma capacidade de investimento de US$ 5 trilhões em mercados emergentes.O diretor da AFL-CIO (Federação Americana do Trabalho), Stanley Gacek, se reuniu hoje com o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, para discutir os critérios utilizados pelos fundos norte-americanos para investir em outros países. A AFL-CIO é a principal central sindical norte-americana, e Gacek é amigo pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

"Temos falado sobre critérios de investimentos de obrigações fiduciárias. Alguns fundos estão desenvolvendo critérios para investimento em mercados emergentes"', disse Gacek, após o encontro com Palocci. Segundo ele, entre os critérios utilizados pelos fundos de pensão dos EUA está a estabilidade social. "Democracia estável, transparência e economia com crescimento sustentável são considerações importantes para fazer cálculo do retorno máximo com risco mínimo."

Na avaliação de Gacek, o governo Lula atende a vários desses critérios usados na hora de avaliar o potencial que cada país emergente oferece para os investimentos dos fundos norte-americanos. "Achamos que essa gestão do governo brasileiro tem se dedicado a essas questões da estabilidade social no Brasil. Isso poderia ser bem promissor em termos dos critérios de obrigações fiduciárias dos fundos."

Em sua matéria, Fabiana Futema conclui: "Segundo Devanir Silva, superintendente da Associação Brasileira das Entidades de Previdência Complementar, a queda do risco Brasil e a ligação pessoal entre Gacek e Lula ajudariam na atração de investimentos dos fundos norte-americanos no país.

"O governo Lula conseguiu conquistar a credibilidade dos investidores, inclusive os estrangeiros.'" Apesar da proximidade entre os dois países, Gacek afirmou que as conversas com o governo brasileiro ainda não foram concluídas. "Já falamos anteriormente [com Palocci] sobre toda essa questão dos fundos investirem nos mercados internacionais e queremos seguir com essas conversas. Estou pensando na possibilidade de fazer mais visitas ao Brasil", disse Gacek.

Transferência de recursos

Em brilhante exposição, sexta-feira, na audiência que presidi na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, por iniciativa do Fórum de Fluminense de Defesa da Previdência Pública, os professores José Miguel Saldanha e Sara Granemann, da UFRJ, demonstraram que a "reforma da previdência" se destina tão-somente a transferir recursos dos entes públicos para os fundos privados. Com o teto para aposentadoria, aplica-se também o redutor nos descontos. O servidor vai correr para a "previdência complementar" e o próprio erário deverá pagar sua parte para os fundos. Saldanha apontou também a opção do governo por priorizar o pagamento aos banqueiros: no primeiro semestre, o setor público pagou 74 bilhões de reais de juros da dívida, o equivalente a 410 milhões de reais por dia ou 70 reais mensais de cada habitante.

Quando Gacek se refere a investimentos de fundos estrangeiros, está desconversando. O que eles querem é se apoderar de uma boa faixa de poupança e não aportar recursos. Ao se instalar, o fundo passa a captar contribuições. O que ele, de fato, estava interessado em dizer ao amigo Lula era que a condição para a aprovação da "reforma" estava na definição no modelo de remuneração dos fundos. Há vinte anos os norte-americanos só fazem novos contratos pelo sistema da "contribuição definida" - você sabe quanto paga e não quanto vai receber -, descartando o "benefício definido".

Além disso, são muito "pragmáticos" na política de investimentos e adoram uma boa taxa de administração na América Latina - no Chile e Argentina chegaram a 30%, enquanto o custo administrativo do nosso INSS não passa de 6%.Se você prestar mais atenção nos passos de Stanley Gacek, vai entender muito mais. Afinal, ele foi definido aqui mesmo, na TRIBUNA, por Argemiro Ferreira, como "o guru de Lula no sindicalismo dos EUA".

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